| |
|
|
 |
|
SAÚDE
Hospital
na UTI
Denúncias
expõem crise na Beneficência
Patricia
Malavez
Dilmar Cavalher/Strana
 |
| Salários
atrasados e administração sob suspeita: a Beneficência Portuguesa
não é nem sombra do que já foi |
|
Sintomas
A
Beneficência Portuguesa realizava 50
cirurgias por dia. Hoje são apenas 2.
Só
2 dos 8
andares do hospital anexo Santa Maria estão funcionando.
|
A Beneficência
Portuguesa já foi sinônimo de excelência no atendimento
médico-hospitalar. Muitos recorriam ao hospital da Glória
em busca de profissionais conceituados, amparados por equipamentos
de última geração. Tornar-se sócio da
instituição era o sonho de muita gente e privilégio
de alguns. Para garantir o atendimento gratuito ou a preços
camaradas para o resto da vida, era preciso pagar uma jóia
comparável ao preço de um apartamento. Ao longo desses
162 anos de existência da instituição houve
20.000 sócios. Os tempos de boa
saúde financeira ficaram para trás. A Beneficência
Portuguesa atravessa uma crise sem precedentes. Há médicos
que não recebem salário há mais de um ano,
e a maioria deles deixou de atender. Muitos cobram seus direitos
trabalhistas na Justiça, que bloqueou as contas do hospital.
O Sindicato dos Médicos denuncia que a instituição
não tem mais condições de atender e pode causar
danos aos pacientes internados. Dos oito andares do Hospital Santa
Maria, a unidade mais moderna do complexo, somente dois estão
em funcionamento. Mais da metade do centro cirúrgico, com
catorze salas, foi fechada com tapume. Em março, após
inspeção da Vigilância Sanitária Estadual,
as internações foram suspensas. Os motivos? Falta
de higiene, remédios com prazo de validade vencido, infiltração
e vazamentos no prédio. O relatório final do órgão
conclui que o estabelecimento "não funciona em condições
adequadas e não cumpre as normas de biossegurança".
Quem circula pelos corredores vazios constata a decadência
da casa. Das mais de cinqüenta cirurgias realizadas diariamente
tempos atrás, hoje ocorrem, no máximo, duas. Apenas
um plano de saúde mantém convênio com o hospital.
Há êxodo de profissionais e pacientes. No início
deste ano, Paulo Niemeyer Filho, sumidade na neurocirurgia, desligou-se
da Beneficência, na qual chefiou o departamento de neurologia
durante anos. Antes dele, outro profissional conceituado, o gastroenterologista
José Figueiredo Penteado, também havia saído.
Fotos Dilmar Cavalher/Strana
 |
trana
 |
| Interdição:
só dois andares funcionam |
Salas
de cirurgia: metade fechada |
Os
problemas começaram há cerca de dez anos. Segundo
o presidente da Associação dos Sócios da Beneficência,
Alberto Maia, a situação piorou a partir de 1999,
quando, numa eleição conturbada, a chapa liderada
pelo deputado federal Eurico Miranda, que também é
presidente do Vasco, venceu o grupo opositor, encabeçado
pelo empresário Arthur Sendas. Houve denúncia de fraude,
a votação chegou a ser anulada pela Justiça,
mas o deputado levou a melhor e indicou seu primo, Carlos Alberto
Rodrigues, para a presidência. De 1990 até hoje, a
Beneficência desfez-se de patrimônio: vendeu ou doou
cerca de 120 imóveis. Como há a suspeita de subfaturamento
em algumas negociações, na semana passada foi instaurado
inquérito na 9ª Delegacia de Polícia, para que
a diretoria seja ouvida. No Ministério Público ainda
transitam outros dois processos contra a instituição.
Para
Jorge Darze, presidente do Sindicato dos Médicos, é
imprescindível que se faça uma auditoria. "É
caso de polícia", protesta ele. Dois anos atrás, o
sindicato enviou um relatório às secretarias estadual
e municipal de Saúde, cobrando uma intervenção
no hospital. "Não tomaram providência nenhuma", reclama
Darze. Carlos Alberto Rodrigues não nega os problemas pelos
quais a instituição passa, mas afirma que ela está
sendo alvo de uma campanha política que visa, na verdade,
a atingir Eurico Miranda. O presidente explica que, em 1992, o hospital
já enfrentava problemas financeiros devido "à perversidade
dos planos econômicos". Ele aponta a demissão em massa
de funcionários feita por seu antecessor no cargo como a
causa maior dos problemas de hoje. Foram postos na rua 2.000
empregados. "Eram profissionais de trinta, quarenta anos de casa.
Isso gerou um passivo trabalhista muito grande que começou
a desabar depois de 1997, mas principalmente em 1999 e 2000", declara
Carlos Alberto. Ele argumenta que em sua gestão já
pagou mais de 25 milhões de reais a ex-funcionários.
"Com as contas bloqueadas pela Justiça trabalhista, não
pudemos honrar os cheques na praça", afirma. Sobre a denúncia
de dilapidação do patrimônio, alega que nunca
se desfez de um só imóvel. "Eles foram vendidos na
gestão anterior. A diretoria de 1994 e 1995, essa sim, foi
a coveira da Beneficência", contra-ataca o presidente. A aposentada
Maria Juraci Jesus chora ao passar pela porta do hospital. "Eu e
meu marido tivemos de fazer um sacrifício muito grande para
entrar de sócios. Nós acreditávamos que assim
teríamos uma velhice tranqüila", diz ela. Os associados
vão fazer, no sábado (27), uma manifestação
no local, para exigir a antecipação das eleições
e a troca da diretoria. Esperam dar o primeiro passo para que a
Beneficência Portuguesa consiga ter alta da UTI.
|