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REPORTAGEM DE CAPA
O bem-amado Lázaro
Ramos saboreia o sucesso nas telas sem deslumbramento Telma
Alvarenga Lucas
Barreto/Ag. Pressphoto/Divulgação
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Ramos vai desfilar seu talento no Festival do Rio: em Cafundó, com
Leona Cavalli (à esq.), e em Cidade Baixa, dirigido por Sérgio
Machado, com Alice Braga e Wagner Moura
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A
disputa por Lázaro Ramos já ganhou tom de brincadeira nos corredores
da Rede Globo. "Quem vai ficar com Lázaro?", perguntavam-se autores e diretores
durante o encontro anual em que discutem novos projetos da emissora. Por todos
os longas-metragens em que esse baiano de 26 anos já atuou, fica fácil
deduzir que, antes mesmo de conquistar a TV, já era um dos mais requisitados
atores da nova safra do cinema nacional. São, no mínimo, doze. Quantos
exatamente, ele não sabe. "Não conto, para não deixar de
acontecer", diz. A superstição tem dado certo. Lázaro está
em quatro filmes que serão exibidos no Festival do Rio a partir de quinta-feira
(22): os longas A Máquina, Cidade Baixa e Cafundó
e o curta Desejo. Em junho, terminou de filmar sua primeira produção
internacional como protagonista, O Cobrador, do mexicano Paul Leduc. Na
Globo, apresenta o quadro Os Cinco Sentidos, do Fantástico,
enquanto estuda propostas. Quem já ficou com Lázaro quer mais. "Ele
é o sonho de qualquer diretor", derrama-se o baiano Sérgio Machado,
de Cidade Baixa. Foi Machado quem indicou Lázaro para Madame
Satã, em 2002. Co-roteirista do filme, não se arrependeu. "Aquela
atuação é um marco." Lázaro sobressai mesmo em longas
fracos, como Cafundó, de Paulo Betti e Clóvis Bueno, pelo
qual ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Gramado. Na fita, Lázaro
vive o líder espiritual João de Camargo, dos 20 aos 82 anos.
Luís
Lázaro Sacramento Ramos passeia pelas ladeiras de Santa Teresa, onde mora,
colhendo os elogios com a simplicidade do menino criado numa família de
classe média baixa, em Salvador, e a sabedoria de quem já batalhou
muito na vida. Jamais tira os pés, protegidos numa confortável sandália
de couro, do chão. Não há sinal de deslumbramento. "Fico
orgulhoso para caramba", diz. "Mas, ao mesmo tempo, a prudência vem mais
forte. Quero fazer tudo com calma, consciência e dedicação
para manter a qualidade do meu trabalho. Meu investimento é no futuro,
quero ser ator para o resto da vida." Lázaro começou a fazer teatro
na escola, com 10 anos. Mais tarde, dividiu a paixão com o curso de técnico
em patologia. Com 15 anos, entrou para o Bando de Teatro Olodum, só de
atores negros, e começou a trabalhar no laboratório de um hospital.
Precisava ajudar a mãe, empregada doméstica, que estava doente.
"Era
uma doença rara, em que a pessoa perde o líquido da coluna", conta.
Lázaro se emociona quando fala de dona Célia Maria, morta há
seis anos. "Uma pessoa especial. Perdeu a capacidade de andar, foi definhando,
e nunca teve mau humor, não reclamava, estava sempre sorrindo. O maior
patrimônio que me deixou foi essa força, essa alegria diante da vida",
diz, olhos marejados. Como seus pais nunca moraram juntos, Lázaro alternava-se
entre a casa dos dois. Fala com o mesmo orgulho do pai, o operador de máquinas
aposentado Ivan Francisco Ramos, 50 anos. "É meu herói. Conseguiu
me dar uma boa qualidade de vida, de ensino, na batalha, na honestidade. Sempre
foi reto, honrado", comenta. Também era muito rígido. "Quando viu
que o serviço estava bem-feito, relaxou", ri. Hoje, Ivan é o maior
fã do filho. "Ele anda com uma foto minha no pára-brisa do carro",
conta Lázaro. "Tenho uma na carteira também", rebate o pai, tiete
assumido. Em 2000, Ivan pegou um avião para ver a estréia de A
Máquina, no Recife. Fez o mesmo quando Mamãe Não Pode
Saber estreou no Rio, em 2002. Apareceu de surpresa. "Lázaro me mandou
um convite de brincadeira, achando que eu não ia", diverte-se.
Ivan não perde
o quadro do Fantástico. E, certamente, vai ficar orgulhoso quando,
no último programa da série, dia 2 de outubro, vir o filho em cenas
gravadas na Nasa, na Flórida. Ivan faz questão de acompanhar de
perto a carreira do primogênito. Confessa que, no início, ficou ressabiado.
"Minha preocupação era em relação à insegurança
financeira e à discriminação que, infelizmente, existe em
relação ao ator negro no Brasil", diz. "Mas o país está
mudando." Lázaro concorda. Embora considere que as mudanças acontecem
em ritmo lento. "A gente vive num país em que quem cozinha no Sítio
do Picapau Amarelo é a Tia Anastácia e o nome do biscoito é
Dona Benta", observa. Com tantos protagonistas no currículo e papéis
diversificados, ele se considera privilegiado. "Mas acho muito pouco ter um Lázaro
só. Meu sonho é ter 500 Lázaros, que é o justo, é
o bacana." Engajado,
ele mantém o sonho de "mudar o mundo com o teatro", acalentado desde que
entrou para o Bando de Teatro Olodum. Aliás, não se considera fora
do grupo. "Estou emprestado ao mundo." Quem primeiro o tomou emprestado foi João
Falcão, para fazer A Máquina. Lázaro foi apresentado
ao diretor pelo amigo Wagner Moura. Falcão encantou-se quando viu uma fita
da peça Dom Quixote, em que Lázaro fazia Sancho Pança.
"Ele tem um carisma impressionante e vai da comédia à tragédia
com desenvoltura, pode fazer qualquer coisa. E escolhe muito bem os trabalhos.
Não tem aquela coisa de querer ser famoso de qualquer maneira", avalia.
O sucesso de A Máquina alavancou a carreira dos talentosos jovens
baianos Lázaro, Wagner e Vladimir Brichta. Falcão voltou a reunir
os três para participações especiais no filme A Máquina.
Antes, havia trabalhado com Lázaro e Vladimir na peça Mamãe
Não Pode Saber e com Lázaro e Wagner no humorístico Sexo
Frágil, da TV Globo. Lázaro
brinca dizendo que já anda pensando em ir ao cartório para registrar
Wagner Moura como seu irmão. Eles também estão juntos em
Cidade Baixa, história de dois grandes amigos que se apaixonam por
uma prostituta (vivida pela atriz Alice Braga). Foi uma declaração
de amor que Lázaro fez, em sua festa de aniversário, a Wagner que
deu o clique para o diretor Sérgio Machado convidar Moura para o projeto.
"Os dois se abraçaram, choraram. Voltei para casa com aquilo na cabeça",
diz. "São dois dos mais interessantes atores de sua geração,
baianos, os melhores amigos. Era óbvio que tinha de ser eles." A cumplicidade
entre os dois salta da tela. Foi fácil, por exemplo, fazer a cena em que
Deco (Lázaro) e Naldinho (Wagner), bebendo cerveja num boteco,
falam da imensa amizade que os une. Complicado foi fazer as cenas de briga. Prevendo
dificuldades, a preparadora de elenco Fátima Toledo propôs um exercício
chamado "valsa". Eles começariam dançando juntos e, quando a música
parasse, começariam a se agredir. "A gente não conseguiu", conta
Lázaro. Acabaram
vencendo o bloqueio. "Sinto que tenho uma ligação espiritual com
o Lázaro, é meu irmão mesmo. A gente se ama", diz Wagner.
A ligação que nasceu em Salvador ficou mais intensa quando vieram
para o Rio, com a peça A Máquina, e decidiram ficar. No início,
Lázaro morou num apartamento, pago pela produção, na Lagoa.
"Entrava no elevador, dava 'bom-dia' e a pessoa olhava para o lado", conta. "Pensava:
'será que estou fedendo?'", diz e cai na gargalhada. Aprendeu a ser menos
caloroso. "Na Bahia, gostamos muito de gente, de abraçar, beijar. Quando
cheguei aqui, dava três beijos e um abraço. Fui recuando. Hoje, dou
só dois beijos ou um aperto de mão." Kadu
di Calafiori
 | | Lázaro
e a bela Taís Araújo: namoro superdiscreto
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Em
busca de um bairro com "mais calor humano", acabou parando em Santa Teresa, onde
comprou apartamento. Ele gosta do Rio. "Claro que a violência me assusta,
mas é uma cidade agradável, eu me sinto bem aqui", diz. Não
costuma ir à praia. Como bom baiano, acha o mar muito gelado. Curte mesmo
os bares da Lapa e descobrir restaurantes novos pela cidade. "Gosto de comer",
abre um sorriso. Ele sabe cozinhar. Faz moqueca, caruru e está aprendendo
a fazer feijão. "Já fiz três vezes e deu certo", comemora.
Mantém a forma com aulas de dança contemporânea na academia
de Débora Colker. Há um ano, namora a bela atriz Taís Araújo.
Mas não gosta de falar da relação. "Amo a Taís, ela
me completa. Mas acho que esse universo das celebridades tem um grande perigo
que é o de a vida virar uma novela. Não curto. Se fico fazendo personagem
o tempo todo, nos filmes, nas peças e na vida, o que sobra?"
Taís também
é reticente. Só se solta na hora de elogiar o talento do amado.
"Ele é um gênio, é luxo só", diz. Os dois têm
projetos profissionais juntos, mas disso não falam. Lázaro planeja
produzir uma peça e dirigir um filme. Já está, inclusive,
começando a escrever o roteiro. "Quem sabe em 2010", desconversa. Até
lá, uma coisa é certa: trabalho não vai faltar. João
já anda matutando um novo projeto com ele e Wagner Moura. "Queria juntá-los
numa dupla, fazendo uma comédia contemporânea", diz. "Não
vejo a hora de trabalhar com ele de novo", suspira Sérgio Machado. Vai
ter de entrar na fila.
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