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CRÔNICA
A
visita
João
Manuel Carneiro

Péricles
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Péricles
Dumont, onze romances publicados, só experimentou o gosto
do sucesso quando escreveu uma novela de televisão, Labirinto
de Carvão. Com o dinheiro da novela, deixou de lecionar
na universidade e comprou uma fazenda onde cria vacas holandesas.
Ele lançou um novo romance, mas a crítica caiu em
cima. Ninguém nunca perdoaria o fato de um comunista convicto
ter-se tornado um empresário rural à custa do sucesso
de sua história sobre a exploração de menores
nas carvoarias do norte de Minas.
Péricles
trancou-se durante um mês em seu apartamento de frente para
o mar em Copacabana para começar sua nova novela. Não
conseguiu escrever uma linha.
Pela
manhã, acordou com uma arma apontada para sua cabeça.
Cadê os dólar, tio?
O
rapaz usava uma meia na cabeça, mas pela altura dava pra
ver que era menor de idade. Péricles explicou, solícito:
Aqui só tem
200 dólares.
O
garoto encostou o cano da arma na cabeça do escritor.
Mas tem muito eletrodoméstico, tem jóia, relógio
de ouro, laptop!
Ah, bom.
Adiantando
o trabalho do rapaz, Péricles tirou do armário uma
grande mala e foi ele mesmo botando dentro tudo o que podia. Ensinou
o menino a ligar o laptop. Sentindo-se mais próximo de seu
algoz, resolveu tentar uma aproximação:
Sabe aquela novela Labirinto de Carvão? Pois é,
fui eu que escrevi...
Aquela porcaria?
Você não gostou?
Olha, tio, tava até pensando em te deixar vivo, mas agora
minha vontade é te apagar!
Calma aí. Também não era tão ruim assim...
Ruim? Era a pior coisa que eu já vi na minha vida. E, se
eu te deixar vivo, você vai acabar fazendo outra desgraça
daquelas e eu vou ficar mais seis meses tendo de assistir com minha
mulher!
Sua mulher gostou?
Por que foi que você esculhambou tudo no final?
Esculhambei?
A empregada nunca podia ter ficado com o milionário no final.
Ela tinha que ter morrido.
Ninguém gosta de finais tristes.
Quem foi que disse?
Olha, eu posso te prometer uma coisa: nunca mais faço outra
novela.
Desculpa, mas não dá pra confiar.
O
garoto ergueu a arma.
Espera aí. Eu sou comunista! Estou do seu lado!
O que que é comunista?
Um sujeito que é contra a exploração das classes
trabalhadoras.
Não entendi nada. Mas esse negócio de comunista deve
dar muita grana, senão o tio não tinha um apartamento
desses.
Não quer trabalhar na TV? Até que você tem uma
cara interessante.
Eu não. Mas minha mulher sonha em ser atriz.
Deixa uma foto dela na portaria amanhã.
Tá falando isso só pra eu não te apagar.
Eu juro que é verdade!
Então o senhor vai fazer outra novela?
Só se você quiser.
Vai botar minha mulher no elenco?
Garantido.
O garoto
foi embora com a mala abarrotada. Péricles sentou-se diante
do computador e começou a escrever o primeiro capítulo
da novela. Não sabia muito da trama, só tinha uma
certeza: o final seria bem triste.
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