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CRÔNICA
Enfim, uma mulher de sorte Tutty
Vasques
Parece
personagem de conto de fadas: era uma vez, em 2005, uma brasileira otimista, de
bem com a vida, consciente da própria sorte, animada com o trabalho, em
paz com seus 46 anos, moderna, madura, feliz com o namorado novo e, ainda por
cima, orgulhosa do ex-marido. Mulher assim como Yamê Reis, francamente,
está em falta no mercado. Ultimamente, ela tem circulado muito mais no
exclusivo mundo fashion do que nas paradas que a lançaram figurinista cult
de quase todos os balés de Deborah Colker; de Regina Casé em Nardja
Zulpério; da dupla Pedro Cardoso e Luís Fernando Guimarães
na TV; da parceria Gerald e Daniela Thomas em ópera de Philip Glass; do
encontro de Gabi e Gianecchini no teatro; de shows de Benjor, Marina, Marisa,
Barão, Kid Abelha, Chico Science... Nos últimos dois anos, desde
que foi trabalhar com Heloísa Simão na organização
do Fashion Rio evento em permanente turnê pelo país ,
Yamê tem sido coordenadora de moda full time. Acho uma chatice, mas ela
está gostando da experiência. Emprego fixo nunca foi seu forte. "Procuro
agora coisas mais estáveis." Achou um bom apartamento para morar na encosta
da Lagoa e, seis anos após o fim de um casamento que durou dezesseis, parece
imune a qualquer rancor colateral à separação. Yamê
mantém cinco fotos de Fernando Gabeira, pai de suas duas filhas, expostas
na sala de casa. Na
primeira vez em que ele a viu, em 1983, deve ter balbuciado para alguém
do lado algo como "o que é isso, companheiro?". Yamê era uma coisa.
Tinha 22 anos, morava desde os 19 com amigos, iniciava pós-graduação
em sociologia na PUC, cursava arte com Roberto Magalhães no Parque Lage
e, assim como a honey baby da canção, não precisava de muito
dinheiro, graças a Deus! Descolava algum cozinhando com a amiga e atriz
Juliana Prado no restaurante natural Caminho da Roça, último resquício
da cultura hippie no Leblon. Não fora criada para isso. Filha de mãe
socióloga e pianista, "me preparei para ser uma feminista intelectual".
Chegou a rato de biblioteca e, nas horas vagas de musa, namorava o presidente
do DCE da PUC, Aloysio Henrique, na época em que o movimento pela anistia
reacendeu a todo o gás a política estudantil no Rio. Ou seja, Yamê
já era um acontecimento sob os pilotis do campus quando conheceu Fernando
Gabeira na crista da onda de O Crepúsculo do Macho, seu segundo
livro pós-exílio. "Tive a intuição de que era o homem
de minha vida." Não
tem do que reclamar da vida que teve. Nascida casualmente em São Paulo
por força do emprego do pai engenheiro, Yamê voltou com a família
para o Rio aos 2 anos de idade. "Sou totalmente carioca." Passou sua primeira
infância subindo em pé de tamarindo nas ruas do Grajaú antes
de virar garota de Ipanema. Aprendeu a andar de bicicleta na Praça Nossa
Senhora da Paz e a nadar no trecho de praia próximo à Joana Angélica,
onde foi morar aos 8 anos. "Sou formada em Ipanema." A pós-graduação
em sociologia precisou ser interrompida para o parto de Tâmi, sua primeira
filha. "Soube que estava grávida um mês depois de conhecer o Fernando."
Surpresa maior ouviu ao dar a notícia ao companheiro dezoito anos mais
velho: "Ótimo! Se você não quiser o bebê, me dá
porque eu estou louco para ter um filho". Yamê,
amarradona, mudou-se logo para o apê dele. "Minha intuição
e meu temperamento de ariana me atiram sempre no imprevisível." Considera-se
uma mulher de sorte por ter errado pouco nas escolhas que fez. Quando decidiu
ir atrás de "algo mais alegre que a sociologia" para ganhar a vida, um
anúncio de jornal ("Procura-se estilista com ou sem experiência")
abriu-lhe as portas da moda. Oito meses depois já desenhava roupas para
o Cantão. "Tive muitas oportunidades e soube superar o medo de enfrentar
desafios." Assumiu riscos como o de dispensar a Globo depois de sua primeira novela,
Estrela Guia. "Deu pra mim." Virou referência de profissional ousada
e inquieta em tudo o que faz. Hoje, não está nem aí para
esse papo de modernidade. "Não sei mais o que é ser moderno." Desconfia
que possa ser qualidade de quem não ostenta riqueza, cultiva valores espirituais
e humanísticos, está ligado na agonia dos recursos naturais... Não
é candidata a nada! Faz
votos apenas que outubro chegue logo para rever Maya, a filha caçula que
volta de uma temporada de um ano no circuito mundial de surfe. Havaí, Austrália
e, contra a vontade dos pais, a danada esperou fazer 18 anos para pisar na Indonésia,
onde vive há quase seis meses. "Dia desses, ela quebrou a cabeça
pegando onda e foi costurada ali mesmo na praia." Toda vez que fica apavorada
com Maya, Yamê percebe que a menina agiu certo ao sair de casa para morar
com o pai aos 14 anos. "Sofri muito com a decisão dela, mas entendi que
a convivência seria boa para os dois." Abre exceção para um
cigarrinho vespertino, "normalmente só fumo à noite". Teme que a
geração das filhas (Tâmi, 22 anos, mora com a mãe e
estuda psicologia) não tenha mais nenhuma esperança de mudar o mundo
depois desse festival de corrupção em plena era Lula. "É
muito triste." Não
costuma dar mole ao baixo-astral. "Penso sempre em coisas boas, em tudo o que
conquistei, sou agradecida por isso." Acha fundamental que cada um arrume uma
filosofia de vida para escapar ao cerco da infelicidade. "Sinto-me livre para
querer o que posso ter", espanta a frustração com o inalcançável.
Está convencida de que vai dar tudo certo. "É uma condição
para a humanidade, não tem outro jeito." Pense nisso! E-mails
para o cronista:
tutty@nominimo.com.br |