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21 de setembro de 2005

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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Enfim, uma mulher de sorte

Tutty Vasques


Parece personagem de conto de fadas: era uma vez, em 2005, uma brasileira otimista, de bem com a vida, consciente da própria sorte, animada com o trabalho, em paz com seus 46 anos, moderna, madura, feliz com o namorado novo e, ainda por cima, orgulhosa do ex-marido. Mulher assim como Yamê Reis, francamente, está em falta no mercado. Ultimamente, ela tem circulado muito mais no exclusivo mundo fashion do que nas paradas que a lançaram figurinista cult de quase todos os balés de Deborah Colker; de Regina Casé em Nardja Zulpério; da dupla Pedro Cardoso e Luís Fernando Guimarães na TV; da parceria Gerald e Daniela Thomas em ópera de Philip Glass; do encontro de Gabi e Gianecchini no teatro; de shows de Benjor, Marina, Marisa, Barão, Kid Abelha, Chico Science... Nos últimos dois anos, desde que foi trabalhar com Heloísa Simão na organização do Fashion Rio – evento em permanente turnê pelo país –, Yamê tem sido coordenadora de moda full time. Acho uma chatice, mas ela está gostando da experiência. Emprego fixo nunca foi seu forte. "Procuro agora coisas mais estáveis." Achou um bom apartamento para morar na encosta da Lagoa e, seis anos após o fim de um casamento que durou dezesseis, parece imune a qualquer rancor colateral à separação. Yamê mantém cinco fotos de Fernando Gabeira, pai de suas duas filhas, expostas na sala de casa.

Na primeira vez em que ele a viu, em 1983, deve ter balbuciado para alguém do lado algo como "o que é isso, companheiro?". Yamê era uma coisa. Tinha 22 anos, morava desde os 19 com amigos, iniciava pós-graduação em sociologia na PUC, cursava arte com Roberto Magalhães no Parque Lage e, assim como a honey baby da canção, não precisava de muito dinheiro, graças a Deus! Descolava algum cozinhando com a amiga e atriz Juliana Prado no restaurante natural Caminho da Roça, último resquício da cultura hippie no Leblon. Não fora criada para isso. Filha de mãe socióloga e pianista, "me preparei para ser uma feminista intelectual". Chegou a rato de biblioteca e, nas horas vagas de musa, namorava o presidente do DCE da PUC, Aloysio Henrique, na época em que o movimento pela anistia reacendeu a todo o gás a política estudantil no Rio. Ou seja, Yamê já era um acontecimento sob os pilotis do campus quando conheceu Fernando Gabeira na crista da onda de O Crepúsculo do Macho, seu segundo livro pós-exílio. "Tive a intuição de que era o homem de minha vida."

Não tem do que reclamar da vida que teve. Nascida casualmente em São Paulo por força do emprego do pai engenheiro, Yamê voltou com a família para o Rio aos 2 anos de idade. "Sou totalmente carioca." Passou sua primeira infância subindo em pé de tamarindo nas ruas do Grajaú antes de virar garota de Ipanema. Aprendeu a andar de bicicleta na Praça Nossa Senhora da Paz e a nadar no trecho de praia próximo à Joana Angélica, onde foi morar aos 8 anos. "Sou formada em Ipanema." A pós-graduação em sociologia precisou ser interrompida para o parto de Tâmi, sua primeira filha. "Soube que estava grávida um mês depois de conhecer o Fernando." Surpresa maior ouviu ao dar a notícia ao companheiro dezoito anos mais velho: "Ótimo! Se você não quiser o bebê, me dá porque eu estou louco para ter um filho".

Yamê, amarradona, mudou-se logo para o apê dele. "Minha intuição e meu temperamento de ariana me atiram sempre no imprevisível." Considera-se uma mulher de sorte por ter errado pouco nas escolhas que fez. Quando decidiu ir atrás de "algo mais alegre que a sociologia" para ganhar a vida, um anúncio de jornal ("Procura-se estilista com ou sem experiência") abriu-lhe as portas da moda. Oito meses depois já desenhava roupas para o Cantão. "Tive muitas oportunidades e soube superar o medo de enfrentar desafios." Assumiu riscos como o de dispensar a Globo depois de sua primeira novela, Estrela Guia. "Deu pra mim." Virou referência de profissional ousada e inquieta em tudo o que faz. Hoje, não está nem aí para esse papo de modernidade. "Não sei mais o que é ser moderno." Desconfia que possa ser qualidade de quem não ostenta riqueza, cultiva valores espirituais e humanísticos, está ligado na agonia dos recursos naturais... Não é candidata a nada!

Faz votos apenas que outubro chegue logo para rever Maya, a filha caçula que volta de uma temporada de um ano no circuito mundial de surfe. Havaí, Austrália e, contra a vontade dos pais, a danada esperou fazer 18 anos para pisar na Indonésia, onde vive há quase seis meses. "Dia desses, ela quebrou a cabeça pegando onda e foi costurada ali mesmo na praia." Toda vez que fica apavorada com Maya, Yamê percebe que a menina agiu certo ao sair de casa para morar com o pai aos 14 anos. "Sofri muito com a decisão dela, mas entendi que a convivência seria boa para os dois." Abre exceção para um cigarrinho vespertino, "normalmente só fumo à noite". Teme que a geração das filhas (Tâmi, 22 anos, mora com a mãe e estuda psicologia) não tenha mais nenhuma esperança de mudar o mundo depois desse festival de corrupção em plena era Lula. "É muito triste."

Não costuma dar mole ao baixo-astral. "Penso sempre em coisas boas, em tudo o que conquistei, sou agradecida por isso." Acha fundamental que cada um arrume uma filosofia de vida para escapar ao cerco da infelicidade. "Sinto-me livre para querer o que posso ter", espanta a frustração com o inalcançável. Está convencida de que vai dar tudo certo. "É uma condição para a humanidade, não tem outro jeito." Pense nisso!

 

E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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