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21 de março de 2007

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Direto do túnel do tempo

Digitalização recupera relíquias
do arquivo da TVE

Livia de Almeida

Fotos divulgação
Atrações resgatadas: a série infanto-juvenil Pluft (à esq.), exibida nos anos 70, e o musical com Elizeth Cardoso

Pouca gente se lembra, mas passou na televisão. Em 1981, um especial de duas horas juntou os pianistas João Carlos Martins e Arthur Moreira Lima em uma celebração da música de Bach e Chopin. Na flauta, uma surpresa: o maestro Tom Jobim. Em 1985, quando o país ainda mal havia saído dos anos de governo militar, o comunista histórico Luís Carlos Prestes bateu boca no ar com o economista Roberto Campos em uma sessão de Tribunal da História. Em 1988, foi a vez de Luiz Inácio Lula da Silva, já ex-sindicalista, encarar diante das câmeras Theóphilo de Azeredo Santos, representante dos banqueiros. E quem ainda se recorda de que a turma do Casseta & Planeta estreou seu humor na televisão no fim da década de 80 com o programa Cabeça Feita?

Essas e muitas outras relíquias e delícias fazem parte de um arquivo de 250.000 fitas que contam a história da TV Educativa (TVE) desde 1967, quando começou, ainda como produtora de programas, até os dias de hoje. Apesar dos recursos limitados e da simplicidade das produções, a emissora conseguia atrair as principais estrelas da MPB para participar de musicais e programas especiais, material que até agora vivia guardado em três depósitos. A boa notícia é que esse arquivo começou a ser restaurado e digitalizado. "Estamos concluindo a primeira fase do projeto com a conversão de 250 fitas", afirma a gerente de documentação e pesquisa da emissora, Lacy Barca. Essa primeira fase custou 1,6 milhão de reais e incluiu a aquisição de equipamentos e o treinamento de uma equipe de vinte técnicos. O projeto completo está orçado em 9 milhões de reais, com duração prevista para mais quatro anos.

Momento de polêmica: rivais na política, na foto ao lado Luís Carlos Prestes (à esq.) e Roberto Campos (à dir.) debatem no programa Tribunal da História

Um aperitivo para o público passou a ser servido na semana passada. A TVE inaugurou um pequeno centro cultural em sua sede, na Rua da Relação, no Centro. Em oito terminais de computador, é possível acessar trechos de trinta programas. Entre eles, há muitos musicais. Elizeth Cardoso, por exemplo, faz um show em 1985, com Hermínio Belo de Carvalho. Há também especiais em homenagem a Vinicius de Moraes (1998), Tom Jobim (1994) e Cartola (1991), além de cenas da novela educativa João da Silva (1973), estrelada por Nelson Xavier e exibida, no Rio, por três emissoras comerciais. A programação infantil, um dos carros-chefes da casa, não foi esquecida. Dirce Migliaccio é o doce fantasminha Pluft da adaptação para a TV da peça de Maria Clara Machado, de 1975, contracenando com Norma Blum e Zilka Salaberry. A minissérie infanto-juvenil foi uma co-produção com a TV Globo, que também foi parceira da Educativa na bem-sucedida série Sítio do Picapau Amarelo exibida entre 1975 e 1986. Para quem gosta de literatura, há um especial com a poetisa Cora Coralina, exibido em 1985. No pequeno e despretensioso Espaço de Convivência TVE-Rádio MEC encontra-se ainda uma sala de vídeo e biblioteca.

O material disponível é apenas a ponta do iceberg. O acesso às informações, até então, era restrito a quem tivesse paciência para vasculhar as centenas de pastas com a descrição dos programas e, a partir daí, obter a numeração da fita desejada. Um trabalho nada fácil. "Não havia um sistema que reunisse as informações sobre o conteúdo de cada fita. Agora temos o conhecimento total desse material e estamos com os dados na ponta dos dedos", comemora Lacy. Assim, uma rápida consulta ao computador aponta que existem vinte horas de gravações com Elis Regina, 35 com Pixinguinha, oito com Chico Buarque e dezessete com Paulinho da Viola. "E estamos falando especificamente de programas em que esses artistas são a atração principal." O conteúdo do baú é bem eclético, com lugar para demonstrações de trabalhos manuais, as esquisitas aulas de inglês cantadas do programa I Love You, ginástica com Yara Vaz e apresentações de orquestras mirins.

O jovem Roberto d'Ávila entrevista Paulo Mendes Campos (à esq.), e a turma do Sítio: salvos do depósito

Para comemorar os trinta anos da primeira transmissão do Canal 2, a Associação de Comunicação Educativa Roquete Pinto (Acerp) vai lançar um livro que relata toda a história da TVE desde seus primórdios, sob a direção de Gilson Amado, quando produzia atrações para que as outras emissoras cumprissem a lei de veiculação obrigatória e gratuita de cinco horas semanais de programação educativa. Do livro constam referências a antigos sucessos, como o talk-show Sem Censura, há vinte anos no ar, e a programação infantil com Daniel Azulay e Bia Bedran. A Acerp opera no Rio a TVE Brasil e a Rádio MEC. "O próximo passo vai ser a batalha para captar recursos para a digitalização dos arquivos musicais da rádio", promete a presidente da instituição, Beth Carmona, que ainda prepara a publicação de um livro sobre os setenta anos da rádio – mais uma vez, direto do túnel do tempo.

     
   

 

 
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