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21 de setembro de 2005

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REPORTAGEM DE CAPA

O bem-amado

Lázaro Ramos saboreia o sucesso nas telas sem deslumbramento

Telma Alvarenga

 
Lucas Barreto/Ag. Pressphoto/Divulgação
Lázaro Ramos vai desfilar seu talento no Festival do Rio: em Cafundó, com Leona Cavalli (à esq.), e em Cidade Baixa, dirigido por Sérgio Machado, com Alice Braga e Wagner Moura

A disputa por Lázaro Ramos já ganhou tom de brincadeira nos corredores da Rede Globo. "Quem vai ficar com Lázaro?", perguntavam-se autores e diretores durante o encontro anual em que discutem novos projetos da emissora. Por todos os longas-metragens em que esse baiano de 26 anos já atuou, fica fácil deduzir que, antes mesmo de conquistar a TV, já era um dos mais requisitados atores da nova safra do cinema nacional. São, no mínimo, doze. Quantos exatamente, ele não sabe. "Não conto, para não deixar de acontecer", diz. A superstição tem dado certo. Lázaro está em quatro filmes que serão exibidos no Festival do Rio a partir de quinta-feira (22): os longas A Máquina, Cidade Baixa e Cafundó e o curta Desejo. Em junho, terminou de filmar sua primeira produção internacional como protagonista, O Cobrador, do mexicano Paul Leduc. Na Globo, apresenta o quadro Os Cinco Sentidos, do Fantástico, enquanto estuda propostas. Quem já ficou com Lázaro quer mais. "Ele é o sonho de qualquer diretor", derrama-se o baiano Sérgio Machado, de Cidade Baixa. Foi Machado quem indicou Lázaro para Madame Satã, em 2002. Co-roteirista do filme, não se arrependeu. "Aquela atuação é um marco." Lázaro sobressai mesmo em longas fracos, como Cafundó, de Paulo Betti e Clóvis Bueno, pelo qual ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Gramado. Na fita, Lázaro vive o líder espiritual João de Camargo, dos 20 aos 82 anos.

Luís Lázaro Sacramento Ramos passeia pelas ladeiras de Santa Teresa, onde mora, colhendo os elogios com a simplicidade do menino criado numa família de classe média baixa, em Salvador, e a sabedoria de quem já batalhou muito na vida. Jamais tira os pés, protegidos numa confortável sandália de couro, do chão. Não há sinal de deslumbramento. "Fico orgulhoso para caramba", diz. "Mas, ao mesmo tempo, a prudência vem mais forte. Quero fazer tudo com calma, consciência e dedicação para manter a qualidade do meu trabalho. Meu investimento é no futuro, quero ser ator para o resto da vida." Lázaro começou a fazer teatro na escola, com 10 anos. Mais tarde, dividiu a paixão com o curso de técnico em patologia. Com 15 anos, entrou para o Bando de Teatro Olodum, só de atores negros, e começou a trabalhar no laboratório de um hospital. Precisava ajudar a mãe, empregada doméstica, que estava doente.

"Era uma doença rara, em que a pessoa perde o líquido da coluna", conta. Lázaro se emociona quando fala de dona Célia Maria, morta há seis anos. "Uma pessoa especial. Perdeu a capacidade de andar, foi definhando, e nunca teve mau humor, não reclamava, estava sempre sorrindo. O maior patrimônio que me deixou foi essa força, essa alegria diante da vida", diz, olhos marejados. Como seus pais nunca moraram juntos, Lázaro alternava-se entre a casa dos dois. Fala com o mesmo orgulho do pai, o operador de máquinas aposentado Ivan Francisco Ramos, 50 anos. "É meu herói. Conseguiu me dar uma boa qualidade de vida, de ensino, na batalha, na honestidade. Sempre foi reto, honrado", comenta. Também era muito rígido. "Quando viu que o serviço estava bem-feito, relaxou", ri. Hoje, Ivan é o maior fã do filho. "Ele anda com uma foto minha no pára-brisa do carro", conta Lázaro. "Tenho uma na carteira também", rebate o pai, tiete assumido. Em 2000, Ivan pegou um avião para ver a estréia de A Máquina, no Recife. Fez o mesmo quando Mamãe Não Pode Saber estreou no Rio, em 2002. Apareceu de surpresa. "Lázaro me mandou um convite de brincadeira, achando que eu não ia", diverte-se.

Ivan não perde o quadro do Fantástico. E, certamente, vai ficar orgulhoso quando, no último programa da série, dia 2 de outubro, vir o filho em cenas gravadas na Nasa, na Flórida. Ivan faz questão de acompanhar de perto a carreira do primogênito. Confessa que, no início, ficou ressabiado. "Minha preocupação era em relação à insegurança financeira e à discriminação que, infelizmente, existe em relação ao ator negro no Brasil", diz. "Mas o país está mudando." Lázaro concorda. Embora considere que as mudanças acontecem em ritmo lento. "A gente vive num país em que quem cozinha no Sítio do Picapau Amarelo é a Tia Anastácia e o nome do biscoito é Dona Benta", observa. Com tantos protagonistas no currículo e papéis diversificados, ele se considera privilegiado. "Mas acho muito pouco ter um Lázaro só. Meu sonho é ter 500 Lázaros, que é o justo, é o bacana."

Engajado, ele mantém o sonho de "mudar o mundo com o teatro", acalentado desde que entrou para o Bando de Teatro Olodum. Aliás, não se considera fora do grupo. "Estou emprestado ao mundo." Quem primeiro o tomou emprestado foi João Falcão, para fazer A Máquina. Lázaro foi apresentado ao diretor pelo amigo Wagner Moura. Falcão encantou-se quando viu uma fita da peça Dom Quixote, em que Lázaro fazia Sancho Pança. "Ele tem um carisma impressionante e vai da comédia à tragédia com desenvoltura, pode fazer qualquer coisa. E escolhe muito bem os trabalhos. Não tem aquela coisa de querer ser famoso de qualquer maneira", avalia. O sucesso de A Máquina alavancou a carreira dos talentosos jovens baianos Lázaro, Wagner e Vladimir Brichta. Falcão voltou a reunir os três para participações especiais no filme A Máquina. Antes, havia trabalhado com Lázaro e Vladimir na peça Mamãe Não Pode Saber e com Lázaro e Wagner no humorístico Sexo Frágil, da TV Globo.

Lázaro brinca dizendo que já anda pensando em ir ao cartório para registrar Wagner Moura como seu irmão. Eles também estão juntos em Cidade Baixa, história de dois grandes amigos que se apaixonam por uma prostituta (vivida pela atriz Alice Braga). Foi uma declaração de amor que Lázaro fez, em sua festa de aniversário, a Wagner que deu o clique para o diretor Sérgio Machado convidar Moura para o projeto. "Os dois se abraçaram, choraram. Voltei para casa com aquilo na cabeça", diz. "São dois dos mais interessantes atores de sua geração, baianos, os melhores amigos. Era óbvio que tinha de ser eles." A cumplicidade entre os dois salta da tela. Foi fácil, por exemplo, fazer a cena em que Deco (Lázaro) e Naldinho (Wagner), bebendo cerveja num boteco, falam da imensa amizade que os une. Complicado foi fazer as cenas de briga. Prevendo dificuldades, a preparadora de elenco Fátima Toledo propôs um exercício chamado "valsa". Eles começariam dançando juntos e, quando a música parasse, começariam a se agredir. "A gente não conseguiu", conta Lázaro.

Acabaram vencendo o bloqueio. "Sinto que tenho uma ligação espiritual com o Lázaro, é meu irmão mesmo. A gente se ama", diz Wagner. A ligação que nasceu em Salvador ficou mais intensa quando vieram para o Rio, com a peça A Máquina, e decidiram ficar. No início, Lázaro morou num apartamento, pago pela produção, na Lagoa. "Entrava no elevador, dava 'bom-dia' e a pessoa olhava para o lado", conta. "Pensava: 'será que estou fedendo?'", diz e cai na gargalhada. Aprendeu a ser menos caloroso. "Na Bahia, gostamos muito de gente, de abraçar, beijar. Quando cheguei aqui, dava três beijos e um abraço. Fui recuando. Hoje, dou só dois beijos ou um aperto de mão."

 
Kadu di Calafiori
Lázaro e a bela Taís Araújo: namoro superdiscreto

Em busca de um bairro com "mais calor humano", acabou parando em Santa Teresa, onde comprou apartamento. Ele gosta do Rio. "Claro que a violência me assusta, mas é uma cidade agradável, eu me sinto bem aqui", diz. Não costuma ir à praia. Como bom baiano, acha o mar muito gelado. Curte mesmo os bares da Lapa e descobrir restaurantes novos pela cidade. "Gosto de comer", abre um sorriso. Ele sabe cozinhar. Faz moqueca, caruru e está aprendendo a fazer feijão. "Já fiz três vezes e deu certo", comemora. Mantém a forma com aulas de dança contemporânea na academia de Débora Colker. Há um ano, namora a bela atriz Taís Araújo. Mas não gosta de falar da relação. "Amo a Taís, ela me completa. Mas acho que esse universo das celebridades tem um grande perigo que é o de a vida virar uma novela. Não curto. Se fico fazendo personagem o tempo todo, nos filmes, nas peças e na vida, o que sobra?"

Taís também é reticente. Só se solta na hora de elogiar o talento do amado. "Ele é um gênio, é luxo só", diz. Os dois têm projetos profissionais juntos, mas disso não falam. Lázaro planeja produzir uma peça e dirigir um filme. Já está, inclusive, começando a escrever o roteiro. "Quem sabe em 2010", desconversa. Até lá, uma coisa é certa: trabalho não vai faltar. João já anda matutando um novo projeto com ele e Wagner Moura. "Queria juntá-los numa dupla, fazendo uma comédia contemporânea", diz. "Não vejo a hora de trabalhar com ele de novo", suspira Sérgio Machado. Vai ter de entrar na fila.

 

A versatilidade de Lázaro no palco e na TV

Márcio de Souza/TV Globo
No Fantástico: descontração
Sérgio Lobo
Na peça A Máquina, ao lado de Vladimir Brichta e Wagner Moura: lirismo
Divulgação
Em Mamãe Não Pode Saber
Rede Globo/Divulgação
Com Lúcio Mauro Filho, em Sexo Frágil: humor


Talento disputado pelos cineastas

Fotos Divulgação
Em 2002, a impressionante atuação em Madame Satã: vários prêmios
Em 2003, no longa O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca
Com Luana Piovani, em O Homem que Copiava
Fox/Divulgação
Em Meu Tio Matou um Cara, com Darlan Cunha

     
  
   

 

 
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