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MODA
A fada boa da Nova Maré Yvonne Bezerra de Mello cuida
de 470 crianças com traumas da violência Lívia de
Almeida
André Nazareth/Strana
 | | Yvonne,
na Maré: esforço
para reduzir o atraso
escolar | Duas
casas com a fachada coberta por pinturas coloridas destoam do conjunto de caixotes
de tijolo cru que compõe a chamada Nova Maré, um setor da favela
gigante que ladeia a Avenida Brasil. A área é ocupada por moradores
removidos há cerca de dez anos de habitações ainda mais precárias
sob os viadutos da cidade. O prédio colorido cercado pela paisagem inóspita
dos becos e vielas é o local de trabalho da artista plástica Yvonne
Bezerra de Mello. Todas as manhãs, às 8 horas, ela deixa seu apartamento
na Avenida Ruy Barbosa, no Flamengo, e segue para a Nova Maré, onde funciona
há oito anos o Projeto Uerê, uma organização não-governamental
que atende atualmente 470 crianças com idades entre 3 e 18 anos. Todas
elas têm dificuldade de aprendizado relacionada a traumas provocados pela
convivência diária com a violência na comunidade, na família,
na rua. "Quando houve a chacina da Candelária (veja o quadro na pág.
ao lado), percebi que tinha de me organizar de uma forma diferente. Na rua,
todo mundo morre", diz Yvonne, que em 1981 começou a trabalhar com as crianças
nas calçadas. "E o trabalho para diminuir o atraso escolar é lento
e exige continuidade." Casada
com o empresário Álvaro Bezerra de Mello, da rede de hotéis
Othon, doutora em filologia e lingüística, Yvonne poderia perfeitamente
ocupar seu tempo em atividades mais amenas. Depois da chacina, ela instalou, debaixo
de um viaduto na Avenida Francisco Bicalho, no Centro, uma espécie de creche
para sessenta crianças, na maioria sobreviventes da Candelária.
"Foi o embrião do Uerê", conta. A filha, a também artista
plástica Isabel Löfgren, na época tratou de pintar os tapumes
precários para que, pelo menos do lado de fora, parecesse uma casa de verdade.
"A gente queria criar um espaço diferente e aconchegante para as crianças",
explica ela, que desde pequena acompanha a rotina da mãe. "Cresci dentro
disso aqui. Quem vive isso de perto, como eu, detesta ouvir falar nessa romantização
da favela feita por certas pessoas na Zona Sul", diz Isabel, que há um
ano dá aulas de arte no Uerê, duas vezes por semana em julho,
trabalhos de cinco alunos serão expostos na Alemanha. Na grade oferecida
pelo Uerê como complementação escolar tem aulas de informática,
dança, capoeira, atividades na biblioteca, alfabetização
e reforço, tudo ministrado por uma equipe de quinze funcionários
e cinco voluntários. O custo por criança é baixo, 78 reais
por mês. Mas os recursos vêm mais do exterior do que do Brasil. "Esse
não é um projeto que pode se tornar auto-sustentável, não
tem um prazo para mostrar resultados. Precisa ser contínuo", diz Yvonne.
Ela
chegou à Maré depois da remoção da favela da área
sob o viaduto da Francisco Bicalho. Em 1998, comprou as duas casas. Desde então
mantém uma rotina de oito horas de trabalho diário que se inicia
com uma sessão de ginástica na sala. Depois, tem aula e muito trabalho
individualizado, com jogos para estimular a socialização. Das 470
crianças, 53 recebem bolsas para estudar em escolas particulares. "Quando
chegam aqui, muitas não conseguem focar o olhar, quanto mais acompanhar
uma aula em uma escola convencional", afirma. Vestida com a camiseta do projeto
e um avental de plástico azul, Yvonne mostra os dedos indicadores para
Vitória, de 7 anos, que acompanha a seqüência de 1, 2, 3 com
o olhar que ainda teima em fugir. "Só para focar, é preciso três,
quatro meses de trabalho. Para aumentar a capacidade de memória, então,
são dois anos", conta a artista plástica. Todos os uerês
recebem acompanhamento neurológico e psiquiátrico. "Quando o caveirão
vem à noite, a gente passa uma semana com os meninos completamente alterados",
diz a programadora visual Luciana Campos Ramos Martha, que hoje preside o projeto
criado por Yvonne. E
o caveirão passou pela Nova Maré na semana passada. "Eles
gritam pra gente 'eu vou destruir sua alma' ", diz um dos meninos. No meio do
dia, enquanto Yvonne almoçava frango desfiado com arroz e cenoura
feito na cantina, em uma marmita plástica , uma das professoras foi
procurá-la, abalada. "Eles estão muito agitados hoje. Teve uma hora
em que eu me escondi atrás da porta do armário e chorei", contou.
Ela recebeu o apoio de Yvonne. "Você pode chorar na frente deles. Eu já
chorei. Tem momentos em que você não sabe mesmo o que fazer", admitiu
com tranqüilidade. Tem dias, por exemplo, em que a violência interrompe
a rotina do projeto, como na ocasião em que Yvonne foi chamada para conversar
com traficantes que haviam feito refém uma menina de 5 anos. Conseguiu
que ela fosse solta. "Mas a menina ficou muda durante três dias." Para encarar
o dia-a-dia barra-pesada que escolheu, ela tem sua fórmula: malha diariamente
durante três horas. A fada boa da Nova Maré anda em forma.
Por
quem os sinos dobram
Antonio Nery/Ag. O Globo
 | | Na
madrugada da chacina, em julho de 1993: apoio aos sobreviventes
| Yvonne
Bezerra de Mello se tornou conhecida nacionalmente depois da chacina da Candelária,
ocorrida em 23 de julho de 1993, quando oito meninos que costumavam dormir nas
imediações da igreja foram assassinados. Conhecida pelas crianças,
foi a Yvonne que elas recorreram para pedir ajuda no meio da madrugada. "Tia,
aconteceu uma coisa horrível, uma chacina", disse uma vozinha pelo telefone.
Foi ela quem transportou os sobreviventes para a delegacia e depois, ao longo
dos anos, lutou pela condenação dos responsáveis (três
ex-policiais foram condenados). Mas a comoção provocada pela chacina
não serviu para melhorar as condições de vida dos jovens
sobreviventes. "Na verdade, uma pesquisa realizada no rádio na época
mostrou que uma boa parte da população apoiava a chacina", lembra
Yvonne com amargura. Segundo seu último levantamento, das sessenta crianças
que sobreviveram, 42 tiveram morte violenta desde então. |
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