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24 de maio de 2006

REPORTAGEM DE CAPA
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VEJA RIO 15 ANOS
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BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
  

CRÔNICA

Deles 2

Tutty Vasques

Quem ainda duvida que vivemos na melhor cidade da América do Sul precisa urgentemente ouvir dois CDs que acabam de chegar quase juntos às lojas de discos. Carioca, de Chico Buarque, e Meu Samba É Assim, de Marcelo D2, cantam, cada um a seu modo, o Rio de Janeiro como cenário imperfeito perfeito para se inspirar em brisa, nas ondas, quiosques, acácias, ipês, olha a chuva, olha o sol, olha o avesso da montanha, chapa quente, cara a tapa. Chico e D2 não rendem exatamente homenagens à cidade. Falam de suas belezas e mazelas, paisagem humana da malandragem – do rico, do pobre, do preto e do branco também. Fazem crônica, passeiam pela cena carioca, tocam o Rio de ouvido. Que outro lugar maltratado do mundo merece tanta atenção de dois caras tão especiais?

Chico Buarque e Marcelo D2 representam o Rio de Janeiro percorrendo a mesma geografia poética por caminhos musicais inteiramente diversos que, no entanto, se cruzam a todo instante na promiscuidade que o paraíso mantém com o inferno no balneário. Estão tão próximos um do outro quanto a favela do asfalto. É sinistra a mistura do rap com samba. Chico saúda o lado de lá em Subúrbio. Fala Penha, dança Irajá, festeja Olaria, Acari, Vigário Geral, Piedade, Maré, Pavuna, Inhaúma, Cordovil, Pilares, Encantado, Bangu, Realengo, Meriti, Paciência, chora Madureira. Convite à cidade que não figura no mapa a se expressar: "Fala na língua do rap / Desbanca a outra / A tal que abusa / De ser tão maravilhosa". De volta ao lugar de onde veio, a Zona Sul, corre atrás de uma moça que dê sentido ao lugar, sem ela "a Barão da Torre e a Vinicius de Moraes são de repente estranhas ruas".

Ali por perto, D2 se dá conta do que passa ao redor da fama de rapper: "Se as garotas do Leblon olham agora para mim, vou te falar, cumpadi, nem sempre foi assim". Debaixo dos panos, o orgulho suburbano: à procura da batida perfeita, o artista promete "nunca esquecer de que lado eu vim da cidade". Andaraí, Maraca, Padre Miguel, a Vila de Noel, Riachuelo, Mangueira, Lapa, coração da boemia, Centro, Rio de Janeiro, o samba dele é assim.

Ainda que não protagonize todas as canções, a cidade é quase sempre coadjuvante no atual repertório de Chico e de D2. "Me leve à toa pela última vez a um quiosque, ao planetário, ao cais do porto, ao paço, eu passo." Isso é Chico, claro! D2 diz assim: "Eu me sinto fraco longe / Saudade dos Arcos e do bonde / Lapa, bem-vinda, onde os ratos se escondem (...) A cada vez que estou de volta / São mais crianças na calçada / Isso muito me revolta". Sem papo de indignação: "Com amor, com amizade, com respeito, é assim que se faz", ensina. Cá pra nós, tem umas partes do disco em que o neguinho do Andaraí fala demais, mas onde parece haver só fumaça há fogo também.

Mesmo quando o discurso é inútil, besteirão, a batida é perfeita. A mistura também. Samba cheio de marra, malandragem, dois toca-discos e um tamborim, calça larga, boné pro lado, Arlindo Cruz, João Donato, Caetano, Jorge Aragão, Baden Powell, Cartola, Zeca Pagodinho, Felipe Baden, Alcione, Ben Jor, Jorge Perlingeiro, João Nogueira, Elizeth, Jovelina, DJ Primo, Martinho, Mario Caldato, Bezerra da Silva, arquitetos da verdadeira música brasileira, parceiros, pioneiros, poetas e partideiros. O resultado é uma sonoridade surpreendente, com balanço irresistível, arranjos elaborados, sofisticação de jazz, clima de botequim: D2 é a grande novidade musical dos últimos dez anos no Brasil, pérola negra da safra de ex-flanelinhas, pichadores, contínuos, motoboys, camelôs, malabaristas de sinal de trânsito, fogueteiros, soldados e aviões que a música tirou das ruas e levou pra televisão.

Não é um gênero carioca – a periferia de São Paulo está cheia de DJs, MCs, rappers, grafiteiros e outras matizes da cultura hip hop – , mas a geografia urbana e a paisagem social do Rio de Janeiro fazem Marcelo D2 vizinho de Chico Buarque, ainda que este não esteja à procura de batida perfeita alguma. O Chico, como se sabe, é o Chico – não precisa achar nada; se não perder muito, está ótimo. Rodei a semana inteira por aí com esse despudor de ser carioca tocando sem parar no CD-player do meu carro. Ida e volta, Gávea–Glória–Gávea, via praias do Leblon, Ipanema e Copacabana, Aterro, MAM, Outeiro, Botafogo, Humaitá, Jóquei, Chico e D2 o tempo todo, os dias no Rio ficam bem melhores assim.

Seria até feio reclamar agora que a violência, a barbárie, a supremacia do crime organizado sobre o poder público, a perplexidade da sociedade, o medo, a indignação, o estado de coisas a que chegamos, em última instância, enfim, o fim do mundo mudou de endereço. O Brasil se deu conta de que no Rio o problema só é mais evidente. A gente sabe, faz tempo, que tragédia é essa que o paulista experimenta agora. Em Carioca, Chico sonha com um tempo em que "a polícia já não batia (...) maconha só se comprava em tabacaria". Sabe Deus o que é certo! Por enquanto, D2 vende em Meu Samba É Assim a idéia de que "a maior malandragem do mundo é viver". Alô, alô, Realengo, aquele abraço.

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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