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TRÂNSITO
Dez soluções
para o CAOS
Fátima Sá
André Nazareth/Strana
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Segunda-feira (14), Avenida Presidente
Vargas, 18h30: vans,ônibus
e carros disputam espaço no trânsito
confuso do Centro |
O alerta foi dado em sala de aula pelo
professor Paulo Cezar Ribeiro, coordenador do Programa de Engenharia
de Transportes na UFRJ. Diariamente, 160 novos carros, caminhões,
motos e vans invadem as ruas do Rio, cuja frota já é
de 2 milhões de veículos. Em números redondos,
somam-se a eles outros 58 000 veículos por ano. É
o suficiente para lotar onze vezes o estacionamento do BarraShopping.
E contribuir para transformar o trânsito carioca em uma aventura
imprevisível. Na hora do rush, a velocidade média
na Avenida Mario Ribeiro, na Gávea, por exemplo, dificilmente
ultrapassa 14 quilômetros por hora. Isso se nenhum carro enguiçar.
"Os congestionamentos devem piorar, como acontece em todas as cidades
do mundo", avisa o professor. O caos no trânsito castiga motoristas
e passageiros de todas as classes sociais do empresário
que volta para casa na companhia do motorista ao trabalhador que
gasta duas horas dentro do ônibus. Também polui o ar,
provoca acidentes e causa sérios prejuízos à
economia. "É um desperdício anual de 150 milhões
de reais em combustíveis, tempo, poluição e
reparos no sistema viário", calcula Willian Aquino, diretor
da regional Rio da Associação Nacional de Transportes
Públicos. A boa notícia é que é possível
desatar esse nó. Leia dez sugestões a seguir.
1 Tirar da ruas os carros em más condições
A
medida é impopular, mas fundamental. Para melhorar a fluidez
do trânsito e a qualidade do ar que respiramos
é preciso tirar os carros velhos de circulação.
Eles são os mais propensos a enguiçar nas ruas, provocando
engarrafamentos e acidentes. Por ano, a Coordenadoria de Vias Especiais
da Secretaria Municipal de Trânsito faz 40 000 atendimentos
nos túneis Rebouças, Santa Bárbara e Zuzu Angel,
além da Praça Quinze e da Avenida Brasil. A grande
maioria 65% refere-se a veículos enguiçados.
Motoristas que insistem em circular com automóveis antigos
e em más condições colocam em risco a própria
vida e a de outros motoristas e pedestres. "Isso sem falar no meio
ambiente", diz o especialista Emílio La Rovere, da UFRJ.
De fato, um carro em más condições pode emitir,
sozinho, a mesma quantidade de monóxido de carbono de 100
novos. E os veículos são responsáveis por mais
de 70% de toda a poluição atmosférica da Região
Metropolitana. Segundo levantamento do Detran do Rio, nossa frota
tem, em média, treze anos de idade. A melhor maneira de forçar
a renovação é a vistoria anual, que verifica
o estado geral do automóvel e mede a emissão de gases
poluentes. O problema é garantir o comparecimento do motorista.
Embora a vistoria seja obrigatória, 60% de todos os veículos
que circulam pelas ruas da cidade não estão em dia
com a inspeção.
2 Melhorar os trens
Eles
transportavam mais de 1 milhão de passageiros diários
em meados dos anos 80. Em 1998, sucateados às vésperas
da privatização, os trens do Rio levavam apenas 145
000 pessoas menos de 15% do que chegaram a ter. Após
investimentos de 420 milhões de reais, o sistema voltou a
crescer. Mas ainda está longe do que era. Hoje, os 163 trens
administrados pela concessionária Supervia carregam 450 000
usuários por dia (cariocas e moradores de outros dez municípios
da região metropolitana) em seus 225 quilômetros. Para
o sistema voltar aos números da década de 80, é
preciso mais e melhores trens, além de obras nas instalações
das 89 estações, apenas onze têm acesso
para cadeirantes, por exemplo. Seria necessário comprar mais
120 trens, reformar 32 e aposentar 64. O Rio então contaria
com 230 composições, incluindo as atuais. Custo estimado:
500 milhões de dólares. "Com investimento na frota,
na sinalização e nas estações, transformaríamos
o trem em um metrô de superfície e poderíamos
recuperar os passageiros que migraram para ônibus, carros
e vans, chegando a 1,5 milhão de usuários por dia",
calcula o presidente da Supervia, Amin Alves Murad. Tudo isso teria
rápidos reflexos na melhoria do trânsito. Afinal, um
trem, com quatro composições, comporta cerca de 1
000 passageiros volume equivalente ao transportado por treze
ônibus ou 84 vans. O governo do estado, que é dono
da frota segundo o contrato de concessão, estuda o assunto.
E promete incluir parte dos investimentos possivelmente cinqüenta
novos trens no Programa Estadual de Transportes 3, que vem
sendo negociado com o Banco Mundial.
Gabriel de Paiva/Ag. Globo
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| O metrô no limite: novos
vagões e mais estações para
atingir a meta de 1 milhão de passageiros |
3 Expandir as linhas 1 e 2 do metrô
Desde
que foi inaugurado, em 1979, o metrô do Rio avança
a passos lentos. Nestes 28 anos, o sistema cresceu menos de 1,5
quilômetro por ano. Atualmente, a malha metroviária
tem insuficientes 37 quilômetros de extensão e 33 estações,
da recém-inaugurada Cantagalo, em Copacabana, à Pavuna,
no subúrbio do Rio. Nos horários de pico, atingiu
o limite de lotação. "Chegamos aonde podíamos
para o tamanho da nossa frota", explica Joubert Flores, diretor
de relações institucionais da empresa Metrô
Rio, concessionária do serviço desde 1998. Seus 182
carros transportam 550 000 cariocas por dia cinco vezes menos
do que o metrô paulistano, que tem 702 carros. "No fim de
2009 inauguraremos a Estação General Osório,
em Ipanema", promete o secretário estadual de Transportes,
Júlio Lopes. Isso vai significar mais 50 000 a 80 000 passageiros
por dia. A nova estação custará 390 milhões
de reais, gastos entre obras e compra de 24 carros. A maior parte
dos recursos virá do BNDES.
O plano de expansão da Metrô
Rio prevê ligar a Estação de São Cristóvão
à Central do Brasil, mudar a sinalização e
adquirir dezoito novos trens, com seis carros cada um, a um custo
de 750 milhões de reais. "Em quatro anos dobraríamos
o número de passageiros", estima Flores. Há obras
já licitadas, mas que devem demorar a sair do papel pelo
alto custo de execução. É o caso do metrô
de Botafogo para a Barra, a Linha 4, que desafogaria a auto-estrada
LagoaBarra e a Rua Mário Ribeiro, com um investimento
calculado em 2 bilhões de reais. Projetada para 50 000 veículos,
a auto-estrada já recebe 115 000 carros por dia. Na Mário
Ribeiro, nos horários de pico, a velocidade média
dos automóveis é de 14 quilômetros por hora.
A Linha 3, que ligaria a Praça Quinze a São Gonçalo,
sob as águas da Baía de Guanabara, custaria 1,8 bilhão
de reais. Fora a linha terrestre, em Niterói, orçada
em mais 1,2 bilhão. É caro, mas nenhuma metrópole
consegue ter um bom sistema de transporte sem uma eficiente rede
de metrô.
4 Modernizar o controle de
tráfego
Metade
dos 2 200 sinais de trânsito do Rio é programada do
alto de um edifício, no Centro da cidade. Implantado em 1996,
o Controle de Tráfego por Área (CTA) permite à
CET Rio acompanhar o que se passa nos cruzamentos mais concorridos
do Centro e da Zona Sul, graças a 93 câmeras e computadores
que transmitem imagens e informações do local diretamente
para a central. "Daqui aumentamos ou diminuímos o tempo de
abertura dos sinais, acionamos equipes de socorro, observamos a
circulação e fazemos reparos a distância", diz
a gerente de controle de tráfego Adriana de Castro Martins
Ferreira. O ideal seria automatizar toda a cidade, embora um único
sinal de trânsito inteligente custe de 40 000 a 100 000 reais.
Seria mais fácil modernizar os computadores do CTA, com um
investimento de 3 milhões de reais.
Fotos André Nazareth/Strana
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| Controle de tráfego
por área (à esq.): esquinas
monitoradas 24 horas para evitar problemas
como o de carros velhos que enguiçam |
5 Fazer campanhas educativas
Há
duas maneiras de disciplinar o motorista: punir ou educar. "Educar
dá mais trabalho, mas o resultado é mais eficaz",
explica Grace Monteiro, coordenadora de educação para
o trânsito do Detran do Rio. É preciso saber falar
ao motorista. Campanhas em tom professoral não sensibilizam
os cariocas. "O motorista aqui é irreverente, por isso apelamos
para o humor", diz Grace. Durante o Pan, por exemplo, serão
usados slogans como: "Eles podem cortar pela direita. Você,
não. Respeite as regras do trânsito". A idéia
é ter a campanha em outdoors, jornais e no metrô. A
verba para os programas de educação vem das multas
neste ano, estão previstos 2 milhões de reais
para o estado. Para colocar uma campanha publicitária na
rua que pode custar até 10 milhões de reais
, o caminho é buscar parceiros na iniciativa privada.
6 Criar corredores expressos
Opção
mais barata e rápida do que a Linha 6 do metrô, que
ligaria a Barra à Ilha do Governador, o corredor T5 é
um dos muitos projetos pensados para o Pan que não saíram
em tempo do papel. Parecido com os corredores de ônibus de
Curitiba, com ares de metrô de superfície, o T5 pode
reduzir à metade o tempo de viagem entre a Penha e a Barra,
que hoje dura cerca de uma hora e meia. O projeto original previa
que os passageiros até 380 000 por dia usariam
ônibus articulados ao longo de 28 quilômetros e 36 estações.
Diante do interesse de uma empresa que opera um monorail em Kuala
Lumpur, na Malásia, o projeto mudou para aceitar também
veículos sobre trilhos. A licitação deve ser
realizada no segundo semestre deste ano.
André Nazareth/Strana
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| Cruzamento fechado no Jardim Botânico:
festival de infrações |
7 Multar mais
A
van fecha o cruzamento, o ônibus avança o sinal, o
táxi corta a pista e o motorista pára em fila dupla
para o filho descer na porta da escola. "Há uma indisciplina
cada vez maior no trânsito, provocando congestionamentos e
acidentes", afirma Amaranto Lopes Pereira, professor do Programa
de Engenharia de Transportes na UFRJ. A maneira mais eficaz de corrigir
os motoristas como se faz no mundo inteiro é
multar. Desde 1998, quando assumiu a função de punir
os infratores, a Prefeitura do Rio emitiu mais de 7 milhões
de multas de trânsito que renderam 60 milhões
de reais por ano aos cofres municipais. Para o trabalho, conta com
700 guardas e 126 pardais, lombadas eletrônicas e radares.
Mesmo assim, as infrações mais cometidas são
excesso de velocidade e avanço de sinal.
8 Regulamentar o transporte alternativo
Oficialmente,
elas são cerca de 6 000, mas estima-se que para cada van
ou kombi cadastrada haja três piratas. Ou seja, seriam 24
000 veículos que, na última década, tomaram
o Rio de assalto, transformaram as ruas em praça de guerra
e ajudaram a aumentar os congestionamentos. "Quando competem com
os ônibus, as kombis e vans agravam as condições
do trânsito", diz o professor de engenharia de Transportes
José de Oliveira Guerra, da Universidade do Estado do Rio.
Os acidentes são freqüentes: elas cortam outros veículos,
param em qualquer lugar, correm feito loucas. É consenso
entre os especialistas que os meios de transporte não devem
competir: as vans podem ser boa opção em vias secundárias
ou bairros de difícil acesso, como Santa Teresa.
André Nazareth/Strana
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| Cena rotineira: fila dupla na
porta da escola |
9 Integrar os meios de transporte
É
fundamental planejar os meios de transporte de maneira integrada
para disciplinar as ruas. Hoje, os ônibus concorrem entre
si, as vans disputam com as barcas e há excesso de ônibus
e táxis. Uma bagunça. Em 1997, havia 19 000 táxis
no Rio. Hoje, são quase 30 000. Quanto aos ônibus,
o projeto Rio Bus, elaborado pelo professor Paulo Cezar Ribeiro,
prometia tirar de circulação metade das 600 linhas
municipais e redefinir o trajeto de outras tantas, além de
renovar a frota. Ficou engavetado. "Integrar e racionalizar o uso
de meios de transporte é um trabalho de pesquisa e planejamento,
que não custa mais de 1 milhão de reais", avalia o
engenheiro Fernando Mac Dowell, especialista em trânsito.
10 Restringir a circulação
de veículos
O
secretário municipal de Transportes, Arolde de Oliveira,
torce o nariz para a idéia. Restringir a circulação
de carros, ele sabe, é uma medida impopular. Mas às
vezes inevitável. Londres, por exemplo, tem um sistema de
transporte de massa invejável, mas precisou cobrar pedágio
de quem insiste em ir de carro para o centro 7,50 libras
(29 reais). Com isso retirou mais de 60 000 carros das ruas por
dia. Em 1997, São Paulo iniciou o rodízio municipal.
Cada carro não pode circular nos horários de pico
um dia por semana. A medida tirou das ruas 20% dos veículos,
mas com o crescimento da frota os congestionamentos tornaram-se
iguais aos de dez anos atrás. Ainda assim, São Paulo
pararia se o rodízio acabasse. É uma opção
que o Rio precisa ao menos estudar.
Fotos André Nazareth/Strana
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| Tolerância zero com infratores: mais
multas |
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| Regulamentar vans: desafio para autoridades |
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