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MEMÓRIA
Direto do túnel do tempo
Digitalização recupera relíquias do arquivo da TVE Livia
de Almeida Fotos
divulgação  | | Atrações
resgatadas: a série infanto-juvenil Pluft (à esq.), exibida
nos anos 70, e o musical com Elizeth Cardoso |
Pouca
gente se lembra, mas passou na televisão. Em 1981, um especial de duas
horas juntou os pianistas João Carlos Martins e Arthur Moreira Lima em
uma celebração da música de Bach e Chopin. Na flauta, uma
surpresa: o maestro Tom Jobim. Em 1985, quando o país ainda mal havia saído
dos anos de governo militar, o comunista histórico Luís Carlos Prestes
bateu boca no ar com o economista Roberto Campos em uma sessão de Tribunal
da História. Em 1988, foi a vez de Luiz Inácio Lula da Silva,
já ex-sindicalista, encarar diante das câmeras Theóphilo de
Azeredo Santos, representante dos banqueiros. E quem ainda se recorda de que a
turma do Casseta & Planeta estreou seu humor na televisão no
fim da década de 80 com o programa Cabeça Feita?
Essas e muitas outras relíquias e delícias fazem parte de um arquivo
de 250.000 fitas que contam a história da TV Educativa (TVE) desde 1967,
quando começou, ainda como produtora de programas, até os dias de
hoje. Apesar dos recursos limitados e da simplicidade das produções,
a emissora conseguia atrair as principais estrelas da MPB para participar de musicais
e programas especiais, material que até agora vivia guardado em três
depósitos. A boa notícia é que esse arquivo começou
a ser restaurado e digitalizado. "Estamos concluindo a primeira fase do projeto
com a conversão de 250 fitas", afirma a gerente de documentação
e pesquisa da emissora, Lacy Barca. Essa primeira fase custou 1,6 milhão
de reais e incluiu a aquisição de equipamentos e o treinamento de
uma equipe de vinte técnicos. O projeto completo está orçado
em 9 milhões de reais, com duração prevista para mais quatro
anos.
 | | Momento
de polêmica: rivais na política, na foto ao lado Luís Carlos
Prestes (à esq.) e Roberto Campos (à dir.) debatem
no programa Tribunal da História |
Um
aperitivo para o público passou a ser servido na semana passada. A TVE
inaugurou um pequeno centro cultural em sua sede, na Rua da Relação,
no Centro. Em oito terminais de computador, é possível acessar trechos
de trinta programas. Entre eles, há muitos musicais. Elizeth Cardoso, por
exemplo, faz um show em 1985, com Hermínio Belo de Carvalho. Há
também especiais em homenagem a Vinicius de Moraes (1998), Tom Jobim (1994)
e Cartola (1991), além de cenas da novela educativa João da Silva
(1973), estrelada por Nelson Xavier e exibida, no Rio, por três emissoras
comerciais. A programação infantil, um dos carros-chefes da casa,
não foi esquecida. Dirce Migliaccio é o doce fantasminha Pluft da
adaptação para a TV da peça de Maria Clara Machado, de 1975,
contracenando com Norma Blum e Zilka Salaberry. A minissérie infanto-juvenil
foi uma co-produção com a TV Globo, que também foi parceira
da Educativa na bem-sucedida série Sítio do Picapau Amarelo
exibida entre 1975 e 1986. Para quem gosta de literatura, há um especial
com a poetisa Cora Coralina, exibido em 1985. No pequeno e despretensioso Espaço
de Convivência TVE-Rádio MEC encontra-se ainda uma sala de vídeo
e biblioteca. O material disponível
é apenas a ponta do iceberg. O acesso às informações,
até então, era restrito a quem tivesse paciência para vasculhar
as centenas de pastas com a descrição dos programas e, a partir
daí, obter a numeração da fita desejada. Um trabalho nada
fácil. "Não havia um sistema que reunisse as informações
sobre o conteúdo de cada fita. Agora temos o conhecimento total desse material
e estamos com os dados na ponta dos dedos", comemora Lacy. Assim, uma rápida
consulta ao computador aponta que existem vinte horas de gravações
com Elis Regina, 35 com Pixinguinha, oito com Chico Buarque e dezessete com Paulinho
da Viola. "E estamos falando especificamente de programas em que esses artistas
são a atração principal." O conteúdo do baú
é bem eclético, com lugar para demonstrações de trabalhos
manuais, as esquisitas aulas de inglês cantadas do programa I Love You,
ginástica com Yara Vaz e apresentações de orquestras mirins.
 | | O
jovem Roberto d'Ávila entrevista Paulo Mendes Campos (à esq.),
e a turma do Sítio: salvos do depósito |
Para
comemorar os trinta anos da primeira transmissão do Canal 2, a Associação
de Comunicação Educativa Roquete Pinto (Acerp) vai lançar
um livro que relata toda a história da TVE desde seus primórdios,
sob a direção de Gilson Amado, quando produzia atrações
para que as outras emissoras cumprissem a lei de veiculação obrigatória
e gratuita de cinco horas semanais de programação educativa. Do
livro constam referências a antigos sucessos, como o talk-show Sem Censura,
há vinte anos no ar, e a programação infantil com Daniel
Azulay e Bia Bedran. A Acerp opera no Rio a TVE Brasil e a Rádio MEC. "O
próximo passo vai ser a batalha para captar recursos para a digitalização
dos arquivos musicais da rádio", promete a presidente da instituição,
Beth Carmona, que ainda prepara a publicação de um livro sobre os
setenta anos da rádio mais uma vez, direto do túnel do tempo.
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