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24 de novembro de 2004
REPORTAGEM DE CAPA
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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Que nexo faz?

Tutty Vasques


Não importa o preço da independência, Tavinho Paes não tem um tostão para acertar contas com seu passado. Outsider de carteirinha num tempo em que era bacana ser excluído, o poeta continua nas ruas vendendo seus livrinhos artesanais, de bar em bar, com o mesmo papo mole de maluco engajado dos anos 70 e 80: "Este é um passaporte para a liberdade, blá, blá, blá..." Cobra desde sempre dois chopes e meio por exemplar, mas há pelo menos uma década não contabiliza a seu favor o glamour underground que o autoritarismo conferia a toda forma de resistência cultural, ainda mais se praticada ali nas trincheiras do Baixo Leblon. A luta continua, em termos! No momento, sua palavra de ordem é a de despejo, ação judicial que desde o início de 2003 tenta tirá-lo do apartamento que ocupa com a família em Ipanema. Graças a Deus, o filho que batizou Elvis virou advogado. Já pensou se fosse cantor?

Está cada vez mais difícil viver de música no Brasil. Letrista de sucessos marcantes de Caetano Veloso (Totalmente Demais) e Lobão (Rádio Blá), Tavinho Paes tem 204 composições gravadas e uma saudade maior ainda da época em que podia torrar 10.000 dólares com farras em Nova York por conta de uma única faixa no disco da Xuxa. "She-Ra me rendeu uma fortuna." Já era! Roupa Nova, Genival Lacerda, Elba Ramalho, Os Travessos, não existem mais galinhas dos ovos de ouro como antigamente. "A pirataria acabou com a possibilidade de viver de música no Brasil", maldiz o maldito. Fazer o quê? Ele ficou mais de cinco anos sem compor. Volta agora, todo quebrado, a vislumbrar "um dinheiro bonito" com a execução nas rádios de Tudo que Há de Bom, versão que alinhavou com dois velhos poemas sob medida para a novela das 8 na voz aveludada de Luiza Possi, filha de Zizi. Issaaaaa!!!

Pelas suas contas, em janeiro de 2005, quando completa 50 anos, não precisará mais passar pelo constrangimento de pegar um trocado com a patroa para sair de casa. Eliana rala numa confecção de biquínis, está casada com a peça há 26 anos, "em regime de liberdades absolutas", e, além da assessoria jurídica do primogênito, Elvis, 24 anos, recebe de Londres uma mesada bacana da filha do meio, Dianna Rosa, 21, cujo nome o pai escolheu em homenagem a Dianna Ross, que – ele jura – teria lhe dado carona de táxi em Nova York. Viajou, também, quando batizou o caçula Pedro Gabriel, 12, como quem registra a mais completa tradução do músico britânico homônimo. O poodle branco e enfezado da família, esse ele chama tão-somente de "cachorro". Não deixa de ser um nome próprio, ainda mais para um animal chato como aquele. Ô raça!

O latido histérico, a imagem do Sagrado Coração de Jesus numa agenda ao lado do telefone, os sofás forrados com colcha, tudo naquela sala parece inconciliável com a estética marginal do chefe da família. Religiosamente, em 2004 Tavinho só fez sair de casa toda quarta-feira, tarde da noite, para comandar com uma lanterna na escuridão da boate GLS Dama de Ferro, em Ipanema, um culto à palavra intitulado Poematrix. Busca uma forma de acabar com a chatice dos recitais, sem desfigurá-los no que já virou característica do gênero. "O chato tem seu lugar: é ele que identifica quem não é chato num sarau", filosofa. Com todo o respeito a Elisa Lucinda, não suporta espetáculo-solo. Fica mais excitado com a presença feminina registrada, ultimamente, aos bandos. "O erotismo nos poemas dessas meninas deixa você de calça curta." Enche a boca para falar de Mariana Cersosimo: "Ela tem olhos puxados, 20 e poucos anos, mas em cena parece uma colegial japonesa falando barbaridades".

Barbarizar já foi especialidade dele. No início dos anos 80, o meio artístico, ainda cheio de dedos com a chamada distensão política, assistiu atônito à performance de Tavinho no Festival de Poesia e Arte no Teatro Municipal de São Paulo. Sem ser chamado ao palco, ele entrou em cena, urinou e decretou: "Peru de fora dá palpite!". Pra quê?! "Foi a direita que plantou esse cara aqui dentro", ouvia coisas assim dos colegas enquanto corria dos tabefes. Divertia-se mais praticando o Poema Terror, que consistia basicamente em invadir casas de amigos. "Íamos, eu e o Demétrio de Oliveira Gomes, tomar um café com o cara e só saíamos de lá expulsos." Viveram assim dois anos acampados no apartamento de Marta e Rui Campos, donos da Livraria Muro, irmã caçula da Dazibao e da Travessa. A história que Tavinho tem pra contar dos amigos é cheia de elogios às más companhias. "Perto da de Torquato de Mendonça, um budista cheio de vícios, a biografia de Cazuza é um conto de fadas." Um a um, de cirrose, aids, suicídio ou vacilos afins, Demétrio, Torquato, Júlio Barroso, Luis Otávio Pimentel, foram todos ficando pelo caminho.

"Não se fazem mais malucos como antigamente", fala sério. "Os de hoje em dia são perigosos pra caramba!" Acreditem: "Ultimamente me sinto mais seguro quando a polícia está por perto". É o máximo que ele consegue se aproximar do establishment. "Em 1996, tentei largar a guerrilha cultural para fundar uma gravadora, a Indie Records, e me dei mal, perdi o respeito do mercado." Ainda que não tenha sido bem assim, não importa, dinheiro nunca foi o forte de Tavinho Paes e sua turma. Há uns cinco anos, sem um tostão no bolso às vésperas do Natal, quis matar o parceiro Lobão, que não admitiu sequer negociar os direitos de Rádio Blá para uma propaganda da Nextel. Dói ainda hoje lembrar dos 60.000 reais que deixou de ganhar mole, mole na ocasião, mas aprendeu ali que esse negócio de ser independente é assim mesmo: "Só posso negociar grana até certo limite".

Em compensação, pode falar o que quiser. Por exemplo, que "Caetano aprendeu a ganhar dinheiro com música quando gravou Totalmente Demais". Ou que as leis de incentivo fiscal à cultura "só existem para os amigos da Kati Almeida Braga". Sobra até pros amigos: "Jorge Salomão e Ricardo Chacal comportam-se como ditadores africanos, contentam-se com a liderança restrita a seus pequenos grupos". Nessas ocasiões, em especial, todo mundo lhe dá um desconto.

 

P.S.: Tavinho Paes dirige saraus nos dias 1º e 15 de dezembro no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana, das 19h às 22h.

     
   

 

 
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