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REPORTAGEM
DE CAPA
A
beleza ao alcance
de quase todos
Expansão
de clínicas de estética
torna tratamentos mais acessíveis
Patrícia
Malavez e Sofia Cerqueira
André Nazareth/Strana
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| A
ex-Big Brother Tarciana: sessões de bronzeamento
semanais e injeções contra gordurinhas |
Dilmar Cavalher//Strana
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| Maria
Goreth, no banho de chocolate: "Se pudesse, vinha aqui todo
dia" |
Ela se olha no espelho, se afasta, vira de lado, chega mais perto.
Não tem jeito. Aqueles indesejáveis vincos no rosto,
os furinhos de celulite e os incômodos pneuzinhos estão
lá mesmo. Não existe mulher, por mais linda e escultural,
que não esteja insatisfeita com algum detalhe no corpo. Na
era do culto às medidas exatas e às formas perfeitas,
a tolerância a defeitos é zero. E, junto com as implacáveis
cobranças, surgiu um sedutor mercado da beleza que promete
solucionar todo e qualquer deslize da natureza ou castigo do tempo.
Nos últimos dois anos, foram inauguradas 123 clínicas
de estética no Rio. Só na cidade, que fique claro.
De acordo com a coordenadoria de licenciamento e fiscalização
da prefeitura, elas já são 470. A Clínica Onodera,
uma rede paulista que desembarcou com duas filiais no Rio em 2001,
planeja a abertura de outras cinco franquias no ano que vem. Até
o mais conceituado dos cirurgiões plásticos, o doutor
Ivo Pitanguy, se rendeu ao filão. O núcleo de estética
de sua clínica, que até alguns meses atrás
atendia somente a pacientes de pré e pós-operatório,
está agora à disposição do público
em geral. "As mulheres, hoje, não se conformam com as imperfeições.
A estética acaba virando um vício, e quem começa
não pára", atesta Tânia Maria Pacheco, gerente
operacional da Dicorp, clínica que tem duas filiais na cidade.
É a popularização da beleza. "Mas em medicina
não há milagres. É preciso atenção
para não cair nas mãos de leigos que prometem resultados
mirabolantes", alerta o doutor Aloízio Faria de Souza, presidente
da Sociedade Brasileira de Medicina Estética.
Fotos André Nazareth/Strana
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Strana
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| Antienvelhecimento:
Yaçanã Martins faz sessões de laser semanais para atenuar rugas
e eliminar manchas de sol |
Não
faltam anúncios que oferecem tratamentos para sugar medidas,
derreter gorduras e rejuvenescer a jato. Com a concorrência,
ficar bonita também ficou mais barato. Um tratamento de endermologia,
que promete diminuir a celulite e a gordura localizada, pode custar
de 25 a 60 reais a sessão. O preço da aplicação
de Botox, injeção que suaviza rugas de expressão,
varia de 700 a 1.000 reais. Mas há
quem cobre menos de 400 reais. O que em princípio parece
uma vantagem pode esconder uma cilada. "Para baratear o custo, alguns
profissionais usam produtos de origem duvidosa. Já recebi
pacientes com complicações em que tive certeza de
que a substância usada não foi a prometida", adverte
a doutora Márcia Ramos-e-Silva, chefe do serviço de
dermatologia da UFRJ e única brasileira integrante da Comissão
Internacional de Dermatologia, grupo de catorze médicos que
rege a atividade em todo o mundo. Para se resguardar, a diretora
da Sociedade Brasileira de Medicina Estética, doutora Márcia
Pontes, também dona de uma clínica, faz algumas recomendações:
"No caso de tratamento injetável, o médico tem de
abrir o frasco do produto na frente do cliente, que deve verificar
o prazo de validade e anotar o número do lote" (veja
quadro). O alerta é importante, já
que, mesmo com a grande quantidade de centros de estética
na cidade, não existe uma rotina de fiscalização.
A equipe da Vigilância Sanitária municipal responsável
pelos estabelecimentos de saúde tem apenas 69 fiscais para
licenciar e vistoriar todos os consultórios médicos
e odontológicos, veterinárias, farmácias, cabeleireiros,
academias e clubes do Rio. "Estamos sobrecarregados e só
fazemos inspeção nas clínicas quando há
denúncias", admite Rosamaria de Novaes, diretora do setor.
Cláudia Martins/Strana
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| Fátima
Ziegler no cobertor térmico: "Reduzi celulite sem fazer ginástica"
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Enquanto
isso, os centros de estética estão estufados de clientes.
Só a Dicorp do Jardim Botânico atende 500 pacientes
por mês, de acordo com a gerência da clínica.
A direção da La Belle, com quatro filiais na cidade,
afirma atender 6.000 pessoas mensalmente.
Entre as clientes, gente como a maranhense Maria Goreth de Souza
Pereira, 30 anos, moradora do Leblon. "Venho três vezes por
semana, mas se pudesse estaria aqui todo dia", conta ela. Ao longo
de dois anos, Goreth já fez de tudo um pouco: injeções
de mesoterapia e Lipostabil para reduzir gordura localizada, sessões
de endermologia e drenagem linfática para celulite, massagem
estética e até banho de chocolate para relaxar e revitalizar
a pele. "Sempre tem alguma coisa que incomoda a gente", diz a gerente
de marketing Marcela Gomes, 24 anos. Aos olhos da maioria, ela está
em plena forma, mas freqüenta a Onodera, em Ipanema, há
um mês, três vezes por semana. "Tenho um pouco de celulite",
acredita. Outra que consegue enxergar defeito onde ninguém
mais encontra é a ex-Big Brother Tarciana Mafra, 27
anos, cliente da Ribelle, em Ipanema. Com 1,65 metro e apenas 53
quilos, ela está se tratando com injeções de
Lipostabil para eliminar discretíssimas gordurinhas na barriga
e no culote. Semanalmente, faz também bronzeamento artificial.
"O Rio é implacável. A cobrança é muito
grande, e gosto de estar bonita", afirma a paulista, que se mudou
para a cidade após o reality show. Apesar das expectativas
das clientes, as clínicas sérias avisam que o tratamento,
para mostrar-se eficaz, tem de ser acompanhado de reeducação
alimentar e exercícios físicos. "Quem chega aqui dizendo
que não quer fazer dieta, não gosta de ginástica
e ainda deseja ficar em forma, eu mando procurar um mágico",
brinca Maria Inês Carvalho, médica responsável
pela Onodera, que oferece gratuitamente às clientes o acompanhamento
de nutricionista.
Dilmar Cavalher/Strana
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| Barriguinha
incômoda: a bailarina Aline optou pela corrente russa |
Para
satisfazer a busca voraz pela beleza e eterna juventude, os centros
de estética põem à disposição
do público um farto cardápio de tratamentos (veja
quadro). Há desde a simples limpeza de pele
até preenchimentos faciais e tratamentos injetáveis.
Mesmo que sejam realizados em clínicas, os procedimentos
invasivos só podem ser feitos por médicos. "Apenas
o profissional de medicina está apto a aplicar substâncias
injetáveis e capacitado a lidar com as complicações
que podem ocorrer", adverte a dra. Márcia Ramos-e-Silva.
Quanto a isso, a maioria das clínicas segue a cartilha. A
divergência está na necessidade ou não de o
paciente ser avaliado por um médico antes de se submeter
a tratamentos puramente estéticos. Em grande parte dos centros,
é uma esteticista quem receita os procedimentos. "Um simples
aparelho de estimulação elétrica pode afetar
o organismo, assim como um forno para queimar gorduras é
capaz de alterar o ritmo cardíaco", alerta o presidente da
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, José Humberto
Rezende. "Esse mercado é perigoso. A pessoa não pode
entregar seu corpo e seu rosto em qualquer lugar", declara a atriz
Yaçanã Martins, 44 anos, que faz tratamento com laser,
preenchimento com Restylane e aplica Botox na clínica da
doutora Márcia Pontes. Por outro lado, lidar com a ânsia
das pacientes em busca de um tratamento rápido é complicado.
"Estamos na era dos injetáveis e da estética veloz.
Tem gente que procura tratamento para ontem e, se desse, feito por
telefone", diz Rosana Vaz de Oliveira, sócia da clínica
Belle Corpus, na Tijuca. "Não se pode prometer o que não
dá para cumprir. Cada organismo reage de forma diferente",
enfatiza Denise Pontanova, uma das coordenadoras da Clínica
Ivo Pitanguy. Cuidados como esse resultam na satisfação
do cliente. "A sinceridade do profissional é essencial para
a pessoa se sentir segura", lembra Vera Lúcia Delecolle,
de 47 anos, cliente do cirurgião, que optou pela estética
de consultório para fugir de uma plástica.
Dilmar Cavalher/Strana
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| Vera
Delecolle acha essencial a sinceridade: não há milagres |
Se
a vaidade não tem preço, o esforço para atingir
o corpo ideal tem. Vários tratamentos causam dor, ardência,
sensação de choque, claustrofobia e até hematomas.
"Vale o sacrifício de uma dorzinha. O resultado compensa",
afirma a bailarina do Domingão do Faustão Aline
Cunha da Silva, 21 anos, cliente há um ano da clínica
Belle Corpus. Apesar de malhar três vezes por semana e fazer
dança todo santo dia, ela não conseguia livrar-se
de uma barriguinha. Injeções de Lipostabil, choquezinhos
da estimulação russa e a sucção da endermologia
resolveram o problema. "Para quem não suporta ginástica
como eu, foi um achado. Bebo refrigerante como água e consegui
diminuir muito a celulite", comemora a promoter Fátima Ziegler,
46 anos, que se trata com cinco aparelhos diferentes na Dicorp.
Entusiasmos à parte, o fato é que não existem
provas científicas da eficácia dos tratamentos. "Essa
é uma área em que os resultados apregoados carecem
de pesquisas com rigor científico", ressalta José
Ramon Varela Blanco, presidente da Sociedade Regional de Dermatologia.
Mesmo que eles sejam comprovados em determinados pacientes, não
há pesquisas expressivas que confirmem os efeitos em grande
escala. Diante da sedução de uma imagem idealizada,
para muitos isso se torna mero detalhe. Em palestras pelo país,
a diretora da Sociedade Brasileira de Medicina Estética,
doutora Márcia Pontes, procura frear o exagero. "Digo que
a única forma de não envelhecer é morrer jovem.
Por mais que se busque retardar os efeitos do tempo, o relógio
continua correndo." Mas é inegável que sempre existe
uma maneira de fazer os ponteiros girar mais devagar.
André Nazareth/Strana
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| Marcela
Gomes, durante uma sessão semanal de Photon Dome: "Sempre tem
alguma coisinha que incomoda a gente" |
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Os
cuidados
Não
acredite em promessas milagrosas nem em fotos de "antes e
depois" com mudanças radicais.
A
avaliação inicial deve ser feita por um médico
e, de preferência, com especialização
em pele. Só ele pode saber com precisão se algum
tratamento vai fazer efeito ou não. Isso vale inclusive
para drenagem, depilação definitiva e aparelhos
com estímulos elétricos.
Qualquer
procedimento cirúrgico ou injetável só
pode ser executado por médicos formados. Estão
incluídos Botox, preenchimentos e mesoterapia.
Antes
de injetar qualquer substância, o médico tem
de mostrar o frasco lacrado e abri-lo na frente do paciente.
Verifique a data de validade do produto e anote o número
do lote.
Desconfie
do preço. Se uma clínica oferece um tratamento
bem mais barato que todas as outras, pode ser que a substância
aplicada não seja a prometida.
Certifique-se
da titulação e da especialização
do médico ligando para as sociedades de dermatologia
(
2253-6747), de cirurgia plástica (
2266-7821) e de medicina estética (
2240-2932 e 2215-5647).
Fontes:
Sociedade Brasileira de Medicina Estética
e Academia Internacional de Dermatologia Cosmética
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