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CRÔNICA
Que nexo faz? Tutty
Vasques
Não
importa o preço da independência, Tavinho Paes não tem um
tostão para acertar contas com seu passado. Outsider de carteirinha
num tempo em que era bacana ser excluído, o poeta continua nas ruas vendendo
seus livrinhos artesanais, de bar em bar, com o mesmo papo mole de maluco engajado
dos anos 70 e 80: "Este é um passaporte para a liberdade, blá, blá,
blá..." Cobra desde sempre dois chopes e meio por exemplar, mas há
pelo menos uma década não contabiliza a seu favor o glamour underground
que o autoritarismo conferia a toda forma de resistência cultural, ainda
mais se praticada ali nas trincheiras do Baixo Leblon. A luta continua, em termos!
No momento, sua palavra de ordem é a de despejo, ação judicial
que desde o início de 2003 tenta tirá-lo do apartamento que ocupa
com a família em Ipanema. Graças a Deus, o filho que batizou Elvis
virou advogado. Já pensou se fosse cantor? Está
cada vez mais difícil viver de música no Brasil. Letrista de sucessos
marcantes de Caetano Veloso (Totalmente Demais) e Lobão (Rádio
Blá), Tavinho Paes tem 204 composições gravadas e uma
saudade maior ainda da época em que podia torrar 10.000
dólares com farras em Nova York por conta de uma única faixa no
disco da Xuxa. "She-Ra me rendeu uma fortuna." Já era! Roupa Nova,
Genival Lacerda, Elba Ramalho, Os Travessos, não existem mais galinhas
dos ovos de ouro como antigamente. "A pirataria acabou com a possibilidade de
viver de música no Brasil", maldiz o maldito. Fazer o quê? Ele ficou
mais de cinco anos sem compor. Volta agora, todo quebrado, a vislumbrar "um dinheiro
bonito" com a execução nas rádios de Tudo que Há
de Bom, versão que alinhavou com dois velhos poemas sob medida para
a novela das 8 na voz aveludada de Luiza Possi, filha de Zizi. Issaaaaa!!!
Pelas suas contas,
em janeiro de 2005, quando completa 50 anos, não precisará mais
passar pelo constrangimento de pegar um trocado com a patroa para sair de casa.
Eliana rala numa confecção de biquínis, está casada
com a peça há 26 anos, "em regime de liberdades absolutas", e, além
da assessoria jurídica do primogênito, Elvis, 24 anos, recebe de
Londres uma mesada bacana da filha do meio, Dianna Rosa, 21, cujo nome o pai escolheu
em homenagem a Dianna Ross, que ele jura teria lhe dado carona de
táxi em Nova York. Viajou, também, quando batizou o caçula
Pedro Gabriel, 12, como quem registra a mais completa tradução do
músico britânico homônimo. O poodle branco e enfezado da família,
esse ele chama tão-somente de "cachorro". Não deixa de ser um nome
próprio, ainda mais para um animal chato como aquele. Ô raça!
O latido histérico,
a imagem do Sagrado Coração de Jesus numa agenda ao lado do telefone,
os sofás forrados com colcha, tudo naquela sala parece inconciliável
com a estética marginal do chefe da família. Religiosamente, em
2004 Tavinho só fez sair de casa toda quarta-feira, tarde da noite, para
comandar com uma lanterna na escuridão da boate GLS Dama de Ferro, em Ipanema,
um culto à palavra intitulado Poematrix. Busca uma forma de acabar
com a chatice dos recitais, sem desfigurá-los no que já virou característica
do gênero. "O chato tem seu lugar: é ele que identifica quem não
é chato num sarau", filosofa. Com todo o respeito a Elisa Lucinda, não
suporta espetáculo-solo. Fica mais excitado com a presença feminina
registrada, ultimamente, aos bandos. "O erotismo nos poemas dessas meninas deixa
você de calça curta." Enche a boca para falar de Mariana Cersosimo:
"Ela tem olhos puxados, 20 e poucos anos, mas em cena parece uma colegial japonesa
falando barbaridades". Barbarizar
já foi especialidade dele. No início dos anos 80, o meio artístico,
ainda cheio de dedos com a chamada distensão política, assistiu
atônito à performance de Tavinho no Festival de Poesia e Arte no
Teatro Municipal de São Paulo. Sem ser chamado ao palco, ele entrou em
cena, urinou e decretou: "Peru de fora dá palpite!". Pra quê?! "Foi
a direita que plantou esse cara aqui dentro", ouvia coisas assim dos colegas enquanto
corria dos tabefes. Divertia-se mais praticando o Poema Terror, que consistia
basicamente em invadir casas de amigos. "Íamos, eu e o Demétrio
de Oliveira Gomes, tomar um café com o cara e só saíamos
de lá expulsos." Viveram assim dois anos acampados no apartamento de Marta
e Rui Campos, donos da Livraria Muro, irmã caçula da Dazibao e da
Travessa. A história que Tavinho tem pra contar dos amigos é cheia
de elogios às más companhias. "Perto da de Torquato de Mendonça,
um budista cheio de vícios, a biografia de Cazuza é um conto de
fadas." Um a um, de cirrose, aids, suicídio ou vacilos afins, Demétrio,
Torquato, Júlio Barroso, Luis Otávio Pimentel, foram todos ficando
pelo caminho. "Não
se fazem mais malucos como antigamente", fala sério. "Os de hoje em dia
são perigosos pra caramba!" Acreditem: "Ultimamente me sinto mais seguro
quando a polícia está por perto". É o máximo que ele
consegue se aproximar do establishment. "Em 1996, tentei largar a guerrilha cultural
para fundar uma gravadora, a Indie Records, e me dei mal, perdi o respeito do
mercado." Ainda que não tenha sido bem assim, não importa, dinheiro
nunca foi o forte de Tavinho Paes e sua turma. Há uns cinco anos, sem um
tostão no bolso às vésperas do Natal, quis matar o parceiro
Lobão, que não admitiu sequer negociar os direitos de Rádio
Blá para uma propaganda da Nextel. Dói ainda hoje lembrar dos
60.000 reais que deixou de ganhar mole, mole na ocasião,
mas aprendeu ali que esse negócio de ser independente é assim mesmo:
"Só posso negociar grana até certo limite". Em
compensação, pode falar o que quiser. Por exemplo, que "Caetano
aprendeu a ganhar dinheiro com música quando gravou Totalmente Demais".
Ou que as leis de incentivo fiscal à cultura "só existem para os
amigos da Kati Almeida Braga". Sobra até pros amigos: "Jorge Salomão
e Ricardo Chacal comportam-se como ditadores africanos, contentam-se com a liderança
restrita a seus pequenos grupos". Nessas ocasiões, em especial, todo mundo
lhe dá um desconto.
P.S.:
Tavinho Paes dirige saraus nos dias 1º e 15 de dezembro no Shopping Cassino
Atlântico, em Copacabana, das 19h às 22h. |