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21 de março de 2007

REPORTAGEM DE CAPA

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BEIRA-MAR
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CRÔNICA
  

COMPORTAMENTO

Pé na estrada

Jovens cariocas buscam no exterior
experiências
de trabalho, estudo de
qualidade e segurança

Fátima Sá e Karla Monteiro

Marcos (à esq.) e Carolina vão para os Estados Unidos; Juliana e Mauro embarcam para a Austrália: aprendizado de inglês e emprego temporário

Com pouca idade, mas determinação de gente grande, Alix Wender já decidiu: vai fazer faculdade na Inglaterra. Mais precisamente em Londres. Ela encasquetou com a idéia depois de passar seis meses na Austrália, em um programa de intercâmbio cultural. Encantou-se com a liberdade do Primeiro Mundo. "No início, eu tinha medo de fazer certas coisas, como pegar ônibus à noite", conta Alix, 16 anos, moradora da Urca. "Depois percebi que lá podia me soltar. Eu me sentia totalmente segura." Experiências assim viraram moda entre os estudantes. "Os jovens que nos procuram quase sempre falam de amigos ou conhecidos que já viveram fora do Brasil", diz Clarice Caliman, diretora da agência IE-Intercâmbio. "A gente percebe que muitos deles começam a se sentir por fora por ainda não terem passado pela experiência."

Fotos Felipe Varanda/Strana
Beatriz quer estudar em uma universidade inglesa: "Lá fora há tradição"


Segundo estimativas de entidades do setor, a procura por programas de intercâmbio cresce 30% ao ano. "O Brasil é o quarto país que mais exportou estudantes em 2006 e o Rio de Janeiro só está atrás de São Paulo nessa onda", afirma o inglês Samir Zaveri, diretor da BMI, empresa que organiza o Salão do Estudante, uma das maiores feiras de intercâmbio cultural da América Latina. A idéia de viver uma temporada fora do Brasil costuma partir dos próprios jovens, mas os pais já são grandes incentivadores. No caso de Alix, o projeto globe-trotter conta com o aval irrestrito da mãe, Nicole Wender, que vislumbra anos de sossego pela frente. "A violência carioca me faz incentivá-la", explica. "Sei que ela vai estar mais segura. E também acho muito importante o contato com outras culturas." Em seu último ano de Escola Corcovado, colégio bilíngüe onde os alunos têm aulas em português e alemão, Alix acredita que só vai sentir falta de duas coisas: velejar e andar pelas ruas de Ipanema.

O bochicho no Salão do Estudante, realizado na quarta-feira passada em um hotel de Copacabana, é uma mostra de que muitos jovens querem seguir o caminho de Alix. No ano passado, a feira atraiu 4.800 pessoas. Neste ano, quase 7.000 jovens disputaram a cotoveladas o atendimento nos 58 estandes que representavam na feira 200 instituições de ensino de vários países. "O mercado não está só aquecendo, ele está se diversificando", diz Zaveri. "Antes, o foco era aprender inglês. Agora tem gente indo estudar no Japão, na China, na Indonésia, em Cingapura e até na Tailândia." Os motivos são muitos. "A estabilidade da economia brasileira e a queda na cotação do dólar justificam parte da procura, pois ficou mais fácil viajar", aponta Angela Alves, assistente de marketing do Student Travel Bureau (STB), agência de viagens e turismo especializada em intercâmbios. O atentado de 11 de setembro de 2001 fez com que os olhares se voltassem para outros destinos além dos Estados Unidos. "E há também a globalização, que estimula o conhecimento de outras culturas", pondera Tatiana Mendes, presidente da Belta, associação que congrega várias agências especializadas. Somado a tudo isso há o medo da violência. "Quero sair um pouco do Rio, porque muitas faculdades daqui ficam em locais perigosos, e acho que as universidades lá de fora têm mais tradição e história", afirma Beatriz Noronha, 17 anos, candidata a uma vaga em universidade inglesa.

Bianca, Fabiana, Mariana e Rafael no Salão do Estudante: o objetivo é estudar no Canadá

A maioria dos alunos, porém, tem outra razão para pegar o avião. "A motivação básica é a experiência de viver em uma sociedade diferente. A viagem é vista como uma fonte de enriquecimento pessoal", afirma a antropóloga Claudia Barcellos Rezende, professora do departamento de ciências sociais da Universidade do Estado do Rio, que estuda as experiências de adolescentes que fizeram intercâmbio escolar e de alunos de pós-graduação no exterior. "Os mais jovens cultivam a idéia de que morar fora os torna mais maduros e abertos a novas experiências." Escolhas é que não faltam. Hoje, agências de turismo, instituições de ensino e consulados oferecem desde cursinhos de inglês com um mês de duração no Canadá até aulas de culinária na Tailândia, passando por empregos temporários em estações de esqui dos Estados Unidos e cursos de graduação e pós na Europa.

Alix: temporada na Austrália e pesquisa para estudar na Inglaterra

Às vezes são as próprias universidades que estabelecem convênios de cooperação com escolas estrangeiras. Na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, os alunos podem cursar o quarto ano fora do Brasil. "Temos cinqüenta alunos nossos estudando fora e 26 estrangeiros cursando parte da faculdade aqui", conta o professor José Kós, coordenador de intercâmbio cultural da faculdade. Aos 27 anos, o estudante Adriano Romano Bruno acaba de voltar de uma temporada de um ano na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. "Recomendo para todo mundo: além de Portugal, conheci outros países e tive a oportunidade de visitar obras que só conhecia de livros, como o plano urbanístico de Barcelona", conta Adriano, que gastou cerca de 500 euros por mês (cerca de 1 400 reais) com hospedagem, alimentação, passeios e outros custos da viagem. Portugal é apenas um dos muitos países procurados pelos alunos. No ano passado, o governo francês emitiu 2.300 vistos para estudantes brasileiros, um aumento de 14% em relação ao ano anterior.

André Nazareth/Strana

Alice e Marina: depois do intercâmbio, planos de mestrado no exterior

No Rio, os programas mais populares têm sido os cursos de idioma e o trabalho temporário. Conta Thiago España, diretor da agência World Study: "Em 2001, quando abrimos escritório na cidade, os pais ainda torciam o nariz para os programas de trabalho. Muitos diziam: 'Meu filho vai viajar para fritar hambúrguer? Não o criei para isso'. Hoje é diferente. São os próprios pais que estimulam a experiência porque sabem que o filho amadurece e o mercado valoriza esse tipo de iniciativa". Foi o que aconteceu com Bruna de Lima Silva, 25 anos, moradora da Barra da Tijuca. Em 2002, quando estudava economia, Bruna desembolsou 2.000 dólares, fez as malas e partiu para a Carolina do Norte, nos Estados Unidos, disposta a aprimorar o inglês enquanto trabalhava como governanta num resort. Arranjou um segundo emprego – dormia quatro horas por noite –, aproveitou as folgas para conhecer cidades vizinhas e, quatro meses depois, voltou ao Brasil com 6.000 dólares no bolso. "Usei o dinheiro para várias coisas, inclusive a pós-graduação", diz. No ano seguinte, foi trabalhar na IBM. "Tenho certeza de que essa viagem pesou na minha contratação. Aqui lido com muitos americanos e a experiência no exterior me permitiu conhecê-los melhor. Além disso, alguém com nível superior que trabalha como governanta mostra que se adapta com facilidade a novas situações e está apta a desafios. A maioria das pessoas que trabalham comigo passou um período fora."

Estudar ou apenas se aventurar no exterior pode ter mesmo peso decisivo para conseguir o primeiro emprego. Segundo o headhunter André Bocater Szeneszi, da Case Consulting, especializada no recrutamento de executivos, três itens chamam atenção em um currículo: boa formação universitária, participação em projetos e experiência internacional. "Quem viaja aprende a lidar com a diversidade e também com frustrações", avalia. "Sem dúvida, profissionais com esse tipo de vivência são mais flexíveis e mais empreendedores." O advogado Marcelo Viveiros de Moura, 41 anos, é um exemplo do que uma temporada no exterior pode fazer pela carreira. Depois de um mestrado em Cambridge, na Inglaterra, seguido de um estágio, tornou-se sócio de um dos maiores escritórios de advocacia do Rio e presidente da Câmara Britânica de Comércio. "Foi fundamental na minha vida", reconhece. "Passei a entender como os europeus pensam e trabalham. Hoje atuo no recrutamento do meu escritório e sempre observo se o candidato teve exposição a outras culturas. No mundo de hoje, não dá para ficar isolado."

Alice e Marina: depois do intercâmbio, planos de mestrado no exterior

Apesar dos relatos entusiasmados de quem viajou, nem tudo são flores na rotina dos intercambistas. "Fui parar numa cidadezinha de 2.000 habitantes que não tinha cinema nem McDonald's. O programa era ir para a casa das pessoas. E eu tinha de voltar para a minha casa às 23 horas", acha graça Marina Ribeiro de Carvalho Duarte, 21 anos, quando se lembra do intercâmbio escolar que fez aos 16, no Texas. Alice Sant'Anna, 18 anos, meia-irmã de Marina, também enfrentou contratempos dois anos atrás, quando foi estudar na Nova Zelândia. "Fiquei na casa de uma família que parecia ótima", relata. "Mas no dia-a-dia eles eram frios e reclamavam que eu usava muito sabonete e comia muito pão. Acabei trocando de família." Foram os únicos senões. As duas gostaram tanto da viagem que planejam repetir a dose, cursando mestrado fora do Brasil. A estudante de jornalismo Juliana Marinho, 20 anos, quer mais aventura. Depois de ficar nove meses nos Estados Unidos no ano passado, ela já está com as malas prontas para embarcar de novo em maio. Desta vez, vai com o namorado, Mauro Ortega, de 19. "Aprendi muitas coisas, além do inglês: a administrar o meu dinheiro, a arrumar minhas coisas sozinha e, principalmente, a conviver com gente de todos os tipos", diz. "Quero que o meu namorado tenha essa mesma experiência. Vai ser a primeira vez que vamos dividir as contas e as responsabilidades."

Para evitar imprevistos, uma dica de especialistas e viajantes é listar os objetivos antes de escolher o destino e o programa que se pretende fazer (veja quadro na pág. 13). Aconselha Luís Magalhães, gerente-geral da Australian Education Centre, agência de turismo receptivo na Austrália: "Se você gosta de sair à noite, prefira uma cidade grande e não vá ficar na casa de um velhinho. Se não gosta de frio, fuja da Inglaterra no inverno. Um bom agente sempre ajuda a planejar melhor a viagem". Por enquanto, o intercâmbio ainda é uma moda jovem. A maioria dos viajantes tem entre 16 e 35 anos. Mas cada vez mais pessoas se deixam seduzir pela idéia de experimentar outras culturas. "Outro dia mandei pai e filho juntos para o Canadá, cada um com um programa específico, naturalmente", diz Thiago España, da World Study. "Hoje, há ofertas para todo tipo de público. Até para a terceira idade."

Pequeno manual de sobrevivência

Não viaje sem um bom seguro-saúde. Atendimento médico no exterior custa caro.

Planeje-se. Quem decide viajar em cima da hora perde as melhores vagas em cursos e empregos.

Para escolher a agência, informe-se com amigos que já viajaram, visite as instalações e prefira as que têm escritório no seu destino.

Conheça o responsável pelo intercâmbio na cidade de destino. Em caso de algum tipo de constrangimento no dormitório ou na casa onde se hospedar, procure-o imediatamente.

Analise o histórico de seus anfitriões para evitar hospedar-se com famílias de perfis totalmente diferentes do seu. Em caso de incompatibilidade, negocie a mudança com o coordenador do intercâmbio.

Se o objetivo da viagem é trabalhar, procure uma ocupação que se adapte ao seu perfil, porque lá é difícil mudar de emprego.

Estude o mapa da cidade onde vai ficar para evitar cair em vizinhanças hostis ou estar longe de seus locais de interesse.

Se o objetivo é estudo e vida social, escolha uma cidade grande. Se é imersão na cultura local, evite locais muito procurados por brasileiros.

Leve em consideração o clima e o estilo de vida do país. Nova Zelândia e Austrália são bem mais parecidos com o Rio do que a Inglaterra, por exemplo.

Atenção às leis locais. Em alguns lugares, dirigir embriagado pode custar multa superior a 3 000 dólares e até mesmo a deportação.



Sonhos de uma vida melhor

Carolina, Antônio e Paulo: de malas prontas para viver no Canadá

A preparação começou há quinze dias. Desde então, duas vezes por semana, Antônio Arêas Marques Monteiro, 5 anos, tem aulas de inglês. O objetivo é claro: preparar o menino para uma vida nova. Em julho, Antônio se mudará com a família para o Canadá. "Recebi uma boa oferta de emprego, mas o que mais pesa é a violência", conta Paulo Monteiro, 36 anos, o pai de Antônio. "Não só a violência que está nos jornais, mas a violência moral de viver num país em que absurdos acontecem todos os dias sem que ninguém faça nada." Paulo parte no dia 1º de maio. Vai trabalhar com a implantação de softwares. Sua mulher, a terapeuta floral Carolina Arêas, 38, irá depois com Antônio.

Em proporção muito menor do que os estudantes que vão fazer intercâmbio, há os cariocas – 217 nos últimos três anos – que tiraram visto de imigração no Consulado do Canadá. Por suas dimensões continentais e baixa densidade demográfica, o Canadá e a Austrália são países mais receptivos a imigrantes do que a maioria das nações do Primeiro Mundo. "Não vamos atrás de dinheiro. Estamos buscando paz e felicidade", diz Marcos Câmara, 25 anos, arquiteto, que irá para Sydney no fim do ano com a namorada, a bailarina Carolina Rocha, 26. "Quero ser turista no Brasil."



Algumas opções para quem quer viajar

Salão do Estudante: 7 000 jovens atrás de informações

Cursos de idiomas são os mais procurados. Entre os principais destinos estão Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália. Cursos de inglês com um mês de duração no Canadá custam a partir de 1 300 dólares (acomodação em casa de família e meia pensão incluídas). A passagem aérea (de 800 a 1 200 dólares) é paga à parte.

Há vários programas de trabalho temporário, como Work Experience USA, True, Work USA, AuPair e H2B, para jovens universitários. Oferecem empregos em locais como estações de esqui, hotéis, parques e cassinos americanos. Custam cerca de 2 000 dólares (com passagem). Lá se ganha de 5 a 15 dólares por hora de trabalho, fora gorjetas.

O programa Chevening, de bolsas de estudo de pós-graduação no Reino Unido, está com as inscrições abertas até 31 de julho. As bolsas são custeadas pelo governo britânico. Para quem pretende estudar na França, o sistema CampusFrance reúne informações sobre cursos, instituições, documentação necessária e custo de vida local.

INFORMAÇÕES:

IE-Intercambio: www.ie-intercambio.com.br,
3206-3050 e 3139-4156
World Study: www.worldstudy.com.br, 2494-9209
e 2274-3333
STB: www.stb.com.br, 2512-8577 e 3419-5701
Information Brazil: www.informationbrazil.com.au,
(11) 5186-5186
Belta: www.belta.org.br, (11) 3254-4333
CampusFrance: www.brasil.campusfrance.org,
(11) 3032-1214
Chevening: www.chevening.org.br
Cursos no Reino Unido: www.educationuk.org.br

     
   

 

 
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