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26 de setembro de 2007

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CRÔNICA

Olha dom João aí, gente!

Tutty Vasques

A pretexto de tentar definir a vocação carioca para a alegria, tenho sustentado aqui com um certo sotaque de sociólogo de pé-sujo que o Rio de Janeiro precisa de festa para sobreviver. E, quanto mais assustadora a imagem que a cidade passa nos telejornais, maior sua capacidade de mobilização em torno de grandes eventos populares. Celebrar é instinto de defesa para quem, gravemente ferido em sua auto-estima, insiste em não entregar os pontos. O carioca não se cansa nunca! Na contramão da barbárie, ano após ano o calendário festivo do município incorpora novidades de peso à tradição do réveillon e do Carnaval, velhos desafios a quem busca entender no botequim de onde essa gente tira motivos para se animar desse jeito. Ô raça!

Francamente, o que seria do Rio em 2007 sem os Jogos Pan-Americanos? Tudo deu certo como num passe de mágica, contrariando previsões mais realistas sobre as mínimas chances de a organização prevalecer em meio ao caos urbano generalizado. Eis o mistério da fé: tudo deu certo porque o carioca quis. Ou não haveria ação governamental capaz de operar o milagre. Justiça seja feita, como diz o outro, "nunca na história deste país" um evento bancado por organismos públicos caiu tanto no gosto da população. O carioca estava a fim de gostar de tudo, até de tae kwon do.

Resta saber se o mesmo acontecerá com os 200 anos da chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, que, tudo indica, será a grande farra de 2008 na cidade. Fala-se no lançamento de dezenas de livros a respeito, outros tantos espetáculos musicais de época, teatro de rua por todos os cantos, grandes exposições, restauração de marcos históricos, reinauguração de igrejas... A prefeitura já anunciou a liberação de 25 milhões de reais para celebrar a efeméride que botou o Rio – na época com pouco mais de 70 000 habitantes – no centro do Brasil, a única cidade do mundo que sediou um império europeu fora da Europa. Não é pouca coisa.

O governo federal está investindo mais de 4 milhões de reais na construção do Museu do Meio Ambiente, que vai ocupar 800 metros quadrados de um prédio de dois andares no Jardim Botânico, presente que dom João deu à cidade assim que desembarcou com toda a sua corte fugindo de Napoleão. O governo estadual não vai, decerto, ficar fora da festa, comemorando de uma só vez a chegada de dom João e o bota-fora de Cesar Maia. Tudo isso custa muito caro.

Haja grana!

Imagine só a quantidade de projetos culturais sobre a chegada de dom João ao Rio que transita neste momento nos escaninhos governamentais de incentivo fiscal às artes! A indústria da festa cresce na mesma proporção que o dinheiro público empregado no setor, e é aí que mora o perigo! O circuito de captação de recursos está criando no Brasil um tipo de artista de ocasião, caçador de efemérides apoiadas pelo governo e, portanto, com grandes chances de patrocínio oficial. Ouvi dizer que vem por aí até teatro infantil do gênero "Chapeuzinho Vermelho, He-Man e dom João", além – é claro – de réplicas das embarcações da esquadra real trazendo de Salvador para o Rio o Olodum, mais Ivete Sangalo, Gilberto Gil, Carlinhos Brown...

É cedo ainda para dimensionar o tamanho da festa em torno do bicentenário da chegada do homem, mas nenhuma maluquice que se imagine agora estará livre de se concretizar no ano que vem. Aposto, por exemplo, que as máscaras de dom João devem pegar mais que as de George Bush e Renan Calheiros no Carnaval de 2008, cuja escola de samba vencedora passará com o enredo "O Rio de dom João a Joãosinho Trinta". Alguém, neste exato momento, deve estar tendo a idéia da Volta Ciclística Dom João ou da Meia Maratona Dom João ou, sei lá, do Triatlo Dom João. A Câmara dos Vereadores estabelecerá o dia 7 de março – data do desembarque em 1808 – como feriado de dom João.

Outra coisa: o Engenhão tem boas chances de virar apelido do Estádio Dom João, assim como, um dia, o Maracanã ganhou o nome de Mário Filho. Haverá festivais de bolinho de bacalhau e, a propósito da abertura dos portos decretada pelo príncipe regente, sairá do papel, finalmente, a propalada revitalização da zona portuária, da Praça Mauá à rodoviária. Todos os percursos de dom João pelo Centro serão repavimentados, vem aí uma nova fase de orgulho do carioca com sua cidade. O bicentenário da chegada da família real ao Brasil estará para 2008 assim como o Pan esteve para 2007.

Com a diferença de que no ano que vem a concorrência será muito maior. Existem várias outras grandes comemorações em marcha para 2008. O cinqüentenário de 1958, por exemplo, vai dar pano para mangas, a começar pelo meio século de criação da bossa nova. Dias de luz, festa do sol, memórias de um tempo em que Copacabana e Ipanema eram só felicidade... Como se não bastasse, o jubileu da conquista da primeira Copa do Mundo, na Suécia. Será como se todos – dom João, João Gilberto, Pelé, Tom, Garrincha, Vinicius, Carlota Joaquina e Nara Leão – chegassem ao mesmo tempo numa festa. Para quem estava esperando más notícias...

e-mail: tuttyvasques@uol.com.br

         
     

 

 
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