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CRÔNICA
Casamento no campo Manoel
Carlos Desde a velha piada que diz que só
as mulheres devem se casar, os homens não, muito se tem escrito sobre o
casamento e suas conseqüências. Feliz ou infeliz, com ou sem filhos,
não há no mundo assunto mais rico e controverso do que a união
de um homem e uma mulher que, quando firmam o acordo, o fazem com a intenção
de que seja para a vida inteira. Estranho contrato esse em que já no primeiro
parágrafo se promete amar para sempre a mesma pessoa. "Até que a
morte nos separe" é um dos compromissos mais radicais de que se tem conhecimento
no mundo dos contratos. E essa cláusula, digamos assim, sempre me impressionou.
Quando perdi minha primeira mulher, já não vivíamos juntos,
mas me lembro perfeitamente de que essa frase veio à minha memória
e eu lamentei que ela não representasse a verdade. Ali, só naquele
momento, eu deveria estar me separando dela, não dez anos antes, como de
fato aconteceu. Portanto, não cumpri o contrato. Quantos o terão
cumprido? Entre os meus amigos, não mais do que três ou quatro.
Leo
Martins
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O que estraga a relação é o amor me diz o Teófilo,
um amigo português, enraizado no Brasil há muitos anos, mas que ainda
fala com sotaque carregado.
Com certeza
essa afirmação foi inspirada na frase de Oscar Wilde segundo a qual
o homem pode ser feliz com uma mulher desde que não a ame. Pode ser. A
favor dessa reflexão temos constatado que a amizade é mais duradoura.
Se pudéssemos amar nossa melhor amiga sem dar a esse sentimento o nome
de amor, acredito que seria essa a fórmula ideal de cultivar uma relação
para a vida inteira. Até que a morte nos separasse. Ela, só ela,
a indesejada, a necessária, a inevitável morte. Tenho amigos que
se casaram por convicção. E outros que também por convicção
não se casaram. Se ouço o que me dizem, fico surpreso com a farta
argumentação de que dispõem a favor dessas posições
que são opostas. Aliás, o que não falta aos apaixonados é
a certeza de que estão do lado certo, seja qual for o lado em que estiverem.
Mas por que estou eu aqui a tecer
todos esses comentários sobre o casamento, se nem sequer estamos em maio?
É que acabo de chegar de Conservatória, uma pequena e linda cidade
ao sul do Rio, onde assisti a uma das mais belas cerimônias de toda a minha
vida: um casamento no campo. Mais bonito e impecável que casamento de novela.
Cenografia, figurinos, direção de arte, trilha sonora. Para completar,
um céu azul e um luminoso sol. Todos nós já vimos, com certeza,
essa cerimônia onde a natureza se mistura ao ritual religioso. Eu, que só
conhecia a festa por meio da literatura e do cinema, quase sempre em filmes adaptados
de Tchecov e Proust, vivi um dia glorioso, um dia para ser feliz. Diante daquela
sucessão de belas cenas, diante da alegria dos noivos, parentes e amigos,
caíram por terra todas as teorias sobre o casamento. Das sensatas às
estapafúrdias, das boas às más, porque o que se viveu ali
foi o Amor, esse mesmo, com A maiúsculo, como Fernando Pessoa costumava
escrever. Ao fim do sábado,
voltei ao Rio com a família. Da paz do campo à ruidosa cidade, por
todo o caminho de menos de 150 quilômetros, a certeza de que estava saindo
do paraíso e entrando não digo no inferno, mas num sofrido purgatório,
por tempo indeterminado. Casamento
no campo. Conservatória. Se meus eventuais leitores não tiverem
a felicidade de juntar as duas coisas, que conheçam a cidade das serestas
num dos próximos fins de semana.
Dizem que é lá em Conservatória que Deus descansa deste insensato
mundo. E-mails para o
cronista: almaviva@uninet.com.br
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