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25 de abril de 2007

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CRÔNICA
  

CRÔNICA

O Maraca é nosso?

Tutty Vasques

É imenso o tempo perdido, mas ainda restam as finais do estadual para que aquela gente boa da Secretaria de Esportes tente entender por que a vida do torcedor é um inferno no Maracanã. A três meses do Pan, periga o campeonato acabar sem que nada se tenha aprendido sobre organização de estádios. Nossas autoridades – aí incluídos meus colegas da imprensa esportiva – chegam ao Maracanã de elevador. Têm, se tanto, uma vaga idéia do que acontece fora de campo e das tribunas azuis. Não por mal. Talvez não apareçam nas arquibancadas porque é uma dificuldade horrorosa chegar lá.

Todo grande jogo é a mesma coisa: flanelinha a 10 reais, cambista vendendo ingresso mais barato que nas bilheterias, tropa de choque, cavalos, cães, motoristas nervosos, palavrões, empurra-empurra nas roletas, mau cheiro... Ufa! É com prazer que, na subida da rampa, a lei se faz presente com uma revista educada e minuciosa. Não passa nem garrafinha de água mineral. Vinte passos adiante, no entanto, latas de cerveja são artigo exclusivo de nove em cada dez ambulantes. Em nenhum outro lugar do mundo – nem no Baixo Gávea – é tão fácil encher a cara quanto nas arquibancadas do "maior do mundo". São centenas, milhares de isopores abastecidos e reabastecidos a todo instante para regar a euforia de uns e afogar a mágoa de outros, de acordo com o andamento do placar.

Não tenho opinião formada sobre a propriedade da venda de bebidas alcoólicas em estádios de futebol, mas imagina o drama do torcedor num lugar onde comprar cerveja é facílimo e fazer xixi, um martírio. Tenho certeza de que meus colegas da imprensa e a turma da Secretaria de Esportes não têm freqüentado os banheiros onde o povão se alivia por todos os cantos de parede nos intervalos dos jogos. Nojento, tchan!

O povo também não é fácil! Desde que o concreto ganhou assentos, ninguém mais se senta em clássicos no Maracanã. Há motivos para isso: os corredores de acesso aos tamboretes são ocupados por torcedores que teimam em ver o jogo dali, e de pé, sem que ninguém tome providências. Não há funcionários instruídos para isso. A ordem nas dependências populares do estádio está a cargo unicamente de brutamontes da PM equipados para atuar em conflitos. Ninguém está ali para prevenir, orientar. Não há quem controle o movimento das massas bloqueando setores já lotados ou abrindo espaço maior para a torcida em evidente superioridade numérica no estádio. Sei lá como se faz, mas deve haver algum estudo a respeito, claro que há!

Senhores, crianças, famílias inteiras não têm a quem recorrer. O desconforto seria menos penoso, por exemplo, se recomendassem aos menos preparados para a guerra meia hora de espera em seus lugares após o término da partida, para evitar o sufoco no anel exterior do estádio. Só vendo o que é aquilo: milhares de pessoas ombro a ombro, sem ar para respirar num calor de 43 graus... De vez em quando, a multidão é rasgada por "bondes" de torcidas organizadas do seu time entoando cânticos assustadores. Pânico!

Quando, enfim, atingimos a rampa de descida, onde o aperto afrouxa e a ventilação refresca, surpresa: pela outra rampa, a que vem do anel superior, só passam carros, poucos por sinal. Só no jogo seguinte fui entender a mecânica da coisa: as saídas de escape lá no alto das arquibancadas foram inteiramente bloqueadas por camarotes envidraçados e geminados sob o teto da marquise. Isso quer dizer o seguinte: as vias de escoamento do público foram reduzidas em 50% para garantir tamanha mordomia à turma que a tudo assiste em ambientes refrigerados, com garçom e banheiro limpinho.

Nada contra, não fosse a burrice da obra em matéria de segurança da platéia. Tudo, aliás, a favor do conforto, inclusive o direito de pagar por ele. Não entendo por que voltaram a ter preços populares as cadeiras brancas, no centro do estádio, que antes eram sobretaxadas a título de garantir reservas comuns a torcidas civilizadas ainda que de cores adversárias. Acabaram com isso, mas, repito, não acredito que alguém faça uma coisa dessas por mal. O Maracanã está desse jeito, sem dono, porque ninguém vê o que acontece lá dentro – nem a Secretaria de Esportes nem a imprensa.

Não importa quem será o campeão do Rio de Janeiro no primeiro domingo de maio, as torcidas foram todas derrotadas na reinauguração do gigante Maracanã. Persiste a aventura de torcer no estádio. Pena! Garantir a segurança de quem faz a festa nas arquibancadas deveria ser questão de honra para o governo do estado: se não for possível botar ordem no Maraca, francamente, melhor chamar as Forças Armadas para o próximo clássico.

e-mail: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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