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CRÔNICA
Intrépidos
tempos Tutty
Vasques Quantas
coisas bacanas duram vinte anos na vida da gente? O bar a que você ia em
1986 continua no mesmo lugar? Em caso positivo, você ainda vai a bar? Sua
casa, seu carro, as roupas de que você mais gostava, o flanelinha ou o segurança
da sua rua, os amigos do peito, os peitos das amigas, seu estado civil, seu emprego,
chefes e vizinhos, suas manhas e manias, itinerários e pontos de vista,
seus vícios, sua comida preferida, aquele político que você
tanto admirava... Fala sério, quase nada se conserva inalterado por duas
décadas. Cabelos e barriga, então, nem se fala! Ninguém é
o mesmo o tempo todo, muitas vezes somos várias pessoas ao mesmo tempo.
Tente lembrar
quem era você há vinte anos. Uma foto talvez ajude. Se achou? Mudamos
nós e/ou tudo a nossa volta? É ou não é impressionante
o tanto de gente e de acontecimentos que, importantíssimos na época,
passaram batidos, como a mania do tamagochi, para um canto qualquer dos porões
da memória de cada um? Conheço um cara que comprou um chinchila
de estimação na virada do milênio e hoje, sinceramente, nem
sabe o que é isso. "Chinchina? Eu, hein!" Tudo
é muito rápido. Em cinco anos, a pet shop da esquina já foi
pizzaria, loja de bicicletas, franquia de pão de queijo e, mais recentemente,
videolocadora. O tempo deleta, nos faz esquecer, por exemplo, os dias de aflição
que passamos em 1999 com a anunciada chegada do bug do ano 2000. Viu-se depois
que era o mico do milênio. O fato é que, às vésperas
da data prevista para a "odisséia no espaço", Rivaldo foi eleito
o melhor do mundo. Calma! Daqui a pouco você já terá esquecido
disso de novo. Esquecer
pode ser uma arte do bem-viver, mas a brincadeira aqui proposta para produzir
felicidade é outra. A questão é: quantas coisas bacanas duram
vinte anos na vida da gente? Pode ser uma paixão, um sofá, um sapato,
uma amizade, um aparelho celular, um programa, um percurso de caminhada, Carinhoso,
do João Gilberto, queijo com goiabada, um sonho... Quem superar a casa
das dez alternativas deve urgentemente buscar uma terapia, tanto quanto os leitores
que não conseguirem descrever sequer uma situação prazerosa
reincidente ao longo dos tempos. Bom é quando num domingão qualquer
você se dá conta de um troço bacana que vive com você
há um tempão, sem que a isso se atribua importância maior.
Comecei
a pensar nessa bobagem quando voltava da Lapa com meus meninos os gêmeos
Antônio e Francisco, 11 anos , comentando, às gargalhadas,
os melhores momentos de Metegol, novo espetáculo da Intrépida
Trupe, em cartaz na Fundição Progresso para comemorar duas décadas
de atividades da companhia. Em cena, o vigor e a delicadeza de sempre: precisão
acrobática, humor, dança arrojada, clima de picadeiro, emoção.
São todos meio palhaços, meio bailarinas, atletas. "Tua batata da
perna moderna, a trupe intrépida em que fluis", cantou para eles Caetano
Veloso em Fora da Ordem (Circuladô, 1991). Coxas de acrobatas agora
valorizadas pela criação coletiva em torno da bola dentro das quatro
linhas do gramado. E,
se o assunto é futebol, a animação dos garotos no banco de
trás do automóvel me liberou para cruzar o Aterro viajando pelo
tempo em que assistimos, eu e minha filha mais velha (Júlia, 23 anos, à
época com a idade deles), à performance espetacular dos macacos
que a Intrépida Trupe fez sobrevoar e tomar de assalto (literalmente) a
platéia do Teatro Villa-Lobos. Inesquecível! Antônio
e Francisco não são desse tempo, mas também já conheciam
bem a turma do Metegol. Lembram de ter visto o incandescente Kronos
e o mais recente Sonhos de Einstein. A cada espetáculo, a tal "investigação
de linguagem" no caso deles absolutamente necessária não
atrapalha o caráter lúdico da comunicação direta do
grupo com o público infanto-juvenil-adulto. Os fãs na Intrépida
não têm idade. Minha primeira vez foi com Júlia, no João
Caetano. Quem assistiu à superprodução Pluft não
esquece as coreografias fantasmagóricas do musical, a cargo da trupe. Júlia,
aí, devia ter 4 anos. Corta!
Nem reparei o
Pão de Açúcar passar à esquerda, enquanto pensava
que a Intrépida Trupe era uma dessas raras coisas bacanas que já
duravam vinte anos na minha vida e no que há de mais profundo nela, o relacionamento
com meus filhos. Que alegria! No poleiro dos anjos, os meninos falavam, falavam,
falavam... "Não é, pai?" É!
Eu estava
particularmente feliz por reencontrar esses últimos vinte anos numa noite
com a Intrépida na Fundição Progresso, que vive seu melhor
momento nas últimas duas décadas de penúria quase absoluta.
Tudo muito limpo, bem organizado, estacionamento fácil, casa cheia, espaços
arrojados, cenotécnica ágil, primeiro-mundo. Perfeito Fortuna, outra
coisa bacana que acompanho de antes de a Lapa voltar a ser a Lapa, está
de parabéns. Vinte e tantos anos depois, a Fundição é
o máximo. Todo carioca deveria ir lá para aplaudi-los. Saravá,
Perfeito, Baltar, Vandinha, saravá a todos os espíritos voadores
desta cidade.
E-mails para o cronista:
tutty@nominimo.com.br |