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POLÍCIA
Golpe nos caça-níqueis Herdeiros
de Castor são presos e máfia é investigada Fátima
Sá
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Na
sangrenta guerra dos caça-níqueis na Zona Oeste do Rio, os golpes
costumam ser a marretadas nas máquinas. Nas últimas semanas,
Rogério Andrade e Fernando de Miranda Iggnácio, os principais rivais
nessa disputa, sofreram mais um golpe, desta vez sem sinal de violência.
Apontados pelo Ministério Público como os chefões da máfia
dos caça-níqueis, Rogério e Fernando foram presos. O primeiro
foi interceptado no dia 18 de setembro por agentes da Polícia Federal na
Rodovia Washington Luiz. Eles apuravam o assassinato de um policial federal, em
Padre Miguel, quando escutas telefônicas sopraram o nome de Rogério.
Suspeita-se que o crime tenha relação com os caça-níqueis.
No feriado de 12 de outubro, Fernando foi surpreendido de pijama em seu apartamento
no luxuoso condomínio Praia Guinle, em São Conrado, onde tem como
vizinhos o ministro Gilberto Gil, a socialite Lilibeth Monteiro de Carvalho e
a cantora Simone. Policiais da 33ª DP, em Realengo, prenderam o chefão,
acusado de tentar matar um sargento da Polícia Militar, em abril, em Bangu.
"Além deles dois, boa parte dos grupos foi presa. Com essa turma fora das
ruas, a guerra deve diminuir", aposta o delegado Milton Olivier, titular da Delegacia
de Repressão ao Crime Organizado (Draco). A
guerra à qual o delegado se refere começou no fim da década
passada. Rogério Costa de Andrade e Silva, 43 anos, e Fernando de Miranda
Iggnácio, 41, disputam o espólio do bicheiro Castor de Andrade,
morto em 1997, de infarto, aos 71 anos. Rogério é sobrinho de Castor.
Fernando Iggnácio é genro. Antes de morrer, Castor teria deixado
para Fernando o controle do jogo eletrônico. Caberia a Rogério cuidar
do jogo do bicho. Ao perceber o potencial das maquininhas e a decadência
do bicho, o sobrinho de Castor teria se lançado ao território de
Fernando. De revide em revide, segue-se uma interminável disputa de poder,
com caça-níqueis destruídos a marretadas, comerciantes intimidados
e integrantes dos dois grupos assassinados à luz do dia. Nesse campo de
batalha, estima-se, já morreram mais de cinqüenta pessoas. E as investigações
apontam para o envolvimento de agentes da lei, policiais em sua maioria, que trabalham
para preservar os interesses do crime, em vez de combatê-lo. Em agosto,
o MP indiciou 29 pessoas por formação de quadrilha. No grupo havia
dezessete policiais militares, dois civis e dois bombeiros. A Corregedoria da
PM apertou o cerco, investigando outros quarenta policiais. Até terça
(17), havia dezenove policiais militares presos no Batalhão Especial Prisional.
"Todos serão submetidos a conselhos que vão avaliar a conveniência
ou não de permanecerem na instituição. São transgressões
graves e merecem uma análise minudente", diz o tenente-coronel Aristeu
Leonardo, relações-públicas da corporação.
 |  | | Caçada
aos chefões: Rogério Andrade
(à esq.) estava foragido havia
três anos; Fernando (à dir.) foi
preso sob a acusação de tentar
matar um sargento da PM |
Rogério
foi preso ao lado de Roland Cavalcanti, soldado da PM reformado, que trabalhava
como seu contador. Com ele, a polícia encontrou uma lista com as quantias
que deveriam ser pagas a policiais já presos. No mesmo dia em que prendeu
Fernando, a Polícia Civil deteve seu braço-direito, o cabo reformado
da Marinha Marcos Paulo Moreira da Silva, o Marquinhos Sem Cérebro, que
chegou a ser treinado por policiais americanos num curso na Academia de Polícia
do Rio. Saiu de lá apto a fazer a segurança de autoridades
e acabou cuidando de uma "autoridade" com passagens pela polícia. Fernando
foi condenado a nove anos de prisão por corrupção ativa,
mas cumpria a pena em liberdade. Rogério tem ficha pior. Foi condenado
a dezenove anos e dez meses de prisão pelo assassinato do próprio
primo, Paulinho de Andrade, filho de Castor, e de seu motorista. Só ficou
três meses na cadeia, tendo sido solto por habeas corpus. A decisão
foi revista, e Rogério estava foragido havia mais de três anos.
Para o MP, que
acusa os dois de formação de quadrilha, Rogério é
dono da empresa Oeste Games, e Fernando, da Ivegê. Os dois disputam um rentável
negócio movido a moedinhas de 25 centavos e também a notas de 50
reais. No Rio, chegou-se a estimar que esse mercado movimentasse quase 800 milhões
de reais por ano. "Isso é chute. Não se tem a menor idéia
de valores nem do número de máquinas que existem", reconhece Milton
Olivier, da Draco. A julgar pelo padrão de vida dos dois chefões,
que inclui carrões e apartamentos de luxo, o negócio é rendoso.
Existe ainda a suspeita de que a máfia dos caça-níqueis atue
em lavagem de dinheiro e contrabando. A ela estariam ligados também suspeitos
de envolvimento com grupos de extermínio, transporte irregular e tráfico.
Espalhados
por todo o Rio, os caça-níqueis, considerados jogos de azar, chegaram
a ser proibidos por medida provisória, posteriormente cassada. Milhares
de máquinas foram apreendidas. Mas um laudo do Instituto de Criminalística
Carlos Éboli, contrário a vários outros, inclusive da Polícia
Federal, atestou que o resultado do jogo dependia mais da habilidade do jogador
do que do fator sorte. Com base nesse laudo, a empresa Adult Games (hoje Ivegê)
conseguiu uma liminar na Justiça garantindo que suas máquinas não
fossem apreendidas. Outras empresas fizeram o mesmo. Hoje, ainda que haja suspeita
de adulteração das máquinas para evitar que o jogador ganhe,
é necessário um mandado de busca e apreensão para que os
caça-níqueis sejam periciados. Quando finalmente vai a julgamento,
a contravenção, cuja pena varia de três meses a um ano, muitas
vezes já prescreveu. E dificilmente alguém é preso por explorar
caça-níqueis. O que o Ministério Público e as polícias
têm feito é rastrear o envolvimento dos grupos com outros crimes.
Al Capone foi pego assim. |