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24 de março de 2004
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REPORTAGEM DE CAPA

Clube dos lançadores de moda

Prateleiras luxuosas se rendem
ao talento dos novos criadores

Fátima Sá

 

Fotos André Nazareth/Strana
Xavier e equipe (acima) na Clube Chocolate (imediatamente abaixo): garimpo de peças especiais como vestidos Alberta Ferreti (abaixo, à esq.) e cashmere Lucien Pellat-Finnet (abaixo, à dir.)
Movimento na porta, em 1986 (à esq.), e o trio de DJs: Tony, Mahr e Wilson vão festejar os vinte anos de Crepúsculo

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É só xeretar as etiquetas. Ao lado de supergrifes como Prada, Bluemarine e Donna Karan, jovens estilistas cariocas disputam as atenções dos mais antenados – e abastados – consumidores da cidade. O que até alguns anos atrás passava ao largo dos templos do luxo é hoje fórmula de sucesso. Ibô, Zigfreda, OEstudio, Daniela Martins e Alessa são alguns dos nomes que brilham em araras descoladas e elegantes. Isabela Capeto, a estilista que está por trás da Ibô, inaugurou seu ateliê em abril do ano passado, na Gávea. Já soma treze pontos-de-venda no exterior, entre eles as conceituadas lojas Browns, de Londres, Biffi, de Milão, e Stean, de Miami. No mercado internacional, seus vestidos chegam a ser vendidos por 1.800 dólares. Menorzinha, a marca Zigfreda, do casal Katia Wille e Hans Blankenburgh, nasceu oficialmente em outubro passado, em Copacabana. E virou sensação. Já OEstudio, casa de criação que produz sites, filmes, programação visual de CDs, lojas e artistas, ganhou sua faceta costura dois anos atrás, em caráter experimental. "Era só para a gente e para os amigos", conta Anne Gaul, que divide as tesouras com a amiga Christine de Castro e as idéias com os outros seis integrantes do grupo, na Gávea. "Estudei estilismo aqui, mas o cenário não era bom, então fui para Nova York e Florença, estudar um pouco mais. Em 2001, os amigos começaram a me chamar. O cenário estava mudando. Hoje há muita gente nova fazendo coisas ótimas por aqui", atesta Anne, prestes a lançar sua quarta coleção.

 
André Nazareth/Strana
Márcio Madeira/Divulg.

OEstudio: a casa de criação formada por jovens designers e estilistas (à esq.) produz moda, sites, filmes e projetos visuais. Estilo urbano e experimental (à dir. )

O palco principal que projetou esses novos talentos é a sofisticada loja Clube Chocolate – versão remodelada da grife feminina Chocolate, que teve seu boom nos anos 80 e andava meio apagada na década que passou. Cinco anos atrás, os donos da marca se associaram ao poderoso grupo português Riopele, proprietário de uma das maiores fábricas de tecidos da Europa, que fornece para Armani, Prada e Zara. Com os novos sócios, a Chocolate virou uma loja multimarcas de grifes internacionais, com algumas peças da etiqueta antiga. Tornou-se Club Chocolate. No último ano, cabideiros e vitrines passaram a exibir novos criadores nacionais. Gente como a publicitária Alessandra Migani, que se notabilizou produzindo calcinhas com frases bem-humoradas, e a ex-consultora financeira Daniela Martins, que, em 1999, durante a licença-maternidade, resolveu fazer bolsas para ocupar o tempo e acabou montando ateliê no Jardim Botânico. Há dois anos, Daniela começou também a produzir roupas femininas, que, aos poucos, chegaram à loja do Fashion Mall. A Club logo passou a Clube e virou lançadora de tendências. "Hoje, em cada área da loja temos grifes internacionais, peças da marca Chocolate e pelo menos um estilista brasileiro famoso e outro menos conhecido. Procuramos ser a síntese do luxo contemporâneo sem perder o traço da sensualidade brasileira", diz José Xavier Neto, diretor de pesquisas responsável pela guinada da loja.

 
Márcio Madeira/Divulg
André Nazareth/Strana

Katia Wille, carioca, e Hans Blankenburgh, holandês (acima), criaram a marca Zigfreda na ponte aérea Rio–Amsterdã: moda feminina original, bem-humorada e graciosa (à esq.)

O casamento entre grifes internacionais e a jovem moda brasileira deu frutos além das terras cariocas. Em dezembro, a Clube Chocolate inaugurou sua filial paulistana, na Rua Oscar Freire, reduto do comércio mais luxuoso do país. Virou sensação, com direito à visita da americana Patricia Field, figurinista do cultuado seriado Sex and the City. Entre as peças escolhidas por ela estavam um vestido da carioca Zigfreda e uma bolsa da Raia de Goeye, grife paulistana que estreou nas passarelas em janeiro, no Fashion Rio, com um estilo muito carioca, segundo as próprias estilistas. Agora, a Clube Chocolate se prepara para crescer no Rio. Em julho, inaugura uma megaloja na Rua Aníbal de Mendonça, em Ipanema. "A partir daí, pensamos em Nova York, Itália e Portugal. São projetos para 2005", promete o português José Fernando Pimenta, um dos sócios da Riopele, que esteve no Rio na semana passada.

 

Márcio Madeira/Divulg
Cláudia Martins/Strana

Sucesso estrondoso: em menos de um ano, Isabela Capeto (à dir.) e sua grife Ibô viraram sensação. Trabalho artesanal (à esq.) está à venda na Clube Chocolate e em treze pontos no exterior

Na Clube Chocolate, o garimpo por novidades não se limita ao mercado nacional. Nem a roupas ou acessórios. "Somos uma concept store. Não vendemos apenas moda, vendemos estilo de vida", diz Juliana Pinheiro Mota, integrante da equipe de compradoras da loja. As prateleiras da Clube não são mais divididas por marcas, e sim por estilos (para a mulher romântica, a que está de férias, a que gosta de um visual mais natural...). Em cada ilha, além de roupas, sapatos e bolsas, encontram-se CDs, livros, objetos de decoração. O consumidor pode adquirir um impecável vestido bordado da grife italiana Bluemarine, por nada menos que 13.998 reais, ou uma camiseta Zigfreda, de 128 reais. Se a idéia for mais modesta, jogos americanos de varetas de coqueiro da Zona da Mata custam módicos 18 reais. "Nada mais contemporâneo que misturar marcas, padrões, idéias. Além disso, ninguém precisa sair frustrado porque não pôde comprar", diz Xavier.

 
Daniel Mattar/Divulgação
Márcio Madeira/Divulg

Paula Raia, Ana Paula Vilela e Fernanda de Goeye (à esq.), da grife Raia de Goeye: marca paulistana com jeito carioca foi destaque do último Fashion Rio (à dir.)

Instalada em pleno Centro do Rio e, portanto, fora do tradicional mapa da moda carioca, a empresária Fátima Lomba comemora os bons ventos do estilismo carioca. Dona na loja Novamente, ela começou a apostar em jovens talentos há dez anos. "Nos anos 90, o Rio estava saturado de redes de lojas vendendo as mesmas coisas. Faltavam trabalhos personalizados e informação sobre moda, design e estilo", comenta Fátima. Ao abrir sua loja, a empresária foi buscar estilistas em São Paulo. De lá, trouxe nomes como Fause Haten, Glória Coelho, Reinaldo Lourenço e a novata Gisele Nasser, destaque da última Amni Hot Spot, mostra de jovens estilistas em São Paulo. "Não havia ninguém do Rio. De uns tempos para cá foram surgindo pessoas", conta a empresária, que costuma misturar coleções passadas e atuais de diferentes profissionais, criando um estilo próprio. Fátima foi a primeira a ver as produções de Katia Wille, antes do nascimento oficial da Zigfreda. No verão de 2002, Katia era designer da marca de sportwear O'Neill na Europa. Nas horas vagas, confeccionava peças muito femininas, bem-humoradas e graciosas. Em visita ao Rio, Katia deixou as criações com Fátima, que pôs tudo à venda. Foi um sucesso.

 
Daniel Mattar/Divulgação
Daniel Mattar/Divulgação

Daniela Martins (à dir.): consultora financeira que começou a fazer bolsas para se ocupar durante licença-maternidade agora cria vestuário feminino delicado e artesanal (à esq.)

Vizinha da Novamente, no mesmo Shopping Vertical, no Centro do Rio, fica a Index, multimarcas voltada para o público jovem. Taís Carvalho e Mônica Allan, as donas, eram compradoras da extinta Mesbla. Ao saírem da empresa, criaram uma confecção feminina e passaram a vender em feiras de moda. Foi assim que perceberam o boom de estilistas sem lojas. Deixaram a marca própria, conseguiram uma salinha de 10 metros quadrados em Ipanema e abriram a Index, em 1997, vendendo moda de jovens talentos de São Paulo e roupas e acessórios Adidas. "Fomos o metro quadrado que mais vendeu Adidas no mundo", lembra Taís. Aos poucos, a grade de estilistas foi ganhando nomes cariocas, como a grife Samambaia, que produz camisetas com ícones da cultura nacional, como o Chacrinha. A marca, que antes só era comercializada pela internet, foi parar no corpo de VJs da MTV e virou hit da Index.

 
Fotos André Valentim/Strana

Pioneirismo: a empresária Fátima Lomba (acima) abriu sua loja Novamente há dez anos, quando pouca gente apostava em estilistas nacionais. Virou hit Robert, Mônica, Taís e Fernando (acima), donos da Contemporâneo: multimarcas moderna investe em moda e design made in Brazil. Com muita badalação

Enquanto percorriam feiras de moda e acompanhavam o surgimento de cursos para estilistas no Rio, Taís e Mônica foram ampliando a loja – hoje são 32 metros quadrados em Ipanema e 250 no Centro, onde estão há dois anos. No percurso, as duas conheceram Robert Guimarães e Fernando Molinari, criadores da Babilônia Feira Hype. Acabaram sócios. Menos de dois anos atrás o quarteto lançou a loja Contemporâneo, em Ipanema, com perfil mais sofisticado, vendendo exclusivamente moda e design brasileiros. Foi lá que OEstudio vendeu sua primeira coleção. É lá, também, que o festejado ateliê carioca Santa Ephigenia vende sua linha mais básica. Também disputam as araras nomes de São Paulo, como Alexandre Herchcovitch, Ronaldo Fraga e Reinaldo Lourenço, de Minas, como a Coven, e do Espírito Santo, como a Lei Básica. A mistura de jovens e consagrados estilistas e designers nacionais é tão interessante que a loja foi parar nas páginas da revista italiana Collezioni, ao lado da butique Daslu, o supra-sumo do luxo no Brasil. "Mais do que uma loja, viramos também ponto de encontro. Sempre fazemos reuniões com DJs e estilistas, músicos, artistas. É um agito", diz Robert. Nos próximos meses, eles planejam ter na loja uma área de roupas para crianças. Todas muito moderninhas e com opções para festa, claro. O momento, afinal, é de comemorar.

 

         
     

 

 
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