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25 de outubro de 2006

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Intrépidos tempos

Tutty Vasques

Quantas coisas bacanas duram vinte anos na vida da gente? O bar a que você ia em 1986 continua no mesmo lugar? Em caso positivo, você ainda vai a bar? Sua casa, seu carro, as roupas de que você mais gostava, o flanelinha ou o segurança da sua rua, os amigos do peito, os peitos das amigas, seu estado civil, seu emprego, chefes e vizinhos, suas manhas e manias, itinerários e pontos de vista, seus vícios, sua comida preferida, aquele político que você tanto admirava... Fala sério, quase nada se conserva inalterado por duas décadas. Cabelos e barriga, então, nem se fala! Ninguém é o mesmo o tempo todo, muitas vezes somos várias pessoas ao mesmo tempo.

Tente lembrar quem era você há vinte anos. Uma foto talvez ajude. Se achou? Mudamos nós e/ou tudo a nossa volta? É ou não é impressionante o tanto de gente e de acontecimentos que, importantíssimos na época, passaram batidos, como a mania do tamagochi, para um canto qualquer dos porões da memória de cada um? Conheço um cara que comprou um chinchila de estimação na virada do milênio e hoje, sinceramente, nem sabe o que é isso. "Chinchina? Eu, hein!"

Tudo é muito rápido. Em cinco anos, a pet shop da esquina já foi pizzaria, loja de bicicletas, franquia de pão de queijo e, mais recentemente, videolocadora. O tempo deleta, nos faz esquecer, por exemplo, os dias de aflição que passamos em 1999 com a anunciada chegada do bug do ano 2000. Viu-se depois que era o mico do milênio. O fato é que, às vésperas da data prevista para a "odisséia no espaço", Rivaldo foi eleito o melhor do mundo. Calma! Daqui a pouco você já terá esquecido disso de novo.

Esquecer pode ser uma arte do bem-viver, mas a brincadeira aqui proposta para produzir felicidade é outra. A questão é: quantas coisas bacanas duram vinte anos na vida da gente? Pode ser uma paixão, um sofá, um sapato, uma amizade, um aparelho celular, um programa, um percurso de caminhada, Carinhoso, do João Gilberto, queijo com goiabada, um sonho... Quem superar a casa das dez alternativas deve urgentemente buscar uma terapia, tanto quanto os leitores que não conseguirem descrever sequer uma situação prazerosa reincidente ao longo dos tempos. Bom é quando num domingão qualquer você se dá conta de um troço bacana que vive com você há um tempão, sem que a isso se atribua importância maior.

Comecei a pensar nessa bobagem quando voltava da Lapa com meus meninos – os gêmeos Antônio e Francisco, 11 anos –, comentando, às gargalhadas, os melhores momentos de Metegol, novo espetáculo da Intrépida Trupe, em cartaz na Fundição Progresso para comemorar duas décadas de atividades da companhia. Em cena, o vigor e a delicadeza de sempre: precisão acrobática, humor, dança arrojada, clima de picadeiro, emoção. São todos meio palhaços, meio bailarinas, atletas. "Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis", cantou para eles Caetano Veloso em Fora da Ordem (Circuladô, 1991). Coxas de acrobatas agora valorizadas pela criação coletiva em torno da bola dentro das quatro linhas do gramado.

E, se o assunto é futebol, a animação dos garotos no banco de trás do automóvel me liberou para cruzar o Aterro viajando pelo tempo em que assistimos, eu e minha filha mais velha (Júlia, 23 anos, à época com a idade deles), à performance espetacular dos macacos que a Intrépida Trupe fez sobrevoar e tomar de assalto (literalmente) a platéia do Teatro Villa-Lobos. Inesquecível!

Antônio e Francisco não são desse tempo, mas também já conheciam bem a turma do Metegol. Lembram de ter visto o incandescente Kronos e o mais recente Sonhos de Einstein. A cada espetáculo, a tal "investigação de linguagem" – no caso deles absolutamente necessária – não atrapalha o caráter lúdico da comunicação direta do grupo com o público infanto-juvenil-adulto. Os fãs na Intrépida não têm idade. Minha primeira vez foi com Júlia, no João Caetano. Quem assistiu à superprodução Pluft não esquece as coreografias fantasmagóricas do musical, a cargo da trupe. Júlia, aí, devia ter 4 anos.

Corta!

Nem reparei o Pão de Açúcar passar à esquerda, enquanto pensava que a Intrépida Trupe era uma dessas raras coisas bacanas que já duravam vinte anos na minha vida e no que há de mais profundo nela, o relacionamento com meus filhos. Que alegria! No poleiro dos anjos, os meninos falavam, falavam, falavam... "Não é, pai?"

É!

Eu estava particularmente feliz por reencontrar esses últimos vinte anos numa noite com a Intrépida na Fundição Progresso, que vive seu melhor momento nas últimas duas décadas de penúria quase absoluta. Tudo muito limpo, bem organizado, estacionamento fácil, casa cheia, espaços arrojados, cenotécnica ágil, primeiro-mundo. Perfeito Fortuna, outra coisa bacana que acompanho de antes de a Lapa voltar a ser a Lapa, está de parabéns. Vinte e tantos anos depois, a Fundição é o máximo. Todo carioca deveria ir lá para aplaudi-los. Saravá, Perfeito, Baltar, Vandinha, saravá a todos os espíritos voadores desta cidade.

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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