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REPORTAGEM DE CAPA
O carioca que acertou o passo Trabalho e surfe são a receita
de sucesso do empresário que vende 60 000 pares de sapatos por mês Sofia
Cerqueira e Melissa Jannuzzi
Fotos Dilmar Cavalher/Strana
 | | Ari,
em uma das lojas:
responsável pelo
layout e pela
criação dos sapatos |
A
rotina é rígida. Assim que o sol nasce, sete dias por semana, ele
sai da Barra em direção à Praia da Macumba. Surfa durante
no mínimo três horas, encontra a galera, bate um papo descontraído
e segue em seu carro, um Quantum 95, para casa. Seu melhor amigo, um surfista,
ex-morador da Favela da Amaralina, em Salvador, o acompanha em boa parte da manhã.
Sua alimentação é natural. Não lê jornal. Revistas,
só de surfe ou jiu-jítsu. Pelo viva-voz do carro e no telefone em
casa, resolve todas as pendências de trabalho. Na parte da tarde, pelo menos
três vezes por semana, treina jiu-jítsu. Em três anos, já
é faixa roxa. Cabeludo, barba grande, 1,90 metro, chama atenção
por onde passa. No armário, apenas um terno e alguns sapatos sociais. Faz
da bermuda, camiseta sem manga e chinelo seu uniforme de trabalho. Essa descrição
surpreende quando se descobre que se trata de um dos maiores empresários
cariocas, Ari Svartsnaider. Criador da marca de sapatos e acessórios Mr.
Cat, ele está à frente de uma rede de 88 lojas, sendo 77 em regime
de franquia. A marca está presente em todos os estados do país.
Só no Rio, são 24 lojas e 350 funcionários. Por mês,
o grupo vende mais de 60.000 pares de sapatos. Avesso a festas, fotos e entrevistas,
resolveu quebrar o jejum por causa dos 25 anos da grife, completados agora. "Posso
parecer uma coisa, mas não é bem assim. Sou organizado, totalmente
objetivo. Se não fosse, não conseguiria dar conta de tudo o que
faço", diz o empresário. "Hoje sou calmo, mas nem sempre foi assim.
Para construir um negócio desse com um pedaço de couro, precisei
ser muito agressivo", completa.
 | O
pé-de-meia
A Mr. Cat está presente em todos os estados do país, com um total
de 88 lojas, sendo 77
franquias. No Rio são 24 pontos, com 350
empregados
O grupo vende 60 000 pares de sapatos por mês
A empresa cresce 10% ao ano
A cada coleção, são lançados 100
modelos femininos e 80 masculinos |
| | Na
Macumba: surfe diário
antes de encarar o trabalho,
no escritório caseiro
|
A
Mr. Cat começou a dar os primeiros passos no início de 1981. Ari
estudava arquitetura, fazia estágio sem remuneração, quando
a mulher engravidou. "Precisava achar alguma coisa para ganhar dinheiro. Algo
que não tivesse concorrente", lembra. Procurou então o amigo Bruno
Tolpiakow, na época dono da marca de roupas Oliver, e perguntou a ele do
que precisava e ninguém fazia. "Minha grande sacada foi essa pergunta.
Direcionou minha vida", lembra. A resposta do amigo foi: sapato masculino. Decidiu
arriscar. Seu capital inicial foi 1 metro de couro, comprado com dinheiro emprestado
pela mãe. "De dois sapatos, fiz quatro, oito e, em poucos meses, já
não dava conta dos pedidos", diz. O buck, um sapato muito usado pelos estudantes
americanos, de camurça e sola de borracha, foi o primeiro modelo e é
ainda um dos mais vendidos da grife. "O Ari desde adolescente era um cara determinado.
Tinha muita vontade de ir para a frente", recorda Bruno. Com alguns meses de negócio,
ele começou a procurar um sócio. Conheceu o engenheiro Alberto Zyngier,
que estava prestes a tentar a vida no Canadá. Ari lembra que ele perguntou
quanto teria de investir na sociedade. "Bicho, sei lá. Essa sua moto aí",
respondeu. Metade do valor da CB 400 foi dada a Ari e o restante, aplicado no
negócio, então uma fabriqueta, em Rocha Miranda. A parceria dura
até hoje. Ari é a parte criativa e Alberto, o homem do administrativo-financeiro.
"Estou casado com ele há mais tempo do que com a minha mulher. Sou o homem
que segura o dinheiro. Ele gosta de criar e eu de que tudo saia perfeito", diz
Alberto.
Fotos Arquivo Pessoal
 |
 | | Com
a mulher, Aymar, e o
sócio, Alberto
Zyngier (à
esq.), em um evento
recente, e, no
início da Mr.
Cat, com a filha
Adriana |
Arquivo Pessoal
 | | Na
juventude, com a mãe, Jacy: jogador de vôlei e visual comportado
|
Diferenças
existem. Alberto anda arrumado. Ari, à sua maneira. Certa vez, ele apareceu
em uma reunião com executivos de um shopping de bermuda e cabelos presos
com um elástico rosa. "Todos ficaram olhando, ele chama atenção.
Depois as pessoas vêem que ele não é maluco e sabe das coisas",
acrescenta Alberto. Em outra ocasião, Ari foi a um formal almoço
com empresários, no Centro, de bermuda e chinelo. "Ele ainda tinha resquício
de areia da praia", lembra o rabino Nilton Bonder, que conta nunca ter esquecido
aquela figura fora do convencional. Hoje são amigos. "Ele sabe dosar o
profissional e a qualidade de vida de uma maneira especial. É um típico
empresário carioca, que consegue curtir a praia e ser extremamente competente",
comenta Bonder. Nem sempre Ari teve tempo para lazer. Nos primeiros anos da empresa,
saía de casa cedo e voltava depois das 11 da noite. "Não tínhamos
grana para ter máquinas. Cortava o couro em Rocha Miranda, levava para
chanfrar no Encantado e pespontava mais longe ainda", recorda Ari. Não
fazia esportes e chegou a desmaiar no trabalho. "Abria a fábrica às
6h30, comprava um pão com manteiga e só lembrava de comer às
3 da tarde. Na minha cabeça, eu estava no Vietnã, queria era vencer
na vida", conta. Até 1985, quando inaugurou a primeira Mr. Cat, no BarraShopping,
fabricava e vendia sapatos para outras grifes. "Ele está sempre um passo
à frente. Tem sensibilidade de artista, que muitos outros empresários
não têm", opina Evandro Balesteros, sócio da Toulon, um dos
primeiros compradores. Em 1995, depois de um período de crise, Ari e o
sócio fecharam a fábrica, terceirizaram a produção
e investiram em mais pontos-de-venda. A experiência de arquiteto ajudava
no layout das lojas e na criação dos modelos. "Sapato e arquitetura
têm muita relação. A construção de um sapato
requer um bom projeto. Do contrário, não equilibra uma pessoa de
85 quilos", compara.
Arquivo Pessoal
 | | Menino
do Rio tardio: Ari
começou a surfar
aos 40 anos e virou
habitué das praias
havaianas |
A
vida de empresário estressado começou a mudar quando ele tinha 38
anos. "Eu era totalmente agressivo, histérico, gritava com todo mundo.
Não tinha tempo para ser generoso", lembra. A morte da mãe, de câncer,
e a perda do pai comerciante de tapetes na Rua da Alfândega ,
assim que ele se aposentou, mexeram com a cabeça de Ari. "Foi uma pancada.
Descobri que não podia deixar a vida para depois", diz o empresário,
hoje com 51 anos. Sem nunca ter pisado em uma prancha, aos 40 anos decidiu virar
surfista. "Quando ele cisma com alguma coisa, não há quem consiga
fazê-lo desistir. Foi assim com os sapatos e depois com o surfe", conta
Aymar, sua mulher há 25 anos, com quem tem as filhas Adriana, 25, e Hanna,
7. Olímpio Batista, seu professor de surfe e hoje o melhor amigo, lembra-se
da determinação do surfista tardio. "Ele batia todos os dias na
minha casa às 5 e pouco da manhã, com chuva ou com frio. Era obcecado",
comenta. "Agora, pega onda melhor do que muita gente que começou garoto",
acrescenta. Ari, por sua vez, levou o amigo para surfar na Costa Rica e no Havaí
e criou para ele a marca Pacific Bay, que produz pranchas longboard. "Brinco que
meu objetivo era fazê-lo ganhar dinheiro, e o dele que eu dormisse depois
do almoço. Eu ainda não consegui tirar a soneca, mas ele está
ganhando um dinheirinho", diz. Há três anos, o empresário,
que jogou vôlei profissionalmente na adolescência, decidiu também
aprender jiu-jítsu. "Ele é um dos alunos mais disciplinados que
eu já tive na vida. Tem uma força de vontade assombrosa. Talvez
por causa desse jeito tenha tanto sucesso profissional", acredita o professor
Rilion Gracie. Em três anos, Ari já conquistou a faixa roxa (faltam
apenas a marrom e a preta). Em geral, um aluno leva seis anos para atingir esse
estágio.
André Nazareth/Strana
 | | Adriana
Svartsnaider: ela segue os passos do pai e
cuida da linha de bolsas e acessórios Cat Girl |
Surfista
apaixonado, lutador aficionado, Ari continua trabalhando muito. Mas, agora, de
casa. De manhã, quando está indo para a Praia da Macumba, fala no
viva-voz com as fábricas em Franca, no interior de São Paulo, que
fazem os sapatos Mr. Cat. De casa, mantém contato com o pessoal de produção,
cuida do desenvolvimento e da distribuição de produtos, dos projetos
de loja e do marketing. Duas vezes por ano, acompanha a equipe de criação
em viagens de pesquisa pela Europa e pelos Estados Unidos. Por temporada, a grife
lança 100 modelos de sapatos femininos e oitenta de masculinos. "Não
participo mais da rotina do escritório, mas continuo ligado em tudo", explica.
A filha, Adriana, que há um ano assumiu a parte de criação
de bolsas e acessórios, batizada de Cat Girl, diz que o pai é perfeccionista.
"Ele tem uma lista de pendências que é a neura de todos no escritório.
Não passa nada", conta. Adriana sofreu até entender o jeitão
do pai. Quando garota, estudava na Escola Americana e detestava quando o pai a
buscava. "Ele era cabeludo, andava de chinelo e tinha o pior carro. Meus amigos
brincavam que ele era vagabundo de praia. Com o tempo entendi o seu jeito e a
importância do seu trabalho", diz ela. Carro de luxo, aliás, é
um item dispensável para o empresário. "Meu pai me ensinou o valor
das coisas simples. É mais importante ter tempo para andar descalço
do que dirigir um carro bacana", comenta. Detalhe: ele vive com um saco de ração
em seu Quantum 95 para dar aos cachorros de rua. Sair à noite para badalar
também não está na lista de prioridades de Ari. "Nego fica
me perguntando quantas lojas eu tenho, quanto faturo, qual é o meu carro,
para onde viajei... Não estou interessado nesse papo", reclama.
Dilmar Cavalher/Strana
 | | Olímpio:
o melhor amigo e
companheiro de ondas
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O
empresário, porém, permite-se alguns luxos. Só corta a cabeleira
com Keith Carpenter, cabeleireiro de Nova York que tem entre seus clientes Julia
Roberts e Sarah Jessica Parker. "Sou vaidoso, né. Pode ter certeza de que
a bermuda e a camiseta com que eu ando são de boa qualidade. Eu me ligo
em estética", assume. Morar em uma casa de frente para o mar projetada
por ele é outro luxo. A alimentação também: só
come produtos integrais, orgânicos, peixes e iguarias como queijo de arroz
trazido dos Estados Unidos e atum em vidro importado da Europa. Enlatados e carne
vermelha, nem pensar. Na casa de Ari, os empregados têm uma cozinha separada,
longe da principal, só para cozinhar carne para eles. Outro luxo: as viagens
para o Havaí três vezes por ano com a família. "O Ari mudou
seu jeito de vida e acompanhou a modernidade. Em vez de ficar careta com o tempo,
ele se atualizou. Isso refletiu na grife", avalia o empresário Evandro
Balesteros, que acompanha a Mr. Cat desde o início. Preço também
sempre foi uma preocupação e um trunfo de Ari um par de sapatos
custa em média 100 reais. Ele procura unir valores acessíveis com
qualidade. "É uma receita simples, da mesma forma que gosto de levar a
vida", resume. Aloha!
O
primeiro passo
Sem
experiência alguma, Ari começou a Mr. Cat com 1 metro de couro comprado
com dinheiro emprestado pela mãe. O primeiro par de sapatos foi feito por
um artesão, no Catete. O modelo escolhido foi o buck (na foto), um
clássico entre os jovens americanos. De camurça e sola de borracha,
até hoje é um dos mais vendidos da grife. O sapato, que ele conhecera
na adolescência, quando fez intercâmbio nos Estados Unidos, é
o modelo masculino mais barato da marca, em torno de 60 reais. |
Mr.
Excêntrico
Empresário bem-sucedido, Ari Svartsnaider só tem um terno no armário,
para ocasiões para lá de especiais. Seu uniforme é bermuda
e camiseta.
Seu carro está longe de ser um importado zero-quilômetro. Ele circula
numa Quantum 95, veículo usado para carregar a prancha de surfe.
Ari aprendeu a surfar aos 40 anos e a lutar jiu-jítsu aos 48. Já
é faixa roxa, a duas graduações da faixa preta.
É radical quanto à alimentação. Nada de molhos, cremes,
açúcares, carnes e enlatados. Só come produtos integrais
e orgânicos. Sua casa tem uma cozinha à parte, distante da que ele
usa, onde é vetada a carne vermelha.
O desleixo na cabeleira é impressão: ela é cuidadosamente
tratada por um cabeleireiro nova-iorquino que só atende celebridades.
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