| |
|
|
 |
|
SOCIEDADE
Vão-se
os
anéis
Casal
top das altas-rodas cariocas,
Carmen e Tony Mayrink Veiga se
desfazem de obras de arte para
começar a saldar dívidas que
chegam a 17,4 milhões de reais
Cristina
Grillo
Ernani D'Almeida
 |
| Carmen: "Minha vida não
foram só chás, almoços, festas..."
|
Uma parede
vazia no grande salão do apartamento na Avenida Rui Barbosa,
no Flamengo, endereço de sobrenomes tradicionais cariocas,
tem incomodado a socialite Carmen Mayrink Veiga. Sempre que passava
por ali, ela avistava seu retrato, pintado por Cândido Portinari
em 1959, três anos antes de morrer. O quadro foi retirado
do lugar na semana passada. Junto a outras obras de arte do acervo
reunido por Carmen durante a vida, será leiloado na terça
(24) para ajudar a família Mayrink Veiga a saldar dívidas
que se acumularam nos últimos anos. "Ele levou seis meses
pintando o quadro", relembra. "Quando terminou, fiquei radiante.
Fez os meus olhos verdes, mas eles são cor de avelã.
Eu o adoro e vou sentir muita falta." O objeto de adoração
pode ajudar Carmen e seu marido, Tony, a abaterem 350.000 reais
lance mínimo pela obra de um débito
de 1,4 milhão de reais com os liquidantes do antigo Banco
Nacional.
Não
é o único passivo do casal Antônio Alfredo Mayrink
Veiga e Carmen Terezinha Solbiati Mayrink Veiga. Ao longo de várias
décadas, eles circularam pelo jet set internacional, freqüentaram
as melhores festas, participaram de caçadas com nobres europeus
e tornaram-se clientes disputados das maisons de alta-costura. Gastaram,
sem nenhuma preocupação, a fortuna amealhada pela
Casa Mayrink Veiga, empresa que desde a Guerra do Paraguai, em 1864,
fornecia armamentos, munição e equipamentos para as
Forças Armadas brasileiras. "Agora vamos resolver essa dívida",
garante Tony. Existe outra de cerca de 16 milhões de reais
com o Banco do Brasil. Um acordo entre as partes definiu que o pagamento
será feito parceladamente. "Esperamos arrecadar no leilão
o suficiente para começar a saldá-la também",
afirma Ivan Nunes Ferreira, advogado do casal. Além do Portinari,
estão no leilão onze telas de Milton Dacosta, um Di
Cavalcanti, um Lasar Segall, duas esculturas de médio porte
de Agostinelli e um par de quadros chineses da dinastia Qing (1780-1830).
Há ainda um belíssimo aparelho de jantar Imari, porcelana
japonesa feita desde o século XVI na região de Arita
e que ficou conhecida pelo nome do porto por onde sua produção
era escoada (leia mais na
coluna Especial).
A mulher
lindíssima que inspirou Portinari e que, entre as décadas
de 60 e 80, era figurinha fácil ao lado de sobrenomes como
Rothschild, Von Thyssen e Patiño hoje pouco circula por aí.
Há dez anos sofre de uma doença degenerativa semelhante
à esclerose múltipla, que restringe seus movimentos
mas não lhe roubou o porte altivo. Para sair, nas raras ocasiões
em que está sem dor, precisa de uma cadeira de rodas. Em
casa, sua distração é a leitura. Invariavelmente,
best-sellers. "Porque eles vão do nada para lugar nenhum",
explica. Adorou O Código da Vinci e odiou O Caçador
de Pipas. "É uma das coisas mais chatas que já
li." Tem horror à profusão de controles remotos que
o marido deixa a seu lado e resiste bravamente às tentativas
dele de ensiná-la a navegar na internet. "Aprender coisas
de que eu gosto é facílimo, mas as que eu detesto
não consigo", diz. Tony argumenta que, navegando, ela poderia
voltar a ver seus museus favoritos. "Eu prefiro voltar a andar a
ver o mundo inteiro pelo computador", responde, sem alterar a voz
em um mísero decibel.
Nos tempos
em que a vida era uma festa, o apartamento no Trocadéro,
área nobre de Paris, servia como ponto de partida para viagens
que incluíam pelo menos uma ida a antiquários das
cidades por onde passavam. "As pessoas acham que tive uma vida folclórica
só chás, almoços, jantares e compra
de roupas , mas não foi assim", afirma. Numa visita
a Londres conheceu a porcelana Imari. "Toda mulher do meu meio tinha
um aparelho de jantar da Companhia das Índias, ou então
um Limoges, dos mais modernos", conta. "Quando vi o prato Imari
num antiquário, fiquei apaixonada." De volta a Paris, buscou
mais informações no Museu Quimet, especializado em
arte asiática. "Ficava em frente lá de casa." Aprendeu
sobre a porcelana rara e descobriu que não havia aparelhos
completos à venda. Resolveu comprar tudo o que encontrasse:
reuniu louça em quantidade suficiente para servir jantares
para até 100 convidados. Para desgosto da dona, as peças
foram divididas em lotes para o leilão. "Infelizmente, não
se fazem mais jantares para 100 convidados. E, quando são
feitos, não se usa uma porcelana caríssima como a
Imari", explica a marchande Soraia Cals, que organiza a venda. "Por
isso, as peças foram divididas." Somados, os lotes têm
um preço mínimo de 180.000 reais.
O mesmo acaso
que levou Carmen a descobrir a porcelana Imari a fez encontrar as
obras do pintor Milton Dacosta. Grávida de Antenor, seu filho
mais velho, ela procurava uma obra de arte para compor a decoração
do quarto. "Vi o quadro de uma menina pulando corda, cheia de borboletas,
com um fundo azulão. Era perfeito." Entrou na galeria e comprou.
Anos depois, grávida de Antônia, adquiriu outra tela.
A partir daí, interessou-se por seu trabalho e chegou a ter,
nos bons tempos, quase trinta quadros feitos por ele. "Eu era muito
analfabeta em pintura brasileira", diz. "Só conhecia aqueles
artistas de quem era amiga: Portinari, Di Cavalcanti..." E só
levava para casa o que realmente gostava. Carmen recorda que nos
anos 70 deixou de comprar a preço de banana obras do pintor
colombiano Fernando Botero conhecido por suas figuras rotundas,
hoje valorizadíssimo no mercado internacional de arte. "Valentino
(estilista italiano), nosso amigo comum, um dia me ligou e disse
que tinha comprado seis quadros dele. Recomendou que eu fizesse
o mesmo, porque o preço ia subir", relata. "Mas eu não
gostei do trabalho. Jamais na vida me ocorreu comprar alguma coisa
por investimento." Em maio, num leilão de arte latino-americana
realizado pela Christie's em Nova York, telas e esculturas de Botero
foram arrematadas por preços que variavam de 168.000 a 1
milhão de dólares.
Apesar das
dívidas, o casal Mayrink Veiga ainda vive confortavelmente
no apartamento de quase 1.000 metros quadrados na verdade,
dois apartamentos em prédios vizinhos, que foram unidos.
Num dos cômodos ficam guardados vestidos e mais vestidos de
alta-costura o que sobrou depois de uma doação
feita para o acervo do Instituto de Moda Zuzu Angel, criado pela
amiga Hildegard Angel. Os terninhos Saint Laurent permaneceram.
"Não existe nada mais prático", afirma. Ficou também
um longo da mesma grife "shocking pink", explica a dona ,
usado na posse do presidente João Figueiredo, em 1979. A
peça tem história: há alguns anos, quando a
revista W perguntou a vários estilistas qual a melhor
peça que haviam criado, Yves Saint Laurent mencionou o tal
vestido shocking pink. "Vou acabar me desfazendo dele", lamenta.
"Outro dia tentei dá-lo de presente a minha neta (Maria,
16 anos, filha de Antônia) e ela não quis. Disse
que não é o seu estilo."
As mudanças
de vida tiveram um forte impacto sobre o casal. "Não ficamos
pobres, mas ela ficou doente e eu tive um infarto", afirma Tony,
73 anos (ele declara a idade, a mulher não). "Então,
é melhor liquidar a dívida nos desfazendo de coisas
que não nos interessam mais. Ter quadros guardados para quê?
Para levar para o Caju?" Os problemas, segundo ele, começaram
com o Plano Collor, em 1990. Uma de suas empresas, a SFB, havia
vencido uma concorrência para equipar corvetas da Marinha.
Tony afirma que o bloqueio das contas bancárias, somado à
falência da empresa inglesa Ferranti, de seu sócio
na empreitada, levou à derrocada: "Todo mundo acha que foi
por causa do nosso estilo de vida. Nunca pude me explicar".
Desfazer-se
de preciosidades não é exatamente uma novidade para
os Mayrink Veiga. Dos bens amealhados no período de vacas
gordas, um dos primeiros a ser vendidos foi o Rolls Royce modelo
Silver Cloud, ano 1951, comprado pelo então senador Gilberto
Miranda em 1996. Anos antes, o automóvel havia transportado
a filha do casal, Antônia, para seu casamento com Guilherme
Frering, herdeiro do grupo de mineração Caemi. "Não
sinto falta dessas coisas. Aproveitei bastante e não me arrependo
de nada", suspira Carmen. "Mas vou ficar com saudade de meu Portinari."
|
Cenas de uma vida glamourosa
Eduardo Clark
 |
| O Rolls Royce modelo
Silver Cloud: comprado
em leilão pelo então senador
Gilberto Miranda em 1996 |
Adhemar Veneziano
 |
| O casal em noite
de gala nos anos 70: Carmen era assídua
nas listas das mais bem vestidas
|
Reprodução/Ag. O
Globo
 |
|
No dia do casamento,
em 1956, o casal e o pai de Carmen, Enéas
Solbiati: início de uma vida de festas,
caçadas e muitos gastos
|
Ronaldo Zanon
 |
Luiz CarlosDavid
 |
| Os herdeiros:
Antônia e Guilherme
(à esq.) estão juntos desde
1985; Antenor e Patrícia Leal (à
dir.) separaram-se no ano passado, depois
de treze anos de casamento
|
|
|