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CRÔNICA
Noites de domingo
Adriana
Falcão
A musiquinha
do Fantástico escapulindo pelas janelas embalava a
insônia dos cidadãos.
Nas
agendas mentais, anotações de várias ordens.
As obrigações do dia seguinte, como convém
a uma noite de domingo, tinham virado mariposas. Não sei
quantos compromissos reivindicavam resoluções, em
passeata. Em toda resolução, uma incerteza. Para cada
incerteza se abriam diversas possibilidades, umas de sucesso, umas
de fracasso. No fundo dos corações, milhões
e milhões de dúvidas.
Domingo
mais parece véspera do que dia.
Já
começa, ao alvorecer, com a triste sina de acabar, exatamente
à meia-noite, para ser substituído por uma ameaçadora
segunda-feira, que nem tarda, nem falha. Um argumento de defesa
para o coitado: a culpa não é dele. Se pudesse escolher,
quem sabe, o domingo não acabaria nunca. Talvez até
fique constrangido de nos abandonar em plena manhã de segunda,
uma semana inteira de responsabilidades pela frente, pois nenhum
dia que se preze, especialmente um domingo, faria isso com as crianças:
ir embora desse jeito levando a praia, a bola, a piscina, o travesseiro,
para deixar em troca um monte de deveres, português, matemática,
história, geografia.
E
a musiquinha do Fantástico já tinha virado
passado, e a segunda ali, nos espreitando, e as preocupações
disputando com o tique-taque do despertador qual deles era mais
insuportável.
Não
vai embora não.
Fica,
domingo.
Vai
pra onde?
Fazer
o quê?
O
que é feito do domingo nos outros dias da semana?
Vira
passado?
Futuro?
Fica
por aí em algum limbo, na lista de espera das horas que passam?
É
apenas uma vaga idéia?
Uma
data qualquer de calendário?
Um
número?
Um
nome?
Alguns
planos?
"Vai
almoçar lá em casa no domingo. Este domingo sem falta
eu te levo ao cinema. Deus quiser, domingo dá praia. Domingo
tem jogo. Tomara que domingo chegue logo."
E
ele chegou, e passou voando, com sua habitual expectativa de ser
tomado por dia, apesar de ser apenas enquanto. E a segunda ali no
aguardo. E a insônia contabilizando os segundos. E foi que
um cidadão enfim tombou exausto, outro foi surpreendido pelo
sono no meio de uma frase de um livro, outro se deixou ninar pelo
som de uma TV ligada, outro desligou de bêbado, outro tomou
um sonífero, outro (era meio zen esse) espantou os pensamentos
com uma ameaça de mantra, e foi que, finalmente, já
era madrugada, todos eles dormiram.
A
cidade ficou mansa.
A
noite virou dona.
O
Ibope da Lua caiu drasticamente a zero.
E
então os pensamentos todos resolveram escapulir, como se
fossem música ou vento, e saíram por aí em
revoada. Juntas, as inseguranças se sentiam mais seguras.
As dúvidas se puseram a pedir conselhos umas para as outras.
O enxame de incertezas se dissipou no espaço escuro, pois
coletivo de incerteza quase sempre é algo da família
do receio, e elas preferiam ficar sozinhas a se autodenominar de
palavra que parecesse assustadora. As possibilidades do dia seguinte
ficaram lá, piscando para o nada.
O
dia amanheceu.
Quando
a segunda virou realidade em cada "trim" de despertador, "tá
na hora" de mãe ou canto de galo, alguns cidadãos
praguejaram, sonolentos. Outros se conformaram. Outros foram subitamente
tomados por aquele "eu vou conseguir" que só se manifesta
em casos de extrema necessidade. Quase todos eles conseguiram atravessar
o dia sãos e salvos. E mais uma vez a segunda terminou sendo
muito melhor do que a idéia que se fizera dela. Conclusão:
as idéias podem ser muito piores que a realidade, principalmente
nas noites de domingo.
Nem
por isso, a noite do domingo seguinte foi menos dolorosa.
Conclusão:
as conclusões, às vezes, não servem mesmo é
para nada.
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