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24 de abril de 2002
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Sotaque português

Livro destaca a influência
lusitana sobre o Rio

Sérgio Garcia

 
Dilmar Cavalher/Strana
Arthur Cavaliere/Strana
Arthur Cavaliere/Strana
O nome do bar inspira-se em uma cidade portuguesa (no alto, à esq.); no bairro de Portugal Pequeno, em Niterói, onde está a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (no alto, à dir.), o casario é uma construção tipicamente lusitana: influências

Quem pisa desatento as pedras portuguesas do calçadão de Copacabana e passa em frente ao boteco sofisticado Manoel & Juaquim provavelmente não se dá conta da procedência de tudo aquilo. "Em São Paulo, destacam-se freqüentemente as influências italiana e japonesa; no Sul, é a mesma coisa com as colônias alemã e italiana. Por que o carioca não tem uma relação com a presença portuguesa na cidade como a que existe em outros Estados?", questiona o economista Carlos Lessa. Ele tenta dar a resposta em Os Lusíadas na Aventura do Rio Moderno, livro que organizou – além de escrever o texto-síntese de abertura –, com artigos de quinze pesquisadores de variadas áreas: urbanismo, literatura, arte e sociologia. Como é extensa a bibliografia sobre a influência dos patrícios na época da colônia e do império, a publicação se atém principalmente ao século XX. E a conclusão foge do óbvio. "Apesar de não ter exaltada sua presença, o português que migrou para o Rio na modernidade exerceu influência gigantesca sobre a cidade", diz Carlos Lessa, professor de graduação e pós-graduação de economia, decano do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e eleito recentemente reitor da instituição. Os Lusíadas... busca dimensionar justamente a ação lusitana no Rio do século passado.

 
André Nazareth/Strana
Strana
Lessa: a história recente do Rio

O livro não vê razão de ser para a subestima – que muitas vezes beira o desprezo – da influência contemporânea portuguesa. As razões desse comportamento são históricas. Desde o começo do século passado a cidade renega seu papel de colônia. Nas primeiras décadas do século XX, as intervenções urbanas tinham o propósito de tornar o Rio a Paris dos trópicos, pondo abaixo sobrados característicos da arquitetura lusitana. "Na República Velha, o carioca queria ser filho de francês", diz o professor. Tudo o que era relativo ao passado associava-se a algo nocivo. Na virada para este milênio, o sonho de simulacro era outro, e parte da cidade tinha como paradigma Miami. O livro ressalta a demolição do Morro do Castelo, berço do Rio destruído a jatos de água nos primeiros anos da década de 1920, como o fato mais evidente de rejeição da cidade a seu passado. Porém, ao mesmo tempo que tentava apagar sua história de colônia, em pleno século XX a cidade ganhava clubes regionais – um dos mais conhecidos, a Casa do Minho, é de 1924 – e bairros como Nossa Senhora de Fátima, no Centro, e Portugal Pequeno, em Niterói, todos de inspiração lusitana. Em seu artigo, Lessa cita até a área de alimentação do BarraShopping, uma reprodução da Praça Quinze, como exemplo vivo da presença perene de Portugal na cidade. "Não se consegue entender o Rio sem Portugal. Isso vale para o século XX."

 

VIAGEM SEM VOLTA

Estima-se que 3 milhões de pessoas migraram de Portugal para o Brasil.

No século passado, quase 50% dos imigrantes lusitanos no país moravam no Rio.

Na virada para o século XX, 40% da população do Rio era constituída de portugueses ou seus descendentes de primeira geração.

Nos anos 50 ocorreu o último grande afluxo de portugueses para o Brasil, com a chegada de 260 000 pessoas.

         
     
 
 
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