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CRÔNICA
Política
na praia, não Tutty
Vasques Enquanto
não conseguir arrumar um jeito próprio, efetivo e independente do
poder público para preservar minimamente o direito ao sossego no espaço
mais democrático da cidade o plenário da praia , a
chamada "sociedade civil" (ô, raça!) será tão-somente
guardiã da indignação popular em mesas de botequim e seções
de cartas dos jornais e revistas de informação. Basta isso, basta
aquilo e a vida que segue, fazer o quê, né? Nas temporadas de arrastão
em Ipanema, quando multidões correm feito galinhas de meia dúzia
de gatos-pingados, a gente até entende a impotência do cidadão
acuado pela violência e a sensação de que a vida ali, como
em qualquer lugar por perto, não vale nada. O medo acovarda! Mas não
é isso, decerto, que faz o carioca tolerar impassível que seu sagrado
passeio de fim de semana seja barbaramente importunado por bandos de políticos
e adjacentes em campanha eleitoral. Deviam ser todos postos para correr sob vaias
ululantes dos banhistas e passantes. "Aqui não!" Praia não é
lugar para caçar votos. "Vá se catar, fora!" Fica aqui a sugestão.
Este último
fim de semana antes das eleições de 1º de outubro não
deve estar sendo muito diferente talvez só um tanto pior
daquele que passou. Quem é habitué do circuito Dois Irmãos-Arpoador
(a pé, de bicicleta, skate ou patins) sabe do inferno a que me refiro.
A cada 10 metros um sorriso falso, um "bom-dia" cafajeste, um slogan banal, um
cabo eleitoral pegajoso, um panfleto, um santinho, caravanas de triciclos acoplados
a painéis de propaganda política, jingles de partido, bandinhas,
carros de som, trios elétricos, carreatas, pequenas passeatas, faixas,
bandeiras, estandartes, galhardetes, bonecos gigantes de candidato, quando não
o próprio, em carne e osso, o horror, o horror! Para
começo de conversa, político de bermuda é um troço
que, de cara, fere o decoro parlamentar. Deviam proibir homem público de
calça curta, em qualquer circunstância climática, pelo tempo
de duração da campanha e do mandato para o qual pede seu voto. Já
basta a tinta no couro cabeludo acentuada em seus defeitos pelo sol que lava o
céu de inverno. Candidato ao vivo, ainda mais à paisana, ao ar livre,
é a derrota da foto oficial de campanha. O suor só piora as coisas.
O cara está ali, naquele estado lamentável, porque acredita mesmo
que o carioca nessa época do calendário político vai à
praia para escolher candidatos em quem votar. Coisa de doido! Esteja preparado
para tudo quando sair de casa neste domingo ou sua caminhada matinal pode se transformar
num tremendo aborrecimento. Tire uma reta e siga em ziguezague. Diga "não,
obrigado" quantas vezes for preciso para driblar o cerco da propaganda política
em prospectos, palavras de ordem berradas ao megafone, apertos de mão,
cantadas de viva voz, acenos de aproximação... É insuportável!
Não que
na orla o conteúdo da campanha seja diferente daquele imenso vazio que
a gente vê de vez em quando no programa eleitoral gratuito da TV. Causa
mais estranheza ali porque política na praia é peixe fora d'água,
corpo estranho no organismo do balneário, aberração, um breve
contra a luxúria, estranhos no ninho. Feito pobre no Leblon ou passarinho
na Avenida Brasil, política na praia lembra alguém de sunga no Congresso,
feliz no velório, de regime na feijoada, de camisa do Vasco na torcida
do Flamengo... Por
que o carioca, ainda mais no atual estágio de desgosto com a coisa pública,
atura quieto e resignado invasão tão inconveniente do que há
de mais democrático e menos político na vida da cidade? eis
o mistério que me trouxe a este assunto. Por que homens de bem, quando
reunidos em maioria absoluta, certos de que o inimigo não está armado
(pelo menos eu acho que não!), não conseguem se expressar para fazer
prevalecer seus direitos? "Desculpem-nos, mas, na praia, política não!"
E pronto! A
tal "sociedade civil" onde diabos o pessoal do Viva Rio anda com a cabeça,
caramba? podia tomar a frente de uma campanha do gênero "eu não
voto em candidato que faz campanha na praia", sei lá, talvez vencêssemos
pelo constrangimento. Aposto que, se nada for feito até as eleições
de 2008 as de agora já eram, né? , a orla será
um lugar impraticável para o lazer, muito mais pela poluição
política do que pela impropriedade do mar para o mergulho, como temiam
os precursores do apocalipse carioca. Sem
emissário submarino para lançar a entourage política em alto-mar,
só uma frente fria poderá salvar a praia neste fim de semana. A
gente se vê por lá, se chover. E-mails
para o cronista: tutty@nominimo.com.br |