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23 de outubro de 2002
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CIDADE

A calçada encolheu

Pedestre paga o pato em nova ciclovia

Livia de Almeida


Cláudia Martins/Strana
Pinheiro Machado: calçada para pedestres magros e pista para uma bicicleta por vez

Em princípio, a idéia é ótima: criar uma faixa para bicicletas que permita ao morador de Laranjeiras pedalar até o Aterro do Flamengo. O problema é que ela foi executada por vias tortas. Projetada inicialmente para passar pela Rua Moura Brasil, a Ciclovia Tricolor sofreu alterações em seu trajeto depois do protesto de moradores. A emenda ficou pior que o soneto: o novo projeto brindou com a ciclovia a estreita calçada da Pinheiro Machado, entre os números 60 e 80. No trecho mais largo do quarteirão, o espaço reservado aos pedestres ficou reduzido a míseros 70 centímetros, dificultando a passagem de carrinhos de bebê. Diante dos prédios 76 e 80, a calçada encolhe ainda mais. É só deixar a portaria que o morador já está na pista. A ciclovia, nesse quarteirão, tem 1,20 metro de largura, insuficiente para que duas bicicletas se cruzem. "Ciclistas e pedestres vão compartilhar esse trecho. O movimento de bicicletas será pequeno. Vai ser um trecho quase morto", pondera Otto Ruback, gerente de projetos especiais da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. "Fomos surpreendidos. Ninguém nos procurou para informar sobre a mudança", reclama Aroldo Moreira Filho, síndico do prédio 70.

A história da Ciclovia Tricolor é acidentada. Em 1999, os estudos começaram a ser realizados pela secretaria. A empresa Qualiurb, contratada para fazer o projeto, criou três traçados. Nenhum previa usar o quarteirão da Pinheiro Machado entre a Rua Almirante Benjamin e a Álvaro Chaves. As obras, iniciadas em julho de 2001, foram suspensas no fim do ano. "A empreiteira contratada não tinha condições de realizar a obra", justifica Ruback. Nova licitação foi feita e, três semanas atrás, recomeçaram os trabalhos. Os moradores da Pinheiro Machado alegam que só ficaram sabendo da novidade quando a empreiteira enviou um comunicado aos condomínios. Estava armada a confusão, com a vizinhança organizando abaixo-assinados. Na semana passada, os moradores penduraram nas fachadas faixas de protesto, como "Fora ciclovia" e "Pela via livre". Um grupo cogita recorrer à Justiça para embargar as obras. Moradora do prédio 76 desde 1956, Cristina Madeira é testemunha da batalha perdida do pedestre pelo direito à calçada. Antes da abertura do Túnel Santa Bárbara, o passeio se estendia até metade da pista. "Havia jardins na frente do prédio, coqueiros diante do Palácio Guanabara e carro só a cada quinze minutos", lembra.

Com 2,3 quilômetros, a Ciclovia Tricolor vai da Praça Carlos Del Prete ao aterro, com custo de 445.000 reais e previsão de conclusão para dezembro. O percurso é acidentado, interrompido por diversas travessias. Depois de passar pelo Fluminense, a pista atravessa a rua e segue pelo canteiro central da Pinheiro Machado. Na altura da Carlos Campos, é preciso atravessar para o outro lado da Pinheiro Machado. Depois de uma descida acentuada, o caminho prossegue pelo lado da Rua Farani, numa faixa estreita. "Vai ser complicado. Há um movimento grande de pessoas e menos de 2 metros de calçada", explica o gerente da Pizzaria Fattore, Alex Martins. A calçada da Farani costuma ficar apinhada de alunos da Santa Úrsula. Na esquina da Praia de Botafogo, a ciclovia cruza a Farani, segue até o Centro Empresarial Botafogo, atravessa a rua para o canteiro central e, através de uma passagem subterrânea, chega, enfim, ao aterro. "É impossível agradar a gregos e troianos", diz Ruback. Mas não precisava perturbar ainda mais a maior vítima do caos urbano carioca: o pedestre.

         
     
 
 
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