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27 de setembro de 2006

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CRÔNICA

Política na praia, não

Tutty Vasques

Enquanto não conseguir arrumar um jeito próprio, efetivo e independente do poder público para preservar minimamente o direito ao sossego no espaço mais democrático da cidade – o plenário da praia –, a chamada "sociedade civil" (ô, raça!) será tão-somente guardiã da indignação popular em mesas de botequim e seções de cartas dos jornais e revistas de informação. Basta isso, basta aquilo e a vida que segue, fazer o quê, né? Nas temporadas de arrastão em Ipanema, quando multidões correm feito galinhas de meia dúzia de gatos-pingados, a gente até entende a impotência do cidadão acuado pela violência e a sensação de que a vida ali, como em qualquer lugar por perto, não vale nada. O medo acovarda! Mas não é isso, decerto, que faz o carioca tolerar impassível que seu sagrado passeio de fim de semana seja barbaramente importunado por bandos de políticos e adjacentes em campanha eleitoral. Deviam ser todos postos para correr sob vaias ululantes dos banhistas e passantes. "Aqui não!" Praia não é lugar para caçar votos. "Vá se catar, fora!" Fica aqui a sugestão.

Este último fim de semana antes das eleições de 1º de outubro não deve estar sendo muito diferente – talvez só um tanto pior – daquele que passou. Quem é habitué do circuito Dois Irmãos-Arpoador (a pé, de bicicleta, skate ou patins) sabe do inferno a que me refiro. A cada 10 metros um sorriso falso, um "bom-dia" cafajeste, um slogan banal, um cabo eleitoral pegajoso, um panfleto, um santinho, caravanas de triciclos acoplados a painéis de propaganda política, jingles de partido, bandinhas, carros de som, trios elétricos, carreatas, pequenas passeatas, faixas, bandeiras, estandartes, galhardetes, bonecos gigantes de candidato, quando não o próprio, em carne e osso, o horror, o horror!

Para começo de conversa, político de bermuda é um troço que, de cara, fere o decoro parlamentar. Deviam proibir homem público de calça curta, em qualquer circunstância climática, pelo tempo de duração da campanha e do mandato para o qual pede seu voto. Já basta a tinta no couro cabeludo acentuada em seus defeitos pelo sol que lava o céu de inverno. Candidato ao vivo, ainda mais à paisana, ao ar livre, é a derrota da foto oficial de campanha. O suor só piora as coisas. O cara está ali, naquele estado lamentável, porque acredita mesmo que o carioca nessa época do calendário político vai à praia para escolher candidatos em quem votar. Coisa de doido! Esteja preparado para tudo quando sair de casa neste domingo ou sua caminhada matinal pode se transformar num tremendo aborrecimento. Tire uma reta e siga em ziguezague. Diga "não, obrigado" quantas vezes for preciso para driblar o cerco da propaganda política em prospectos, palavras de ordem berradas ao megafone, apertos de mão, cantadas de viva voz, acenos de aproximação... É insuportável!

Não que na orla o conteúdo da campanha seja diferente daquele imenso vazio que a gente vê de vez em quando no programa eleitoral gratuito da TV. Causa mais estranheza ali porque política na praia é peixe fora d'água, corpo estranho no organismo do balneário, aberração, um breve contra a luxúria, estranhos no ninho. Feito pobre no Leblon ou passarinho na Avenida Brasil, política na praia lembra alguém de sunga no Congresso, feliz no velório, de regime na feijoada, de camisa do Vasco na torcida do Flamengo...

Por que o carioca, ainda mais no atual estágio de desgosto com a coisa pública, atura quieto e resignado invasão tão inconveniente do que há de mais democrático e menos político na vida da cidade? – eis o mistério que me trouxe a este assunto. Por que homens de bem, quando reunidos em maioria absoluta, certos de que o inimigo não está armado (pelo menos eu acho que não!), não conseguem se expressar para fazer prevalecer seus direitos? "Desculpem-nos, mas, na praia, política não!" E pronto!

A tal "sociedade civil" – onde diabos o pessoal do Viva Rio anda com a cabeça, caramba? – podia tomar a frente de uma campanha do gênero "eu não voto em candidato que faz campanha na praia", sei lá, talvez vencêssemos pelo constrangimento. Aposto que, se nada for feito até as eleições de 2008 – as de agora já eram, né? –, a orla será um lugar impraticável para o lazer, muito mais pela poluição política do que pela impropriedade do mar para o mergulho, como temiam os precursores do apocalipse carioca.

Sem emissário submarino para lançar a entourage política em alto-mar, só uma frente fria poderá salvar a praia neste fim de semana. A gente se vê por lá, se chover.

 

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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