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PERFIL
A vilã que roubou a cena
Lília Cabral faz sucesso com a megera Marta
Telma Alvarenga
Dilmar
Cavalher/Strana  | | Lília,
em sua casa, no Jardim Botânico: franca como a vilã |
Dia
desses, Lília Cabral ligou a TV e deparou com um psicólogo, num
programa vespertino, analisando sua personagem, a Marta, de Páginas
da Vida. "Fiquei estatelada", conta. "Ele não deu uma dentro. Se seguisse
o que ele diz, ia errar de cabo a rabo", ri. Atriz experiente, Lília prefere
deixar-se levar pelo comando do criador da malvada que vem roubando a cena no
folhetim das 21 horas. "Não é uma vilã qualquer. É
uma vilã do Manoel Carlos, isso faz muita diferença", diz, para
falar da complexidade de uma personagem, segundo ela, capaz de provocar, ao mesmo
tempo, identificação e repulsa. "Pode até não haver
uma pessoa exatamente como a Marta, mas existem muitas referências dessas
mulheres preconceituosas, amarguradas, sofridas. Ela é assim porque cresceu
rejeitada pela vida." Um perfil emocional de Marta, elaborado por psiquiatras
e psicólogos, ajudará Manoel Carlos a traçar o destino de
sua vilã. "Ela é cruel, mas numa dimensão humana, sem aquela
maldade de matar criancinhas. É má com justificativa, ainda que
possamos não aceitá-la", diz o autor.
Sucesso total. A paulistana Lília Cabral, de 49 anos, anda sorridente pelas
ruas do Rio, cidade que há 22 anos escolheu para viver. Já ouviu
várias vezes que vai "acabar apanhando" pelas crueldades de sua personagem.
Mas ainda não foi alvo de xingamentos. Ao contrário. "Nunca recebi
tantos elogios por um trabalho na TV", conta. A vilã foi criada para ela.
No ano passado, quando disse a Lília que gostaria de contar com ela em
sua próxima novela, Manoel Carlos ouviu um pedido. "Disse que não
queria ser boa", conta Lília. "Mas não precisava ser péééééssima",
brinca. Está feliz. "Adoro fazer a Marta. Estou trabalhando o triplo, mas
não é desgastante." Por enquanto, ela se desdobra para enfrentar
o ritmo frenético das gravações e ainda apresentar a peça
Divã (que vai virar filme), nos fins de semana, em algumas cidades.
Mas encerrará a turnê no mês que vem, para se dedicar apenas
à novela. Não anda sobrando tempo para ir ao cinema que ela
adora nem para fazer musculação coisa de que não
gosta. "É chato. Faço por obrigação, para não
cair tudo, né?" Lília
é assim: franca. Nesse sentido, até admite certa semelhança
com Marta. Bem leve. "Não me pareço com ela, disso tenho certeza.
Mas também falo o que eu penso e não consigo ficar quieta se vejo
uma coisa errada." Já perdeu amigos por isso. "Não eram tão
amigos assim", desdenha. Também conquista simpatias com sua franqueza.
"É muito bom trabalhar com gente assim", elogia Marcos Caruso, que faz
o papel de Alex, marido de Marta. Caruso está encantado com a interpretação
da atriz. "Sempre tive profunda admiração pela Lília, mas
ela superou minhas expectativas", diz. "Ela sempre fez comédia com a chave
do drama, o que dá profundidade aos personagens. Agora, está fazendo
um personagem trágico com a chave do humor, da ironia, do rir de si mesmo
e da própria desgraça, o que colore o drama. É muito difícil
o que ela faz." Lília devolve os elogios. "Marcos é ótimo
ator e generoso." A sintonia entre
os dois é perfeita. Disciplinada, Lília jamais chega ao set sem
ter estudado bem os capítulos. "Não gosto de ficar alugando colega
para decorar. E odeio quando fazem isso comigo. Se percebo que a pessoa nunca
estuda em casa e me usa para decorar, largo na metade, não tenho paciência."
Muitas vezes, Lília passa o texto com a filha, Giulia, de 9 anos. Foi a
forma que encontrou de fazer a pequena entender que tudo o que vê na telinha
é ficção, para não ficar impressionada. "Ela nunca
tinha me visto num papel tão pesado", explica o cuidado. Não faria
sentido proibir a menina de ver o folhetim. "Na escola dela, todo mundo vê
e comenta. Se eu não deixasse, ela ia ficar igual a uma banana e iam achar
que eu sou igual à Marta", diverte-se. Lília é alegre, engraçada.
Mas também exigente, disciplinadora. "Primeiro as obrigações",
ensina à filha, fruto de seu segundo casamento, com o economista Iwan Figueiredo.
"Antes de qualquer coisa, ela faz o dever de casa. Depois, pode ver TV, brincar,
fazer o que quiser", conta. "As professoras dizem que a Giulia não suporta
errar. Eu penso: 'Ih, isso é meu'", admite. Além de perfeccionista,
ela também é direta, objetiva. "Não gosto de gente que se
faz de vítima, de coitadinha. A mim, não engana. Sou atriz, né?
Sei quando a pessoa é canastrona", ri. Isso, definitivamente, Lília
Cabral não é. Rafael
Campos  | Fotos
William Andrade/TV Globo
 | Três
vezes má Marta desfila sua maldade: atropela
um menino de rua e diz que deveria "ter esmagado a cabeça dele" (no
alto, com Regina Duarte e Elisa Lucinda); rejeita a filha Nanda (Fernanda
Vasconcellos), grávida; e, abaixo, inferniza a vida do marido, Alex
(Marcos Caruso) |  |
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