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23 de outubro de 2002
REPORTAGEM DE CAPA
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REPORTAGEM DE CAPA

A beleza ao alcance
de quase todos

Expansão de clínicas de estética
torna tratamentos mais acessíveis

Patrícia Malavez e Sofia Cerqueira


André Nazareth/Strana
A ex-Big Brother Tarciana: sessões de bronzeamento semanais e injeções contra gordurinhas


Dilmar Cavalher//Strana
Maria Goreth, no banho de chocolate: "Se pudesse, vinha aqui todo dia"


Ela se olha no espelho, se afasta, vira de lado, chega mais perto. Não tem jeito. Aqueles indesejáveis vincos no rosto, os furinhos de celulite e os incômodos pneuzinhos estão lá mesmo. Não existe mulher, por mais linda e escultural, que não esteja insatisfeita com algum detalhe no corpo. Na era do culto às medidas exatas e às formas perfeitas, a tolerância a defeitos é zero. E, junto com as implacáveis cobranças, surgiu um sedutor mercado da beleza que promete solucionar todo e qualquer deslize da natureza ou castigo do tempo. Nos últimos dois anos, foram inauguradas 123 clínicas de estética no Rio. Só na cidade, que fique claro. De acordo com a coordenadoria de licenciamento e fiscalização da prefeitura, elas já são 470. A Clínica Onodera, uma rede paulista que desembarcou com duas filiais no Rio em 2001, planeja a abertura de outras cinco franquias no ano que vem. Até o mais conceituado dos cirurgiões plásticos, o doutor Ivo Pitanguy, se rendeu ao filão. O núcleo de estética de sua clínica, que até alguns meses atrás atendia somente a pacientes de pré e pós-operatório, está agora à disposição do público em geral. "As mulheres, hoje, não se conformam com as imperfeições. A estética acaba virando um vício, e quem começa não pára", atesta Tânia Maria Pacheco, gerente operacional da Dicorp, clínica que tem duas filiais na cidade. É a popularização da beleza. "Mas em medicina não há milagres. É preciso atenção para não cair nas mãos de leigos que prometem resultados mirabolantes", alerta o doutor Aloízio Faria de Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Estética.


Fotos André Nazareth/Strana
Strana
Antienvelhecimento: Yaçanã Martins faz sessões de laser semanais para atenuar rugas e eliminar manchas de sol

Não faltam anúncios que oferecem tratamentos para sugar medidas, derreter gorduras e rejuvenescer a jato. Com a concorrência, ficar bonita também ficou mais barato. Um tratamento de endermologia, que promete diminuir a celulite e a gordura localizada, pode custar de 25 a 60 reais a sessão. O preço da aplicação de Botox, injeção que suaviza rugas de expressão, varia de 700 a 1.000 reais. Mas há quem cobre menos de 400 reais. O que em princípio parece uma vantagem pode esconder uma cilada. "Para baratear o custo, alguns profissionais usam produtos de origem duvidosa. Já recebi pacientes com complicações em que tive certeza de que a substância usada não foi a prometida", adverte a doutora Márcia Ramos-e-Silva, chefe do serviço de dermatologia da UFRJ e única brasileira integrante da Comissão Internacional de Dermatologia, grupo de catorze médicos que rege a atividade em todo o mundo. Para se resguardar, a diretora da Sociedade Brasileira de Medicina Estética, doutora Márcia Pontes, também dona de uma clínica, faz algumas recomendações: "No caso de tratamento injetável, o médico tem de abrir o frasco do produto na frente do cliente, que deve verificar o prazo de validade e anotar o número do lote" (veja quadro). O alerta é importante, já que, mesmo com a grande quantidade de centros de estética na cidade, não existe uma rotina de fiscalização. A equipe da Vigilância Sanitária municipal responsável pelos estabelecimentos de saúde tem apenas 69 fiscais para licenciar e vistoriar todos os consultórios médicos e odontológicos, veterinárias, farmácias, cabeleireiros, academias e clubes do Rio. "Estamos sobrecarregados e só fazemos inspeção nas clínicas quando há denúncias", admite Rosamaria de Novaes, diretora do setor.


Cláudia Martins/Strana
Fátima Ziegler no cobertor térmico: "Reduzi celulite sem fazer ginástica"

Enquanto isso, os centros de estética estão estufados de clientes. Só a Dicorp do Jardim Botânico atende 500 pacientes por mês, de acordo com a gerência da clínica. A direção da La Belle, com quatro filiais na cidade, afirma atender 6.000 pessoas mensalmente. Entre as clientes, gente como a maranhense Maria Goreth de Souza Pereira, 30 anos, moradora do Leblon. "Venho três vezes por semana, mas se pudesse estaria aqui todo dia", conta ela. Ao longo de dois anos, Goreth já fez de tudo um pouco: injeções de mesoterapia e Lipostabil para reduzir gordura localizada, sessões de endermologia e drenagem linfática para celulite, massagem estética e até banho de chocolate para relaxar e revitalizar a pele. "Sempre tem alguma coisa que incomoda a gente", diz a gerente de marketing Marcela Gomes, 24 anos. Aos olhos da maioria, ela está em plena forma, mas freqüenta a Onodera, em Ipanema, há um mês, três vezes por semana. "Tenho um pouco de celulite", acredita. Outra que consegue enxergar defeito onde ninguém mais encontra é a ex-Big Brother Tarciana Mafra, 27 anos, cliente da Ribelle, em Ipanema. Com 1,65 metro e apenas 53 quilos, ela está se tratando com injeções de Lipostabil para eliminar discretíssimas gordurinhas na barriga e no culote. Semanalmente, faz também bronzeamento artificial. "O Rio é implacável. A cobrança é muito grande, e gosto de estar bonita", afirma a paulista, que se mudou para a cidade após o reality show. Apesar das expectativas das clientes, as clínicas sérias avisam que o tratamento, para mostrar-se eficaz, tem de ser acompanhado de reeducação alimentar e exercícios físicos. "Quem chega aqui dizendo que não quer fazer dieta, não gosta de ginástica e ainda deseja ficar em forma, eu mando procurar um mágico", brinca Maria Inês Carvalho, médica responsável pela Onodera, que oferece gratuitamente às clientes o acompanhamento de nutricionista.


Dilmar Cavalher/Strana
Barriguinha incômoda: a bailarina Aline optou pela corrente russa

Para satisfazer a busca voraz pela beleza e eterna juventude, os centros de estética põem à disposição do público um farto cardápio de tratamentos (veja quadro). Há desde a simples limpeza de pele até preenchimentos faciais e tratamentos injetáveis. Mesmo que sejam realizados em clínicas, os procedimentos invasivos só podem ser feitos por médicos. "Apenas o profissional de medicina está apto a aplicar substâncias injetáveis e capacitado a lidar com as complicações que podem ocorrer", adverte a dra. Márcia Ramos-e-Silva. Quanto a isso, a maioria das clínicas segue a cartilha. A divergência está na necessidade ou não de o paciente ser avaliado por um médico antes de se submeter a tratamentos puramente estéticos. Em grande parte dos centros, é uma esteticista quem receita os procedimentos. "Um simples aparelho de estimulação elétrica pode afetar o organismo, assim como um forno para queimar gorduras é capaz de alterar o ritmo cardíaco", alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, José Humberto Rezende. "Esse mercado é perigoso. A pessoa não pode entregar seu corpo e seu rosto em qualquer lugar", declara a atriz Yaçanã Martins, 44 anos, que faz tratamento com laser, preenchimento com Restylane e aplica Botox na clínica da doutora Márcia Pontes. Por outro lado, lidar com a ânsia das pacientes em busca de um tratamento rápido é complicado. "Estamos na era dos injetáveis e da estética veloz. Tem gente que procura tratamento para ontem e, se desse, feito por telefone", diz Rosana Vaz de Oliveira, sócia da clínica Belle Corpus, na Tijuca. "Não se pode prometer o que não dá para cumprir. Cada organismo reage de forma diferente", enfatiza Denise Pontanova, uma das coordenadoras da Clínica Ivo Pitanguy. Cuidados como esse resultam na satisfação do cliente. "A sinceridade do profissional é essencial para a pessoa se sentir segura", lembra Vera Lúcia Delecolle, de 47 anos, cliente do cirurgião, que optou pela estética de consultório para fugir de uma plástica.


Dilmar Cavalher/Strana
Vera Delecolle acha essencial a sinceridade: não há milagres

Se a vaidade não tem preço, o esforço para atingir o corpo ideal tem. Vários tratamentos causam dor, ardência, sensação de choque, claustrofobia e até hematomas. "Vale o sacrifício de uma dorzinha. O resultado compensa", afirma a bailarina do Domingão do Faustão Aline Cunha da Silva, 21 anos, cliente há um ano da clínica Belle Corpus. Apesar de malhar três vezes por semana e fazer dança todo santo dia, ela não conseguia livrar-se de uma barriguinha. Injeções de Lipostabil, choquezinhos da estimulação russa e a sucção da endermologia resolveram o problema. "Para quem não suporta ginástica como eu, foi um achado. Bebo refrigerante como água e consegui diminuir muito a celulite", comemora a promoter Fátima Ziegler, 46 anos, que se trata com cinco aparelhos diferentes na Dicorp. Entusiasmos à parte, o fato é que não existem provas científicas da eficácia dos tratamentos. "Essa é uma área em que os resultados apregoados carecem de pesquisas com rigor científico", ressalta José Ramon Varela Blanco, presidente da Sociedade Regional de Dermatologia. Mesmo que eles sejam comprovados em determinados pacientes, não há pesquisas expressivas que confirmem os efeitos em grande escala. Diante da sedução de uma imagem idealizada, para muitos isso se torna mero detalhe. Em palestras pelo país, a diretora da Sociedade Brasileira de Medicina Estética, doutora Márcia Pontes, procura frear o exagero. "Digo que a única forma de não envelhecer é morrer jovem. Por mais que se busque retardar os efeitos do tempo, o relógio continua correndo." Mas é inegável que sempre existe uma maneira de fazer os ponteiros girar mais devagar.


André Nazareth/Strana
Marcela Gomes, durante uma sessão semanal de Photon Dome: "Sempre tem alguma coisinha que incomoda a gente"

 

Os cuidados

Não acredite em promessas milagrosas nem em fotos de "antes e depois" com mudanças radicais.

A avaliação inicial deve ser feita por um médico e, de preferência, com especialização em pele. Só ele pode saber com precisão se algum tratamento vai fazer efeito ou não. Isso vale inclusive para drenagem, depilação definitiva e aparelhos com estímulos elétricos.

Qualquer procedimento cirúrgico ou injetável só pode ser executado por médicos formados. Estão incluídos Botox, preenchimentos e mesoterapia.

Antes de injetar qualquer substância, o médico tem de mostrar o frasco lacrado e abri-lo na frente do paciente. Verifique a data de validade do produto e anote o número do lote.

Desconfie do preço. Se uma clínica oferece um tratamento bem mais barato que todas as outras, pode ser que a substância aplicada não seja a prometida.

Certifique-se da titulação e da especialização do médico ligando para as sociedades de dermatologia ( 2253-6747), de cirurgia plástica ( 2266-7821) e de medicina estética ( 2240-2932 e 2215-5647).

 

Fontes: Sociedade Brasileira de Medicina Estética
e Academia Internacional de Dermatologia Cosmética

         
     
 
 
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