| |
| |  | |
PERFIL
A dama de ferro Produtora temperamental,
Myrian Dauelsberg traz ao Rio o melhor dos clássicos Débora
Ghivelder
Felipe Varanda/Strana
 |
| Myrian, 67 anos: "Quem faz algo importante tem inimigos" |
Pense nas grandes estrelas da
música clássica, da dança e do canto lírico que se
apresentaram no Brasil dos anos 80 para cá. Os tenores Luciano Pavarotti,
Placido Domingo e José Carreras, o pianista Evgeny Kissin, o violinista
Itzhak Perlman, o violoncelista Mstislav Rostropovich, o maestro Simon Rattle,
as cantoras Jessye Norman, Montserrat Caballé e Kiri Te Kanawa, as companhias
Kirov Ballet, New York City Ballet e de Maurice Béjart... Todos vieram
por iniciativa da produtora Myrian Dauelsberg. Ela comanda com mão-de-ferro
a Dell'Arte Soluções Culturais, que está completando 25 anos.
Nascida em 1982, de forma acanhada, na biblioteca de seu apartamento no Parque
Guinle, em Laranjeiras, a empresa hoje ocupa um casarão de três andares
no mesmo bairro. Passou de um único funcionário para uma equipe
de trinta pessoas. Com um histórico de 3 000 eventos, a Dell'Arte já
vendeu 4 000 assinaturas para a temporada de concertos 2007. A primeira atração,
nesta quinta-feira (26), no Teatro Municipal, é o recital do italiano Capella
della Pietá de Turchini, conjunto-sensação na Europa, que
recupera o obscuro repertório napolitano barroco.
Myrian é enérgica. E vaidosa. O cabelo escuro, as unhas vermelhas
e os inseparáveis xales e echarpes sugerem uma mistura da cigana Carmen
com a diva grega Maria Callas. Ela acusa o sangue espanhol. "Minha avó
era catalã", conta, atribuindo às origens seu temperamento forte.
Trabalhar com tantas celebridades musicais foi natural para quem sempre teve intimidade
com o grand monde. Nascida Myrian Anna Lucci, ela é filha da violinista
Mariuccia Iacovino e enteada do pianista Arnaldo Estrella. Cresceu tendo na sala
de casa, fosse no Rio, fosse em Paris, figuras como Portinari, Jorge Amado, Di
Cavalcanti, Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Camargo Guarnieiri e o casal Jean-Paul
Sartre e Simone de Beauvoir. "A casa do Estrella era ponto de encontro de músicos
e intelectuais de esquerda", recorda o maestro Henrique Morelenbaum, que era assíduo
no salão da Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. Ainda menina, estudou num
internato na França, onde conviveu com herdeiras de ditadores da América
Central e princesas iranianas. Formou-se em piano no Conservatório de Paris
e em música na Sorbonne. Deu recitais pela Europa e casou-se com o violoncelista
alemão Peter Dauelsberg, seu companheiro há mais de quarenta anos.
A guinada da carreira artística
para a administrativa veio em 1974, quando assumiu a direção da
Sala Cecília Meireles. Saiu de lá em 1979 para ocupar a chefia de
gabinete do Ministério da Educação e Cultura na gestão
de Eduardo Portella. Um ano depois virou assessora do governador Chagas Freitas
e integrou o Conselho Estadual de Cultura. "Ela levou muita gente boa para se
apresentar na Cecília Meireles", afirma o compositor Edino Krieger. "Em
1975, montamos a primeira Bienal de Música Brasileira. Um marco." Datam
daquela época as primeiras atrações do Leste Europeu importadas
pela produtora. "Era difícil", lembra. "O governo militar não queria
saber de intercâmbio com a então União Soviética."
Nada que fosse obstáculo para ela,
com seu jeito trator de ser. "Myrian não é fácil: fiz oito
anos de terapia para poder trabalhar com ela", revela o filho e sócio,
o economista Steffen Dauelsberg. "É uma mulher temperamental", reforça
Morelenbaum. Os mais críticos substituem o temperamental por "insuportável",
adjetivo usado por uma conhecida produtora artística ao se referir à
dona da Dell'Arte. "Todo mundo que faz algo importante tem inimigos", defende-se.
"A pessoa pode escolher entre agradar a gregos e troianos e não construir
nada e fazer as coisas pagando um preço por isso." Depois de um susto e
uma internação hospitalar, há cinco anos Myrian abandonou
os três maços de cigarro que fumava diariamente. "Quando vi a quantidade
de flores mandadas até por desafetos, achei que ia morrer mesmo", faz troça.
Aos 67 anos, ela se divide entre a empresa e a função de professora
na Escola de Música da UFRJ. E prepara-se para cumprir mais uma temporada
de programação erudita, cujo ápice é a apresentação
do violoncelista franco-chinês Yo Yo Ma, em junho, pela primeira vez na
cidade. Um astro à altura das celebrações de bodas de prata.
Os amigos, e os inimigos, podem preparar as flores.
|