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CRÔNICA
Dias de Marta Manoel Carlos Não
gosto de trazer os assuntos da minha novela para este espaço na revista.
Ainda que muitos leitores sejam também telespectadores, e vice-versa, considero
esta crônica quinzenal uma espécie de oásis em meio ao deserto
de espinhos que é a exposição diária para milhões
de pessoas por meio da novela das 9. Aqui se respira num outro ritmo. Ou melhor,
aqui se respira. Lá, na telinha, pulsa-se.
Mas nesta
semana me achei com razão para ocupar estas linhas com um personagem de
Páginas da Vida. A Marta. A Marta a quem a atriz Lília Cabral
dá vida todas as noites. Primeiro, hostilizando a filha grávida
e o marido passivo; depois, rejeitando a neta com síndrome de Down e dando-a
como morta. Mas o que há de novo nessa história, para que eu a traga
para esta página que nada tem a ver com novela? Afinal, jornais e revistas
cuidam desse assunto, todos os dias, em suas colunas de televisão. A razão
é simples: o teor das cartas e e-mails que eu venho recebendo há
um mês, sem contar as pessoas que me falam diretamente na rua, no restaurante,
na caminhada no calçadão. Nos primeiros quinze capítulos
todas as mensagens eram de horror ao personagem. Algumas pessoas me afirmavam
sair da sala quando Marta aparecia na história. Não suportavam seu
repertório de maldades, o veneno instilado em todas as suas frases e até
mesmo nas suas pausas e nos seus momentos de silêncio. Recebi essas manifestações
com naturalidade, pois sei que isso acontece em todas as novelas, desde as primeiras,
contadas por Cassiano Gabus Mendes, Ivani Ribeiro e Janete Clair. Mas, passado
o susto, começaram a chegar as mensagens de solidariedade a Marta. E muitas
justificativas para o seu comportamento. E fico sabendo que na internet existem
alguns grupos que se apresentam como amigos de Marta. Pessoas que encontram as
razões para um comportamento tão hostil. Que defendem Marta, que
se colocam ao seu lado e em sua defesa. Pinço nessas mensagens, obviamente
sem citar o nome dos remetentes, o argumento mais comum: "Então essa mulher
trabalha, sustenta a casa, manda dinheiro, com muito sacrifício, para a
filha pagar seus estudos no exterior, e a garota aparece grávida (e de
gêmeos!), uma mão na frente, a outra atrás, para viver nas
costas da mãe, com seus filhos? Ah, pra mim, sinceramente, ela tem toda
a razão de expulsar a filha de casa!". Essas linhas que eu reproduzo traduzem,
com pequenas modificações, as centenas de manifestações
que tenho recebido e ouvido. Claro que elas não são a maioria, que
continua sendo de repúdio, mas chegam num volume bastante significativo.
Também nenhuma delas aprova
o comportamento de Marta com relação à neta com Down. Não,
felizmente. Nesse ponto o repúdio é total. A aprovação
é sobre a reação da mãe diante da filha. Mas o e-mail
que mais chamou a minha atenção e que acabou sendo a razão
desta crônica é de uma mulher que pede, encarecidamente, diz ela,
para eu não colocar a Marta como vilã, "já que acredito que,
na posição dela (Marta), muitas mulheres agiriam da mesma
forma, inclusive eu". Mais adiante me diz: "Ela é uma mulher que nos dias
de hoje pensa com os pés no chão. Uma mulher que batalha, sem ajuda
da família. Não merece ser tratada como vilã". E encerra
a mensagem com esta frase: "Não há ser humano no mundo que não
tenha seus dias de Marta. Os meus são muitos!".
Fiquei com isso na cabeça: dias de Marta. Certamente, penso eu, também
não haverá no mundo quem não tenha seus dias de Helena. Mas
estar do lado do bem é mais fácil, mesmo que seja de mentirinha.
Pergunto, para encerrar por hoje: e você, leitor ou leitora, é capaz
de confessar que tem também seus dias de Marta? E-mails
para o cronista: almaviva@uninet.com.br |