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CRÔNICA
Um
dia de avó
Adriana
Falcão
A gente quer ir a Copacabana comprar a sapatilha da minha netinha
aqui, que vai...
Vovó!
Eu só ia explicar pro moço que você vai...
Não precisa. Você diz "Copacabana, moço", e
o moço leva a gente pra Copacabana.
Copacabana, moço.
Isso.
Pra gente comprar a sapatilha da minha netinha que vai fazer uma
apresentação de balé.
O moço não quer saber da minha apresentação
de balé.
Mas quando eu disser que você vai se apresentar com uma roupinha
de sereia, na primeira fila, eu tenho certeza de que ele vai querer
saber como é a roupinha de sereia e por que a professora
colocou você na primeira fila. Ela é de longe a mais
bonita, moço. E é a única que não sai
do ritmo. O senhor precisa ver como todas dançam no tempo
errado e só ela dança no tempo certo. No "e sete,
e oito", as outras sempre se perdem.
Ele está interessadíssimo nesse assunto, vó.
E olha que eu ainda nem contei o resto da coreografia.
Ele vai adorar. Na hora em que eu dou uma pirueta e caio em plié,
então, ele vai chorar de emoção.
Então o senhor é muito parecido comigo nesse ponto,
porque na hora em que ela dá uma pirueta e cai em plié
eu sempre choro de emoção.
Chega logo, Copacabana. Chega logo, Copacabana. Chega logo, Copacabana.
O senhor pode ir pela praia pra gente aproveitar um pouco mais o
passeio? Eu e o meu marido, avô dela, que Deus o tenha, quando
éramos namorados...
Vovó!
Eu só ia comentar que eu e o seu avô quando éramos
namorados vínhamos toda noite passear pela praia de mãos
dadas.
Ele não perguntou.
Claro que não. Ninguém pergunta "a senhora e o seu
marido, que Deus o tenha, por acaso costumavam passear pela praia
de mãos dadas quando eram namorados?".
Porque isso não interessa a ninguém.
Mas pode interessar ao moço. Interessa, moço?
É claro que ele vai dizer que interessa por gentileza. Ninguém
diz "não interessa, não, senhora" assim, na cara da
pessoa.
Já que interessa, eu vou contar. A gente era namorado e eu
morava bem ali, na rua de trás, isso antes de o tio Álvaro
resolver vender a casa pra investir na fábrica que faliu...
Vovó!
Calma que a fábrica já faliu e eu já vou voltar
pra história. Onde é que eu estava mesmo?
Num táxi, indo pra Copacabana.
Comprar a sapatilha da apresentação de balé.
Mas nesse tempo o tio Álvaro ainda não tinha vendido
a casa, e a gente ia andar na praia pra se distrair, porque o meu
marido, avô dela, que Deus o tenha, trabalhava muito, desde
cedo. Imagina você que o seu avô foi promovido a subgerente
quando...
...tinha 28 anos e com 35 já era gerente.
Trinta e quatro. Ele só ia completar os 35 em janeiro.
Ontem você disse 35 pro outro motorista de táxi.
Eu disse que quando ele tinha 35 recebeu o prêmio "Gerente
do ano", com menos de um ano no cargo. O senhor sabia que quando
o meu marido tinha 35...
...recebeu o prêmio "Gerente do ano". Ele já ouviu,
vó.
Com apenas um ano no cargo.
Ele era formidável.
Como é que você sabia que eu ia dizer isso?
Depois de "um ano no cargo" sempre vem "ele era formidável".
Depois vem "criou os filhos com tudo do bom e do melhor", depois
vem "a mais velha, inclusive, é professora de inglês",
depois vem "sem falar nos netos maravilhosos que ele me deixou",
depois vem "mas esta aqui foi a que mais puxou ao avô".
Não deixa ninguém falar.
E,
olhando a imagem das duas pelo retrovisor, seu Arildo, o motorista
do táxi, por algum motivo se lembrou da sua neta, da sua
filha, da sua mulher, da sua mãe, e da sua avó, que
Deus a tenha.
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