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25 de julho de 2007

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SOCIEDADE

Vão-se os anéis

Casal top das altas-rodas cariocas,
Carmen e Tony Mayrink Veiga se
desfazem de obras de arte para
começar a saldar dívidas que
chegam a 17,4 milhões de reais

Cristina Grillo

 
Ernani D'Almeida
Carmen: "Minha vida não foram só chás, almoços, festas..."

Uma parede vazia no grande salão do apartamento na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo, endereço de sobrenomes tradicionais cariocas, tem incomodado a socialite Carmen Mayrink Veiga. Sempre que passava por ali, ela avistava seu retrato, pintado por Cândido Portinari em 1959, três anos antes de morrer. O quadro foi retirado do lugar na semana passada. Junto a outras obras de arte do acervo reunido por Carmen durante a vida, será leiloado na terça (24) para ajudar a família Mayrink Veiga a saldar dívidas que se acumularam nos últimos anos. "Ele levou seis meses pintando o quadro", relembra. "Quando terminou, fiquei radiante. Fez os meus olhos verdes, mas eles são cor de avelã. Eu o adoro e vou sentir muita falta." O objeto de adoração pode ajudar Carmen e seu marido, Tony, a abaterem 350.000 reais – lance mínimo pela obra – de um débito de 1,4 milhão de reais com os liquidantes do antigo Banco Nacional.

Não é o único passivo do casal Antônio Alfredo Mayrink Veiga e Carmen Terezinha Solbiati Mayrink Veiga. Ao longo de várias décadas, eles circularam pelo jet set internacional, freqüentaram as melhores festas, participaram de caçadas com nobres europeus e tornaram-se clientes disputados das maisons de alta-costura. Gastaram, sem nenhuma preocupação, a fortuna amealhada pela Casa Mayrink Veiga, empresa que desde a Guerra do Paraguai, em 1864, fornecia armamentos, munição e equipamentos para as Forças Armadas brasileiras. "Agora vamos resolver essa dívida", garante Tony. Existe outra de cerca de 16 milhões de reais com o Banco do Brasil. Um acordo entre as partes definiu que o pagamento será feito parceladamente. "Esperamos arrecadar no leilão o suficiente para começar a saldá-la também", afirma Ivan Nunes Ferreira, advogado do casal. Além do Portinari, estão no leilão onze telas de Milton Dacosta, um Di Cavalcanti, um Lasar Segall, duas esculturas de médio porte de Agostinelli e um par de quadros chineses da dinastia Qing (1780-1830). Há ainda um belíssimo aparelho de jantar Imari, porcelana japonesa feita desde o século XVI na região de Arita e que ficou conhecida pelo nome do porto por onde sua produção era escoada (leia mais na coluna Especial).

A mulher lindíssima que inspirou Portinari e que, entre as décadas de 60 e 80, era figurinha fácil ao lado de sobrenomes como Rothschild, Von Thyssen e Patiño hoje pouco circula por aí. Há dez anos sofre de uma doença degenerativa semelhante à esclerose múltipla, que restringe seus movimentos mas não lhe roubou o porte altivo. Para sair, nas raras ocasiões em que está sem dor, precisa de uma cadeira de rodas. Em casa, sua distração é a leitura. Invariavelmente, best-sellers. "Porque eles vão do nada para lugar nenhum", explica. Adorou O Código da Vinci e odiou O Caçador de Pipas. "É uma das coisas mais chatas que já li." Tem horror à profusão de controles remotos que o marido deixa a seu lado e resiste bravamente às tentativas dele de ensiná-la a navegar na internet. "Aprender coisas de que eu gosto é facílimo, mas as que eu detesto não consigo", diz. Tony argumenta que, navegando, ela poderia voltar a ver seus museus favoritos. "Eu prefiro voltar a andar a ver o mundo inteiro pelo computador", responde, sem alterar a voz em um mísero decibel.

Nos tempos em que a vida era uma festa, o apartamento no Trocadéro, área nobre de Paris, servia como ponto de partida para viagens que incluíam pelo menos uma ida a antiquários das cidades por onde passavam. "As pessoas acham que tive uma vida folclórica – só chás, almoços, jantares e compra de roupas –, mas não foi assim", afirma. Numa visita a Londres conheceu a porcelana Imari. "Toda mulher do meu meio tinha um aparelho de jantar da Companhia das Índias, ou então um Limoges, dos mais modernos", conta. "Quando vi o prato Imari num antiquário, fiquei apaixonada." De volta a Paris, buscou mais informações no Museu Quimet, especializado em arte asiática. "Ficava em frente lá de casa." Aprendeu sobre a porcelana rara e descobriu que não havia aparelhos completos à venda. Resolveu comprar tudo o que encontrasse: reuniu louça em quantidade suficiente para servir jantares para até 100 convidados. Para desgosto da dona, as peças foram divididas em lotes para o leilão. "Infelizmente, não se fazem mais jantares para 100 convidados. E, quando são feitos, não se usa uma porcelana caríssima como a Imari", explica a marchande Soraia Cals, que organiza a venda. "Por isso, as peças foram divididas." Somados, os lotes têm um preço mínimo de 180.000 reais.

O mesmo acaso que levou Carmen a descobrir a porcelana Imari a fez encontrar as obras do pintor Milton Dacosta. Grávida de Antenor, seu filho mais velho, ela procurava uma obra de arte para compor a decoração do quarto. "Vi o quadro de uma menina pulando corda, cheia de borboletas, com um fundo azulão. Era perfeito." Entrou na galeria e comprou. Anos depois, grávida de Antônia, adquiriu outra tela. A partir daí, interessou-se por seu trabalho e chegou a ter, nos bons tempos, quase trinta quadros feitos por ele. "Eu era muito analfabeta em pintura brasileira", diz. "Só conhecia aqueles artistas de quem era amiga: Portinari, Di Cavalcanti..." E só levava para casa o que realmente gostava. Carmen recorda que nos anos 70 deixou de comprar a preço de banana obras do pintor colombiano Fernando Botero – conhecido por suas figuras rotundas, hoje valorizadíssimo no mercado internacional de arte. "Valentino (estilista italiano), nosso amigo comum, um dia me ligou e disse que tinha comprado seis quadros dele. Recomendou que eu fizesse o mesmo, porque o preço ia subir", relata. "Mas eu não gostei do trabalho. Jamais na vida me ocorreu comprar alguma coisa por investimento." Em maio, num leilão de arte latino-americana realizado pela Christie's em Nova York, telas e esculturas de Botero foram arrematadas por preços que variavam de 168.000 a 1 milhão de dólares.

Apesar das dívidas, o casal Mayrink Veiga ainda vive confortavelmente no apartamento de quase 1.000 metros quadrados – na verdade, dois apartamentos em prédios vizinhos, que foram unidos. Num dos cômodos ficam guardados vestidos e mais vestidos de alta-costura – o que sobrou depois de uma doação feita para o acervo do Instituto de Moda Zuzu Angel, criado pela amiga Hildegard Angel. Os terninhos Saint Laurent permaneceram. "Não existe nada mais prático", afirma. Ficou também um longo da mesma grife – "shocking pink", explica a dona –, usado na posse do presidente João Figueiredo, em 1979. A peça tem história: há alguns anos, quando a revista W perguntou a vários estilistas qual a melhor peça que haviam criado, Yves Saint Laurent mencionou o tal vestido shocking pink. "Vou acabar me desfazendo dele", lamenta. "Outro dia tentei dá-lo de presente a minha neta (Maria, 16 anos, filha de Antônia) e ela não quis. Disse que não é o seu estilo."

As mudanças de vida tiveram um forte impacto sobre o casal. "Não ficamos pobres, mas ela ficou doente e eu tive um infarto", afirma Tony, 73 anos (ele declara a idade, a mulher não). "Então, é melhor liquidar a dívida nos desfazendo de coisas que não nos interessam mais. Ter quadros guardados para quê? Para levar para o Caju?" Os problemas, segundo ele, começaram com o Plano Collor, em 1990. Uma de suas empresas, a SFB, havia vencido uma concorrência para equipar corvetas da Marinha. Tony afirma que o bloqueio das contas bancárias, somado à falência da empresa inglesa Ferranti, de seu sócio na empreitada, levou à derrocada: "Todo mundo acha que foi por causa do nosso estilo de vida. Nunca pude me explicar".

Desfazer-se de preciosidades não é exatamente uma novidade para os Mayrink Veiga. Dos bens amealhados no período de vacas gordas, um dos primeiros a ser vendidos foi o Rolls Royce modelo Silver Cloud, ano 1951, comprado pelo então senador Gilberto Miranda em 1996. Anos antes, o automóvel havia transportado a filha do casal, Antônia, para seu casamento com Guilherme Frering, herdeiro do grupo de mineração Caemi. "Não sinto falta dessas coisas. Aproveitei bastante e não me arrependo de nada", suspira Carmen. "Mas vou ficar com saudade de meu Portinari."

 

Os tesouros da coleção dos Mayrink Veiga

Fotos Divulgação
Figura, de Dacosta: o casal teve
trinta
obras do pintor. Lance
inicial de 80 000 reais
A obra-prima: Portinari exigia Carmen pronta em seu ateliê às 7 horas. Mínimo de 350 000 reais

Igreja com Campanário: a aquarela de Lasar Segall foi pintada em 1925. A tela tem preço mínimo estipulado em 45 000 reais

Quadro da dinastia Qing, comprado pelo pai de Tony em Londres há mais de cinqüenta anos e dado de presente ao casal. Lance inicial de 125 000 reais

Aparelho de jantar de porcelana japonesa Imari: mais de 100 peças divididas em catorze lotes, que, somados, custam a partir de 180 000 reais


Cenas de uma vida glamourosa

 

Eduardo Clark
O Rolls Royce modelo Silver Cloud: comprado em leilão pelo então senador Gilberto Miranda em 1996

Adhemar Veneziano
O casal em noite de gala nos anos 70: Carmen era assídua nas listas das mais bem vestidas

Reprodução/Ag. O Globo

No dia do casamento, em 1956, o casal e o pai de Carmen, Enéas Solbiati: início de uma vida de festas, caçadas e muitos gastos


Ronaldo Zanon
Luiz CarlosDavid
Os herdeiros: Antônia e Guilherme (à esq.) estão juntos desde 1985; Antenor e Patrícia Leal (à dir.) separaram-se no ano passado, depois de treze anos de casamento

         
     

 

 
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