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27 de setembro de 2006

REPORTAGEM DE CAPA

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VEJA RIO 15 ANOS
BEIRA-MAR
OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
  

REPORTAGEM DE CAPA

O carioca que acertou o passo

Trabalho e surfe são a receita de
sucesso do empresário que vende
60 000 pares de sapatos por mês

Sofia Cerqueira e Melissa Jannuzzi

 
Fotos Dilmar Cavalher/Strana
Ari, em uma das lojas: responsável pelo layout e pela criação dos sapatos

A rotina é rígida. Assim que o sol nasce, sete dias por semana, ele sai da Barra em direção à Praia da Macumba. Surfa durante no mínimo três horas, encontra a galera, bate um papo descontraído e segue em seu carro, um Quantum 95, para casa. Seu melhor amigo, um surfista, ex-morador da Favela da Amaralina, em Salvador, o acompanha em boa parte da manhã. Sua alimentação é natural. Não lê jornal. Revistas, só de surfe ou jiu-jítsu. Pelo viva-voz do carro e no telefone em casa, resolve todas as pendências de trabalho. Na parte da tarde, pelo menos três vezes por semana, treina jiu-jítsu. Em três anos, já é faixa roxa. Cabeludo, barba grande, 1,90 metro, chama atenção por onde passa. No armário, apenas um terno e alguns sapatos sociais. Faz da bermuda, camiseta sem manga e chinelo seu uniforme de trabalho. Essa descrição surpreende quando se descobre que se trata de um dos maiores empresários cariocas, Ari Svartsnaider. Criador da marca de sapatos e acessórios Mr. Cat, ele está à frente de uma rede de 88 lojas, sendo 77 em regime de franquia. A marca está presente em todos os estados do país. Só no Rio, são 24 lojas e 350 funcionários. Por mês, o grupo vende mais de 60.000 pares de sapatos. Avesso a festas, fotos e entrevistas, resolveu quebrar o jejum por causa dos 25 anos da grife, completados agora. "Posso parecer uma coisa, mas não é bem assim. Sou organizado, totalmente objetivo. Se não fosse, não conseguiria dar conta de tudo o que faço", diz o empresário. "Hoje sou calmo, mas nem sempre foi assim. Para construir um negócio desse com um pedaço de couro, precisei ser muito agressivo", completa.

 

O pé-de-meia

A Mr. Cat está presente em todos os estados do país, com um total de 88 lojas, sendo 77 franquias. No Rio são 24 pontos, com 350 empregados

O grupo vende 60 000 pares de sapatos por mês

A empresa cresce 10% ao ano

A cada coleção, são lançados 100 modelos femininos e 80 masculinos

Na Macumba: surfe diário antes de encarar o trabalho, no escritório caseiro

A Mr. Cat começou a dar os primeiros passos no início de 1981. Ari estudava arquitetura, fazia estágio sem remuneração, quando a mulher engravidou. "Precisava achar alguma coisa para ganhar dinheiro. Algo que não tivesse concorrente", lembra. Procurou então o amigo Bruno Tolpiakow, na época dono da marca de roupas Oliver, e perguntou a ele do que precisava e ninguém fazia. "Minha grande sacada foi essa pergunta. Direcionou minha vida", lembra. A resposta do amigo foi: sapato masculino. Decidiu arriscar. Seu capital inicial foi 1 metro de couro, comprado com dinheiro emprestado pela mãe. "De dois sapatos, fiz quatro, oito e, em poucos meses, já não dava conta dos pedidos", diz. O buck, um sapato muito usado pelos estudantes americanos, de camurça e sola de borracha, foi o primeiro modelo e é ainda um dos mais vendidos da grife. "O Ari desde adolescente era um cara determinado. Tinha muita vontade de ir para a frente", recorda Bruno. Com alguns meses de negócio, ele começou a procurar um sócio. Conheceu o engenheiro Alberto Zyngier, que estava prestes a tentar a vida no Canadá. Ari lembra que ele perguntou quanto teria de investir na sociedade. "Bicho, sei lá. Essa sua moto aí", respondeu. Metade do valor da CB 400 foi dada a Ari e o restante, aplicado no negócio, então uma fabriqueta, em Rocha Miranda. A parceria dura até hoje. Ari é a parte criativa e Alberto, o homem do administrativo-financeiro. "Estou casado com ele há mais tempo do que com a minha mulher. Sou o homem que segura o dinheiro. Ele gosta de criar e eu de que tudo saia perfeito", diz Alberto.

 
Fotos Arquivo Pessoal

Com a mulher, Aymar, e o sócio, Alberto Zyngier (à esq.), em um evento recente, e, no início da Mr. Cat, com a filha Adriana

Arquivo Pessoal
Na juventude, com a mãe, Jacy: jogador de vôlei e visual comportado


Diferenças existem. Alberto anda arrumado. Ari, à sua maneira. Certa vez, ele apareceu em uma reunião com executivos de um shopping de bermuda e cabelos presos com um elástico rosa. "Todos ficaram olhando, ele chama atenção. Depois as pessoas vêem que ele não é maluco e sabe das coisas", acrescenta Alberto. Em outra ocasião, Ari foi a um formal almoço com empresários, no Centro, de bermuda e chinelo. "Ele ainda tinha resquício de areia da praia", lembra o rabino Nilton Bonder, que conta nunca ter esquecido aquela figura fora do convencional. Hoje são amigos. "Ele sabe dosar o profissional e a qualidade de vida de uma maneira especial. É um típico empresário carioca, que consegue curtir a praia e ser extremamente competente", comenta Bonder. Nem sempre Ari teve tempo para lazer. Nos primeiros anos da empresa, saía de casa cedo e voltava depois das 11 da noite. "Não tínhamos grana para ter máquinas. Cortava o couro em Rocha Miranda, levava para chanfrar no Encantado e pespontava mais longe ainda", recorda Ari. Não fazia esportes e chegou a desmaiar no trabalho. "Abria a fábrica às 6h30, comprava um pão com manteiga e só lembrava de comer às 3 da tarde. Na minha cabeça, eu estava no Vietnã, queria era vencer na vida", conta. Até 1985, quando inaugurou a primeira Mr. Cat, no BarraShopping, fabricava e vendia sapatos para outras grifes. "Ele está sempre um passo à frente. Tem sensibilidade de artista, que muitos outros empresários não têm", opina Evandro Balesteros, sócio da Toulon, um dos primeiros compradores. Em 1995, depois de um período de crise, Ari e o sócio fecharam a fábrica, terceirizaram a produção e investiram em mais pontos-de-venda. A experiência de arquiteto ajudava no layout das lojas e na criação dos modelos. "Sapato e arquitetura têm muita relação. A construção de um sapato requer um bom projeto. Do contrário, não equilibra uma pessoa de 85 quilos", compara.

 
Arquivo Pessoal
Menino do Rio tardio: Ari começou a surfar aos 40 anos e virou habitué das praias havaianas

A vida de empresário estressado começou a mudar quando ele tinha 38 anos. "Eu era totalmente agressivo, histérico, gritava com todo mundo. Não tinha tempo para ser generoso", lembra. A morte da mãe, de câncer, e a perda do pai – comerciante de tapetes na Rua da Alfândega –, assim que ele se aposentou, mexeram com a cabeça de Ari. "Foi uma pancada. Descobri que não podia deixar a vida para depois", diz o empresário, hoje com 51 anos. Sem nunca ter pisado em uma prancha, aos 40 anos decidiu virar surfista. "Quando ele cisma com alguma coisa, não há quem consiga fazê-lo desistir. Foi assim com os sapatos e depois com o surfe", conta Aymar, sua mulher há 25 anos, com quem tem as filhas Adriana, 25, e Hanna, 7. Olímpio Batista, seu professor de surfe e hoje o melhor amigo, lembra-se da determinação do surfista tardio. "Ele batia todos os dias na minha casa às 5 e pouco da manhã, com chuva ou com frio. Era obcecado", comenta. "Agora, pega onda melhor do que muita gente que começou garoto", acrescenta. Ari, por sua vez, levou o amigo para surfar na Costa Rica e no Havaí e criou para ele a marca Pacific Bay, que produz pranchas longboard. "Brinco que meu objetivo era fazê-lo ganhar dinheiro, e o dele que eu dormisse depois do almoço. Eu ainda não consegui tirar a soneca, mas ele está ganhando um dinheirinho", diz. Há três anos, o empresário, que jogou vôlei profissionalmente na adolescência, decidiu também aprender jiu-jítsu. "Ele é um dos alunos mais disciplinados que eu já tive na vida. Tem uma força de vontade assombrosa. Talvez por causa desse jeito tenha tanto sucesso profissional", acredita o professor Rilion Gracie. Em três anos, Ari já conquistou a faixa roxa (faltam apenas a marrom e a preta). Em geral, um aluno leva seis anos para atingir esse estágio.

 
André Nazareth/Strana
Adriana Svartsnaider: ela segue os passos do pai e cuida da linha de bolsas e acessórios Cat Girl

Surfista apaixonado, lutador aficionado, Ari continua trabalhando muito. Mas, agora, de casa. De manhã, quando está indo para a Praia da Macumba, fala no viva-voz com as fábricas em Franca, no interior de São Paulo, que fazem os sapatos Mr. Cat. De casa, mantém contato com o pessoal de produção, cuida do desenvolvimento e da distribuição de produtos, dos projetos de loja e do marketing. Duas vezes por ano, acompanha a equipe de criação em viagens de pesquisa pela Europa e pelos Estados Unidos. Por temporada, a grife lança 100 modelos de sapatos femininos e oitenta de masculinos. "Não participo mais da rotina do escritório, mas continuo ligado em tudo", explica. A filha, Adriana, que há um ano assumiu a parte de criação de bolsas e acessórios, batizada de Cat Girl, diz que o pai é perfeccionista. "Ele tem uma lista de pendências que é a neura de todos no escritório. Não passa nada", conta. Adriana sofreu até entender o jeitão do pai. Quando garota, estudava na Escola Americana e detestava quando o pai a buscava. "Ele era cabeludo, andava de chinelo e tinha o pior carro. Meus amigos brincavam que ele era vagabundo de praia. Com o tempo entendi o seu jeito e a importância do seu trabalho", diz ela. Carro de luxo, aliás, é um item dispensável para o empresário. "Meu pai me ensinou o valor das coisas simples. É mais importante ter tempo para andar descalço do que dirigir um carro bacana", comenta. Detalhe: ele vive com um saco de ração em seu Quantum 95 para dar aos cachorros de rua. Sair à noite para badalar também não está na lista de prioridades de Ari. "Nego fica me perguntando quantas lojas eu tenho, quanto faturo, qual é o meu carro, para onde viajei... Não estou interessado nesse papo", reclama.

 
Dilmar Cavalher/Strana
Olímpio: o melhor amigo e companheiro de ondas

O empresário, porém, permite-se alguns luxos. Só corta a cabeleira com Keith Carpenter, cabeleireiro de Nova York que tem entre seus clientes Julia Roberts e Sarah Jessica Parker. "Sou vaidoso, né. Pode ter certeza de que a bermuda e a camiseta com que eu ando são de boa qualidade. Eu me ligo em estética", assume. Morar em uma casa de frente para o mar projetada por ele é outro luxo. A alimentação também: só come produtos integrais, orgânicos, peixes e iguarias como queijo de arroz trazido dos Estados Unidos e atum em vidro importado da Europa. Enlatados e carne vermelha, nem pensar. Na casa de Ari, os empregados têm uma cozinha separada, longe da principal, só para cozinhar carne para eles. Outro luxo: as viagens para o Havaí três vezes por ano com a família. "O Ari mudou seu jeito de vida e acompanhou a modernidade. Em vez de ficar careta com o tempo, ele se atualizou. Isso refletiu na grife", avalia o empresário Evandro Balesteros, que acompanha a Mr. Cat desde o início. Preço também sempre foi uma preocupação e um trunfo de Ari – um par de sapatos custa em média 100 reais. Ele procura unir valores acessíveis com qualidade. "É uma receita simples, da mesma forma que gosto de levar a vida", resume. Aloha!

 

O primeiro passo

 

Sem experiência alguma, Ari começou a Mr. Cat com 1 metro de couro comprado com dinheiro emprestado pela mãe. O primeiro par de sapatos foi feito por um artesão, no Catete. O modelo escolhido foi o buck (na foto), um clássico entre os jovens americanos. De camurça e sola de borracha, até hoje é um dos mais vendidos da grife. O sapato, que ele conhecera na adolescência, quando fez intercâmbio nos Estados Unidos, é o modelo masculino mais barato da marca, em torno de 60 reais.



Mr. Excêntrico

 

Empresário bem-sucedido, Ari Svartsnaider só tem um terno no armário, para ocasiões para lá de especiais. Seu uniforme é bermuda e camiseta.

Seu carro está longe de ser um importado zero-quilômetro. Ele circula numa Quantum 95, veículo usado para carregar a prancha de surfe.

Ari aprendeu a surfar aos 40 anos e a lutar jiu-jítsu aos 48. Já é faixa roxa, a duas graduações da faixa preta.

É radical quanto à alimentação. Nada de molhos, cremes, açúcares, carnes e enlatados. Só come produtos integrais e orgânicos. Sua casa tem uma cozinha à parte, distante da que ele usa, onde é vetada a carne vermelha.

O desleixo na cabeleira é impressão: ela é cuidadosamente tratada por um cabeleireiro nova-iorquino que só atende celebridades.

     
   

 

 
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