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REPORTAGEM
DE CAPA
Os
artistas da casa
Com
projetos que podem custar
até 150 000 reais, arquitetos e
decoradores criam
ambientes
sofisticados na cidade
Sofia
Cerqueira e Melissa Jannuzzi*
André Valentim/Strana
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| Maurício
Nóbrega: doses de diplomacia e psicologia para criar
ambientes |
A casa
veio abaixo. O piso foi trocado, a parede ganhou novo revestimento,
o banheiro mudou de lugar, o escritório foi incrementado
com um home theater e a iluminação recebeu
tratamento de cenário. Só faltava desenrolar os tapetes
e pendurar os quadros na parede. Tudo perfeito? Não. Um item
é essencial no sucesso de qualquer decoração.
Não basta fazer uma quebradeira e gastar uma fortuna em peças.
A casa precisa ter a cara de quem vai morar ali. É justamente
o talento para captar os desejos e até os delírios
dos clientes e transformá-los em realidade que faz de certos
arquitetos e decoradores os mais requisitados da cidade. Gente que
tem a agenda lotada, cobra de 3.000 a
150.000 reais por trabalho, viaja freqüentemente
para fora do país e conhece como poucos a intimidade de artistas,
socialites, atletas e empresários poderosos. "Para deixar
de ser um simples arquiteto e virar um realizador de sonhos, é
necessário que haja sinceridade e harmonia com o cliente.
A beleza e a funcionalidade são resultados", acredita a arquiteta
Lia Siqueira, 44 anos. Em sua lista de clientes figuram nomes como
os das atrizes Patrícia Pillar, Malu Mader, Cláudia
Abreu e Débora Bloch e do designer Antônio Bernardo.
"O arquiteto tem de ter conhecimento técnico, ser diplomata
e um pouco psicólogo", define Maurício Nóbrega,
43 anos, arquiteto responsável, entre outros, pela casa do
músico Roberto Frejat, pelo escritório do playboy
Alessandro D'Eclesia e pelas lojas da empresária Regina Lundgren.
Lia e Maurício estão entre os profissionais mais concorridos
dessa turma que está ganhando fama, prestígio e dinheiro
com a arquitetura de interior.
Arthur Cavaliere/Strana
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| Lia
Siqueira: o importante é que o cliente sinta que é
a casa dele |
Um
nicho que vai muito além da simples decoração.
Pode implicar pequenas intervenções num ambiente ou
promover uma mudança completa na planta do imóvel.
"Um decorador põe uma cortina para esconder uma janela. O
arquiteto de interior cria outra janela", exemplifica Maurício
Nóbrega. O fato é que a decoração de
interiores, que até alguns anos atrás era relegada
a segundo plano, vive agora um grande momento. "A gente saía
da faculdade com a mentalidade de que o arquiteto que não
dá certo vira decorador. Hoje o arquiteto de interior é
tão valorizado como os outros", diz Joy Garrido, 42 anos,
vinte de profissão. Depois de ter iniciado a carreira projetando
casas, Joy se especializou em arquitetura de interior. No momento,
toca quinze obras e já mudou a cara de residências
como a da socialite Mônica Marinho, do casal Léa e
Israel Klabin e da designer Francesca Romana. "Adoro quando os clientes
pedem de tudo. Já interferi até no enxoval de um casal",
conta. O arquiteto Cadas Abranches, 47 anos, também faz de
tudo. "Compro planta, uísque, prego quadro, arrumo estante
e até varro o chão", brinca ele, que ganhou fama pelas
casas que projetou. Atualmente, as reformas de interior já
representam metade de seu volume de trabalho. O boom da decoração
no Rio vem atrelado a um somatório de fatores. Nos últimos
quinze anos cresceu o número de shoppings especializados,
os eventos de decoração se multiplicaram e foram lançadas
dezenas de publicações sobre o assunto. Não
é só isso. "Tanto o mercado de arquitetos como as
próprias empresas do ramo se profissionalizaram. Existe ainda
uma tendência natural de as pessoas se voltarem para dentro
de casa", diz Patrícia Mayer, sócia da empresa 3 Plus,
que organiza o evento Casa Cor.
Arthur Cavaliere/Strana
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| Cadas:
preocupação em atender aos pedidos dos clientes
de forma harmônica |
Não
há como fugir. Cuidar do interior de uma casa implica compartilhar
a intimidade e até conhecer alguns desejos mais secretos
de seu dono. "Já tive um cliente que queria teto espelhado
no quarto, como o de motéis. Você pode até não
gostar, mas não dá para cortar o barato dele", observa
Cadas Abranches, que tem no rol de clientes nomes como André
Esteves (sócio do Banco Pactual), a socialite Cristiana Johannpeter,
as lojas A-teen e o restaurante Joe & Leo's. "Procuro realizar
o desejo do cliente. Depois busco uma forma harmônica de integrar
o elemento ao ambiente", explica. Lia Siqueira segue a mesma linha.
"O fundamental é nunca esquecer que o cliente tem de entrar
na casa e sentir que é dele", diz. Lia, conhecida por seu
estilo contemporâneo e por criar ambientes claros, já
pintou uma parede de vermelho vibrante. "A cliente contratou um
especialista em feng shui e queria porque queria um ambiente naquela
cor. Tudo bem. Chegamos a um acordo e botei no hall." Mas há
desejos bem mais esquisitos. "Já quiseram dois vasos sanitários
no mesmo banheiro", conta Jairo de Sender, 44 anos, outro detentor
de extensa clientela de nomes famosos, como Luciano Szafir e Luigi
Baricelli. A decoradora Julinha Serrado, 59 anos, também
defende a relevância de atender às vontades do cliente.
Ela já foi até criticada em notinhas de colunas sociais
em que perguntavam "como uma decoradora talentosa tinha se sujeitado
a fazer uma piscina com o desenho de uma bola de futebol no fundo".
O cliente, no caso, era o jogador Ronaldinho. "Era o símbolo
da vida dele. Naquele momento era importante ter aquilo na casa",
explica.
Arthur Cavaliere/Strana
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| Joy
Garrido: em vinte anos de profissão, já deu palpite
até em enxoval |
Julinha
decorou o primeiro apartamento de Ronaldinho no Rio, a casa em Barcelona,
depois o tríplex de Milão e agora termina a cobertura
da Barra. "Não faço só coisas grandes. Decorei
até uma quitinete", conta. Por causa de seus trabalhos para
o craque, a decoradora virou a preferida do escrete do esporte.
Entre os clientes estão o técnico de futebol Parreira,
o jogador Bebeto e o técnico de vôlei Bebeto de Freitas.
"Fiquei à vontade para opinar. Ela consegue trabalhar para
pessoas conhecidas sem deixar tudo parecido", elogia Denise, mulher
de Bebeto, que chamou a decoradora para comandar a reforma de sua
casa. Embora contratar um arquiteto ainda seja visto como luxo,
há sempre soluções que se encaixam no bolso
do cliente. "Não tem mais essa de carta branca. Hoje se discutem
preço e soluções mais convenientes", analisa
Maurício Nóbrega. Pedro Paranaguá, 49 anos,
outro profissional conhecido por assinar endereços badalados,
como o apartamento do estilista Frankie Mackey e o da socialite
Paula Nabuco, é da mesma opinião. "Você pode
encontrar pisos de 20 a 200 reais o metro quadrado", diz. O toque
final na casa, afirma Lia Siqueira, não implica necessariamente
gastar os tubos. "Encontram-se móveis de designers famosos
em lojas como a Tok Stok e podem-se comprar bons quadros numa escola
de arte", ensina. Lia, como a maioria dos arquitetos de interiores,
não tem regra fixa quanto ao preço a cobrar. Pode
ser tanto uma porcentagem do valor da obra como um pacote, levando-se
em conta tamanho e prazos. Em geral, um trabalho com sua assinatura
custa entre 35.000 e 150.000
reais (projeto mais acompanhamento). Há casos, porém,
em que o arquiteto prefere cobrar pelo projeto e depois determinar
uma taxa de acompanhamento mensal, de 500 a 1.500
reais, como Julinha Serrado. Existem profissionais que optam por
fechar o contrato por metragem, como Cadas Abranches (de 100 a 200
reais por metro quadrado). Há ainda quem cobre de 10% a 15%
sobre tudo o que é gasto na decoração. É
praxe os arquitetos receberem das lojas 10% de comissão sobre
o que os clientes compram.
André Valentim/Strana
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André Nazareth/Strana
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| Chicô:
"Acham que a gente só vai a festas. Trabalha-se
muito" |
Grabowsky:
o arquiteto vira voto de Minerva na indecisão de casais
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E hoje
não é só a mulher que vai às compras.
"O homem está mais participativo. Tenho clientes gourmets
e cinéfilos que pedem ambientes adequados para seus hobbies",
conta Pedro Paranaguá. Se o homem está palpitando
mais na decoração, é inegável que muitas
vezes isso gera conflitos no casal. "É preciso ter psicologia
nesses casos. O arquiteto acaba dando o voto de Minerva", diz Luiz
Fernando Grabowsky, 43 anos, que tem uma clientela de peso, como
os casais Kika e Eduardo Modiano, Adriana Mattar e Sérgio
Monteiro de Carvalho e Isabel e Francisco Gros, presidente da Petrobras.
"Na dúvida, a palavra final é do profissional. Grabowsky
tem experiência e passa segurança", atesta a banqueteira
Adriana Mattar, que mora numa casa decorada por ele. Mas o know-how
e o nome no mercado não impedem que os profissionais sejam
surpreendidos por clientes com recortes de revista querendo projetos
idênticos. É comum também serem procurados para
resolver uma tentativa frustrada de decoração por
conta própria. "Tem muita gente que liga pedindo ajuda porque
derrubou uma parede, comprou tal objeto e não deu certo",
conta a decoradora Ana Maria Índio da Costa, 58 anos e trinta
de experiência. Em seu currículo constam, entre outros,
projetos para o casal Mariana e Nelson Sendas e para a socialite
Henriqueta Gomes. "Cada vez mais as pessoas percebem a importância
de um profissional. Pode-se encomendar um projeto e executá-lo
aos poucos", observa Ana Maria.
André Valentim/Strana
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| Jairo
de Sender: visitas aos clientes até no fim de semana |
Nesse mercado de arquitetura de interiores existe mesmo espaço
para todos os perfis. De clientes ou decoradores. No estilo clássico,
com doses generosas de rococós, Hélio Fraga, 54 anos,
é referência. Fraga, que assina a casa de Lily e Roberto
Marinho, é o preferido da sociedade tradicional. Mas novos
nomes estão conquistando espaço (veja
quadro). Há gente como a arquiteta Bel Lobo,
que já tem endereços concorridos no currículo,
como o restaurante Bazzar e a Livraria da Travessa, e mais novos,
como André Piva, responsável pela casa noturna Baronnetti.
Thiago Bernardes, filho e neto de arquitetos, é outro jovem
de peso. Ele projetou os restaurantes Dom João e Seu Martin.
A assinatura em pontos badalados e endereços chiques é
sinal de reconhecimento, mas a vida desses profissionais não
é só glamour. "Não tenho horário. Trabalho
sábado, domingo, feriado", diz Jairo de Sender. A jornada,
mesmo para os tops da cidade, é de dez a doze horas por dia.
"Acham que a gente só vai a festas e coquetéis. Tudo
isso faz parte, mas a gente trabalha muito", afirma Chicô
Gouvêa, 49 anos, 25 de carreira e uma longa lista de clientes
conhecidos, como o político Ronaldo Cezar Coelho e a jornalista
Gilse Campos, e de endereços sofisticados, como os restaurantes
St. Honoré e Garcia & Rodrigues. "Nesta profissão
não tem lugar para salto alto", diz. Mas sobra espaço
para beleza, sofisticação e brilho.
André Valentim/Strana
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| Julinha
Serrado na sala de Parreira: a preferida da turma do esporte
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Colaborou Renata Quattrone
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O
que fazer e o que evitar em casa
Antes
de sair comprando móveis, anote as medidas de sua casa.
Na
hora de escolher o sofá, opte por linhas clássicas.
Para revestir, o melhor é o tecido liso.
Boa
dica é jogar mantas por cima e deixar a cor e as estampas
para almofadas e poltronas.
Na
iluminação, use luz difusa e dimer para controlar
a intensidade.
Cores
nas paredes continuam em alta. Para não errar, pinte
a casa com um tom neutro e deixe a cor forte para ambientes
de passagem.
A
elegância está no equilíbrio. Vale misturar
o novo com o velho, o rústico com o moderno.
Porta-retratos
é um objeto de decoração bom e barato,
que dá vida ao ambiente.
Evite
comprar muita coisa de uma vez só. Móvel demais
faz o ambiente parecer menor e compromete a circulação.
Cor
forte no teto nem pensar. O branco é um rebatedor natural
de luz.
Misturar
muitos pisos na casa pode ser um desastre. Se não dá
para comprar mármore, o porcelanato e a cerâmica
são opções.
Excesso
de pano nas cortinas está em baixa. Use os modelos
de tela e em forma de rolo.
Xadrez
e listras para revestimento ou parede são sempre um
risco. A saída são os tons claros.
Não
exagere na quantidade de quadros. É melhor ter poucos
e bons.
Menos
é sempre mais. A casa não precisa ter dezenas
de bibelôs para ficar bonita.
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Os
traços da nova geração
Fátima
Sá
Fotos André Nazareth/Strana
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| Rivera
e Azevedo: projeto premiado e obra na rua |
Eles estavam na escola quando a mostra Casa Cor nasceu. Faziam
pré-vestibular enquanto o Rio Orla esburacava o calçadão.
E andavam na faculdade quando o Rio Cidade esquadrinhava a
Zona Sul. Formados nesse caldeirão de idéias,
jovens talentosos invadiram as pranchetas no fim dos anos
90. E chegaram lá. Antes de chegar aos 30, já
têm escritório próprio e assinam projetos
prestigiados. Rodrigo Azevedo e Pedro Rivera são bons
exemplos. Aos 28 anos, estão por trás da premiada
revitalização do mercado Ver-o-Peso, no centro
de Belém. Colecionam obras pelo Rio e estão
mudando a orla de Paquetá. Mas não esnobam causas
comezinhas. Dão consultoria a quem quiser, a 100 reais
por duas horas, com o impagável slogan "Tire o bode
da sala". Teve gente que quase desanimou. Rafael Patalano,
28 anos, faz piada quando fala do primeiro estágio.
"Com o salário de um mês comprei uma chuteira
e um Big Mac. Não sobrou nada", ri. Patalano cresceu.
Hoje é sócio do arquiteto Ivo Mareines, assina
móveis vendidos na Way Design e projeta casas de sonho.
Acaba de desenhar uma sinagoga na Barra e uma igreja em Vargem
Grande.
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| Christiane
e Carol: em pouco tempo, novata virou sócia |
Parcerias
assim podem ser mesmo um bom negócio. Para todo mundo.
Christiane Laclau necessitava de ajuda e pediu a um amigo
professor que indicasse uma aluna. Apareceu Carolina Wambier,
27 anos. Carol deu gás ao escritório. E virou
sócia. A dupla anda festejada. Criou ambientes para
a Casa Cor e projetou a residência de Antônio
Fagundes, entre outros famosos. A experiente Gisele Taranto
nem precisou procurar. Izabela Lessa, 27 anos, estagiava com
Cadas Abranches quando Gisele coordenava a equipe. As duas
pensavam parecido, foram afinando as idéias e acabaram
partindo para um escritório em dupla. Fizeram Casa
Cor, criaram vitrines para o Rio Design, reformaram uma penca
de apartamentos. "O trabalho rende mais", declara Gisele.
O argumento nem sempre seduz. Erick Figueira de Mello, 26
anos, preferiu vôo-solo. Tinha apenas 22 anos quando
abriu escritório. E fez fama. Esteve na Casa Cor, reformou
mansões em Angra, projetou o restaurante Antonionne,
no Leblon. Para quem desdenha, diz logo: "A gente é
novo, mas entende".
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