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21 de março de 2007

REPORTAGEM DE CAPA

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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Casamento no campo

Manoel Carlos

Desde a velha piada que diz que só as mulheres devem se casar, os homens não, muito se tem escrito sobre o casamento e suas conseqüências. Feliz ou infeliz, com ou sem filhos, não há no mundo assunto mais rico e controverso do que a união de um homem e uma mulher que, quando firmam o acordo, o fazem com a intenção de que seja para a vida inteira. Estranho contrato esse em que já no primeiro parágrafo se promete amar para sempre a mesma pessoa. "Até que a morte nos separe" é um dos compromissos mais radicais de que se tem conhecimento no mundo dos contratos. E essa cláusula, digamos assim, sempre me impressionou. Quando perdi minha primeira mulher, já não vivíamos juntos, mas me lembro perfeitamente de que essa frase veio à minha memória e eu lamentei que ela não representasse a verdade. Ali, só naquele momento, eu deveria estar me separando dela, não dez anos antes, como de fato aconteceu. Portanto, não cumpri o contrato. Quantos o terão cumprido? Entre os meus amigos, não mais do que três ou quatro.

Leo Martins


– O que estraga a relação é o amor – me diz o Teófilo, um amigo português, enraizado no Brasil há muitos anos, mas que ainda fala com sotaque carregado.

Com certeza essa afirmação foi inspirada na frase de Oscar Wilde segundo a qual o homem pode ser feliz com uma mulher desde que não a ame. Pode ser. A favor dessa reflexão temos constatado que a amizade é mais duradoura. Se pudéssemos amar nossa melhor amiga sem dar a esse sentimento o nome de amor, acredito que seria essa a fórmula ideal de cultivar uma relação para a vida inteira. Até que a morte nos separasse. Ela, só ela, a indesejada, a necessária, a inevitável morte. Tenho amigos que se casaram por convicção. E outros que também por convicção não se casaram. Se ouço o que me dizem, fico surpreso com a farta argumentação de que dispõem a favor dessas posições que são opostas. Aliás, o que não falta aos apaixonados é a certeza de que estão do lado certo, seja qual for o lado em que estiverem.

Mas por que estou eu aqui a tecer todos esses comentários sobre o casamento, se nem sequer estamos em maio? É que acabo de chegar de Conservatória, uma pequena e linda cidade ao sul do Rio, onde assisti a uma das mais belas cerimônias de toda a minha vida: um casamento no campo. Mais bonito e impecável que casamento de novela. Cenografia, figurinos, direção de arte, trilha sonora. Para completar, um céu azul e um luminoso sol. Todos nós já vimos, com certeza, essa cerimônia onde a natureza se mistura ao ritual religioso. Eu, que só conhecia a festa por meio da literatura e do cinema, quase sempre em filmes adaptados de Tchecov e Proust, vivi um dia glorioso, um dia para ser feliz. Diante daquela sucessão de belas cenas, diante da alegria dos noivos, parentes e amigos, caíram por terra todas as teorias sobre o casamento. Das sensatas às estapafúrdias, das boas às más, porque o que se viveu ali foi o Amor, esse mesmo, com A maiúsculo, como Fernando Pessoa costumava escrever.

Ao fim do sábado, voltei ao Rio com a família. Da paz do campo à ruidosa cidade, por todo o caminho de menos de 150 quilômetros, a certeza de que estava saindo do paraíso e entrando não digo no inferno, mas num sofrido purgatório, por tempo indeterminado.

Casamento no campo. Conservatória. Se meus eventuais leitores não tiverem a felicidade de juntar as duas coisas, que conheçam a cidade das serestas num dos próximos fins de semana.

Dizem que é lá em Conservatória que Deus descansa deste insensato mundo.


E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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