Publicidade
 
 




 
 
 


24 de abril de 2002
REPORTAGEM DE CAPA
FOTOGRAFIA
LAZER
ARTE
CIDADE
ESPETÁCULO
AS BOAS COMPRAS
BEIRA-MAR
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

REPORTAGEM DE CAPA

Os artistas da casa

Com projetos que podem custar
até 150 000 reais, arquitetos e
decoradores
criam ambientes
sofisticados na cidade

Sofia Cerqueira e Melissa Jannuzzi*

 

André Valentim/Strana
Maurício Nóbrega: doses de diplomacia e psicologia para criar ambientes

A casa veio abaixo. O piso foi trocado, a parede ganhou novo revestimento, o banheiro mudou de lugar, o escritório foi incrementado com um home theater e a iluminação recebeu tratamento de cenário. Só faltava desenrolar os tapetes e pendurar os quadros na parede. Tudo perfeito? Não. Um item é essencial no sucesso de qualquer decoração. Não basta fazer uma quebradeira e gastar uma fortuna em peças. A casa precisa ter a cara de quem vai morar ali. É justamente o talento para captar os desejos e até os delírios dos clientes e transformá-los em realidade que faz de certos arquitetos e decoradores os mais requisitados da cidade. Gente que tem a agenda lotada, cobra de 3.000 a 150.000 reais por trabalho, viaja freqüentemente para fora do país e conhece como poucos a intimidade de artistas, socialites, atletas e empresários poderosos. "Para deixar de ser um simples arquiteto e virar um realizador de sonhos, é necessário que haja sinceridade e harmonia com o cliente. A beleza e a funcionalidade são resultados", acredita a arquiteta Lia Siqueira, 44 anos. Em sua lista de clientes figuram nomes como os das atrizes Patrícia Pillar, Malu Mader, Cláudia Abreu e Débora Bloch e do designer Antônio Bernardo. "O arquiteto tem de ter conhecimento técnico, ser diplomata e um pouco psicólogo", define Maurício Nóbrega, 43 anos, arquiteto responsável, entre outros, pela casa do músico Roberto Frejat, pelo escritório do playboy Alessandro D'Eclesia e pelas lojas da empresária Regina Lundgren. Lia e Maurício estão entre os profissionais mais concorridos dessa turma que está ganhando fama, prestígio e dinheiro com a arquitetura de interior.

Arthur Cavaliere/Strana
Lia Siqueira: o importante é que o cliente sinta que é a casa dele

Um nicho que vai muito além da simples decoração. Pode implicar pequenas intervenções num ambiente ou promover uma mudança completa na planta do imóvel. "Um decorador põe uma cortina para esconder uma janela. O arquiteto de interior cria outra janela", exemplifica Maurício Nóbrega. O fato é que a decoração de interiores, que até alguns anos atrás era relegada a segundo plano, vive agora um grande momento. "A gente saía da faculdade com a mentalidade de que o arquiteto que não dá certo vira decorador. Hoje o arquiteto de interior é tão valorizado como os outros", diz Joy Garrido, 42 anos, vinte de profissão. Depois de ter iniciado a carreira projetando casas, Joy se especializou em arquitetura de interior. No momento, toca quinze obras e já mudou a cara de residências como a da socialite Mônica Marinho, do casal Léa e Israel Klabin e da designer Francesca Romana. "Adoro quando os clientes pedem de tudo. Já interferi até no enxoval de um casal", conta. O arquiteto Cadas Abranches, 47 anos, também faz de tudo. "Compro planta, uísque, prego quadro, arrumo estante e até varro o chão", brinca ele, que ganhou fama pelas casas que projetou. Atualmente, as reformas de interior já representam metade de seu volume de trabalho. O boom da decoração no Rio vem atrelado a um somatório de fatores. Nos últimos quinze anos cresceu o número de shoppings especializados, os eventos de decoração se multiplicaram e foram lançadas dezenas de publicações sobre o assunto. Não é só isso. "Tanto o mercado de arquitetos como as próprias empresas do ramo se profissionalizaram. Existe ainda uma tendência natural de as pessoas se voltarem para dentro de casa", diz Patrícia Mayer, sócia da empresa 3 Plus, que organiza o evento Casa Cor.

Arthur Cavaliere/Strana
Cadas: preocupação em atender aos pedidos dos clientes de forma harmônica

Não há como fugir. Cuidar do interior de uma casa implica compartilhar a intimidade e até conhecer alguns desejos mais secretos de seu dono. "Já tive um cliente que queria teto espelhado no quarto, como o de motéis. Você pode até não gostar, mas não dá para cortar o barato dele", observa Cadas Abranches, que tem no rol de clientes nomes como André Esteves (sócio do Banco Pactual), a socialite Cristiana Johannpeter, as lojas A-teen e o restaurante Joe & Leo's. "Procuro realizar o desejo do cliente. Depois busco uma forma harmônica de integrar o elemento ao ambiente", explica. Lia Siqueira segue a mesma linha. "O fundamental é nunca esquecer que o cliente tem de entrar na casa e sentir que é dele", diz. Lia, conhecida por seu estilo contemporâneo e por criar ambientes claros, já pintou uma parede de vermelho vibrante. "A cliente contratou um especialista em feng shui e queria porque queria um ambiente naquela cor. Tudo bem. Chegamos a um acordo e botei no hall." Mas há desejos bem mais esquisitos. "Já quiseram dois vasos sanitários no mesmo banheiro", conta Jairo de Sender, 44 anos, outro detentor de extensa clientela de nomes famosos, como Luciano Szafir e Luigi Baricelli. A decoradora Julinha Serrado, 59 anos, também defende a relevância de atender às vontades do cliente. Ela já foi até criticada em notinhas de colunas sociais em que perguntavam "como uma decoradora talentosa tinha se sujeitado a fazer uma piscina com o desenho de uma bola de futebol no fundo". O cliente, no caso, era o jogador Ronaldinho. "Era o símbolo da vida dele. Naquele momento era importante ter aquilo na casa", explica.

Arthur Cavaliere/Strana
Joy Garrido: em vinte anos de profissão, já deu palpite até em enxoval

Julinha decorou o primeiro apartamento de Ronaldinho no Rio, a casa em Barcelona, depois o tríplex de Milão e agora termina a cobertura da Barra. "Não faço só coisas grandes. Decorei até uma quitinete", conta. Por causa de seus trabalhos para o craque, a decoradora virou a preferida do escrete do esporte. Entre os clientes estão o técnico de futebol Parreira, o jogador Bebeto e o técnico de vôlei Bebeto de Freitas. "Fiquei à vontade para opinar. Ela consegue trabalhar para pessoas conhecidas sem deixar tudo parecido", elogia Denise, mulher de Bebeto, que chamou a decoradora para comandar a reforma de sua casa. Embora contratar um arquiteto ainda seja visto como luxo, há sempre soluções que se encaixam no bolso do cliente. "Não tem mais essa de carta branca. Hoje se discutem preço e soluções mais convenientes", analisa Maurício Nóbrega. Pedro Paranaguá, 49 anos, outro profissional conhecido por assinar endereços badalados, como o apartamento do estilista Frankie Mackey e o da socialite Paula Nabuco, é da mesma opinião. "Você pode encontrar pisos de 20 a 200 reais o metro quadrado", diz. O toque final na casa, afirma Lia Siqueira, não implica necessariamente gastar os tubos. "Encontram-se móveis de designers famosos em lojas como a Tok Stok e podem-se comprar bons quadros numa escola de arte", ensina. Lia, como a maioria dos arquitetos de interiores, não tem regra fixa quanto ao preço a cobrar. Pode ser tanto uma porcentagem do valor da obra como um pacote, levando-se em conta tamanho e prazos. Em geral, um trabalho com sua assinatura custa entre 35.000 e 150.000 reais (projeto mais acompanhamento). Há casos, porém, em que o arquiteto prefere cobrar pelo projeto e depois determinar uma taxa de acompanhamento mensal, de 500 a 1.500 reais, como Julinha Serrado. Existem profissionais que optam por fechar o contrato por metragem, como Cadas Abranches (de 100 a 200 reais por metro quadrado). Há ainda quem cobre de 10% a 15% sobre tudo o que é gasto na decoração. É praxe os arquitetos receberem das lojas 10% de comissão sobre o que os clientes compram.

André Valentim/Strana
André Nazareth/Strana
Chicô: "Acham que a gente só vai a festas. Trabalha-se muito" Grabowsky: o arquiteto vira voto de Minerva na indecisão de casais

E hoje não é só a mulher que vai às compras. "O homem está mais participativo. Tenho clientes gourmets e cinéfilos que pedem ambientes adequados para seus hobbies", conta Pedro Paranaguá. Se o homem está palpitando mais na decoração, é inegável que muitas vezes isso gera conflitos no casal. "É preciso ter psicologia nesses casos. O arquiteto acaba dando o voto de Minerva", diz Luiz Fernando Grabowsky, 43 anos, que tem uma clientela de peso, como os casais Kika e Eduardo Modiano, Adriana Mattar e Sérgio Monteiro de Carvalho e Isabel e Francisco Gros, presidente da Petrobras. "Na dúvida, a palavra final é do profissional. Grabowsky tem experiência e passa segurança", atesta a banqueteira Adriana Mattar, que mora numa casa decorada por ele. Mas o know-how e o nome no mercado não impedem que os profissionais sejam surpreendidos por clientes com recortes de revista querendo projetos idênticos. É comum também serem procurados para resolver uma tentativa frustrada de decoração por conta própria. "Tem muita gente que liga pedindo ajuda porque derrubou uma parede, comprou tal objeto e não deu certo", conta a decoradora Ana Maria Índio da Costa, 58 anos e trinta de experiência. Em seu currículo constam, entre outros, projetos para o casal Mariana e Nelson Sendas e para a socialite Henriqueta Gomes. "Cada vez mais as pessoas percebem a importância de um profissional. Pode-se encomendar um projeto e executá-lo aos poucos", observa Ana Maria.


André Valentim/Strana
Jairo de Sender: visitas aos clientes até no fim de semana


Nesse mercado de arquitetura de interiores existe mesmo espaço para todos os perfis. De clientes ou decoradores. No estilo clássico, com doses generosas de rococós, Hélio Fraga, 54 anos, é referência. Fraga, que assina a casa de Lily e Roberto Marinho, é o preferido da sociedade tradicional. Mas novos nomes estão conquistando espaço (veja quadro). Há gente como a arquiteta Bel Lobo, que já tem endereços concorridos no currículo, como o restaurante Bazzar e a Livraria da Travessa, e mais novos, como André Piva, responsável pela casa noturna Baronnetti. Thiago Bernardes, filho e neto de arquitetos, é outro jovem de peso. Ele projetou os restaurantes Dom João e Seu Martin. A assinatura em pontos badalados e endereços chiques é sinal de reconhecimento, mas a vida desses profissionais não é só glamour. "Não tenho horário. Trabalho sábado, domingo, feriado", diz Jairo de Sender. A jornada, mesmo para os tops da cidade, é de dez a doze horas por dia. "Acham que a gente só vai a festas e coquetéis. Tudo isso faz parte, mas a gente trabalha muito", afirma Chicô Gouvêa, 49 anos, 25 de carreira e uma longa lista de clientes conhecidos, como o político Ronaldo Cezar Coelho e a jornalista Gilse Campos, e de endereços sofisticados, como os restaurantes St. Honoré e Garcia & Rodrigues. "Nesta profissão não tem lugar para salto alto", diz. Mas sobra espaço para beleza, sofisticação e brilho.

André Valentim/Strana
Julinha Serrado na sala de Parreira: a preferida da turma do esporte

* Colaborou Renata Quattrone

O que fazer e o que evitar em casa

Antes de sair comprando móveis, anote as medidas de sua casa.

Na hora de escolher o sofá, opte por linhas clássicas. Para revestir, o melhor é o tecido liso.

Boa dica é jogar mantas por cima e deixar a cor e as estampas para almofadas e poltronas.

Na iluminação, use luz difusa e dimer para controlar a intensidade.

Cores nas paredes continuam em alta. Para não errar, pinte a casa com um tom neutro e deixe a cor forte para ambientes de passagem.

A elegância está no equilíbrio. Vale misturar o novo com o velho, o rústico com o moderno.

Porta-retratos é um objeto de decoração bom e barato, que dá vida ao ambiente.

Evite comprar muita coisa de uma vez só. Móvel demais faz o ambiente parecer menor e compromete a circulação.

Cor forte no teto nem pensar. O branco é um rebatedor natural de luz.

Misturar muitos pisos na casa pode ser um desastre. Se não dá para comprar mármore, o porcelanato e a cerâmica são opções.

Excesso de pano nas cortinas está em baixa. Use os modelos de tela e em forma de rolo.

Xadrez e listras para revestimento ou parede são sempre um risco. A saída são os tons claros.

Não exagere na quantidade de quadros. É melhor ter poucos e bons.

Menos é sempre mais. A casa não precisa ter dezenas de bibelôs para ficar bonita.

 

Os traços da nova geração

Fátima Sá

Fotos André Nazareth/Strana
Rivera e Azevedo: projeto premiado e obra na rua


Eles estavam na escola quando a mostra Casa Cor nasceu. Faziam pré-vestibular enquanto o Rio Orla esburacava o calçadão. E andavam na faculdade quando o Rio Cidade esquadrinhava a Zona Sul. Formados nesse caldeirão de idéias, jovens talentosos invadiram as pranchetas no fim dos anos 90. E chegaram lá. Antes de chegar aos 30, já têm escritório próprio e assinam projetos prestigiados. Rodrigo Azevedo e Pedro Rivera são bons exemplos. Aos 28 anos, estão por trás da premiada revitalização do mercado Ver-o-Peso, no centro de Belém. Colecionam obras pelo Rio e estão mudando a orla de Paquetá. Mas não esnobam causas comezinhas. Dão consultoria a quem quiser, a 100 reais por duas horas, com o impagável slogan "Tire o bode da sala". Teve gente que quase desanimou. Rafael Patalano, 28 anos, faz piada quando fala do primeiro estágio. "Com o salário de um mês comprei uma chuteira e um Big Mac. Não sobrou nada", ri. Patalano cresceu. Hoje é sócio do arquiteto Ivo Mareines, assina móveis vendidos na Way Design e projeta casas de sonho. Acaba de desenhar uma sinagoga na Barra e uma igreja em Vargem Grande.

 
Christiane e Carol: em pouco tempo, novata virou sócia

Parcerias assim podem ser mesmo um bom negócio. Para todo mundo. Christiane Laclau necessitava de ajuda e pediu a um amigo professor que indicasse uma aluna. Apareceu Carolina Wambier, 27 anos. Carol deu gás ao escritório. E virou sócia. A dupla anda festejada. Criou ambientes para a Casa Cor e projetou a residência de Antônio Fagundes, entre outros famosos. A experiente Gisele Taranto nem precisou procurar. Izabela Lessa, 27 anos, estagiava com Cadas Abranches quando Gisele coordenava a equipe. As duas pensavam parecido, foram afinando as idéias e acabaram partindo para um escritório em dupla. Fizeram Casa Cor, criaram vitrines para o Rio Design, reformaram uma penca de apartamentos. "O trabalho rende mais", declara Gisele. O argumento nem sempre seduz. Erick Figueira de Mello, 26 anos, preferiu vôo-solo. Tinha apenas 22 anos quando abriu escritório. E fez fama. Esteve na Casa Cor, reformou mansões em Angra, projetou o restaurante Antonionne, no Leblon. Para quem desdenha, diz logo: "A gente é novo, mas entende".

         
     
 
 
VEJA on-line | Veja Rio | VEJA Noite Rio
copyright © 2002 . Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados
EX: 5; LEFT: 630px; VISIBILITY: visible; WIDTH: 130px; POSITION: absolute; TOP: 202px">