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REPORTAGEM DE CAPA Guerra
contra a bagunça Das favelas aos shows
ao ar livre, o Ministério Público briga para ordenar a cidade
Fátima Sá e Fabio Brisolla André
Valentimr/Strana
 Dilmar
Cavalher/Strana
 | | Desordem
urbana: a divisão de meio ambiente do Ministério Público
quer conter a ocupação das encostas e enquadrar "donos" de redes
que loteiam as praias |
Ela
dá de ombros para a fama de chata. Depois de impor várias restrições
ao show dos Rolling Stones na Praia de Copacabana, a promotora de Justiça
Denise Tarin diz que fará de tudo para impedir que o músico Elton
John se apresente na areia do bairro. "Eu estava no show dos Rolling Stones e
posso dizer que não aconteceu nada de grave por sorte. Não existe
plano viável de segurança nem contenção viária
para eventos desse porte", sentencia. Desde que assumiu a 3ª Promotoria de
Justiça de Meio Ambiente, no ano passado, Denise Tarin já comprou
briga para enquadrar shows, ensaios de escolas de samba, blocos de Carnaval, escolinhas
de vôlei, bares e restaurantes. Implicância? Ela jura que não.
Por trás de cada ação da promotora estão denúncias
e queixas dos próprios cariocas, que descobriram no Ministério Público
espaço para reclamar de problemas complexos, como a poluição
de praias e lagoas, ou comezinhos, como a boate barulhenta na esquina de casa.
"Chegamos ao limite. O Rio não suporta mais tanta desordem", diz Denise.
Por desordem entendam-se as calçadas
ocupadas por bares e restaurantes, as barracas de vendedores e escolinhas de esportes
que lotearam as areias das praias e a expansão das favelas sobre áreas
verdes e margens de rios, da Zona Sul à Zona Oeste. Carioca, Denise Tarin
atuou por onze anos em Petrópolis, até retornar ao Rio, em 2005.
"Levei um susto quando voltei. A cidade foi ocupada", desabafa a promotora, que
se uniu aos colegas para pôr ordem na casa. Juntos, ela e os promotores
Rosani da Cunha Gomes, Carlos Frederico Saturnino e Ana Paula Petra formam uma
espécie de tropa de choque do Ministério Público nas áreas
de meio ambiente, patrimônio cultural e urbanismo. Uma turma que virou pedra
no sapato de muita gente. "Há um problema de anomia. Sobram leis, mas elas
não são cumpridas. O que a gente procura fazer é garantir
que essas leis sejam respeitadas", comenta o promotor Carlos Frederico Saturnino.
Território livre do carioca,
a orla virou paraíso dessa desobediência. "A praia é área
de proteção ambiental, mas não há controle sobre ela.
Existem redes por toda a orla, e muitas estão nas mãos de particulares
que ganham dinheiro com escolinhas, sem que o município tenha nenhuma contrapartida.
E na hora em que pedimos mais lixeiras para a praia o argumento é que falta
dinheiro. Não pode ser assim", diz Denise Tarin. Procurada pela promotora,
a coordenadoria de licenciamento e fiscalização da Secretaria Municipal
de Governo está fazendo um levantamento dessas atividades. "As redes estão
aí desde que eu tinha 13 anos e aprendia vôlei na Praia de Ipanema.
Hoje tenho 60. Se a promotora entender dessa forma, deve recorrer à Justiça.
O MP é fiscal da lei. Não é a lei", rebate o prefeito Cesar
Maia.
André
Coelho/Agência O Globo
 | | Carnaval
de rua: os promotores estudam como organizar os blocos para garantir segurança
e conforto |
Foi por causa
da desordem na praia que um grupo de moradores do Leblon procurou o Ministério
Público no início do ano pedindo o controle sobre os blocos de Carnaval,
cujos desfiles muitas vezes avançam pela orla. Denise Tarin encontrou-se
com representantes da associação Sebastiana, que reúne doze
dos mais tradicionais blocos do Rio, como o Simpatia É Quase Amor e o Suvaco
do Cristo. "Cada bloco se estrutura como pode. Temos o diagnóstico dos
problemas, como os nós no trânsito, e algumas sugestões, como
o cadastramento de vendedores ambulantes. Mas precisamos da ajuda do poder público
no planejamento", diz Rita Fernandes, presidente da Sebastiana. "Isso não
é obrigação da prefeitura. Há blocos em toda a cidade
e não existe orçamento para atender a todos", argumenta a subsecretária
de Eventos da prefeitura, Ana Maria Maia. Até o próximo Carnaval,
muita água ainda deve rolar.
Qualquer que seja o assunto, a grita contra a bagunça costuma partir das
associações de moradores, mais articuladas e cientes de seus direitos.
"Quando não encontramos eco nos poderes municipal e estadual para as questões
de ordem urbana, pedimos ajuda ao Ministério Público", conta o presidente
da Sociedade de Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães Gomes. Mas
a reclamação também parte de cidadãos anônimos,
que procuram a ouvidoria do MP, via telefone (127) ou site (www.mp.rj.gov.br).
Desde que o órgão foi criado, um ano atrás, o volume de reclamações
quintuplicou. Dia desses, Carlos Frederico foi pego de surpresa por uma única
denúncia que lista com fotos mais de quarenta estabelecimentos
comerciais cujas áreas avançam sobre as calçadas. A denúncia
deu origem a uma investigação que já atinge 58 bares e restaurantes.
Técnicos do Ministério Público vão apurar se eles
têm licença para isso e se as licenças estão de acordo
com a lei. "Hoje, se você pára o carro na calçada especialmente
em bairros como Ipanema e Leblon , é quase certo que seja multado
ou tenha o veículo rebocado. Mas, se você quer construir um restaurante
de luxo em cima da calçada, é quase certo que consiga licença
da prefeitura, cuja filosofia é incentivar o desenvolvimento econômico
da cidade. Não somos contra isso, que fique claro. Mas há critérios",
diz Carlos Frederico. Na ausência
de uma legislação específica sobre o tema, donos de bares
e restaurantes foram buscar referência nos cafés de Paris, que avançam
e muito sobre as calçadas. Convenceram o prefeito. "Em Paris
é assim, e é um sucesso. Em Saint Germain nas vielas e nos
becos tem-se de andar pelas ruas. A Lapa foi recuperada a partir da flexibilização
das mesas. O Arco do Teles, idem", argumenta o prefeito Cesar Maia. O Sindicato
de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio acredita que há exagero do
MP. "Veja o caso da Praça General Osório, em Ipanema. Foi recuperada
graças ao pólo gastronômico, que ocupou a calçada com
suas mesas e cadeiras. Não entendo como o Ministério Público
pode questionar isso. Acho uma visão obtusa", comenta Alexandre Sampaio,
presidente do sindicato. Algumas ações,
os promotores reconhecem, podem parecer antipáticas à população.
É o caso, por exemplo, das restrições a shows ao ar livre.
Em abril, Carlos Frederico conseguiu suspender na Justiça um show gratuito
que Zeca Pagodinho faria no Flamengo. A razão? Dois dias antes da apresentação,
os organizadores não tinham esquema de trânsito ou segurança
detalhado. O show seria bancado pela Petrobras. Segundo Ana Maria Maia, o episódio
gerou uma reação em cadeia. "Os grandes patrocinadores sumiram,
preferem não arriscar dinheiro em eventos do gênero", diz. A subsecretária
alega ter feito 22 reuniões com todos os envolvidos na produção
do show dos Rolling Stones. E não vê como o MP poderia colaborar
participando do planejamento. "Eles entendem de produção? De policiamento?
De trânsito? O MP vai falar sobre o quê?", questiona a subsecretária.
Os produtores fazem coro. "Se o MP continuar assim, daqui a pouco não tem
mais evento no Rio. Aliás, não é o MP, é a promotora
Denise", protesta Walter Guimarães, sócio da empresa Audiorama,
responsável pela produção do show de Elton John em Copacabana,
marcado para o próximo dia 25 de janeiro. A insatisfação
gerou até uma nova entidade. "Estamos criando uma associação
de empresas de eventos para tratar do assunto sem inviabilizar os espetáculos
ao ar livre", conta o cenógrafo Abel Gomes. "Minha preocupação
é com a segurança e com o conforto da população. Esse
é o meu trabalho", defende Denise.
Para o prefeito, falta sintonia entre os promotores e a realidade carioca. "As
cidades têm suas características e sua história. Muitas vezes
um promotor passa em um concurso, vem de uma cidade pequena e pacata do interior
de Minas e quer repetir aqui sua vida de lá", provoca. As desavenças
entre Cesar Maia e o Ministério Público vão muito além
dos shows e do uso de calçadas. Existem 148 ações civis públicas
na área de meio ambiente. O município é réu em um
terço delas quase todas na gestão do atual prefeito. "Muitas
questões poderiam ser resolvidas sem ação judicial, mas há
intransigência na relação do prefeito com o MP", diz Rosani
da Cunha Gomes. A "solução amigável" seria o chamado termo
de ajustamento de conduta (TAC), quando o investigado se compromete a atender
às exigências do promotor. Cesar Maia prefere discutir na Justiça.
Foi o que aconteceu recentemente no
Leme. Depois de acionar a prefeitura, sem sucesso, moradores do bairro procuraram
o MP para denunciar construções irregulares que vinham avançando
sobre a mata no Morro da Babilônia. No início deste mês, os
promotores conseguiram uma liminar na Justiça obrigando o município
a demolir as construções irregulares, reassentar as famílias
e reflorestar a região. O MP também já instaurou inquérito
para apurar a expansão de catorze comunidades no Alto da Boa Vista, além
de loteamentos irregulares em Campo Grande e Vargem Grande. "O problema mais grave
de desordem urbana é a ocupação de áreas de relevância
ambiental. Campo Grande e Vargem Grande são dois pontos críticos",
diz Rosani, que se especializou em ações de loteamentos irregulares.
A promotora Ana Paula Petra, também envolvida em ações sobre
o assunto, alerta para os efeitos colaterais dessa expansão. "Com a ocupação
desordenada vêm o lançamento de esgoto in natura, o aumento da poluição,
a criminalidade", diz. Simpática
ou rude, a atuação dos promotores abre uma importante discussão
sobre o uso do espaço público na cidade. O carioca, há que
reconhecer, sempre teve uma relação intensa com as ruas. "Isso vem
desde a fundação da cidade", lembra o professor Antonio Edmilson
Martins Rodrigues, coordenador da pós-graduação em história
social da cultura do departamento de história da PUC. "Das primeiras festas
religiosas, com suas procissões, à reforma Passos, que atraiu as
pessoas para as ruas do Centro, o morador do Rio habituou-se a ocupar o espaço
público. Em vez de receber em casa ou no escritório, é nas
ruas que o carioca recebe", diz o professor. A julgar pelas reclamações
que chegam ao Ministério Público, a alma sedutora das ruas está
perdendo o encanto.
Disciplina para os blocos Felipe
Varanda/Strana  | Hudson
Pontes/Agência O Globo  |
Moradores
do Leblon procuraram o Ministério Público reclamando dos blocos
que invadem a Avenida Delfim Moreira a cada Carnaval, tumultuando a vida no bairro.
Denise Tarin (à esq.) quer que alguém se responsabilize
pela organização dos desfiles, ordenando trânsito e policiamento
e instalando banheiros químicos no trajeto. Os blocos dizem que precisam
do poder público. A prefeitura afirma que não pode ajudar a todos.
O impasse deve se arrastar pelo próximo Carnaval. Convencida de que não
há plano viável de segurança para mega-shows na cidade, Denise
promete ir à Justiça contra a apresentação de Elton
John, programada para 20 de janeiro. |
Calçada livre para pedestres
André
Valenti /Strana  | Michel
Filho/Agência O Globo  |
O
promotor Carlos Frederico Saturnino (à esq.) recebeu dia
desses uma denúncia contra mais de quarenta estabelecimentos que invadiram
as calçadas da cidade. O autor da denúncia anônima
deu-se ao trabalho de fotografar cada um deles. Hoje, o Ministério
Público investiga 58 bares e restaurantes por esse motivo. A maioria fica
na Zona Sul, como o Olivier Cozan (à dir.), em Ipanema. A casa tem
licença para avançar sobre a calçada, mas a equipe técnica
do MP ainda avalia o caso. Desde que o Ministério Público criou
sua ouvidoria, há um ano, as denúncias quintuplicaram. "Por causa
da demanda da população, atuamos cada vez mais no meio ambiente
urbano, tratando de trânsito, esgoto, ocupação de calçada,
poluição sonora e construções que possam ter impacto
negativo sobre a vida das pessoas", conta. |
Esgotos monitorados Felipe
Varanda /Strana  | Paulo
Barreto/Agência O Globo  |
A
promotora Ana Paula Petra (à esq.) acompanha de perto as
obras do emissário submarino na Barra. Atualmente, ela está negociando
um termo de ajuste de conduta com a Cedae para estabelecer um sistema de monitoramento
permanente das praias e lagoas da Barra e do Recreio. A atuação
da promotora também está direcionada para a ocupação
desordenada do solo na chamada Área de Planejamento 4 do município,
que engloba Barra, Recreio, Jacarepaguá e Vargem Grande. Ana Paula foi
à Estrada dos Bandeirantes para fotografar e registrar informações
sobre os endereços irregulares. "Os loteamentos surgem num piscar de olhos.
Do dia para a noite." Ela alerta para os efeitos colaterais das ocupações
clandestinas: lançamento de esgoto e aumento da poluição
e da criminalidade. |
Sem diálogo com o prefeito
Felipe
Varanda /Strana  | Oscar
Cabral  |
O
problema mais grave envolvendo a desordem urbana na cidade, segundo a promotora
Rosani da Cunha Gomes, são as ocupações de áreas
de relevância ambiental. Um exemplo é o desmatamento de encostas,
que, além de gerar degradação, oferece risco de morte aos
próprios ocupantes do terreno. "Há ainda construções
tidas como legais, em áreas valorizadas, que também causam danos
ao meio ambiente." A promotora afirma que o Ministério Público já
procurou a prefeitura para tentar criar uma parceria com o objetivo de solucionar
por meio de acordo as denúncias que chegam à Divisão de Meio
Ambiente. "Há uma intransigência na relação do prefeito
com o MP, e quem acaba sofrendo é a população. Muitas questões
poderiam ser resolvidas sem ação judicial." | |