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ESPETÁCULO
Alta rotatividade Vantagens e transtornos dos teatros que
alternam três peças no mesmo dia Débora Ghivelder |
João Caldas/Divulgação
 | Divulgação
 | | Céu
e Branca (à dir.) e Operação
Abafa: entre uma e
outra, apenas meia hora para a troca dos cenários |
Ao
término da peça Céu e Branca, o público mal
deixa a Sala Marília Pêra, no Teatro do Leblon, e o palco já
está invadido por quatro homens. O quarteto tem exatamente meia hora para
desmontar o cenário de instalação metálica e montar
outro, maior, que reproduz um apartamento com portas e janelas, onde se passa
a ação de Operação Abafa. Faltam dez minutos
para começar a segunda atração, marcada para as 21 horas,
quando a turma encerra seu rebimbar de martelo. Só então a sala
é aberta ao público, e os técnicos encerram a tarefa em silêncio,
já com a cortina fechada. A correria é fruto de uma nova tendência
nos teatros cariocas: ocupar os palcos com mais de uma produção
por dia, às vezes com intervalo-relâmpago entre uma e outra. Em um
mesmo dia, pode-se assistir a até três peças num só
palco. Sem contar as encenações nos dias alternativos, que também
entram nessa linha de (des)montagem e na disputa por espaço nos bastidores
para guardar o material. A
flexibilidade na programação é resultado da grande demanda
por palcos e da redução da receita, queixa comum dos administradores
de teatro. "A receita caiu muito em virtude da meia-entrada", constata Ecila Mutzenbercher,
à frente dos teatros do Leblon, das Artes e dos Grandes Atores. A empresária
calcula que para uma casa se tornar viável é preciso uma ocupação
de 60% de entradas cheias. Mas, segundo ela, ocorre justamente o contrário:
de 60% a 70% dos ingressos vendidos em suas salas são de meia-entrada.
Cada teatro administrado por Ecila com custo mensal de 50.000 reais
chega a acolher cinco produções ao longo da semana. No sábado,
o Teatro do Leblon pode ter três atrações noturnas, às
19, às 21 e às 23 horas. No Teatro das Artes, no Shopping da Gávea,
revezam-se nos fins de semana O Autofalante, de Pedro Cardoso, e os infantis
Os Cigarras e os Formigas e O Theatro das Virtudes. Administradora
do Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, desde abril, Lucia Maria Garcia
de Freitas estima em 40.000 reais sua despesa mensal. A casa, que está
parcialmente em obras, tem em cartaz os espetáculos Nós na Fita,
de quinta a domingo, às 21h30, e Curtas, sábado e domingo,
às 20 horas. Além de ganhar um café e novos equipamentos,
o Teatro dos Quatro vai reformar também a programação, exatamente
para atender a um número maior de produções. A proposta mais
polêmica é desmembrar o horário nobre em duas atrações,
às 20 e às 22 horas. "A gente sabe que isso vai gerar polêmica",
prevê Lucia. Já gerou. "O público está acostumado com
o horário nobre. Na verdade, corre-se o risco de criar mais dois horários
alternativos", opina o presidente da Associação de Produtores de
Teatro do Rio de Janeiro, Eduardo Barata. André
Valentim/Strana
 | | A
administradora Ecila: "A receita caiu muito" |
A
trama tem mais desdobramentos. A peça do horário nobre costuma ocupar
toda a caixa cênica e ter a luz fixa. O privilégio tem um custo.
Os teatros cobram uma taxa mínima por espetáculo, que é uma
garantia caso a margem de 25% que cabe ao proprietário na venda de ingressos
não seja atingida. A taxa mínima para a atração do
horário é mais alta, em torno de 6.000 reais por semana. "É
justo que eu tenha privilégios. Meu cenário e minha luz não
são desmontados. Trago público e dinheiro para o teatro", diz Jerry
Marques, produtor de Os Homens São de Marte... E É para Lá
que Eu Vou, que há mais de um ano lota o Teatro Vannucci, no Shopping
da Gávea. "Não tenho nada contra a ocupação do palco
por mais de uma produção. É legal, desde que não vire
supermercado", diz ele. Hoje, Os Homens.., que sobe à cena de quinta
a domingo, divide a ribalta com Terapia do Riso, de sexta a domingo; com
Fala Sério, Mãe, na quinta, às 19 horas; e ainda com
o sucesso espírita Violetas na Janela, com récitas à
tarde nos fins de semana. "A idéia é dar chance a mais gente de
se apresentar. O corre-corre existe, mas estamos acostumados", diz a administradora
do Vannucci, Ingrid Thomas. Para
a rotatividade dar certo, os teatros têm de combinar na grade peças
de cenários maiores com outras de apetrechos mínimos. "A primeira
coisa que o administrador nos pergunta é sobre o cenário. A grandiosidade
virou problema. Todo mundo vai ter de fazer peça com uma cortina e um banquinho?",
questiona Eduardo Barata. Outro ponto polêmico é sobre quem arca
com os custos da equipe que troca o material. "Tive de contratar gente para cuidar
do cenário de Operação Abafa, o que representou um
custo adicional. Nada contra a ocupação do palco, mas o teatro deve
ter sua infra-estrutura", diz Mario Martini, produtor de Operação
Abafa e administrador de teatros em São Paulo. A convivência
nos camarins dos artistas recém-saídos do palco com os que estarão
na próxima atração é outra aresta a ser aparada. Um
ensaio que tem de ser muito bem-feito, sob o risco de descambar numa comédia
de erros ou num drama. |