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CRÔNICA
Deles 2 Tutty Vasques Quem
ainda duvida que vivemos na melhor cidade da América do Sul precisa urgentemente
ouvir dois CDs que acabam de chegar quase juntos às lojas de discos. Carioca,
de Chico Buarque, e Meu Samba É Assim, de Marcelo D2, cantam, cada
um a seu modo, o Rio de Janeiro como cenário imperfeito perfeito para se
inspirar em brisa, nas ondas, quiosques, acácias, ipês, olha a chuva,
olha o sol, olha o avesso da montanha, chapa quente, cara a tapa. Chico e D2 não
rendem exatamente homenagens à cidade. Falam de suas belezas e mazelas,
paisagem humana da malandragem do rico, do pobre, do preto e do branco
também. Fazem crônica, passeiam pela cena carioca, tocam o Rio de
ouvido. Que outro lugar maltratado do mundo merece tanta atenção
de dois caras tão especiais? Chico
Buarque e Marcelo D2 representam o Rio de Janeiro percorrendo a mesma geografia
poética por caminhos musicais inteiramente diversos que, no entanto, se
cruzam a todo instante na promiscuidade que o paraíso mantém com
o inferno no balneário. Estão tão próximos um do outro
quanto a favela do asfalto. É sinistra a mistura do rap com samba. Chico
saúda o lado de lá em Subúrbio. Fala Penha, dança
Irajá, festeja Olaria, Acari, Vigário Geral, Piedade, Maré,
Pavuna, Inhaúma, Cordovil, Pilares, Encantado, Bangu, Realengo, Meriti,
Paciência, chora Madureira. Convite à cidade que não figura
no mapa a se expressar: "Fala na língua do rap / Desbanca a outra / A tal
que abusa / De ser tão maravilhosa". De volta ao lugar de onde veio, a
Zona Sul, corre atrás de uma moça que dê sentido ao lugar,
sem ela "a Barão da Torre e a Vinicius de Moraes são de repente
estranhas ruas". Ali
por perto, D2 se dá conta do que passa ao redor da fama de rapper: "Se
as garotas do Leblon olham agora para mim, vou te falar, cumpadi, nem sempre foi
assim". Debaixo dos panos, o orgulho suburbano: à procura da batida perfeita,
o artista promete "nunca esquecer de que lado eu vim da cidade". Andaraí,
Maraca, Padre Miguel, a Vila de Noel, Riachuelo, Mangueira, Lapa, coração
da boemia, Centro, Rio de Janeiro, o samba dele é assim.
Ainda que não
protagonize todas as canções, a cidade é quase sempre coadjuvante
no atual repertório de Chico e de D2. "Me leve à toa pela última
vez a um quiosque, ao planetário, ao cais do porto, ao paço, eu
passo." Isso é Chico, claro! D2 diz assim: "Eu me sinto fraco longe / Saudade
dos Arcos e do bonde / Lapa, bem-vinda, onde os ratos se escondem (...) A cada
vez que estou de volta / São mais crianças na calçada / Isso
muito me revolta". Sem papo de indignação: "Com amor, com amizade,
com respeito, é assim que se faz", ensina. Cá pra nós, tem
umas partes do disco em que o neguinho do Andaraí fala demais, mas onde
parece haver só fumaça há fogo também.
Mesmo quando o discurso
é inútil, besteirão, a batida é perfeita. A mistura
também. Samba cheio de marra, malandragem, dois toca-discos e um tamborim,
calça larga, boné pro lado, Arlindo Cruz, João Donato, Caetano,
Jorge Aragão, Baden Powell, Cartola, Zeca Pagodinho, Felipe Baden, Alcione,
Ben Jor, Jorge Perlingeiro, João Nogueira, Elizeth, Jovelina, DJ Primo,
Martinho, Mario Caldato, Bezerra da Silva, arquitetos da verdadeira música
brasileira, parceiros, pioneiros, poetas e partideiros. O resultado é uma
sonoridade surpreendente, com balanço irresistível, arranjos elaborados,
sofisticação de jazz, clima de botequim: D2 é a grande novidade
musical dos últimos dez anos no Brasil, pérola negra da safra de
ex-flanelinhas, pichadores, contínuos, motoboys, camelôs, malabaristas
de sinal de trânsito, fogueteiros, soldados e aviões que a música
tirou das ruas e levou pra televisão. Não
é um gênero carioca a periferia de São Paulo está
cheia de DJs, MCs, rappers, grafiteiros e outras matizes da cultura hip hop
, mas a geografia urbana e a paisagem social do Rio de Janeiro fazem Marcelo D2
vizinho de Chico Buarque, ainda que este não esteja à procura de
batida perfeita alguma. O Chico, como se sabe, é o Chico não
precisa achar nada; se não perder muito, está ótimo. Rodei
a semana inteira por aí com esse despudor de ser carioca tocando sem parar
no CD-player do meu carro. Ida e volta, GáveaGlóriaGávea,
via praias do Leblon, Ipanema e Copacabana, Aterro, MAM, Outeiro, Botafogo, Humaitá,
Jóquei, Chico e D2 o tempo todo, os dias no Rio ficam bem melhores assim.
Seria
até feio reclamar agora que a violência, a barbárie, a supremacia
do crime organizado sobre o poder público, a perplexidade da sociedade,
o medo, a indignação, o estado de coisas a que chegamos, em última
instância, enfim, o fim do mundo mudou de endereço. O Brasil se deu
conta de que no Rio o problema só é mais evidente. A gente sabe,
faz tempo, que tragédia é essa que o paulista experimenta agora.
Em Carioca, Chico sonha com um tempo em que "a polícia já
não batia (...) maconha só se comprava em tabacaria". Sabe Deus
o que é certo! Por enquanto, D2 vende em Meu Samba É Assim
a idéia de que "a maior malandragem do mundo é viver". Alô,
alô, Realengo, aquele abraço. E-mails
para o cronista: tutty@nominimo.com.br |