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REPORTAGEM DE CAPA
Jóias de alta gastronomia Chefs
chocolatiers e lojas especializadas dão novo status ao chocolate Fernanda
Thedim*
André Nazareth/Strana
 | CACAU
NOIR: mais de 100 variedades de chocolate, incluindo
as de origem controlada (20 reais a barra com 100 gramas). Bombons custam
1,80 real a unidade. A chef Solange Wiltgen estuda a criação
de um novo sabor de bombom, que vai unir caramelo com o sofisticado sal de Guérande.
2432-8281 (Barra) e 2529-6977 (Leblon). |
O
aroma é intenso e a aparência, suavemente brilhante. Em contato com
a boca, revela maciez e amargor persistente, com sabor equilibrado e fino. Notas
familiares ao mundo dos vinhos? Sim, mas nesse caso o objeto da análise
e do desejo é um bombom. O cacau, assim como a uva, sofre
influência do clima e do solo onde é cultivado. Conclusão:
o chocolate, delícia feita do fruto do cacaueiro, pode apresentar elaborados
sabores, como um bom vinho. E, produzido com matérias-primas e técnicas
importadas, ganha cada vez mais espaço no Rio com a abertura de lojas especializadas
e a profissionalização dos chocolateiros ou chefs chocolatiers,
como eles se intitulam. "Há pouco tempo, a única referência
que os cariocas tinham de chocolates finos era a Kopenhagen", diz Christian Mattos,
dono da Les Amants du Chocolat, que usa matéria-prima belga a melhor
do mundo, garantem os especialistas como base de suas criações.
Responsável pelas barrinhas de chocolate oferecidas aos hóspedes
nas suítes do Copacabana Palace, ele está desenvolvendo linhas exclusivas
para o restaurante Garcia & Rodrigues e para a loja Clube Chocolate.
André Nazareth/Strana
 | CARÊME:
chocolate é o ponto fraco da chef Flávia Quaresma, que depois de
cursar o Cordon Bleu foi para a Lenôtre se especializar no assunto. "Sou
viciada", assume. A loucura de chocolate é uma invenção para
chocólatra nenhum botar defeito. São seis minidocinhos feitos com
chocolate belga (18 reais).
2537-2274. |
As
ofertas para os chocólatras andam refinadas e diversificadas. Bom para
adoradores como a ex-modelo e consultora de moda Adriana Mattoso. "É um
vício que não consigo largar. Nem pretendo. Tenho sempre um estoque
em casa, dos mais variados tipos", conta, rindo. As opções são
muitas: branco, ao leite ou amargo, feito com diferentes proporções
e procedências de cacau; combinado com bebidas, frutas secas e especiarias;
na forma de barrinhas, bombons, trufas; decorados ou não. Tanto requinte
tem preço meio amargo: o quilo dos chocolates gourmet custa, em média,
180 reais. Nativo das Américas do Sul e Central, o cacaueiro era utilizado
por maias e astecas, que empregavam sua semente para preparar uma bebida chamada
chocolatl "água amarga" na língua nahuatl.
Ao conquistarem o México, no século XVI, os espanhóis descobriram
a fruta, que em pouco tempo se difundiu pela Europa. Hoje é no continente
europeu que se concentram os melhores produtores, aqueles que transformam o cacau
no mais puro e refinado chocolate. A Bélgica, celeiro de luxuosas chocolaterias,
é o principal exportador de matéria-prima para as lojas cariocas.
André Nazareth/Strana
 | EÇA:
o chef belga Frédéric de Maeyer importa de seu país o chocolate
que usa como matéria-prima para as delícias que cria, como a taça
paixão (foto), que combina três tipos de musse (16 reais)
e bombons recheados (10 reais, a caixa com seis unidades).
2524-2300. |
É
com chocolate belga, feito com 100% de manteiga de cacau, que a chef Samantha
Aquim, outra chocólatra assumida "como todo dia", confessa ,
produz artesanalmente nove tipos de sofisticados bombons. Alçados ao patamar
de jóias, eles têm lugar de destaque na butique gastronômica
da família Aquim, no Leblon, onde ocupam uma vitrine especial. "Vendo mais
de 200 unidades por dia", contabiliza Samantha, que aprendeu o ofício na
renomada escola francesa de gastronomia Lenôtre. "Ficava olhando as aulas
de chocolateria e babando. Fiz todas que podia", lembra. Sabores nada triviais
como chocolate extra-amargo recheado com ganache de lavanda (um creme mais consistente,
à base de chocolate, "temperado" com lavanda) estão entre seus carros-chefes.
A chef criou microbarrinhas de 5 gramas de chocolate feito com cacau de procedências
diferentes, que são vendidas em luxuosas caixinhas sob a sigla AOC
Apelação de Origem Controlada. As de chocolate extra-amargo têm
73% de cacau da Tanzânia; as amargas, 67% de São Domingo; as de chocolate
ao leite, 33% de cacau de Java. Cada caixa, com trinta microbarrinhas, custa 36
reais.
André Nazareth/Strana
 | ENVIDIA:
a charmosa loja da Dias Ferreira, que virou point de celebridades, vende mais
de sessenta tipos de bombons fabricados com matéria-prima belga. Os chocolates
são vendidos a quilo (180 reais) e os bombons saem, em média, a
1,80 real a unidade.
2512-1313. |
A
Cacau Noir, da chocolateira Solange Wiltgen, é outra grife que investe
no lançamento de chocolates com especificação de origem.
"São pastilhas para degustação que vêm com informações
sobre a história e as características do cacau utilizado", explica
Adriana Wiltgen, filha e sócia de Solange, que escolheu matéria-prima
de lugares como São Tomé e Tanzânia. Novidade por aqui, o
uso de cacau das melhores plantações do mundo é hábito
há duas décadas na Europa. Frutos de famosas regiões produtoras,
como a Venezuela de onde, segundo especialistas, vem o melhor cacau do
planeta , agregam ainda mais valor ao produto final. O chocolate de origem,
portanto, é o supra-sumo da categoria, principalmente por sua pureza. Grande
parte da produção nacional leva, na composição, gordura
hidrogenada no lugar da manteiga de cacau, para baratear o custo. "As pessoas
estão descobrindo que o chocolate é muito mais complexo do que se
imagina. Foi o que aconteceu com o vinho anos atrás", diz Samantha. "Já
se tornou comum os clientes perguntarem qual a marca do chocolate que usamos",
conta Ana Cecília Jettar, dona da Envidia, no Leblon. Inaugurada na Páscoa,
a loja é um projeto antigo de Ana Cecília, que há doze anos
abandonou a carreira de programadora visual para produzir chocolate em casa. Com
decoração retrô, o lugar é um charme e vive cheio de
gente famosa. Ney Matogrosso é fã da trufa amarga. A atriz Giovanna
Antonelli também é habituée, assim como a colega Adriana
Esteves. Uma salinha com paredes de vidro, onde são feitos alguns bombons,
atrai a curiosidade das crianças. São mais de sessenta variedades
de sabores e formatos, incluindo bombons de damasco com gengibre, de laranja com
anis e até mesmo com recheio de ganache de laranja com pimenta-rosa.
André Nazareth/Strana
 | BEL
TRUFAS: a chocolateira Bel Carvalho começou fazendo ovos de
Páscoa. A paixão pela guloseima a levou a fazer trufas. "Eu adorava
as do Gula Gula do Hotel Marina", relembra. Foram doze anos até chegar
à receita atual, vendida em caixas de tamanhos variados (0,90 real, a unidade).
2239-2538. |
Para
quem entende do assunto, quanto maior a concentração de cacau, melhor
o chocolate. Por isso, os amargos, que têm entre 60% e até 90% de
massa de cacau e muito pouco açúcar, são os queridinhos dos
gourmets. "Quando abri o Carême, as pessoas reclamavam das sobremesas com
chocolate amargo", conta a chef Flávia Quaresma, vencedora do prêmio
de melhor sobremesa na edição especial Comer & Beber
O Melhor da Cidade 2006, de Veja Rio. Oito anos depois, a sobremesa
mais aclamada do cardápio tem no chocolate amargo sua base: a loucura de
chocolate, seis minidocinhos feitos de chocolate belga. "Via nos restaurantes
aqueles pratinhos com um pouquinho de cada sobremesa e tive a idéia de
fazer um só de chocolate", lembra. "Foi um presente que fiz para mim mesma",
diz a chocólatra assumida, colecionadora das embalagens dos chocolates
que traz de suas viagens.
André Nazareth/Strana
 | LES
AMANTS DU CHOCOLAT: Cristian Mattos aprendeu na Bélgica, onde
morou, a fazer bombons e trufas. Começou há pouco menos de três
anos e seus chocolates (180 reais o quilo) já são encontrados em
lugares como o Copacabana Palace.
3347-9390. |
Outra
referência quando se fala em chocolate é o restaurante Eça,
que funciona no subsolo da joalheria H. Stern do Centro. Premiado como chef revelação
na edição especial de gastronomia de Veja Rio, o belga Frédéric
de Maeyer entende do assunto. "Em 2005, passei quinze dias estagiando numa famosa
chocolateria da Bélgica, a Wittamer", conta. Maeyer usa o chocolate de
seu país em 80% das sobremesas do cardápio. Produz ainda deliciosos
bombons, estrelas de degustações que combinam chocolate com vinho
do Porto. "Vinte anos atrás, essa combinação seria vista
como uma heresia", afirma a sommelier Deise Novakoski. Na degustação
são servidos seis tipos de bombom, todos com a mesma concentração
de cacau e açúcar, mas com recheios variados. "Ao entrarem em contato
com o vinho do Porto, eles conduzem a diferentes sensações", explica
a sommelier.
André Nazareth/Strana
 | AQUIM:
a chef Samantha Aquim trouxe para a loja do Leblon as delícias que prepara
para o bufê da família. São nove sabores de bombons recheados
com ganache (4,50 reais a unidade) e caixas com barrinhas de origem controlada
(36 reais, trinta unidades).
2274-1001. |
Há
quem exagere na devoção à guloseima. "Tenho clientes que
comem uma caixa com 100 trufas assistindo a um capítulo de novela", revela
Bel Carvalho, da Bel Trufas, que produz mais de 2.000 unidades por dia. De lá
saem as bolinhas confeitadas com cacau em pó oferecidas às clientes
de lojas como Mixed, Maria Bonita, A-Teen, Lenny e Natan. Também estão
à venda no Garcia & Rodrigues. Existe uma explicação
científica para tanta devoção à iguaria: o chocolate
eleva a quantidade de serotonina no cérebro, o que dá uma sensação
de profundo bem-estar. "Quando estou mal-humorada, comer chocolate melhora meu
estado de espírito. É a melhor coisa do mundo", derrete-se a modelo
e atriz Isabel Wilker. A jogadora Virna, outra aficionada, só deixou o
chocolate de lado e por um curto período em nome do vôlei.
Durante os treinos para as Olimpíadas de Sydney, em 2000, sentiu dores
no pé. Fez a promessa: para conseguir estrear nos Jogos, ficaria um mês
sem comer chocolate. Cumpriu sua parte e jogou a primeira partida sem o menor
sinal de dor. Mas foi só terminar o jogo para Virna correr para a lanchonete
da Vila Olímpica. "Eu me acabei com um gigantesco sundae de chocolate",
diverte-se. *Colaborou
Telma Alvarenga
Gostinho
de infância
André Nazareth/Strana
 | | Fabiana:
brigadeiro colorido |
Tanta
sofisticação no mundo dos chocolates não tirou o lugar do
velho e bom brigadeiro. A atriz Lívia Rossi, a Juliana de Bicho do Mato,
novela da Record, é louca pela receita que aprendeu com a mãe. "Meu
segredo está na panela, que não é antiaderente. Ele agarra
dos lados e eu vou soltando e mexendo, até ficar pronto. Como na panela
ainda quente. Não sobra nada", conta. A fórmula simples e caseira
surgiu na época da II Guerra Mundial. "Diz-se que a forma final foi dada
por uma doceira mineira, que resolveu homenagear um dos candidatos à Presidência
nas eleições de 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes", conta Lucy Kaner,
dona da Colher de Pau (
2274-8295), onde se encontram os melhores doces da cidade, de acordo com a edição
Comer & Beber O Melhor da Cidade 2006, de Veja Rio. Mas
o tradicional docinho também vem ganhando sua cota de sofisticação.
"Fiz 1 500 brigadeiros para um casamento no Copacabana Palace", diz Fabiana D'Angelo
(
3322-4570), que faz brigadeiros decorados com confeitos coloridos e bombons do
doce tudo na área de serviço do apartamento da mãe.
"Já estou procurando um lugar maior", diz. |
Verdades
e mentiras A
sensação de prazer e bem-estar provocada por um pedaço de
chocolate derretendo na boca é causada pela serotonina liberada pelo cérebro.
Mas é preciso tomar cuidado. Alguns neurologistas acreditam que o chocolate
libera também substâncias que funcionam como estimulantes e podem
viciar pessoas predispostas. É o caso da arquiteta Fernanda Belém,
de 29 anos, que começou a fazer terapia para controlar a compulsão
em maio deste ano. "Nesta semana, meu terapeuta me deu uma meta: ficar dois dias
na semana sem comer chocolate." Não é fácil. Fernanda já
foi capaz de devorar uma barra de 200 gramas em minutos. "Entrei várias
vezes no supermercado de madrugada para comprar uma barrinha", lembra. O chocolate
tem ainda componentes que dilatam os vasos sanguíneos e pode acentuar crises
de enxaqueca em pessoas que sofrem desse mal. E, ao contrário do que muita
gente pensa, as versões diet não servem para quem quer perder peso.
Elas são feitas para os diabéticos, pois não contêm
açúcar. Em compensação, têm muito mais gordura,
o que aumenta seu valor calórico. Ou seja, engordam ainda mais. Quanto
à oleosidade da pele e ao surgimento de espinhas, a dermatologista Daniela
Alvarenga Assad tranqüiliza os adoradores da iguaria. "Estudos comprovam
que não há relação entre a ingestão de chocolate
e o aparecimento de acne", diz. | |