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21 de setembro de 2005

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Paraíso perdido

Uma biografia para a Baía de Guanabara

Pedro Tinoco

 
Fotos Divulgação
Cartão-postal: o Rio, visto da baía, continua lindo

 
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Eliane Canedo de Freitas Pinheiro é arquiteta, com pós-graduação em ecologia e planejamento ambiental obtida no Institute for Housing Studies and Urban Development, em Roterdã, na Holanda. Carioca apaixonada pela cidade, dedicou a formação acadêmica e muito trabalho, por mais de dez anos, a projetos para a preservação da Baía de Guanabara. Viu o sonho chegar perto quando, como funcionária da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), participou da costura de um grande programa de despoluição da baía, gestado em 1990, anunciado durante a Rio 92 e assinado em 1994. A idéia era, em três etapas bem definidas de cinco anos cada uma, reconciliar o histórico cartão-postal da cidade com a natureza. A arquiteta deixou a Feema em 2002, frustrada, e o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG) continua taxiando, à espera de sabe-se lá o que para decolar. Nesta semana, Eliane Canedo faz a justiça possível à paisagem que tentou defender: lança, na terça (20), com festa no Iate Clube, o livro de arte Baía de Guanabara – Biografia de uma Paisagem (Editora Andrea Jakobsson Estúdio, R$ 120,00).

 
Degradação: despejo de 15 000 litros de esgoto por segundo

Em 272 páginas, a autora ensina sem enfadar o leitor. Começa por descrever a região há milhares de anos. E logo esclarece por que voltou tanto no tempo: o desenho original do paleorrio da Guanabara, o descomunal tronco principal da antiga rede fluvial daquela área, ainda existe ao longo da parte mais profunda da baía. A lição de história passa, em um capítulo especialmente saboroso, pelos primeiros contatos do homem branco com aquela terra selvagem habitada por índios tamoios. Traz detalhes da expedição do francês Villegagnon, que desembarcou por aqui em 1555, e da encarniçada batalha entre franceses e portugueses travada dez anos depois. Entre outras curiosidades, resgata a menção do viajante francês Jean de Léry a uma certa tribo kariok, da Praia de Uruçumirim, atual Praia do Flamengo. E apresenta um personagem pitoresco, nobre francês, náufrago, "um estranho eremita que vivia recluso numa grota escondida no meio da pequena floresta onde hoje fica o bairro da Urca, cercado de livros, objetos pilhados em destroços de navios e morcegos".

 
Área de proteção ambiental de Guapimirim: oásis ecológico

Para contar a história da baía, Eliane Canedo conta a história do Rio de Janeiro, dos primórdios até os dias de hoje. "Se alguém jogar uma moeda num rio lá na Serra dos Órgãos, em Teresópolis, essa moeda pode vir parar na baía. O livro não extrapola os limites da baía, esses limites é que são muito extensos", explica. Ao escolher as imagens que acompanham o texto, a arquiteta buscou gravuras, desenhos, mapas e fotografias com algum grau de ineditismo. Há fotos históricas de uma cidade que não existe mais, mas as imagens que mais surpreendem são as da baía limpa que ainda existe: revelam o verde exuberante e os rios com o belo traçado preservado na área de proteção ambiental de Guapimirim. A ocupação desordenada e a poluição que sempre a acompanha também estão lá – afinal, lembra a autora, a ação predatória começou com a chegada dos colonizadores e não parou mais. O mais recente vazamento de óleo, 14.000 litros que emporcalharam praias de Niterói no último dia 3, não aconteceu a tempo de entrar na primeira edição do livro. A Baía de Guanabara recebe 15.000 litros de esgoto por segundo, o equivalente a 685 piscinas olímpicas por dia. "Quem contribuiu para a degradação no passado tinha a desculpa do desconhecimento. Errar hoje é imperdoável", diz a autora.

     
  
   

 

 
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