| |
| |  | |
CRÔNICA O
Maraca é nosso? Tutty Vasques
É imenso o tempo perdido, mas ainda restam as finais
do estadual para que aquela gente boa da Secretaria de Esportes tente entender
por que a vida do torcedor é um inferno no Maracanã. A três
meses do Pan, periga o campeonato acabar sem que nada se tenha aprendido sobre
organização de estádios. Nossas autoridades aí
incluídos meus colegas da imprensa esportiva chegam ao Maracanã
de elevador. Têm, se tanto, uma vaga idéia do que acontece fora de
campo e das tribunas azuis. Não por mal. Talvez não apareçam
nas arquibancadas porque é uma dificuldade horrorosa chegar lá.
Todo
grande jogo é a mesma coisa: flanelinha a 10 reais, cambista vendendo ingresso
mais barato que nas bilheterias, tropa de choque, cavalos, cães, motoristas
nervosos, palavrões, empurra-empurra nas roletas, mau cheiro... Ufa! É
com prazer que, na subida da rampa, a lei se faz presente com uma revista educada
e minuciosa. Não passa nem garrafinha de água mineral. Vinte passos
adiante, no entanto, latas de cerveja são artigo exclusivo de nove em cada
dez ambulantes. Em nenhum outro lugar do mundo nem no Baixo Gávea
é tão fácil encher a cara quanto nas arquibancadas
do "maior do mundo". São centenas, milhares de isopores abastecidos e reabastecidos
a todo instante para regar a euforia de uns e afogar a mágoa de outros,
de acordo com o andamento do placar.
Não tenho opinião formada sobre a propriedade da venda de bebidas
alcoólicas em estádios de futebol, mas imagina o drama do torcedor
num lugar onde comprar cerveja é facílimo e fazer xixi, um martírio.
Tenho certeza de que meus colegas da imprensa e a turma da Secretaria de Esportes
não têm freqüentado os banheiros onde o povão se alivia
por todos os cantos de parede nos intervalos dos jogos. Nojento, tchan!
O povo também não é
fácil! Desde que o concreto ganhou assentos, ninguém mais se senta
em clássicos no Maracanã. Há motivos para isso: os corredores
de acesso aos tamboretes são ocupados por torcedores que teimam em ver
o jogo dali, e de pé, sem que ninguém tome providências. Não
há funcionários instruídos para isso. A ordem nas dependências
populares do estádio está a cargo unicamente de brutamontes da PM
equipados para atuar em conflitos. Ninguém está ali para prevenir,
orientar. Não há quem controle o movimento das massas bloqueando
setores já lotados ou abrindo espaço maior para a torcida em evidente
superioridade numérica no estádio. Sei lá como se faz, mas
deve haver algum estudo a respeito, claro que há!
Senhores, crianças, famílias inteiras não têm a quem
recorrer. O desconforto seria menos penoso, por exemplo, se recomendassem aos
menos preparados para a guerra meia hora de espera em seus lugares após
o término da partida, para evitar o sufoco no anel exterior do estádio.
Só vendo o que é aquilo: milhares de pessoas ombro a ombro, sem
ar para respirar num calor de 43 graus... De vez em quando, a multidão
é rasgada por "bondes" de torcidas organizadas do seu time entoando cânticos
assustadores. Pânico! Quando,
enfim, atingimos a rampa de descida, onde o aperto afrouxa e a ventilação
refresca, surpresa: pela outra rampa, a que vem do anel superior, só passam
carros, poucos por sinal. Só no jogo seguinte fui entender a mecânica
da coisa: as saídas de escape lá no alto das arquibancadas foram
inteiramente bloqueadas por camarotes envidraçados e geminados sob o teto
da marquise. Isso quer dizer o seguinte: as vias de escoamento do público
foram reduzidas em 50% para garantir tamanha mordomia à turma que a tudo
assiste em ambientes refrigerados, com garçom e banheiro limpinho.
Nada contra, não fosse a burrice da
obra em matéria de segurança da platéia. Tudo, aliás,
a favor do conforto, inclusive o direito de pagar por ele. Não entendo
por que voltaram a ter preços populares as cadeiras brancas, no centro
do estádio, que antes eram sobretaxadas a título de garantir reservas
comuns a torcidas civilizadas ainda que de cores adversárias. Acabaram
com isso, mas, repito, não acredito que alguém faça uma coisa
dessas por mal. O Maracanã está desse jeito, sem dono, porque ninguém
vê o que acontece lá dentro nem a Secretaria de Esportes nem
a imprensa. Não importa quem
será o campeão do Rio de Janeiro no primeiro domingo de maio, as
torcidas foram todas derrotadas na reinauguração do gigante Maracanã.
Persiste a aventura de torcer no estádio. Pena! Garantir a segurança
de quem faz a festa nas arquibancadas deveria ser questão de honra para
o governo do estado: se não for possível botar ordem no Maraca,
francamente, melhor chamar as Forças Armadas para o próximo clássico.
e-mail: tutty@nominimo.com.br
|