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23 de agosto de 2006

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A vilã que roubou a cena

Lília Cabral faz sucesso com a megera Marta

Telma Alvarenga

Dilmar Cavalher/Strana
Lília, em sua casa, no Jardim Botânico: franca como a vilã


Dia desses, Lília Cabral ligou a TV e deparou com um psicólogo, num programa vespertino, analisando sua personagem, a Marta, de Páginas da Vida. "Fiquei estatelada", conta. "Ele não deu uma dentro. Se seguisse o que ele diz, ia errar de cabo a rabo", ri. Atriz experiente, Lília prefere deixar-se levar pelo comando do criador da malvada que vem roubando a cena no folhetim das 21 horas. "Não é uma vilã qualquer. É uma vilã do Manoel Carlos, isso faz muita diferença", diz, para falar da complexidade de uma personagem, segundo ela, capaz de provocar, ao mesmo tempo, identificação e repulsa. "Pode até não haver uma pessoa exatamente como a Marta, mas existem muitas referências dessas mulheres preconceituosas, amarguradas, sofridas. Ela é assim porque cresceu rejeitada pela vida." Um perfil emocional de Marta, elaborado por psiquiatras e psicólogos, ajudará Manoel Carlos a traçar o destino de sua vilã. "Ela é cruel, mas numa dimensão humana, sem aquela maldade de matar criancinhas. É má com justificativa, ainda que possamos não aceitá-la", diz o autor.

Sucesso total. A paulistana Lília Cabral, de 49 anos, anda sorridente pelas ruas do Rio, cidade que há 22 anos escolheu para viver. Já ouviu várias vezes que vai "acabar apanhando" pelas crueldades de sua personagem. Mas ainda não foi alvo de xingamentos. Ao contrário. "Nunca recebi tantos elogios por um trabalho na TV", conta. A vilã foi criada para ela. No ano passado, quando disse a Lília que gostaria de contar com ela em sua próxima novela, Manoel Carlos ouviu um pedido. "Disse que não queria ser boa", conta Lília. "Mas não precisava ser péééééssima", brinca. Está feliz. "Adoro fazer a Marta. Estou trabalhando o triplo, mas não é desgastante." Por enquanto, ela se desdobra para enfrentar o ritmo frenético das gravações e ainda apresentar a peça Divã (que vai virar filme), nos fins de semana, em algumas cidades. Mas encerrará a turnê no mês que vem, para se dedicar apenas à novela. Não anda sobrando tempo para ir ao cinema – que ela adora – nem para fazer musculação – coisa de que não gosta. "É chato. Faço por obrigação, para não cair tudo, né?"

Lília é assim: franca. Nesse sentido, até admite certa semelhança com Marta. Bem leve. "Não me pareço com ela, disso tenho certeza. Mas também falo o que eu penso e não consigo ficar quieta se vejo uma coisa errada." Já perdeu amigos por isso. "Não eram tão amigos assim", desdenha. Também conquista simpatias com sua franqueza. "É muito bom trabalhar com gente assim", elogia Marcos Caruso, que faz o papel de Alex, marido de Marta. Caruso está encantado com a interpretação da atriz. "Sempre tive profunda admiração pela Lília, mas ela superou minhas expectativas", diz. "Ela sempre fez comédia com a chave do drama, o que dá profundidade aos personagens. Agora, está fazendo um personagem trágico com a chave do humor, da ironia, do rir de si mesmo e da própria desgraça, o que colore o drama. É muito difícil o que ela faz." Lília devolve os elogios. "Marcos é ótimo ator e generoso."

A sintonia entre os dois é perfeita. Disciplinada, Lília jamais chega ao set sem ter estudado bem os capítulos. "Não gosto de ficar alugando colega para decorar. E odeio quando fazem isso comigo. Se percebo que a pessoa nunca estuda em casa e me usa para decorar, largo na metade, não tenho paciência." Muitas vezes, Lília passa o texto com a filha, Giulia, de 9 anos. Foi a forma que encontrou de fazer a pequena entender que tudo o que vê na telinha é ficção, para não ficar impressionada. "Ela nunca tinha me visto num papel tão pesado", explica o cuidado. Não faria sentido proibir a menina de ver o folhetim. "Na escola dela, todo mundo vê e comenta. Se eu não deixasse, ela ia ficar igual a uma banana e iam achar que eu sou igual à Marta", diverte-se. Lília é alegre, engraçada. Mas também exigente, disciplinadora. "Primeiro as obrigações", ensina à filha, fruto de seu segundo casamento, com o economista Iwan Figueiredo. "Antes de qualquer coisa, ela faz o dever de casa. Depois, pode ver TV, brincar, fazer o que quiser", conta. "As professoras dizem que a Giulia não suporta errar. Eu penso: 'Ih, isso é meu'", admite. Além de perfeccionista, ela também é direta, objetiva. "Não gosto de gente que se faz de vítima, de coitadinha. A mim, não engana. Sou atriz, né? Sei quando a pessoa é canastrona", ri. Isso, definitivamente, Lília Cabral não é.

 
Rafael Campos
Fotos William Andrade/TV Globo
Três vezes má
Marta desfila sua maldade: atropela um menino de rua e diz que deveria "ter esmagado a cabeça dele" (no alto, com Regina Duarte e Elisa Lucinda); rejeita a filha Nanda (Fernanda Vasconcellos), grávida; e, abaixo, inferniza a vida do marido, Alex (Marcos Caruso)

     
   

 

 
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