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25 de abril de 2007

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A dama de ferro

Produtora temperamental,
Myrian Dauelsberg traz ao
Rio o melhor dos clássicos

Débora Ghivelder

 

Felipe Varanda/Strana
Myrian, 67 anos: "Quem faz algo importante tem inimigos"


Pense nas grandes estrelas da música clássica, da dança e do canto lírico que se apresentaram no Brasil dos anos 80 para cá. Os tenores Luciano Pavarotti, Placido Domingo e José Carreras, o pianista Evgeny Kissin, o violinista Itzhak Perlman, o violoncelista Mstislav Rostropovich, o maestro Simon Rattle, as cantoras Jessye Norman, Montserrat Caballé e Kiri Te Kanawa, as companhias Kirov Ballet, New York City Ballet e de Maurice Béjart... Todos vieram por iniciativa da produtora Myrian Dauelsberg. Ela comanda com mão-de-ferro a Dell'Arte Soluções Culturais, que está completando 25 anos. Nascida em 1982, de forma acanhada, na biblioteca de seu apartamento no Parque Guinle, em Laranjeiras, a empresa hoje ocupa um casarão de três andares no mesmo bairro. Passou de um único funcionário para uma equipe de trinta pessoas. Com um histórico de 3 000 eventos, a Dell'Arte já vendeu 4 000 assinaturas para a temporada de concertos 2007. A primeira atração, nesta quinta-feira (26), no Teatro Municipal, é o recital do italiano Capella della Pietá de Turchini, conjunto-sensação na Europa, que recupera o obscuro repertório napolitano barroco.

Myrian é enérgica. E vaidosa. O cabelo escuro, as unhas vermelhas e os inseparáveis xales e echarpes sugerem uma mistura da cigana Carmen com a diva grega Maria Callas. Ela acusa o sangue espanhol. "Minha avó era catalã", conta, atribuindo às origens seu temperamento forte. Trabalhar com tantas celebridades musicais foi natural para quem sempre teve intimidade com o grand monde. Nascida Myrian Anna Lucci, ela é filha da violinista Mariuccia Iacovino e enteada do pianista Arnaldo Estrella. Cresceu tendo na sala de casa, fosse no Rio, fosse em Paris, figuras como Portinari, Jorge Amado, Di Cavalcanti, Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Camargo Guarnieiri e o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. "A casa do Estrella era ponto de encontro de músicos e intelectuais de esquerda", recorda o maestro Henrique Morelenbaum, que era assíduo no salão da Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. Ainda menina, estudou num internato na França, onde conviveu com herdeiras de ditadores da América Central e princesas iranianas. Formou-se em piano no Conservatório de Paris e em música na Sorbonne. Deu recitais pela Europa e casou-se com o violoncelista alemão Peter Dauelsberg, seu companheiro há mais de quarenta anos.

A guinada da carreira artística para a administrativa veio em 1974, quando assumiu a direção da Sala Cecília Meireles. Saiu de lá em 1979 para ocupar a chefia de gabinete do Ministério da Educação e Cultura na gestão de Eduardo Portella. Um ano depois virou assessora do governador Chagas Freitas e integrou o Conselho Estadual de Cultura. "Ela levou muita gente boa para se apresentar na Cecília Meireles", afirma o compositor Edino Krieger. "Em 1975, montamos a primeira Bienal de Música Brasileira. Um marco." Datam daquela época as primeiras atrações do Leste Europeu importadas pela produtora. "Era difícil", lembra. "O governo militar não queria saber de intercâmbio com a então União Soviética."

Nada que fosse obstáculo para ela, com seu jeito trator de ser. "Myrian não é fácil: fiz oito anos de terapia para poder trabalhar com ela", revela o filho e sócio, o economista Steffen Dauelsberg. "É uma mulher temperamental", reforça Morelenbaum. Os mais críticos substituem o temperamental por "insuportável", adjetivo usado por uma conhecida produtora artística ao se referir à dona da Dell'Arte. "Todo mundo que faz algo importante tem inimigos", defende-se. "A pessoa pode escolher entre agradar a gregos e troianos e não construir nada e fazer as coisas pagando um preço por isso." Depois de um susto e uma internação hospitalar, há cinco anos Myrian abandonou os três maços de cigarro que fumava diariamente. "Quando vi a quantidade de flores mandadas até por desafetos, achei que ia morrer mesmo", faz troça. Aos 67 anos, ela se divide entre a empresa e a função de professora na Escola de Música da UFRJ. E prepara-se para cumprir mais uma temporada de programação erudita, cujo ápice é a apresentação do violoncelista franco-chinês Yo Yo Ma, em junho, pela primeira vez na cidade. Um astro à altura das celebrações de bodas de prata. Os amigos, e os inimigos, podem preparar as flores.

 

Álbum de Sucessos

Fotos Álbum de família
Com o regente americano Lorin
Maazel: uma noite de conversas
sobre estilos musicais
Com o coreógrafo francês Maurice Béjart, em 1997: apesar do joelho machucado, ele badalou por todas
as festas

Com o violoncelista russo Rostropovich: depois dos concertos, ele só queria jantar na casa da mãe de Myrian Com a soprano espanhola Montserrat Caballé: banquetes para a diva boa de garfo

     
   

 

 
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