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24 de maio de 2006

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A fada boa da Nova Maré

Yvonne Bezerra de Mello cuida de 470 crianças com traumas da violência

Lívia de Almeida

André Nazareth/Strana
Yvonne, na Maré: esforço para reduzir o atraso escolar

Duas casas com a fachada coberta por pinturas coloridas destoam do conjunto de caixotes de tijolo cru que compõe a chamada Nova Maré, um setor da favela gigante que ladeia a Avenida Brasil. A área é ocupada por moradores removidos há cerca de dez anos de habitações ainda mais precárias sob os viadutos da cidade. O prédio colorido cercado pela paisagem inóspita dos becos e vielas é o local de trabalho da artista plástica Yvonne Bezerra de Mello. Todas as manhãs, às 8 horas, ela deixa seu apartamento na Avenida Ruy Barbosa, no Flamengo, e segue para a Nova Maré, onde funciona há oito anos o Projeto Uerê, uma organização não-governamental que atende atualmente 470 crianças com idades entre 3 e 18 anos. Todas elas têm dificuldade de aprendizado relacionada a traumas provocados pela convivência diária com a violência na comunidade, na família, na rua. "Quando houve a chacina da Candelária (veja o quadro na pág. ao lado), percebi que tinha de me organizar de uma forma diferente. Na rua, todo mundo morre", diz Yvonne, que em 1981 começou a trabalhar com as crianças nas calçadas. "E o trabalho para diminuir o atraso escolar é lento e exige continuidade."

Casada com o empresário Álvaro Bezerra de Mello, da rede de hotéis Othon, doutora em filologia e lingüística, Yvonne poderia perfeitamente ocupar seu tempo em atividades mais amenas. Depois da chacina, ela instalou, debaixo de um viaduto na Avenida Francisco Bicalho, no Centro, uma espécie de creche para sessenta crianças, na maioria sobreviventes da Candelária. "Foi o embrião do Uerê", conta. A filha, a também artista plástica Isabel Löfgren, na época tratou de pintar os tapumes precários para que, pelo menos do lado de fora, parecesse uma casa de verdade. "A gente queria criar um espaço diferente e aconchegante para as crianças", explica ela, que desde pequena acompanha a rotina da mãe. "Cresci dentro disso aqui. Quem vive isso de perto, como eu, detesta ouvir falar nessa romantização da favela feita por certas pessoas na Zona Sul", diz Isabel, que há um ano dá aulas de arte no Uerê, duas vezes por semana – em julho, trabalhos de cinco alunos serão expostos na Alemanha. Na grade oferecida pelo Uerê como complementação escolar tem aulas de informática, dança, capoeira, atividades na biblioteca, alfabetização e reforço, tudo ministrado por uma equipe de quinze funcionários e cinco voluntários. O custo por criança é baixo, 78 reais por mês. Mas os recursos vêm mais do exterior do que do Brasil. "Esse não é um projeto que pode se tornar auto-sustentável, não tem um prazo para mostrar resultados. Precisa ser contínuo", diz Yvonne.

Ela chegou à Maré depois da remoção da favela da área sob o viaduto da Francisco Bicalho. Em 1998, comprou as duas casas. Desde então mantém uma rotina de oito horas de trabalho diário que se inicia com uma sessão de ginástica na sala. Depois, tem aula e muito trabalho individualizado, com jogos para estimular a socialização. Das 470 crianças, 53 recebem bolsas para estudar em escolas particulares. "Quando chegam aqui, muitas não conseguem focar o olhar, quanto mais acompanhar uma aula em uma escola convencional", afirma. Vestida com a camiseta do projeto e um avental de plástico azul, Yvonne mostra os dedos indicadores para Vitória, de 7 anos, que acompanha a seqüência de 1, 2, 3 com o olhar que ainda teima em fugir. "Só para focar, é preciso três, quatro meses de trabalho. Para aumentar a capacidade de memória, então, são dois anos", conta a artista plástica. Todos os uerês recebem acompanhamento neurológico e psiquiátrico. "Quando o caveirão vem à noite, a gente passa uma semana com os meninos completamente alterados", diz a programadora visual Luciana Campos Ramos Martha, que hoje preside o projeto criado por Yvonne.

E o caveirão passou pela Nova Maré na semana passada. "Eles gritam pra gente 'eu vou destruir sua alma' ", diz um dos meninos. No meio do dia, enquanto Yvonne almoçava – frango desfiado com arroz e cenoura feito na cantina, em uma marmita plástica –, uma das professoras foi procurá-la, abalada. "Eles estão muito agitados hoje. Teve uma hora em que eu me escondi atrás da porta do armário e chorei", contou. Ela recebeu o apoio de Yvonne. "Você pode chorar na frente deles. Eu já chorei. Tem momentos em que você não sabe mesmo o que fazer", admitiu com tranqüilidade. Tem dias, por exemplo, em que a violência interrompe a rotina do projeto, como na ocasião em que Yvonne foi chamada para conversar com traficantes que haviam feito refém uma menina de 5 anos. Conseguiu que ela fosse solta. "Mas a menina ficou muda durante três dias." Para encarar o dia-a-dia barra-pesada que escolheu, ela tem sua fórmula: malha diariamente durante três horas. A fada boa da Nova Maré anda em forma.

 

Por quem os sinos dobram

 
Antonio Nery/Ag. O Globo
Na madrugada da chacina, em julho de 1993: apoio aos sobreviventes

Yvonne Bezerra de Mello se tornou conhecida nacionalmente depois da chacina da Candelária, ocorrida em 23 de julho de 1993, quando oito meninos que costumavam dormir nas imediações da igreja foram assassinados. Conhecida pelas crianças, foi a Yvonne que elas recorreram para pedir ajuda no meio da madrugada. "Tia, aconteceu uma coisa horrível, uma chacina", disse uma vozinha pelo telefone. Foi ela quem transportou os sobreviventes para a delegacia e depois, ao longo dos anos, lutou pela condenação dos responsáveis (três ex-policiais foram condenados). Mas a comoção provocada pela chacina não serviu para melhorar as condições de vida dos jovens sobreviventes. "Na verdade, uma pesquisa realizada no rádio na época mostrou que uma boa parte da população apoiava a chacina", lembra Yvonne com amargura. Segundo seu último levantamento, das sessenta crianças que sobreviveram, 42 tiveram morte violenta desde então.

     
   

 

 
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