Publicidade
 
 


 
 



24 de janeiro de 2007

REPORTAGEM DE CAPA

ARQUITETURA
GASTRONOMIA
CARNAVAL
CIDADE
AS BOAS COMPRAS
BEIRA-MAR
CRÔNICA
OPINIÃO DO LEITOR
VEJA RIO RECOMENDA
BARES
CINEMAS
DANÇA
EXPOSIÇÕES

em destaque
FILMES

em destaque
PARA AS CRIANÇAS
PARA DANÇAR
RESTAURANTES

em destaque
SHOWS

em destaque
TEATRO

em destaque
TV POR ASSINATURA

em destaque
  

CRÔNICA

No calçadão

Manoel Carlos


Domingo passado fui caminhar no calçadão do Leblon. Logo que cheguei, chamou minha atenção uma mulher que suava para colocar o carro numa vaga. Eu a reconheci. Era a Vânia. A Vânia bonita, cortejada por todos os amigos, que um dia se casou, sumiu e que há três meses soube que ficara viúva. Abraços, beijos, saudade. Sentamos num daqueles quiosques, pedimos um coco gelado e estabelecemos o seguinte diálogo:

– Vi que você penou para estacionar.

– É que agora é que comecei a dirigir. Ele tinha mais ciúme do carro do que de mim! Não passava uma semana sem comprar um acessório novo! E, aos domingos, a manhã inteira, limpando, engraxando, polindo!

– Conheço muitos homens assim – palpitei eu, querendo aliviar o lado do falecido.

– Pra mim nenhum acessório, um par de brincos, nada! Eu me pergunto: como é que a gente pode gostar, sofrer, chorar por um homem assim?

– Qual a sensação de ficar viúva tão cedo? O que você sentiu quando o seu marido morreu?

– Alívio. Um grande alívio!

– Sempre me pareceu que o Gustavo era um bom marido – disse eu, meio boboca.

– Pois não era. Mas mesmo assim eu ia agüentar sempre, sei que ia, porque nunca fui mulher de interromper ou mudar o rumo da minha vida... Se há um grande silêncio numa sala, não sou capaz de quebrar esse silêncio, compreende? Eu me acostumo com as coisas como elas se apresentam. Por isso sei que meu casamento era pra vida toda. Existia uma harmonia naquela infelicidade toda... as coisas estavam nos seus lugares. Eu pensava até nas minhas plantas: "Meu Deus! Se eu sair daqui, for pra uma casa menor, onde vou colocar todas essas plantas? E os gerânios nas janelas do quarto?".

Aí eu me lembrei da minha mãe. Ela foi assim, como a Vânia. Conformada. Ficou cinqüenta anos casada com meu pai. Fizeram bodas de ouro de infelicidade!

– Um dia eu descobri que ele tinha outra...

– Fixa? – perguntei eu, mais boboca ainda.

– Ah, já vi que está colhendo dados para a sua próxima novela! Tudo bem, depois você me contrata como colaboradora.

Fez uma pausa e prosseguiu:

– Fixa, sim. Madalena. Eu logo descobri. Ele chegava nervoso, agitado... a outra devia estar exigindo uma definição... mas ele não era homem de se separar da família, da casa e, principalmente, da garagem com todas aquelas ferramentas... até um elevador hidráulico para levantar o carro ele instalou. E nessas noites em que ela devia bradar: "Ou ela ou eu"... ele, coitado, chegava nervoso, infeliz.

– E nem assim, com uma outra, fixa, você arranjou coragem... de se separar?

– Olha: uma fixa me parecia melhor, porque assim eu me acostumava com ela... e, se a coisa demorasse mais um pouco, íamos acabar sendo até simpáticas uma com a outra... Às vezes o celular dele dava um único toque e parava. Eu sabia que era ela. Era uma senha. Ele pegava o aparelho, se afastava, o celular tocava outra vez e ele então atendia a Madalena. Havia uma espécie de acordo sem palavras entre nós três. Ninguém querendo quebrar aquela harmonia... aquela paz!

– Paz???

– Claro. Uma separação ia ser uma coisa dificílima de suportar porque me daria uma sensação de perda muito dolorosa, humilhante, em que outra mulher – essa tal Madalena mesmo – estaria ganhando. Só eu estaria perdendo... compreende? Agora, com a morte é diferente. Ele não é meu nem de ninguém. É da terra. Tudo bem. A morte é uma solução que não exige sua participação. Ele morreu e eu continuei na minha casa, com os meus gerânios, minhas plantas, minha filha, meus amigos... e até mesmo com o automóvel que era a sua paixão. E o que ficou com a Madalena? Algumas roupas, um cachimbo, alguns livros e CDs. Entende? Eu sou viúva dele. Ela não é nada. Isso, meu amigo, dá uma grande paz interior.

E, antes que eu falasse mais alguma coisa, uma voz chamou por ela. Olhamos. Era o Roberto, da nossa velha turma.

– Fiquei sabendo que você ficou viúva. Pô, Vânia, tô aqui pro que você precisar. Amigo é pra essas coisas.

E foi andando com ela, os dois já rindo e enturmados. O Beto nunca foi de perder uma oportunidade.

 


E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados