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REPORTAGEM DE CAPA Tratamento
de choque O ortopedista Sérgio Côrtes encara
a operação mais difícil de sua vida: dar um jeito na saúde do estado
Fabio Brisolla e Sofia Cerqueira Felipe
Varanda/Strana
 | | Sérgio
Côrtes: promessa de
grandes mudanças na rede
estadual de saúde em meio a uma rotina com proteção
policial 24 horas |
A
visita ao Centro de Perícias Médicas, situado em um prédio
de cinco andares no Centro do Rio, era um dos compromissos da atribulada agenda
do médico ortopedista Sérgio Côrtes na sexta-feira 12 de janeiro
de 2006. Alçado ao posto de secretário estadual de Saúde,
ele vistoriava o lugar ao lado de seu novo chefe, o governador Sérgio Cabral.
Côrtes, 41 anos, deixara o cargo de diretor do renomado Instituto de Traumato-Ortopedia
(Into) para tentar solucionar um sistema de saúde desastroso, composto
de 28 hospitais públicos sob a responsabilidade do governo do estado do
Rio. Além de complexo, o novo desafio revelou-se arriscado. Às 11
horas da manhã, Côrtes recebeu um telefonema do secretário
de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, com o alerta:
havia um plano em andamento para matá-lo. O médico foi orientado
a permanecer no Centro de Perícias e aguardar a chegada de uma escolta
da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a divisão especial da Polícia
Civil. Côrtes ficou abalado com a notícia, mas não surpreso.
Ameaças de morte são constantes na rotina do novo secretário.
Uma
vez, ao entrar no gabinete, ele encontrou seu jaleco retalhado e uma gravata reproduzindo
o formato de uma forca. Numa segunda invasão, o laptop do médico
foi destruído. Em outra ocasião, o nome de Sérgio Côrtes
foi grafado em uma bala de calibre 38. Na porta de casa, ele achou um bilhete
ameaçador e, para culminar, teve seu carro atingido por uma bala que não
se sabe até hoje se era perdida ou tinha endereço. Foi por pouco.
O tiro de raspão deixou uma leve queimadura na testa. As ameaças
listadas acima, ele colecionou nos últimos quatro anos, quando esteve na
direção do Into. Mas por que matar Sérgio Côrtes? O
motivo parece ser o mesmo em todos os casos: a mudança em contratos com
fornecedores de serviços e medicamentos para hospitais. Ao assumir o Into,
ele decidiu rever todos os contratos para tentar coibir esquemas de corrupção
e superfaturamento articulados com funcionários da instituição.
As medidas tomadas por Côrtes resultaram em dezoito ameaças de morte.
Fabio
Rossi/Agência O Globo
 | | Escolta
permanente: agentes
da PF e da Core seguem
todos os passos do secretário
|
Nos
últimos quatro anos, seus passos são acompanhados por dois agentes
da Polícia Federal. A segurança ganhou a adesão de uma equipe
de seis homens da Core, e, tudo indica, o reforço será necessário.
Côrtes assumiu a Secretaria de Saúde com a meta de reproduzir nos
hospitais estaduais a gestão aplicada no Instituto de Traumato-Ortopedia.
De imediato, ele cancelou o repasse de uma verba mensal para cada hospital do
estado, que em alguns casos chegava a 800.000 reais. Esse valor era destinado
a compras emergenciais sem licitação. A ordem de Côrtes interrompeu
um negócio que rendeu, apenas no ano passado, 114 milhões de reais
às empresas fornecedoras. O novo secretário de Saúde promete
ainda acabar com o trânsito livre de agências funerárias nos
hospitais da rede estadual e estabelecer uma tabela para os serviços cobrados
por essas empresas. Resumindo, o número de inimigos de Sérgio Côrtes
tende a crescer. "Desta
vez foi pior. Não houve ameaça, mas, sim, o plano de um atentado",
constata Côrtes. O secretário demonstra serenidade ao falar sobre
os riscos de sua nova função. Não se exalta nem se emociona
ao reconhecer que tem medo. Sentado na poltrona de seu gabinete, ele faz uma pausa
quando não quer responder a alguma pergunta. Os olhos azuis de Côrtes,
às vezes, aparentam estar distantes da conversa. Carioca criado em Botafogo,
ele evita falar sobre a vida pessoal por motivos óbvios. Casado e pai de
três filhos, mora em um confortável apartamento dúplex num
valorizado ponto da Zona Sul. Adora jogar peladas, o que costumava fazer pelo
menos uma vez por semana, é faixa marrom de jiu-jítsu e tem fama
de bem-humorado. Ortopedista especializado em cirurgia de quadril, atende há
catorze anos também em consultório próprio. Ganha em média
20.000 reais com o atendimento particular e demonstra ser vaidoso. Prefere os
ternos da Casa Alberto e, no tempo livre, desfila com o figurino despojado-chique
da Richards. É um colecionador de relógios de pulso. Atualmente
falta tempo. Côrtes dorme três horas por noite na tentativa de conciliar
os compromissos da secretaria com o atendimento no consultório, as cirurgias
particulares iniciadas às 5 horas da manhã e um curso
de doutorado na UFRJ. Simone
Marinho /Ag. O Globo
 | | O
governador Sérgio Cabral
se surpreendeu ao encontrar
o Hospital Getúlio
Vargas em precárias
condições, ouviu
reclamações de pacientes,
e a visita teve desfecho
inusitado: o diretor
Sebastião Neves (à
dir.) foi exonerado apenas
seis horas depois de
assumir o cargo |
Outra
característica de Côrtes é seu freqüente envolvimento
em polêmicas. Uma das mais recentes ocorreu no Hospital Getúlio Vargas,
enquanto acompanhava uma visita do governador. Sérgio Cabral considerou
precária a situação do hospital, ficou chocado com o atendimento
prestado aos pacientes e, no mesmo dia, exonerou o diretor do hospital. O ortopedista
Sebastião Lima das Neves Filho, 52 anos, há 32 no Getúlio
Vargas, foi indicado para o comando do hospital pela equipe de Sérgio Côrtes.
No dia 3 de janeiro foi chamado à secretaria para ser nomeado e soube que,
no dia seguinte, o governador visitaria o hospital. "Tomei posse às 7 da
manhã e fui exonerado seis horas depois", diz Sebastião Neves, ainda
tão chocado com a exoneração quanto o governador se mostrou
com as condições do hospital. "Para quem não me conhece,
ficou a idéia de que sou incompetente e insensível. Isso não
é verdade, eu me tornei médico naquele hospital, aquele lugar é
a minha vida", comenta ele, que voltou a trabalhar no dia seguinte na ortopedia
do Getúlio Vargas. A
situação dos hospitais da rede estadual é, na verdade, muito
dramática, e faz muito tempo. Leitos insuficientes, infiltrações,
emergências sobrecarregadas, ambulâncias sucateadas e equipamentos
quebrados são apenas alguns dos problemas da rede pública. A desorganização
começa pela papelada. Apenas 5% dos contratos da secretaria foram firmados
por meio de licitação no ano passado. O restante está sendo
investigado. A gestão anterior ainda deixou uma dívida de 407 milhões
de reais com fornecedores. Outro diagnóstico grave: apesar de os hospitais
não poderem terceirizar a contratação de médicos e
enfermeiros, isso vinha acontecendo. Segundo Côrtes, fundações
e cooperativas contratadas pela secretaria intermediavam a contratação
irregular de médicos e enfermeiros. "A Constituição diz que
esses profissionais precisam entrar por concurso público. Existe atualmente
uma mistura de estatutários e prestadores de serviço", explica Côrtes.
Um dos exemplos é o Hospital de Araruama, onde a secretaria constatou que
mais de 90% dos funcionários não eram concursados.
Custódio
Coimbra/Ag. O Globo
 | | Sérgio
Côrtes coordenou a
polêmica intervenção do
governo federal nos hospitais
municipais em março
de 2005. Durante a
operação, ele instalou
hospitais de campanha
com tendas no Campo
de Santana (foto),
no Centro, e no clube
da Aeronáutica, na
Barra da Tijuca |
Outro
caso de grande repercussão envolvendo Sérgio Côrtes foi a
intervenção do governo federal nos hospitais municipais, articulada
em abril de 2005. O médico foi destacado pelo Ministério da Saúde
para coordenar a operação, que incluiu até mesmo a instalação
de tendas para atendimentos ambulatoriais no Campo de Santana, em frente ao Hospital
Souza Aguiar. Na época, o prefeito Cesar Maia ficou muito irritado, e a
intervenção virou uma briga política entre governo federal
e prefeitura. Côrtes sustenta que o acampamento montado no Campo de Santana
era realmente necessário. "Aquilo provou a nossa teoria. Quando botamos
as tendas com ambulatório, a emergência do hospital esvaziou. As
pessoas precisam de postos médicos." O
polêmico Côrtes também é reconhecido pela qualidade
de sua gestão. No Instituto de Traumato-Ortopedia, ele reduziu consideravelmente
custos ao adotar um leilão inverso nas licitações, o chamado
pregão. Vencia a empresa que oferecesse o menor preço pelo serviço.
"Ele é um profissional competente e ético sob todos os aspectos.
As idéias de gestão dele se aproximam das nossas", elogia Paulo
César Geraldes, presidente do Conselho Regional de Medicina. "O Sérgio
assumiu o Into num momento de crise provocada por denúncias de corrupção
e tornou mais transparante a administração do hospital", diz João
Antônio Matheus, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia.
O estilo de negociar de Côrtes é agressivo. Em reunião realizada
poucos dias atrás com fornecedores de alimentos para hospitais, o novo
secretário deu um ultimato aos empresários. "Exigi imediatamente
um desconto de 10% e frisei que a refeição deveria ter o número
necessário de calorias. Acabou essa história de macarrão
com salsicha", conta. A
solução é temporária. Os serviços contratados
só foram mantidos para não provocar um colapso ainda maior nos hospitais.
"Mas tudo será licitado novamente. Todos os contratos", avisa Côrtes.
Uma eventual mudança nos fornecedores de insumos e medicamentos para a
rede estadual de saúde, com preços mais baixos, deve significar
uma perda de milhões de reais no faturamento de algumas empresas. "Ele
está mexendo em várias casas de marimbondo. Os hospitais se tornaram
feudos dominados por todo tipo de gente, menos por pessoas comprometidas com a
saúde pública", diz o governador Sérgio Cabral. A máfia
dos hospitais, segundo a cúpula da segurança pública, está
articulando a reação. "Concluímos que existe uma ameaça
bem substancial contra ele", afirma José Mariano Beltrame. A família
do ortopedista mais uma vez se vê diante de um antigo fantasma. "Senti que
ele ficou abatido. Quando assumiu a secretaria, nós conversamos sobre isso
(as ameaças de morte), achamos que poderia acontecer de novo. Mas
não imaginamos que seria tão rápido", comenta a ortopedista
Verônica Vianna, mulher de Côrtes. O novo secretário de Saúde
avalia estar entrando em uma zona de guerra. "Eu deixei a embaixada de Paris para
ir trabalhar na prefeitura de Bagdá."
Os
números da secretaria...
O orçamento de 2007 para a Secretaria Estadual de Saúde é
de 2,8 bilhões de reais
A rede estadual de saúde conta com 28 hospitais
Há uma carência de cerca de 16 000 servidores nas unidades
A secretaria tem 22 445 servidores, 3 850 funcionários cedidos e cerca
de 14 000 terceirizados
Um único contrato, firmado entre a gestão anterior e uma fundação,
é responsável pelo fornecimento de cerca de 10 000 prestadores de
serviço
Apenas 5% das contratações, em 2006, decorreram de licitações
O gasto da secretaria em 2006 só com a rede hospitalar foi de 1,3 bilhão
de reais
... e as propostas do secretário
Revisão e nova licitação de todos os contratos de prestação
de serviços e de fornecimento de medicamentos e insumos
Proibição de nomeações políticas
Centralização das compras pela Secretaria de Saúde e corte
da verba do Rede/FES (Regime de Desembolso Descentralizado do Fundo Estadual de
Saúde). Os hospitais recebiam até 800 000 reais por mês para
aquisição de materiais e pagamento de serviços. Em 2006,
foram gastos 114,8 milhões de reais sem licitação
Combate à máfia das funerárias, com licitações
para fixar os preços cobrados nos hospitais e no IML
Suspensão de nove contratos com fundações e cooperativas,
responsáveis por 13 216 profissionais terceirizados. Contratação
de profissionais de saúde em caráter emergencial
Criação de uma fundação estadual de saúde por
intermédio da qual os médicos aprovados em concurso seriam contratados
sob o regime de CLT |
Rotina
de ameaças de morte Márcia
Foleto/Ag. O Globo
 | | Côrtes
e o ex-ministro Humberto Costa: tiro de raspão na testa
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O
secretário Sérgio Côrtes vive em permanente estado de alerta.
Há quase quatro anos, ele só sai de casa com a escolta de agentes
da Polícia Federal. Nesse período, sofreu dezoito ameaças
de morte. Desde o dia 12, quando a Secretaria de Segurança do Rio descobriu
um plano para executá-lo, seus passos também passaram a ser acompanhados
24 horas por dia por agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia
Civil (Core). Côrtes virou alvo de sucessivas intimidações
e ameaças contra a sua vida quando assumiu, em setembro de 2002, a direção
do Instituto de Traumato-Ortopedia (Into), no Centro, uma unidade federal que
é referência em cirurgias de alta complexidade. Ele desmontou um
intrincado esquema de fraudes nos processos de licitação no Into.
Ele esteve à frente da revisão de mais de cinqüenta contratos
com empresas prestadoras de serviço e fornecedoras de equipamentos, que
resultou na devolução de 2,5 milhões de reais aos cofres
públicos. A
rotina de tensão começou no dia 28 de abril de 2003, quando Côrtes
teve o gabinete invadido. Com um jaleco e uma gravata do médico, os criminosos
simularam um enforcamento. No mesmo ano, houve duas suspeitas de bomba no Into
e ocorreu outra invasão à sala de Côrtes, quando foram cortados
os fios do computador e destruído um laptop, além de vários
telefonemas ameaçadores e cartas anônimas. Em setembro de 2004, a
casa do então diretor do Into, em um condomínio do Rio, foi invadida
enquanto a família estava fora. Em cima de um aparelho que gravava as ligações
feitas para a residência, os invasores deixaram o recado "Vai morrer!".
Algumas semanas depois, ele foi ferido de raspão na testa por um tiro,
que atravessou o vidro de seu carro em um dos acessos à ponte RioNiterói,
próximo à favela do Sabão. Em 2005, já no período
em que coordenou a intervenção federal nos hospitais da rede municipal,
mais um episódio assustador: foi encontrada uma granada de efeito moral
na sala de reuniões que ele ocupava no prédio do Ministério
da Saúde, no Centro. Côrtes manteve sua rotina, mesma tática
que adota agora. | |