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23 de outubro de 2002
REPORTAGEM DE CAPA
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CRÔNICA

A visita

João Manuel Carneiro

 

 

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Péricles Dumont, onze romances publicados, só experimentou o gosto do sucesso quando escreveu uma novela de televisão, Labirinto de Carvão. Com o dinheiro da novela, deixou de lecionar na universidade e comprou uma fazenda onde cria vacas holandesas. Ele lançou um novo romance, mas a crítica caiu em cima. Ninguém nunca perdoaria o fato de um comunista convicto ter-se tornado um empresário rural à custa do sucesso de sua história sobre a exploração de menores nas carvoarias do norte de Minas.

Péricles trancou-se durante um mês em seu apartamento de frente para o mar em Copacabana para começar sua nova novela. Não conseguiu escrever uma linha.

Pela manhã, acordou com uma arma apontada para sua cabeça.

– Cadê os dólar, tio?

O rapaz usava uma meia na cabeça, mas pela altura dava pra ver que era menor de idade. Péricles explicou, solícito:

– Aqui só tem 200 dólares.

O garoto encostou o cano da arma na cabeça do escritor.

– Mas tem muito eletrodoméstico, tem jóia, relógio de ouro, laptop!

– Ah, bom.

Adiantando o trabalho do rapaz, Péricles tirou do armário uma grande mala e foi ele mesmo botando dentro tudo o que podia. Ensinou o menino a ligar o laptop. Sentindo-se mais próximo de seu algoz, resolveu tentar uma aproximação:

– Sabe aquela novela Labirinto de Carvão? Pois é, fui eu que escrevi...

– Aquela porcaria?

– Você não gostou?

– Olha, tio, tava até pensando em te deixar vivo, mas agora minha vontade é te apagar!

– Calma aí. Também não era tão ruim assim...

– Ruim? Era a pior coisa que eu já vi na minha vida. E, se eu te deixar vivo, você vai acabar fazendo outra desgraça daquelas e eu vou ficar mais seis meses tendo de assistir com minha mulher!

– Sua mulher gostou?

– Por que foi que você esculhambou tudo no final?

– Esculhambei?

– A empregada nunca podia ter ficado com o milionário no final. Ela tinha que ter morrido.

– Ninguém gosta de finais tristes.

– Quem foi que disse?

– Olha, eu posso te prometer uma coisa: nunca mais faço outra novela.

– Desculpa, mas não dá pra confiar.

O garoto ergueu a arma.

– Espera aí. Eu sou comunista! Estou do seu lado!

– O que que é comunista?

– Um sujeito que é contra a exploração das classes trabalhadoras.

– Não entendi nada. Mas esse negócio de comunista deve dar muita grana, senão o tio não tinha um apartamento desses.

– Não quer trabalhar na TV? Até que você tem uma cara interessante.

– Eu não. Mas minha mulher sonha em ser atriz.

– Deixa uma foto dela na portaria amanhã.

– Tá falando isso só pra eu não te apagar.

– Eu juro que é verdade!

– Então o senhor vai fazer outra novela?

– Só se você quiser.

– Vai botar minha mulher no elenco?

– Garantido.

O garoto foi embora com a mala abarrotada. Péricles sentou-se diante do computador e começou a escrever o primeiro capítulo da novela. Não sabia muito da trama, só tinha uma certeza: o final seria bem triste.

         
     
 
 
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