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27 de setembro de 2006

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Alta rotatividade

Vantagens e transtornos dos teatros que alternam três peças no mesmo dia

Débora Ghivelder

 
João Caldas/Divulgação
Divulgação
Céu e Branca (à dir.) e Operação Abafa: entre uma e outra, apenas meia hora para a troca dos cenários

Ao término da peça Céu e Branca, o público mal deixa a Sala Marília Pêra, no Teatro do Leblon, e o palco já está invadido por quatro homens. O quarteto tem exatamente meia hora para desmontar o cenário de instalação metálica e montar outro, maior, que reproduz um apartamento com portas e janelas, onde se passa a ação de Operação Abafa. Faltam dez minutos para começar a segunda atração, marcada para as 21 horas, quando a turma encerra seu rebimbar de martelo. Só então a sala é aberta ao público, e os técnicos encerram a tarefa em silêncio, já com a cortina fechada. A correria é fruto de uma nova tendência nos teatros cariocas: ocupar os palcos com mais de uma produção por dia, às vezes com intervalo-relâmpago entre uma e outra. Em um mesmo dia, pode-se assistir a até três peças num só palco. Sem contar as encenações nos dias alternativos, que também entram nessa linha de (des)montagem e na disputa por espaço nos bastidores para guardar o material.

A flexibilidade na programação é resultado da grande demanda por palcos e da redução da receita, queixa comum dos administradores de teatro. "A receita caiu muito em virtude da meia-entrada", constata Ecila Mutzenbercher, à frente dos teatros do Leblon, das Artes e dos Grandes Atores. A empresária calcula que para uma casa se tornar viável é preciso uma ocupação de 60% de entradas cheias. Mas, segundo ela, ocorre justamente o contrário: de 60% a 70% dos ingressos vendidos em suas salas são de meia-entrada. Cada teatro administrado por Ecila – com custo mensal de 50.000 reais – chega a acolher cinco produções ao longo da semana. No sábado, o Teatro do Leblon pode ter três atrações noturnas, às 19, às 21 e às 23 horas. No Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, revezam-se nos fins de semana O Autofalante, de Pedro Cardoso, e os infantis Os Cigarras e os Formigas e O Theatro das Virtudes. Administradora do Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, desde abril, Lucia Maria Garcia de Freitas estima em 40.000 reais sua despesa mensal. A casa, que está parcialmente em obras, tem em cartaz os espetáculos Nós na Fita, de quinta a domingo, às 21h30, e Curtas, sábado e domingo, às 20 horas. Além de ganhar um café e novos equipamentos, o Teatro dos Quatro vai reformar também a programação, exatamente para atender a um número maior de produções. A proposta mais polêmica é desmembrar o horário nobre em duas atrações, às 20 e às 22 horas. "A gente sabe que isso vai gerar polêmica", prevê Lucia. Já gerou. "O público está acostumado com o horário nobre. Na verdade, corre-se o risco de criar mais dois horários alternativos", opina o presidente da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro, Eduardo Barata.

 
André Valentim/Strana
A administradora Ecila: "A receita caiu muito"

A trama tem mais desdobramentos. A peça do horário nobre costuma ocupar toda a caixa cênica e ter a luz fixa. O privilégio tem um custo. Os teatros cobram uma taxa mínima por espetáculo, que é uma garantia caso a margem de 25% que cabe ao proprietário na venda de ingressos não seja atingida. A taxa mínima para a atração do horário é mais alta, em torno de 6.000 reais por semana. "É justo que eu tenha privilégios. Meu cenário e minha luz não são desmontados. Trago público e dinheiro para o teatro", diz Jerry Marques, produtor de Os Homens São de Marte... E É para Lá que Eu Vou, que há mais de um ano lota o Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea. "Não tenho nada contra a ocupação do palco por mais de uma produção. É legal, desde que não vire supermercado", diz ele. Hoje, Os Homens.., que sobe à cena de quinta a domingo, divide a ribalta com Terapia do Riso, de sexta a domingo; com Fala Sério, Mãe, na quinta, às 19 horas; e ainda com o sucesso espírita Violetas na Janela, com récitas à tarde nos fins de semana. "A idéia é dar chance a mais gente de se apresentar. O corre-corre existe, mas estamos acostumados", diz a administradora do Vannucci, Ingrid Thomas.

Para a rotatividade dar certo, os teatros têm de combinar na grade peças de cenários maiores com outras de apetrechos mínimos. "A primeira coisa que o administrador nos pergunta é sobre o cenário. A grandiosidade virou problema. Todo mundo vai ter de fazer peça com uma cortina e um banquinho?", questiona Eduardo Barata. Outro ponto polêmico é sobre quem arca com os custos da equipe que troca o material. "Tive de contratar gente para cuidar do cenário de Operação Abafa, o que representou um custo adicional. Nada contra a ocupação do palco, mas o teatro deve ter sua infra-estrutura", diz Mario Martini, produtor de Operação Abafa e administrador de teatros em São Paulo. A convivência nos camarins dos artistas recém-saídos do palco com os que estarão na próxima atração é outra aresta a ser aparada. Um ensaio que tem de ser muito bem-feito, sob o risco de descambar numa comédia de erros ou num drama.

     
   

 

 
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