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21 de maio de 2003
REPORTAGEM DE CAPA
BEIRA-MAR
AS BOAS COMPRAS
CRÔNICA
   

CRÔNICA

Um dia de avó

Adriana Falcão

– A gente quer ir a Copacabana comprar a sapatilha da minha netinha aqui, que vai...

– Vovó!

– Eu só ia explicar pro moço que você vai...

– Não precisa. Você diz "Copacabana, moço", e o moço leva a gente pra Copacabana.

– Copacabana, moço.

– Isso.

– Pra gente comprar a sapatilha da minha netinha que vai fazer uma apresentação de balé.

– O moço não quer saber da minha apresentação de balé.

– Mas quando eu disser que você vai se apresentar com uma roupinha de sereia, na primeira fila, eu tenho certeza de que ele vai querer saber como é a roupinha de sereia e por que a professora colocou você na primeira fila. Ela é de longe a mais bonita, moço. E é a única que não sai do ritmo. O senhor precisa ver como todas dançam no tempo errado e só ela dança no tempo certo. No "e sete, e oito", as outras sempre se perdem.

– Ele está interessadíssimo nesse assunto, vó.

– E olha que eu ainda nem contei o resto da coreografia.

– Ele vai adorar. Na hora em que eu dou uma pirueta e caio em plié, então, ele vai chorar de emoção.

– Então o senhor é muito parecido comigo nesse ponto, porque na hora em que ela dá uma pirueta e cai em plié eu sempre choro de emoção.

– Chega logo, Copacabana. Chega logo, Copacabana. Chega logo, Copacabana.

– O senhor pode ir pela praia pra gente aproveitar um pouco mais o passeio? Eu e o meu marido, avô dela, que Deus o tenha, quando éramos namorados...

– Vovó!

– Eu só ia comentar que eu e o seu avô quando éramos namorados vínhamos toda noite passear pela praia de mãos dadas.

– Ele não perguntou.

– Claro que não. Ninguém pergunta "a senhora e o seu marido, que Deus o tenha, por acaso costumavam passear pela praia de mãos dadas quando eram namorados?".

– Porque isso não interessa a ninguém.

– Mas pode interessar ao moço. Interessa, moço?

– É claro que ele vai dizer que interessa por gentileza. Ninguém diz "não interessa, não, senhora" assim, na cara da pessoa.

– Já que interessa, eu vou contar. A gente era namorado e eu morava bem ali, na rua de trás, isso antes de o tio Álvaro resolver vender a casa pra investir na fábrica que faliu...

– Vovó!

– Calma que a fábrica já faliu e eu já vou voltar pra história. Onde é que eu estava mesmo?




– Num táxi, indo pra Copacabana.

– Comprar a sapatilha da apresentação de balé. Mas nesse tempo o tio Álvaro ainda não tinha vendido a casa, e a gente ia andar na praia pra se distrair, porque o meu marido, avô dela, que Deus o tenha, trabalhava muito, desde cedo. Imagina você que o seu avô foi promovido a subgerente quando...

– ...tinha 28 anos e com 35 já era gerente.

– Trinta e quatro. Ele só ia completar os 35 em janeiro.

– Ontem você disse 35 pro outro motorista de táxi.

– Eu disse que quando ele tinha 35 recebeu o prêmio "Gerente do ano", com menos de um ano no cargo. O senhor sabia que quando o meu marido tinha 35...

– ...recebeu o prêmio "Gerente do ano". Ele já ouviu, vó.

– Com apenas um ano no cargo.

– Ele era formidável.

– Como é que você sabia que eu ia dizer isso?

– Depois de "um ano no cargo" sempre vem "ele era formidável". Depois vem "criou os filhos com tudo do bom e do melhor", depois vem "a mais velha, inclusive, é professora de inglês", depois vem "sem falar nos netos maravilhosos que ele me deixou", depois vem "mas esta aqui foi a que mais puxou ao avô".

– Não deixa ninguém falar.

E, olhando a imagem das duas pelo retrovisor, seu Arildo, o motorista do táxi, por algum motivo se lembrou da sua neta, da sua filha, da sua mulher, da sua mãe, e da sua avó, que Deus a tenha.

 

         
     
 
 
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