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COMPORTAMENTO
Pé na estrada Jovens
cariocas buscam no exterior experiências de
trabalho, estudo de qualidade e segurança
Fátima Sá e Karla Monteiro  | | Marcos
(à esq.) e Carolina vão para os Estados Unidos; Juliana e
Mauro embarcam para a Austrália: aprendizado de inglês e emprego
temporário |
Com pouca
idade, mas determinação de gente grande, Alix Wender já decidiu:
vai fazer faculdade na Inglaterra. Mais precisamente em Londres. Ela encasquetou
com a idéia depois de passar seis meses na Austrália, em um programa
de intercâmbio cultural. Encantou-se com a liberdade do Primeiro Mundo.
"No início, eu tinha medo de fazer certas coisas, como pegar ônibus
à noite", conta Alix, 16 anos, moradora da Urca. "Depois percebi que lá
podia me soltar. Eu me sentia totalmente segura." Experiências assim viraram
moda entre os estudantes. "Os jovens que nos procuram quase sempre falam de amigos
ou conhecidos que já viveram fora do Brasil", diz Clarice Caliman, diretora
da agência IE-Intercâmbio. "A gente percebe que muitos deles começam
a se sentir por fora por ainda não terem passado pela experiência."
Fotos
Felipe Varanda/Strana
 | | Beatriz
quer estudar em uma universidade inglesa: "Lá fora há tradição"
|
Segundo estimativas
de entidades do setor, a procura por programas de intercâmbio cresce 30%
ao ano. "O Brasil é o quarto país que mais exportou estudantes em
2006 e o Rio de Janeiro só está atrás de São Paulo
nessa onda", afirma o inglês Samir Zaveri, diretor da BMI, empresa que organiza
o Salão do Estudante, uma das maiores feiras de intercâmbio cultural
da América Latina. A idéia de viver uma temporada fora do Brasil
costuma partir dos próprios jovens, mas os pais já são grandes
incentivadores. No caso de Alix, o projeto globe-trotter conta com o aval irrestrito
da mãe, Nicole Wender, que vislumbra anos de sossego pela frente. "A violência
carioca me faz incentivá-la", explica. "Sei que ela vai estar mais segura.
E também acho muito importante o contato com outras culturas." Em seu último
ano de Escola Corcovado, colégio bilíngüe onde os alunos têm
aulas em português e alemão, Alix acredita que só vai sentir
falta de duas coisas: velejar e andar pelas ruas de Ipanema.
O
bochicho no Salão do Estudante, realizado na quarta-feira passada em um
hotel de Copacabana, é uma mostra de que muitos jovens querem seguir o
caminho de Alix. No ano passado, a feira atraiu 4.800 pessoas. Neste ano, quase
7.000 jovens disputaram a cotoveladas o atendimento nos 58 estandes que representavam
na feira 200 instituições de ensino de vários países.
"O mercado não está só aquecendo, ele está se diversificando",
diz Zaveri. "Antes, o foco era aprender inglês. Agora tem gente indo estudar
no Japão, na China, na Indonésia, em Cingapura e até na Tailândia."
Os motivos são muitos. "A estabilidade da economia brasileira e a queda
na cotação do dólar justificam parte da procura, pois ficou
mais fácil viajar", aponta Angela Alves, assistente de marketing do Student
Travel Bureau (STB), agência de viagens e turismo especializada em intercâmbios.
O atentado de 11 de setembro de 2001 fez com que os olhares se voltassem para
outros destinos além dos Estados Unidos. "E há também a globalização,
que estimula o conhecimento de outras culturas", pondera Tatiana Mendes, presidente
da Belta, associação que congrega várias agências especializadas.
Somado a tudo isso há o medo da violência. "Quero sair um pouco do
Rio, porque muitas faculdades daqui ficam em locais perigosos, e acho que as universidades
lá de fora têm mais tradição e história", afirma
Beatriz Noronha, 17 anos, candidata a uma vaga em universidade inglesa.  | | Bianca,
Fabiana, Mariana e Rafael no Salão do Estudante: o objetivo é estudar
no Canadá |
A maioria
dos alunos, porém, tem outra razão para pegar o avião. "A
motivação básica é a experiência de viver em
uma sociedade diferente. A viagem é vista como uma fonte de enriquecimento
pessoal", afirma a antropóloga Claudia Barcellos Rezende, professora do
departamento de ciências sociais da Universidade do Estado do Rio, que estuda
as experiências de adolescentes que fizeram intercâmbio escolar e
de alunos de pós-graduação no exterior. "Os mais jovens cultivam
a idéia de que morar fora os torna mais maduros e abertos a novas experiências."
Escolhas é que não faltam. Hoje, agências de turismo, instituições
de ensino e consulados oferecem desde cursinhos de inglês com um mês
de duração no Canadá até aulas de culinária
na Tailândia, passando por empregos temporários em estações
de esqui dos Estados Unidos e cursos de graduação e pós na
Europa.  | | Alix:
temporada na Austrália e pesquisa para estudar na Inglaterra |
Às
vezes são as próprias universidades que estabelecem convênios
de cooperação com escolas estrangeiras. Na Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, os alunos
podem cursar o quarto ano fora do Brasil. "Temos cinqüenta alunos nossos
estudando fora e 26 estrangeiros cursando parte da faculdade aqui", conta o professor
José Kós, coordenador de intercâmbio cultural da faculdade.
Aos 27 anos, o estudante Adriano Romano Bruno acaba de voltar de uma temporada
de um ano na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. "Recomendo para
todo mundo: além de Portugal, conheci outros países e tive a oportunidade
de visitar obras que só conhecia de livros, como o plano urbanístico
de Barcelona", conta Adriano, que gastou cerca de 500 euros por mês (cerca
de 1 400 reais) com hospedagem, alimentação, passeios e outros custos
da viagem. Portugal é apenas um dos muitos países procurados pelos
alunos. No ano passado, o governo francês emitiu 2.300 vistos para estudantes
brasileiros, um aumento de 14% em relação ao ano anterior. André
Nazareth/Strana
 | | Alice
e Marina: depois do intercâmbio, planos de mestrado no exterior |
No
Rio, os programas mais populares têm sido os cursos de idioma e o trabalho
temporário. Conta Thiago España, diretor da agência World
Study: "Em 2001, quando abrimos escritório na cidade, os pais ainda torciam
o nariz para os programas de trabalho. Muitos diziam: 'Meu filho vai viajar para
fritar hambúrguer? Não o criei para isso'. Hoje é diferente.
São os próprios pais que estimulam a experiência porque sabem
que o filho amadurece e o mercado valoriza esse tipo de iniciativa". Foi o que
aconteceu com Bruna de Lima Silva, 25 anos, moradora da Barra da Tijuca. Em 2002,
quando estudava economia, Bruna desembolsou 2.000 dólares, fez as malas
e partiu para a Carolina do Norte, nos Estados Unidos, disposta a aprimorar o
inglês enquanto trabalhava como governanta num resort. Arranjou um segundo
emprego dormia quatro horas por noite , aproveitou as folgas para
conhecer cidades vizinhas e, quatro meses depois, voltou ao Brasil com 6.000 dólares
no bolso. "Usei o dinheiro para várias coisas, inclusive a pós-graduação",
diz. No ano seguinte, foi trabalhar na IBM. "Tenho certeza de que essa viagem
pesou na minha contratação. Aqui lido com muitos americanos e a
experiência no exterior me permitiu conhecê-los melhor. Além
disso, alguém com nível superior que trabalha como governanta mostra
que se adapta com facilidade a novas situações e está apta
a desafios. A maioria das pessoas que trabalham comigo passou um período
fora." Estudar ou apenas se aventurar
no exterior pode ter mesmo peso decisivo para conseguir o primeiro emprego. Segundo
o headhunter André Bocater Szeneszi, da Case Consulting, especializada
no recrutamento de executivos, três itens chamam atenção em
um currículo: boa formação universitária, participação
em projetos e experiência internacional. "Quem viaja aprende a lidar com
a diversidade e também com frustrações", avalia. "Sem dúvida,
profissionais com esse tipo de vivência são mais flexíveis
e mais empreendedores." O advogado Marcelo Viveiros de Moura, 41 anos, é
um exemplo do que uma temporada no exterior pode fazer pela carreira. Depois de
um mestrado em Cambridge, na Inglaterra, seguido de um estágio, tornou-se
sócio de um dos maiores escritórios de advocacia do Rio e presidente
da Câmara Britânica de Comércio. "Foi fundamental na minha
vida", reconhece. "Passei a entender como os europeus pensam e trabalham. Hoje
atuo no recrutamento do meu escritório e sempre observo se o candidato
teve exposição a outras culturas. No mundo de hoje, não dá
para ficar isolado."

| | Alice
e Marina: depois do intercâmbio, planos de mestrado no exterior |
Apesar
dos relatos entusiasmados de quem viajou, nem tudo são flores na rotina
dos intercambistas. "Fui parar numa cidadezinha de 2.000 habitantes que não
tinha cinema nem McDonald's. O programa era ir para a casa das pessoas. E eu tinha
de voltar para a minha casa às 23 horas", acha graça Marina Ribeiro
de Carvalho Duarte, 21 anos, quando se lembra do intercâmbio escolar que
fez aos 16, no Texas. Alice Sant'Anna, 18 anos, meia-irmã de Marina, também
enfrentou contratempos dois anos atrás, quando foi estudar na Nova Zelândia.
"Fiquei na casa de uma família que parecia ótima", relata. "Mas
no dia-a-dia eles eram frios e reclamavam que eu usava muito sabonete e comia
muito pão. Acabei trocando de família." Foram os únicos senões.
As duas gostaram tanto da viagem que planejam repetir a dose, cursando mestrado
fora do Brasil. A estudante de jornalismo Juliana Marinho, 20 anos, quer mais
aventura. Depois de ficar nove meses nos Estados Unidos no ano passado, ela já
está com as malas prontas para embarcar de novo em maio. Desta vez, vai
com o namorado, Mauro Ortega, de 19. "Aprendi muitas coisas, além do inglês:
a administrar o meu dinheiro, a arrumar minhas coisas sozinha e, principalmente,
a conviver com gente de todos os tipos", diz. "Quero que o meu namorado tenha
essa mesma experiência. Vai ser a primeira vez que vamos dividir as contas
e as responsabilidades." Para evitar
imprevistos, uma dica de especialistas e viajantes é listar os objetivos
antes de escolher o destino e o programa que se pretende fazer (veja quadro
na pág. 13). Aconselha Luís Magalhães, gerente-geral
da Australian Education Centre, agência de turismo receptivo na Austrália:
"Se você gosta de sair à noite, prefira uma cidade grande e não
vá ficar na casa de um velhinho. Se não gosta de frio, fuja da Inglaterra
no inverno. Um bom agente sempre ajuda a planejar melhor a viagem". Por enquanto,
o intercâmbio ainda é uma moda jovem. A maioria dos viajantes tem
entre 16 e 35 anos. Mas cada vez mais pessoas se deixam seduzir pela idéia
de experimentar outras culturas. "Outro dia mandei pai e filho juntos para o Canadá,
cada um com um programa específico, naturalmente", diz Thiago España,
da World Study. "Hoje, há ofertas para todo tipo de público. Até
para a terceira idade."
Pequeno manual de sobrevivência
Não
viaje sem um bom seguro-saúde. Atendimento médico no exterior custa
caro. Planeje-se.
Quem decide viajar em cima da hora perde as melhores vagas em cursos
e empregos.
Para escolher a agência, informe-se com amigos que já viajaram, visite
as instalações e prefira as que têm escritório
no seu destino.
Conheça o responsável pelo intercâmbio na cidade de destino.
Em caso de algum tipo de constrangimento no dormitório ou na casa
onde se hospedar, procure-o imediatamente.
Analise o histórico de seus anfitriões para evitar hospedar-se com
famílias de perfis totalmente diferentes do seu. Em caso de
incompatibilidade, negocie a mudança com o coordenador do intercâmbio.
Se
o objetivo da viagem é trabalhar, procure uma ocupação que
se adapte ao seu perfil, porque lá é difícil
mudar de emprego. Estude
o mapa da cidade onde vai ficar para evitar cair em vizinhanças hostis
ou estar longe de seus locais de interesse. Se
o objetivo é estudo e vida social, escolha uma cidade grande. Se é
imersão na cultura local, evite locais muito procurados por
brasileiros. Leve
em consideração o clima e o estilo de vida do país. Nova
Zelândia e Austrália são bem mais parecidos com o Rio
do que a Inglaterra, por exemplo.
Atenção às leis locais. Em alguns lugares, dirigir embriagado
pode custar multa superior a 3 000 dólares e até
mesmo a deportação. |
Sonhos de uma vida melhor 
| | Carolina,
Antônio e Paulo: de malas prontas para viver no Canadá |
A
preparação começou há quinze dias. Desde então,
duas vezes por semana, Antônio Arêas Marques Monteiro, 5 anos, tem
aulas de inglês. O objetivo é claro: preparar o menino para uma vida
nova. Em julho, Antônio se mudará com a família para o Canadá.
"Recebi uma boa oferta de emprego, mas o que mais pesa é a violência",
conta Paulo Monteiro, 36 anos, o pai de Antônio. "Não só a
violência que está nos jornais, mas a violência moral de viver
num país em que absurdos acontecem todos os dias sem que ninguém
faça nada." Paulo parte no dia 1º de maio. Vai trabalhar com a implantação
de softwares. Sua mulher, a terapeuta floral Carolina Arêas, 38, irá
depois com Antônio. Em proporção
muito menor do que os estudantes que vão fazer intercâmbio, há
os cariocas 217 nos últimos três anos que tiraram visto
de imigração no Consulado do Canadá. Por suas dimensões
continentais e baixa densidade demográfica, o Canadá e a Austrália
são países mais receptivos a imigrantes do que a maioria das nações
do Primeiro Mundo. "Não vamos atrás de dinheiro. Estamos buscando
paz e felicidade", diz Marcos Câmara, 25 anos, arquiteto, que irá
para Sydney no fim do ano com a namorada, a bailarina Carolina Rocha, 26. "Quero
ser turista no Brasil." |
Algumas opções para
quem quer viajar 
| | Salão
do Estudante: 7 000 jovens atrás de informações |
Cursos
de idiomas são os mais procurados. Entre os principais destinos estão
Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália. Cursos de inglês
com um mês de duração no Canadá custam a partir de
1 300 dólares (acomodação em casa de família e meia
pensão incluídas). A passagem aérea (de 800 a 1 200 dólares)
é paga à parte. Há
vários programas de trabalho temporário, como Work Experience USA,
True, Work USA, AuPair e H2B, para jovens universitários. Oferecem empregos
em locais como estações de esqui, hotéis, parques e cassinos
americanos. Custam cerca de 2 000 dólares (com passagem). Lá se
ganha de 5 a 15 dólares por hora de trabalho, fora gorjetas.
O
programa Chevening, de bolsas de estudo de pós-graduação
no Reino Unido, está com as inscrições abertas até
31 de julho. As bolsas são custeadas pelo governo britânico. Para
quem pretende estudar na França, o sistema CampusFrance reúne informações
sobre cursos, instituições, documentação necessária
e custo de vida local. INFORMAÇÕES:
IE-Intercambio: www.ie-intercambio.com.br,
3206-3050 e 3139-4156
World
Study: www.worldstudy.com.br,
2494-9209 e 2274-3333
STB:
www.stb.com.br,
2512-8577 e 3419-5701
Information
Brazil: www.informationbrazil.com.au,
(11) 5186-5186
Belta:
www.belta.org.br,
(11) 3254-4333
CampusFrance:
www.brasil.campusfrance.org,
(11) 3032-1214
Chevening:
www.chevening.org.br
Cursos
no Reino Unido: www.educationuk.org.br
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