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24 de março de 2004
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CRÔNICA

Noites de domingo

Adriana Falcão

A musiquinha do Fantástico escapulindo pelas janelas embalava a insônia dos cidadãos.

Nas agendas mentais, anotações de várias ordens. As obrigações do dia seguinte, como convém a uma noite de domingo, tinham virado mariposas. Não sei quantos compromissos reivindicavam resoluções, em passeata. Em toda resolução, uma incerteza. Para cada incerteza se abriam diversas possibilidades, umas de sucesso, umas de fracasso. No fundo dos corações, milhões e milhões de dúvidas.

Domingo mais parece véspera do que dia.

Já começa, ao alvorecer, com a triste sina de acabar, exatamente à meia-noite, para ser substituído por uma ameaçadora segunda-feira, que nem tarda, nem falha. Um argumento de defesa para o coitado: a culpa não é dele. Se pudesse escolher, quem sabe, o domingo não acabaria nunca. Talvez até fique constrangido de nos abandonar em plena manhã de segunda, uma semana inteira de responsabilidades pela frente, pois nenhum dia que se preze, especialmente um domingo, faria isso com as crianças: ir embora desse jeito levando a praia, a bola, a piscina, o travesseiro, para deixar em troca um monte de deveres, português, matemática, história, geografia.

E a musiquinha do Fantástico já tinha virado passado, e a segunda ali, nos espreitando, e as preocupações disputando com o tique-taque do despertador qual deles era mais insuportável.

Não vai embora não.

Fica, domingo.

Vai pra onde?

Fazer o quê?

O que é feito do domingo nos outros dias da semana?

Vira passado?

Futuro?

Fica por aí em algum limbo, na lista de espera das horas que passam?

É apenas uma vaga idéia?

Uma data qualquer de calendário?

Um número?

Um nome?

Alguns planos?

"Vai almoçar lá em casa no domingo. Este domingo sem falta eu te levo ao cinema. Deus quiser, domingo dá praia. Domingo tem jogo. Tomara que domingo chegue logo."

E ele chegou, e passou voando, com sua habitual expectativa de ser tomado por dia, apesar de ser apenas enquanto. E a segunda ali no aguardo. E a insônia contabilizando os segundos. E foi que um cidadão enfim tombou exausto, outro foi surpreendido pelo sono no meio de uma frase de um livro, outro se deixou ninar pelo som de uma TV ligada, outro desligou de bêbado, outro tomou um sonífero, outro (era meio zen esse) espantou os pensamentos com uma ameaça de mantra, e foi que, finalmente, já era madrugada, todos eles dormiram.

A cidade ficou mansa.

A noite virou dona.

O Ibope da Lua caiu drasticamente a zero.

E então os pensamentos todos resolveram escapulir, como se fossem música ou vento, e saíram por aí em revoada. Juntas, as inseguranças se sentiam mais seguras. As dúvidas se puseram a pedir conselhos umas para as outras. O enxame de incertezas se dissipou no espaço escuro, pois coletivo de incerteza quase sempre é algo da família do receio, e elas preferiam ficar sozinhas a se autodenominar de palavra que parecesse assustadora. As possibilidades do dia seguinte ficaram lá, piscando para o nada.

O dia amanheceu.

Quando a segunda virou realidade em cada "trim" de despertador, "tá na hora" de mãe ou canto de galo, alguns cidadãos praguejaram, sonolentos. Outros se conformaram. Outros foram subitamente tomados por aquele "eu vou conseguir" que só se manifesta em casos de extrema necessidade. Quase todos eles conseguiram atravessar o dia sãos e salvos. E mais uma vez a segunda terminou sendo muito melhor do que a idéia que se fizera dela. Conclusão: as idéias podem ser muito piores que a realidade, principalmente nas noites de domingo.

Nem por isso, a noite do domingo seguinte foi menos dolorosa.

Conclusão: as conclusões, às vezes, não servem mesmo é para nada.

         
     

 

 
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