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CRÔNICA
No calçadão
Manoel Carlos
Domingo
passado fui caminhar no calçadão do Leblon. Logo que cheguei, chamou
minha atenção uma mulher que suava para colocar o carro numa vaga.
Eu a reconheci. Era a Vânia. A Vânia bonita, cortejada por todos os
amigos, que um dia se casou, sumiu e que há três meses soube que
ficara viúva. Abraços, beijos, saudade. Sentamos num daqueles quiosques,
pedimos um coco gelado e estabelecemos o seguinte diálogo:
Vi que você
penou para estacionar.
É que agora é que comecei a dirigir. Ele tinha mais ciúme
do carro do que de mim! Não passava uma semana sem comprar um acessório
novo! E, aos domingos, a manhã inteira, limpando, engraxando, polindo!
Conheço muitos homens assim palpitei eu, querendo aliviar o lado
do falecido.
Pra mim nenhum acessório, um par de brincos, nada! Eu me pergunto: como
é que a gente pode gostar, sofrer, chorar por um homem assim?
Qual a sensação
de ficar viúva tão cedo? O que você sentiu quando o seu marido
morreu?
Alívio. Um grande alívio!
Sempre me pareceu que o Gustavo era um bom marido disse eu, meio boboca.
Pois não era. Mas mesmo assim eu ia agüentar sempre, sei que ia, porque
nunca fui mulher de interromper ou mudar o rumo da minha vida... Se há
um grande silêncio numa sala, não sou capaz de quebrar esse silêncio,
compreende? Eu me acostumo com as coisas como elas se apresentam. Por isso sei
que meu casamento era pra vida toda. Existia uma harmonia naquela infelicidade
toda... as coisas estavam nos seus lugares. Eu pensava até nas minhas plantas:
"Meu Deus! Se eu sair daqui, for pra uma casa menor, onde vou colocar todas essas
plantas? E os gerânios nas janelas do quarto?".
Aí eu me lembrei
da minha mãe. Ela foi assim, como a Vânia. Conformada. Ficou cinqüenta
anos casada com meu pai. Fizeram bodas de ouro de infelicidade!
Um dia eu descobri
que ele tinha outra...
Fixa? perguntei eu, mais boboca ainda.
Ah, já vi que está colhendo dados para a sua próxima novela!
Tudo bem, depois você me contrata como colaboradora.
Fez uma pausa e prosseguiu:
Fixa, sim. Madalena. Eu logo descobri. Ele chegava nervoso, agitado... a outra
devia estar exigindo uma definição... mas ele não era homem
de se separar da família, da casa e, principalmente, da garagem com todas
aquelas ferramentas... até um elevador hidráulico para levantar
o carro ele instalou. E nessas noites em que ela devia bradar: "Ou ela ou eu"...
ele, coitado, chegava nervoso, infeliz.
E nem assim, com uma outra, fixa, você arranjou coragem... de se separar?
Olha: uma fixa me parecia melhor, porque assim eu me acostumava com ela... e,
se a coisa demorasse mais um pouco, íamos acabar sendo até simpáticas
uma com a outra... Às vezes o celular dele dava um único toque e
parava. Eu sabia que era ela. Era uma senha. Ele pegava o aparelho, se afastava,
o celular tocava outra vez e ele então atendia a Madalena. Havia uma espécie
de acordo sem palavras entre nós três. Ninguém querendo quebrar
aquela harmonia... aquela paz!
Paz???
Claro. Uma separação ia ser uma coisa dificílima de suportar
porque me daria uma sensação de perda muito dolorosa, humilhante,
em que outra mulher essa tal Madalena mesmo estaria ganhando. Só
eu estaria perdendo... compreende? Agora, com a morte é diferente. Ele
não é meu nem de ninguém. É da terra. Tudo bem. A
morte é uma solução que não exige sua participação.
Ele morreu e eu continuei na minha casa, com os meus gerânios, minhas plantas,
minha filha, meus amigos... e até mesmo com o automóvel que era
a sua paixão. E o que ficou com a Madalena? Algumas roupas, um cachimbo,
alguns livros e CDs. Entende? Eu sou viúva dele. Ela não é
nada. Isso, meu amigo, dá uma grande paz interior.
E, antes que eu falasse
mais alguma coisa, uma voz chamou por ela. Olhamos. Era o Roberto, da nossa velha
turma.
Fiquei sabendo que você ficou viúva. Pô, Vânia, tô
aqui pro que você precisar. Amigo é pra essas coisas.
E foi andando com
ela, os dois já rindo e enturmados. O Beto nunca foi de perder uma oportunidade.
E-mails para o cronista:
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