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26 de abril de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
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REPORTAGEM DE CAPA

Telemarketing do crime

Como agem as quadrilhas que espalham o medo pela cidade através de ligações telefônicas

Fabio Brisolla, Fernanda Thedime Telma Alvarenga

 
Ilustração: Alexandre Jubran

– Alô? Acabou de acontecer um acidente aqui próximo à Linha Amarela. E a pessoa nos passou esse telefone de contato. Com quem estou falando, por favor?

Jussara (nome fictício).

– A pessoa acaba de confirmar com um gesto que é com a senhora mesmo que devemos falar (...) Pegamos um membro da sua família que estava em um lugar errado e inoportuno no momento em que estávamos efetuando um assalto. Essa pessoa se ligou na movimentação dos nossos amigos quando eles foram sacar as armas e explanou para os policiais, que abriram fogo contra nós.

Ai, meu Deus (começa a chorar).

– A senhora tem que se preocupar agora com os 1.000 reais, que é o prejuízo que essa pessoa nos deu. A senhora tem esse valor?

Não tenho em dinheiro, mas posso dar em cheque. (...)

– Já estão depositados os 1 000, né?

– Acabei de fazer pelo telefone.

– Estamos vendo aqui no notebook. Só estamos aguardando a confirmação do depósito.

– Pelo amor de Deus, não faz nada com ele. É meu único filho (chorando).

*Transcrição de trechos do diálogo entre bandido e vítima

A voz ao celular ordenou: "O senhor pode ir embora. Quando chegar em casa, seu filho estará lá". Ao chegar em casa, às 4 da manhã, o engenheiro não encontrou o filho. Ficou desesperado. Meia hora depois, o rapaz chegou. Vinha de uma festa e não tinha a menor noção do que o pai sofrera. O seqüestro era uma farsa. O que aconteceu realmente foi um tipo de extorsão que se alastra pela cidade como uma epidemia e transforma o telefone num poderoso instrumento de terrorismo a serviço de dezenas de quadrilhas.

 
André Valentim/Strana

"Antes de atender à ligação, a cobrar, eu tinha tentado falar com meu ex-marido, sem conseguir. No telefone, um sujeito dizia que ele havia sido seqüestrado por engano. Sabia coisas sobre mim e meu ex-marido, que, depois descobri, tinham sido reveladas, inocentemente, pela empregada em outro telefonema. Queria 15 000 reais, mandou que eu fosse ao banco. Se desligasse o celular, matariam meu ex-marido. Desci onze andares pela escada, caminhei até a agência que ele indicou.
O bandido estava lá, descobriu como eu era pedindo para que descrevesse a roupa do gerente com quem conversava. Tirei 7 000 reais e tomei um táxi, sempre seguindo suas ordens. Ele indicou todo o trajeto, até um subúrbio. Lá, uma mulher passou e puxou o envelope com o dinheiro da minha mão. Achei que levaria um tiro."

Estimar o alcance do telemarketing do crime é um grande desafio. A extorsão por telefone expõe falhas da legislação e a fragilidade do sistema penitenciário carioca. Além disso, a vítima dificilmente registra queixa na delegacia. Nos últimos três anos, a polícia identificou 163 números de telefone usados para a extorsão e 63 integrantes das quadrilhas. As investigações resultaram em 25 prisões e numa constatação constrangedora para as autoridades: os outros 38 criminosos eram internos das penitenciárias cariocas. A presença maciça de presidiários no planejamento e na execução dos golpes tem uma explicação simples: a operação começou atrás das grades. O esboço surgiu em outubro de 2002. Numa segunda-feira, o comércio da Zona Sul parou. Amedrontados por boatos sobre uma suposta ordem de traficantes, um bom número de comerciantes fechou suas lojas. Logo depois, com os bandidos cientes do poder de uma ameaça diante do medo da população, surgiram os primeiros episódios de extorsão. "As primeiras ligações foram para escolas. Eles ameaçavam metralhar os colégios caso não fossem feitos depósitos em algumas contas", diz o ex-chefe da Polícia Civil Álvaro Lins. O formato consagrado de golpe começou dentro dos presídios e gerou um impressionante efeito multiplicador. O objetivo final era obter créditos para celulares pré-pagos. Cada telefonema bem-sucedido aumentava a capacidade de articulação dos presos.
André Valentim/Strana

Designer gráfica, 44 anos, C. foi vítima por duas vezes de tentativa de extorsão por telefone. Na primeira, há dois anos, telefonaram para o escritório dela dizendo que jogariam uma bomba no local e seqüestrariam seus filhos se ela não comprasse cartões telefônicos e fornecesse os códigos. "Já estava saindo para comprar os cartões quando resolvi ligar para meu ex-marido. Ele me disse: 'Não faz isso, está na cara que é trote'."
A segunda foi no início deste mês. C. estava fora quando a empregada atendeu ao telefonema, a cobrar, de um sujeito que se dizia do Corpo de Bombeiros e avisava que o "marido" de sua patroa tinha sofrido um acidente com os dois filhos. Ele sabia os nomes da dona da casa, do ex-marido e de um dos filhos do casal. A moça ficou apavorada. Quando todos chegaram em casa, ilesos, ela estava trêmula, "aos prantos".

"As pessoas estão cada vez mais confinadas, em pânico. E, nessa situação, elas passam a acreditar em tudo", diz a psicanalista Júnia de Vilhena, coordenadora de uma clínica de atendimento psicológico da PUC-Rio. "Eu me lembrava o tempo todo do seqüestro do ônibus 174. Quando a polícia entrou em cena, uma pessoa acabou morta", diz uma publicitária, de 30 anos, ao justificar por que não buscou ajuda quando soube que o ex-marido teria sido "seqüestrado". Sem desligar o celular, ela foi ao banco, sacou 7 000 reais, pegou um táxi e foi até um ponto de ônibus no bairro de Maria da Graça, na Zona Norte, para entregar o dinheiro. Uma professora pagou 500 reais em créditos para celular pelo "resgate" do filho. "Fiquei muito nervosa. Basta dizer a palavra 'filho' para desmontar uma mãe, você pára de raciocinar", comenta a vítima.

O bom resultado obtido com o golpe dos cartões ampliou as investidas e a extorsão passou a envolver dinheiro vivo e depósitos em contas correntes. A inspetora Marina Maggessi, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, acompanhou a evolução dos golpes por telefone nos últimos três anos. Num primeiro momento, as ameaças eram voltadas para estabelecimentos comerciais. Depois, passaram a ser disparadas indiscriminadamente para residências. "Eles obtêm as informações na própria casa", alerta Marina. Em boa parte das chantagens bem-sucedidas, o levantamento de dados começa com uma ligação para três alvos preferenciais: idosos, crianças e funcionários da casa. "O sujeito se identifica como amigo do dono da casa, começa a bater papo, pede o número do celular e continua conversando", relata a inspetora. Ao ligar para a vítima, o bandido despeja as informações que acumulou sobre sua rotina e anuncia o seqüestro. As quadrilhas chegam a criar maneiras para impossibilitar o contato da família com o suposto seqüestrado. Uma jovem de 20 anos recebeu o telefonema de um suposto policial federal, dizendo que seu celular estava clonado e deveria ficar desligado por uma hora. Em seguida, seus pais ouviram o anúncio do seqüestro. Entraram em pânico, já que naquele momento a filha, que estava na estrada, rumo a Petrópolis, mantinha o celular desligado. "Não conseguia falar com ela", conta a mãe da moça, uma professora de 46 anos. Ela descobriu o golpe quando fez contato com o celular do namorado da filha. A criatividade das quadrilhas gera variações constantes no formato dos golpes. O delegado Rodrigo Oliveira, titular da 16ª Delegacia de Polícia, na Barra, surpreendeu-se com a estratégia adotada em um caso envolvendo um casal. O marido recebeu o telefonema. Depois de anunciar o seqüestro, o chantagista ligou para o celular da mulher da vítima e inseriu a chamada no sistema de conferência (conference call). Logo após se identificar, ela foi excluída da ligação. O marido acreditou que a quadrilha tinha realmente seqüestrado sua mulher. "Ele levou relógios e um notebook até uma lata de lixo em Acari", diz o delegado.

 
André Valentim/Strana

A tentativa de extorsão contra o desembargador aposentado e ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio Antônio Carlos Amorim aconteceu no dia 24 de dezembro passado. Ao telefone, o bandido disse ter seqüestrado o filho do advogado e exigiu 30 000 reais. O dinheiro teria de ser entregue em uma favela. Amorim tentou ganhar tempo. "Não me surgia uma idéia, uma luz...", lembra. "O tempo todo, tive a convicção de que meu filho não estava com eles, mas não tinha o direito de arriscar, mesmo que esse risco fosse de 1%." Em determinado momento, o advogado foi para a rua, dizendo que pegaria um táxi. Quando não sabia mais o que fazer, foi avisado de que seu filho estava são e salvo, em casa. O advogado simulou um infarto e desligou o celular. "Queria que eles pensassem: 'o homem morreu'", conta. Ao todo, o telefonema durou uma hora e cinco minutos.

 

"Quando atendi a ligação, a cobrar, um homem disse que tinha encontrado meu filho caído na rua. Fiz algumas perguntas, mas o bandido anunciou que estava ligando de uma penitenciária, que meu filho havia sofrido um seqüestro-relâmpago e tinha sido levado para o Pavão-Pavãozinho. Queriam 5 000 reais, mas consegui baixar o valor. Mandaram que eu comprasse 500 reais em cartões telefônicos. Eu rezava enquanto falava com o marginal, pedindo a Deus que me acalmasse. Eles faziam terrorismo, dizendo que bateriam no meu filho e o matariam se eu
não fizesse tudo como estavam mandando. Foram quarenta minutos ao celular de muito pânico."

Professora, 53 anos

O número de vítimas é uma incógnita. Investigadores da Polícia Civil e técnicos da Secretaria de Segurança estimam em milhares as ligações realizadas pelas quadrilhas. Um aspecto jurídico dificulta o andamento das investigações. De acordo com a lei, é preciso autorização judicial para obter o nome do proprietário de um celular. "O telefone é uma propriedade particular como o automóvel. Assim como a polícia tem acesso ao dono de um carro pela placa, precisa ter acesso ao cadastro de um celular", diz um especialista da Secretaria de Segurança. As companhias telefônicas evitam polemizar sobre o assunto. Em nota, a Claro informa que "as informações (sobre as contas) são confidenciais e só podem ser reveladas a pedido da Justiça". A Vivo esclarece que investiu "mais de 100 milhões de reais em sistemas antifraude". Sobre a compra de crédito para celulares pré-pagos em casos de extorsão, a Tim afirma que, "mediante solicitação do cliente e apresentação do Registro de Ocorrência (feito na delegacia), realiza bloqueio dos créditos ainda não utilizados". As operadoras dizem ainda que, por intermédio da Associação Brasileira de Recursos em Telecomunicações, que reúne todas as empresas de telefonia móvel e a maioria das de telefonia fixa, criaram um sistema que impede a reabilitação dos mais de 4 milhões de aparelhos bloqueados no país.

Enquanto não surgem medidas mais rigorosas para coibir os golpes, a farra do celular pré-pago continua no sistema penitenciário carioca. "Celular agora é moeda de troca nos presídios. Por isso, esses golpes viraram uma praga", diz Marina Maggessi. As extorsões, segundo a inspetora, são realizadas por bandidos de pouca expressão no crime organizado. "Em todas as quadrilhas presas até hoje havia um elemento comum: pelo menos um envolvido estava dentro do sistema penitenciário", reconhece Álvaro Lins. O Complexo de Bangu tem dezenove unidades e apenas quatro são equipadas com bloqueadores de celular. "Sempre que fazemos revista nos presídios encontramos várias listas telefônicas, uma das principais fontes usadas pelos presidiários para achacar suas vítimas", diz a promotora Valéria Videira, responsável pelos inquéritos policiais da área de Bangu. A promotora, em parceria com a Coordenadoria de Inteligência do Sistema Penitenciário (Cispen), já denunciou vinte internos da Penitenciária Plácido de Sá Carvalho em dois processos encaminhados à Vara Criminal de Bangu. O problema, no entanto, vai persistir enquanto a farra dos celulares nos presídios não acabar.

 

Tipos de golpe

O BOMBEIRO

O sujeito liga a cobrar e se identifica como um soldado do Corpo de Bombeiros. Avisa que há um parente do dono da casa ferido num acidente e precisa confirmar algumas informações. Se a vítima prossegue no diálogo, o tom da conversa muda. O "bombeiro" diz que, na verdade, se trata de um "seqüestro" e pede o número do celular da vítima para prosseguir a conversa. Assim, ela é monitorada durante todo o trajeto até o local do pagamento do "resgate".

O AMIGO

O golpe é realizado em duas etapas. Na primeira, o bandido liga para a residência da vítima e se identifica como amigo do dono da casa. Pede o celular dele para entrar em contato e puxa conversa, tentando obter informações sobre aquela pessoa. Ao ligar para o celular dela, segunda etapa, o golpista assume um tom agressivo e lista uma série de informações para comprovar que conhece sua rotina. O bandido anuncia o seqüestro de um parente da vítima, obriga-a a ficar com o celular ligado e passa a orientar o pagamento do resgate passo a passo.

O EXTERMINADOR

A abordagem é mais direta. O bandido se apresenta à vítima como um policial ligado a um grupo de extermínio e avisa que foi contratado para matá-la. Ressalta ter fotos e um dossiê com informações sobre a família. O "matador" propõe um acordo: deixar de lado sua missão em troca de dinheiro.

Nos três casos, os bandidos exigem como pagamento dinheiro, jóias, códigos de cartões com crédito para celular ou depósitos em conta corrente.


Cuidados para evitá-los

Em caso de acidente, o parente da vítima será informado por um funcionário do hospital ou da delegacia da área. Ele estará com a carteira de identidade ou de motorista e saberá o nome completo do acidentado. Jamais perguntará se a pessoa tem um parente com certas características físicas para confirmar o acidente.

Se alguém ligar identificando-se como policial militar, pergunte a que batalhão ele pertence e ligue em seguida para o BPM citado, para acabar com as dúvidas.

Os funcionários do Corpo de Bombeiros não ligam para residências para informar sobre acidentes.

Ao receber ligação a cobrar e não reconhecer a pessoa no outro lado da linha, não prolongue em hipótese alguma a conversa.

É muito importante orientar as três principais fontes de informação dos bandidos: idosos, crianças e funcionários da casa. Eles não devem conversar com desconhecidos e os cuidados devem ser redobrados nas ligações a cobrar. Boa parte dos golpes bem-sucedidos começa nessas conversas por telefone.

As operadoras de telefonia não fazem ligações a cobrar nem solicitam que os clientes alterem a configuração de seu aparelho pelo teclado do celular.

Nenhum integrante de instituições do governo (Corpo de Bombeiros, Polícia Militar ou Civil) faz ligações a cobrar para informar sobre supostas ocorrências.

Se seu celular pré-pago for roubado, comunique o fato à operadora e faça um boletim de ocorrência na delegacia para evitar que ele seja usado por bandidos.

     
   

 

 
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