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25 de outubro de 2006

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Golpe nos caça-níqueis

Herdeiros de Castor são presos e
máfia é investigada

Fátima Sá

 

Na sangrenta guerra dos caça-níqueis na Zona Oeste do Rio, os golpes costumam ser a marretadas – nas máquinas. Nas últimas semanas, Rogério Andrade e Fernando de Miranda Iggnácio, os principais rivais nessa disputa, sofreram mais um golpe, desta vez sem sinal de violência. Apontados pelo Ministério Público como os chefões da máfia dos caça-níqueis, Rogério e Fernando foram presos. O primeiro foi interceptado no dia 18 de setembro por agentes da Polícia Federal na Rodovia Washington Luiz. Eles apuravam o assassinato de um policial federal, em Padre Miguel, quando escutas telefônicas sopraram o nome de Rogério. Suspeita-se que o crime tenha relação com os caça-níqueis. No feriado de 12 de outubro, Fernando foi surpreendido de pijama em seu apartamento no luxuoso condomínio Praia Guinle, em São Conrado, onde tem como vizinhos o ministro Gilberto Gil, a socialite Lilibeth Monteiro de Carvalho e a cantora Simone. Policiais da 33ª DP, em Realengo, prenderam o chefão, acusado de tentar matar um sargento da Polícia Militar, em abril, em Bangu. "Além deles dois, boa parte dos grupos foi presa. Com essa turma fora das ruas, a guerra deve diminuir", aposta o delegado Milton Olivier, titular da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco).

A guerra à qual o delegado se refere começou no fim da década passada. Rogério Costa de Andrade e Silva, 43 anos, e Fernando de Miranda Iggnácio, 41, disputam o espólio do bicheiro Castor de Andrade, morto em 1997, de infarto, aos 71 anos. Rogério é sobrinho de Castor. Fernando Iggnácio é genro. Antes de morrer, Castor teria deixado para Fernando o controle do jogo eletrônico. Caberia a Rogério cuidar do jogo do bicho. Ao perceber o potencial das maquininhas e a decadência do bicho, o sobrinho de Castor teria se lançado ao território de Fernando. De revide em revide, segue-se uma interminável disputa de poder, com caça-níqueis destruídos a marretadas, comerciantes intimidados e integrantes dos dois grupos assassinados à luz do dia. Nesse campo de batalha, estima-se, já morreram mais de cinqüenta pessoas. E as investigações apontam para o envolvimento de agentes da lei, policiais em sua maioria, que trabalham para preservar os interesses do crime, em vez de combatê-lo. Em agosto, o MP indiciou 29 pessoas por formação de quadrilha. No grupo havia dezessete policiais militares, dois civis e dois bombeiros. A Corregedoria da PM apertou o cerco, investigando outros quarenta policiais. Até terça (17), havia dezenove policiais militares presos no Batalhão Especial Prisional. "Todos serão submetidos a conselhos que vão avaliar a conveniência ou não de permanecerem na instituição. São transgressões graves e merecem uma análise minudente", diz o tenente-coronel Aristeu Leonardo, relações-públicas da corporação.

 
Caçada aos chefões: Rogério Andrade (à esq.) estava foragido havia três anos; Fernando (à dir.) foi preso sob a acusação de tentar matar um sargento da PM

Rogério foi preso ao lado de Roland Cavalcanti, soldado da PM reformado, que trabalhava como seu contador. Com ele, a polícia encontrou uma lista com as quantias que deveriam ser pagas a policiais já presos. No mesmo dia em que prendeu Fernando, a Polícia Civil deteve seu braço-direito, o cabo reformado da Marinha Marcos Paulo Moreira da Silva, o Marquinhos Sem Cérebro, que chegou a ser treinado por policiais americanos num curso na Academia de Polícia do Rio. Saiu de lá apto a fazer a segurança de autoridades – e acabou cuidando de uma "autoridade" com passagens pela polícia. Fernando foi condenado a nove anos de prisão por corrupção ativa, mas cumpria a pena em liberdade. Rogério tem ficha pior. Foi condenado a dezenove anos e dez meses de prisão pelo assassinato do próprio primo, Paulinho de Andrade, filho de Castor, e de seu motorista. Só ficou três meses na cadeia, tendo sido solto por habeas corpus. A decisão foi revista, e Rogério estava foragido havia mais de três anos.

Para o MP, que acusa os dois de formação de quadrilha, Rogério é dono da empresa Oeste Games, e Fernando, da Ivegê. Os dois disputam um rentável negócio movido a moedinhas de 25 centavos e também a notas de 50 reais. No Rio, chegou-se a estimar que esse mercado movimentasse quase 800 milhões de reais por ano. "Isso é chute. Não se tem a menor idéia de valores nem do número de máquinas que existem", reconhece Milton Olivier, da Draco. A julgar pelo padrão de vida dos dois chefões, que inclui carrões e apartamentos de luxo, o negócio é rendoso. Existe ainda a suspeita de que a máfia dos caça-níqueis atue em lavagem de dinheiro e contrabando. A ela estariam ligados também suspeitos de envolvimento com grupos de extermínio, transporte irregular e tráfico.

Espalhados por todo o Rio, os caça-níqueis, considerados jogos de azar, chegaram a ser proibidos por medida provisória, posteriormente cassada. Milhares de máquinas foram apreendidas. Mas um laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, contrário a vários outros, inclusive da Polícia Federal, atestou que o resultado do jogo dependia mais da habilidade do jogador do que do fator sorte. Com base nesse laudo, a empresa Adult Games (hoje Ivegê) conseguiu uma liminar na Justiça garantindo que suas máquinas não fossem apreendidas. Outras empresas fizeram o mesmo. Hoje, ainda que haja suspeita de adulteração das máquinas para evitar que o jogador ganhe, é necessário um mandado de busca e apreensão para que os caça-níqueis sejam periciados. Quando finalmente vai a julgamento, a contravenção, cuja pena varia de três meses a um ano, muitas vezes já prescreveu. E dificilmente alguém é preso por explorar caça-níqueis. O que o Ministério Público e as polícias têm feito é rastrear o envolvimento dos grupos com outros crimes. Al Capone foi pego assim.

     
   

 

 
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