| |
|
|
 |
|
CRÔNICA
Olha dom João aí,
gente!
Tutty Vasques
A pretexto de tentar definir a
vocação carioca para a alegria, tenho sustentado aqui
com um certo sotaque de sociólogo de pé-sujo que o
Rio de Janeiro precisa de festa para sobreviver. E, quanto mais
assustadora a imagem que a cidade passa nos telejornais, maior sua
capacidade de mobilização em torno de grandes eventos
populares. Celebrar é instinto de defesa para quem, gravemente
ferido em sua auto-estima, insiste em não entregar os pontos.
O carioca não se cansa nunca! Na contramão da barbárie,
ano após ano o calendário festivo do município
incorpora novidades de peso à tradição do réveillon
e do Carnaval, velhos desafios a quem busca entender no botequim
de onde essa gente tira motivos para se animar desse jeito. Ô
raça!
Francamente, o que seria do Rio
em 2007 sem os Jogos Pan-Americanos? Tudo deu certo como num passe
de mágica, contrariando previsões mais realistas sobre
as mínimas chances de a organização prevalecer
em meio ao caos urbano generalizado. Eis o mistério da fé:
tudo deu certo porque o carioca quis. Ou não haveria ação
governamental capaz de operar o milagre. Justiça seja feita,
como diz o outro, "nunca na história deste país" um
evento bancado por organismos públicos caiu tanto no gosto
da população. O carioca estava a fim de gostar de
tudo, até de tae kwon do.
Resta saber se o mesmo acontecerá
com os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao
Rio de Janeiro, que, tudo indica, será a grande farra de
2008 na cidade. Fala-se no lançamento de dezenas de livros
a respeito, outros tantos espetáculos musicais de época,
teatro de rua por todos os cantos, grandes exposições,
restauração de marcos históricos, reinauguração
de igrejas... A prefeitura já anunciou a liberação
de 25 milhões de reais para celebrar a efeméride que
botou o Rio na época com pouco mais de 70 000 habitantes
no centro do Brasil, a única cidade do mundo que sediou
um império europeu fora da Europa. Não é pouca
coisa.
O governo federal está
investindo mais de 4 milhões de reais na construção
do Museu do Meio Ambiente, que vai ocupar 800 metros quadrados de
um prédio de dois andares no Jardim Botânico, presente
que dom João deu à cidade assim que desembarcou com
toda a sua corte fugindo de Napoleão. O governo estadual
não vai, decerto, ficar fora da festa, comemorando de uma
só vez a chegada de dom João e o bota-fora de Cesar
Maia. Tudo isso custa muito caro.
Haja grana!
Imagine só a quantidade
de projetos culturais sobre a chegada de dom João ao Rio
que transita neste momento nos escaninhos governamentais de incentivo
fiscal às artes! A indústria da festa cresce na mesma
proporção que o dinheiro público empregado
no setor, e é aí que mora o perigo! O circuito de
captação de recursos está criando no Brasil
um tipo de artista de ocasião, caçador de efemérides
apoiadas pelo governo e, portanto, com grandes chances de patrocínio
oficial. Ouvi dizer que vem por aí até teatro infantil
do gênero "Chapeuzinho Vermelho, He-Man e dom João",
além é claro de réplicas das
embarcações da esquadra real trazendo de Salvador
para o Rio o Olodum, mais Ivete Sangalo, Gilberto Gil, Carlinhos
Brown...
É cedo ainda para dimensionar
o tamanho da festa em torno do bicentenário da chegada do
homem, mas nenhuma maluquice que se imagine agora estará
livre de se concretizar no ano que vem. Aposto, por exemplo, que
as máscaras de dom João devem pegar mais que as de
George Bush e Renan Calheiros no Carnaval de 2008, cuja escola de
samba vencedora passará com o enredo "O Rio de dom João
a Joãosinho Trinta". Alguém, neste exato momento,
deve estar tendo a idéia da Volta Ciclística Dom João
ou da Meia Maratona Dom João ou, sei lá, do Triatlo
Dom João. A Câmara dos Vereadores estabelecerá
o dia 7 de março data do desembarque em 1808
como feriado de dom João.
Outra coisa: o Engenhão
tem boas chances de virar apelido do Estádio Dom João,
assim como, um dia, o Maracanã ganhou o nome de Mário
Filho. Haverá festivais de bolinho de bacalhau e, a propósito
da abertura dos portos decretada pelo príncipe regente, sairá
do papel, finalmente, a propalada revitalização da
zona portuária, da Praça Mauá à rodoviária.
Todos os percursos de dom João pelo Centro serão repavimentados,
vem aí uma nova fase de orgulho do carioca com sua cidade.
O bicentenário da chegada da família real ao Brasil
estará para 2008 assim como o Pan esteve para 2007.
Com a diferença de que
no ano que vem a concorrência será muito maior. Existem
várias outras grandes comemorações em marcha
para 2008. O cinqüentenário de 1958, por exemplo, vai
dar pano para mangas, a começar pelo meio século de
criação da bossa nova. Dias de luz, festa do sol,
memórias de um tempo em que Copacabana e Ipanema eram só
felicidade... Como se não bastasse, o jubileu da conquista
da primeira Copa do Mundo, na Suécia. Será como se
todos dom João, João Gilberto, Pelé,
Tom, Garrincha, Vinicius, Carlota Joaquina e Nara Leão
chegassem ao mesmo tempo numa festa. Para quem estava esperando
más notícias...
e-mail: tuttyvasques@uol.com.br
|