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23 de maio de 2007

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TRÂNSITO

Dez soluções para o CAOS

Fátima Sá

André Nazareth/Strana
Segunda-feira (14), Avenida Presidente Vargas, 18h30: vans,ônibus
e carros
disputam espaço no trânsito confuso do Centro


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Quadro: Os números

O alerta foi dado em sala de aula pelo professor Paulo Cezar Ribeiro, coordenador do Programa de Engenharia de Transportes na UFRJ. Diariamente, 160 novos carros, caminhões, motos e vans invadem as ruas do Rio, cuja frota já é de 2 milhões de veículos. Em números redondos, somam-se a eles outros 58 000 veículos por ano. É o suficiente para lotar onze vezes o estacionamento do BarraShopping. E contribuir para transformar o trânsito carioca em uma aventura imprevisível. Na hora do rush, a velocidade média na Avenida Mario Ribeiro, na Gávea, por exemplo, dificilmente ultrapassa 14 quilômetros por hora. Isso se nenhum carro enguiçar. "Os congestionamentos devem piorar, como acontece em todas as cidades do mundo", avisa o professor. O caos no trânsito castiga motoristas e passageiros de todas as classes sociais – do empresário que volta para casa na companhia do motorista ao trabalhador que gasta duas horas dentro do ônibus. Também polui o ar, provoca acidentes e causa sérios prejuízos à economia. "É um desperdício anual de 150 milhões de reais em combustíveis, tempo, poluição e reparos no sistema viário", calcula Willian Aquino, diretor da regional Rio da Associação Nacional de Transportes Públicos. A boa notícia é que é possível desatar esse nó. Leia dez sugestões a seguir.


1 ­ Tirar da ruas os carros em más condições

A medida é impopular, mas fundamental. Para melhorar a fluidez do trânsito – e a qualidade do ar que respiramos – é preciso tirar os carros velhos de circulação. Eles são os mais propensos a enguiçar nas ruas, provocando engarrafamentos e acidentes. Por ano, a Coordenadoria de Vias Especiais da Secretaria Municipal de Trânsito faz 40 000 atendimentos nos túneis Rebouças, Santa Bárbara e Zuzu Angel, além da Praça Quinze e da Avenida Brasil. A grande maioria – 65% – refere-se a veículos enguiçados. Motoristas que insistem em circular com automóveis antigos e em más condições colocam em risco a própria vida e a de outros motoristas e pedestres. "Isso sem falar no meio ambiente", diz o especialista Emílio La Rovere, da UFRJ. De fato, um carro em más condições pode emitir, sozinho, a mesma quantidade de monóxido de carbono de 100 novos. E os veículos são responsáveis por mais de 70% de toda a poluição atmosférica da Região Metropolitana. Segundo levantamento do Detran do Rio, nossa frota tem, em média, treze anos de idade. A melhor maneira de forçar a renovação é a vistoria anual, que verifica o estado geral do automóvel e mede a emissão de gases poluentes. O problema é garantir o comparecimento do motorista. Embora a vistoria seja obrigatória, 60% de todos os veículos que circulam pelas ruas da cidade não estão em dia com a inspeção.


2 ­ Melhorar os trens

Eles transportavam mais de 1 milhão de passageiros diários em meados dos anos 80. Em 1998, sucateados às vésperas da privatização, os trens do Rio levavam apenas 145 000 pessoas – menos de 15% do que chegaram a ter. Após investimentos de 420 milhões de reais, o sistema voltou a crescer. Mas ainda está longe do que era. Hoje, os 163 trens administrados pela concessionária Supervia carregam 450 000 usuários por dia (cariocas e moradores de outros dez municípios da região metropolitana) em seus 225 quilômetros. Para o sistema voltar aos números da década de 80, é preciso mais e melhores trens, além de obras nas instalações – das 89 estações, apenas onze têm acesso para cadeirantes, por exemplo. Seria necessário comprar mais 120 trens, reformar 32 e aposentar 64. O Rio então contaria com 230 composições, incluindo as atuais. Custo estimado: 500 milhões de dólares. "Com investimento na frota, na sinalização e nas estações, transformaríamos o trem em um metrô de superfície e poderíamos recuperar os passageiros que migraram para ônibus, carros e vans, chegando a 1,5 milhão de usuários por dia", calcula o presidente da Supervia, Amin Alves Murad. Tudo isso teria rápidos reflexos na melhoria do trânsito. Afinal, um trem, com quatro composições, comporta cerca de 1 000 passageiros – volume equivalente ao transportado por treze ônibus ou 84 vans. O governo do estado, que é dono da frota segundo o contrato de concessão, estuda o assunto. E promete incluir parte dos investimentos – possivelmente cinqüenta novos trens – no Programa Estadual de Transportes 3, que vem sendo negociado com o Banco Mundial.

Gabriel de Paiva/Ag. Globo
O metrô no limite: novos vagões e mais estações para atingir a meta de 1 milhão de passageiros


3 ­ Expandir as linhas 1 e 2 do metrô

Desde que foi inaugurado, em 1979, o metrô do Rio avança a passos lentos. Nestes 28 anos, o sistema cresceu menos de 1,5 quilômetro por ano. Atualmente, a malha metroviária tem insuficientes 37 quilômetros de extensão e 33 estações, da recém-inaugurada Cantagalo, em Copacabana, à Pavuna, no subúrbio do Rio. Nos horários de pico, atingiu o limite de lotação. "Chegamos aonde podíamos para o tamanho da nossa frota", explica Joubert Flores, diretor de relações institucionais da empresa Metrô Rio, concessionária do serviço desde 1998. Seus 182 carros transportam 550 000 cariocas por dia – cinco vezes menos do que o metrô paulistano, que tem 702 carros. "No fim de 2009 inauguraremos a Estação General Osório, em Ipanema", promete o secretário estadual de Transportes, Júlio Lopes. Isso vai significar mais 50 000 a 80 000 passageiros por dia. A nova estação custará 390 milhões de reais, gastos entre obras e compra de 24 carros. A maior parte dos recursos virá do BNDES.

O plano de expansão da Metrô Rio prevê ligar a Estação de São Cristóvão à Central do Brasil, mudar a sinalização e adquirir dezoito novos trens, com seis carros cada um, a um custo de 750 milhões de reais. "Em quatro anos dobraríamos o número de passageiros", estima Flores. Há obras já licitadas, mas que devem demorar a sair do papel pelo alto custo de execução. É o caso do metrô de Botafogo para a Barra, a Linha 4, que desafogaria a auto-estrada Lagoa–Barra e a Rua Mário Ribeiro, com um investimento calculado em 2 bilhões de reais. Projetada para 50 000 veículos, a auto-estrada já recebe 115 000 carros por dia. Na Mário Ribeiro, nos horários de pico, a velocidade média dos automóveis é de 14 quilômetros por hora. A Linha 3, que ligaria a Praça Quinze a São Gonçalo, sob as águas da Baía de Guanabara, custaria 1,8 bilhão de reais. Fora a linha terrestre, em Niterói, orçada em mais 1,2 bilhão. É caro, mas nenhuma metrópole consegue ter um bom sistema de transporte sem uma eficiente rede de metrô.


4 ­ Modernizar o controle de tráfego

Metade dos 2 200 sinais de trânsito do Rio é programada do alto de um edifício, no Centro da cidade. Implantado em 1996, o Controle de Tráfego por Área (CTA) permite à CET Rio acompanhar o que se passa nos cruzamentos mais concorridos do Centro e da Zona Sul, graças a 93 câmeras e computadores que transmitem imagens e informações do local diretamente para a central. "Daqui aumentamos ou diminuímos o tempo de abertura dos sinais, acionamos equipes de socorro, observamos a circulação e fazemos reparos a distância", diz a gerente de controle de tráfego Adriana de Castro Martins Ferreira. O ideal seria automatizar toda a cidade, embora um único sinal de trânsito inteligente custe de 40 000 a 100 000 reais. Seria mais fácil modernizar os computadores do CTA, com um investimento de 3 milhões de reais.

Fotos André Nazareth/Strana
Controle de tráfego por área (à esq.): esquinas monitoradas 24 horas para evitar problemas como o de carros velhos que enguiçam


5 ­ Fazer campanhas educativas

Há duas maneiras de disciplinar o motorista: punir ou educar. "Educar dá mais trabalho, mas o resultado é mais eficaz", explica Grace Monteiro, coordenadora de educação para o trânsito do Detran do Rio. É preciso saber falar ao motorista. Campanhas em tom professoral não sensibilizam os cariocas. "O motorista aqui é irreverente, por isso apelamos para o humor", diz Grace. Durante o Pan, por exemplo, serão usados slogans como: "Eles podem cortar pela direita. Você, não. Respeite as regras do trânsito". A idéia é ter a campanha em outdoors, jornais e no metrô. A verba para os programas de educação vem das multas – neste ano, estão previstos 2 milhões de reais para o estado. Para colocar uma campanha publicitária na rua – que pode custar até 10 milhões de reais –, o caminho é buscar parceiros na iniciativa privada.


6 ­ Criar corredores expressos

Opção mais barata e rápida do que a Linha 6 do metrô, que ligaria a Barra à Ilha do Governador, o corredor T5 é um dos muitos projetos pensados para o Pan que não saíram em tempo do papel. Parecido com os corredores de ônibus de Curitiba, com ares de metrô de superfície, o T5 pode reduzir à metade o tempo de viagem entre a Penha e a Barra, que hoje dura cerca de uma hora e meia. O projeto original previa que os passageiros – até 380 000 por dia – usariam ônibus articulados ao longo de 28 quilômetros e 36 estações. Diante do interesse de uma empresa que opera um monorail em Kuala Lumpur, na Malásia, o projeto mudou para aceitar também veículos sobre trilhos. A licitação deve ser realizada no segundo semestre deste ano.

André Nazareth/Strana
Cruzamento fechado no Jardim Botânico: festival de infrações


7 ­ Multar mais

A van fecha o cruzamento, o ônibus avança o sinal, o táxi corta a pista e o motorista pára em fila dupla para o filho descer na porta da escola. "Há uma indisciplina cada vez maior no trânsito, provocando congestionamentos e acidentes", afirma Amaranto Lopes Pereira, professor do Programa de Engenharia de Transportes na UFRJ. A maneira mais eficaz de corrigir os motoristas – como se faz no mundo inteiro – é multar. Desde 1998, quando assumiu a função de punir os infratores, a Prefeitura do Rio emitiu mais de 7 milhões de multas de trânsito – que renderam 60 milhões de reais por ano aos cofres municipais. Para o trabalho, conta com 700 guardas e 126 pardais, lombadas eletrônicas e radares. Mesmo assim, as infrações mais cometidas são excesso de velocidade e avanço de sinal.


8 ­ Regulamentar o transporte alternativo

Oficialmente, elas são cerca de 6 000, mas estima-se que para cada van ou kombi cadastrada haja três piratas. Ou seja, seriam 24 000 veículos que, na última década, tomaram o Rio de assalto, transformaram as ruas em praça de guerra e ajudaram a aumentar os congestionamentos. "Quando competem com os ônibus, as kombis e vans agravam as condições do trânsito", diz o professor de engenharia de Transportes José de Oliveira Guerra, da Universidade do Estado do Rio. Os acidentes são freqüentes: elas cortam outros veículos, param em qualquer lugar, correm feito loucas. É consenso entre os especialistas que os meios de transporte não devem competir: as vans podem ser boa opção em vias secundárias ou bairros de difícil acesso, como Santa Teresa.

André Nazareth/Strana
Cena rotineira: fila dupla na porta da escola


9 ­ Integrar os meios de transporte

É fundamental planejar os meios de transporte de maneira integrada para disciplinar as ruas. Hoje, os ônibus concorrem entre si, as vans disputam com as barcas e há excesso de ônibus e táxis. Uma bagunça. Em 1997, havia 19 000 táxis no Rio. Hoje, são quase 30 000. Quanto aos ônibus, o projeto Rio Bus, elaborado pelo professor Paulo Cezar Ribeiro, prometia tirar de circulação metade das 600 linhas municipais e redefinir o trajeto de outras tantas, além de renovar a frota. Ficou engavetado. "Integrar e racionalizar o uso de meios de transporte é um trabalho de pesquisa e planejamento, que não custa mais de 1 milhão de reais", avalia o engenheiro Fernando Mac Dowell, especialista em trânsito.


10 ­ Restringir a circulação de veículos

O secretário municipal de Transportes, Arolde de Oliveira, torce o nariz para a idéia. Restringir a circulação de carros, ele sabe, é uma medida impopular. Mas às vezes inevitável. Londres, por exemplo, tem um sistema de transporte de massa invejável, mas precisou cobrar pedágio de quem insiste em ir de carro para o centro – 7,50 libras (29 reais). Com isso retirou mais de 60 000 carros das ruas por dia. Em 1997, São Paulo iniciou o rodízio municipal. Cada carro não pode circular nos horários de pico um dia por semana. A medida tirou das ruas 20% dos veículos, mas com o crescimento da frota os congestionamentos tornaram-se iguais aos de dez anos atrás. Ainda assim, São Paulo pararia se o rodízio acabasse. É uma opção que o Rio precisa ao menos estudar.

Fotos André Nazareth/Strana
Tolerância zero com infratores: mais multas
Regulamentar vans: desafio para autoridades

         
     

 

 
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