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REPORTAGEM DE CAPA Personagens Paulo
Barros, carnavalesco
Todos
de olho nele Dilmar
Cavalher/Strana
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"Vou apostar sempre na
criatividade e na ousadia,
nunca no luxo" |
A
pergunta que ecoa às vésperas do Carnaval é: neste ano, enfim,
Paulo Barros ganhará seu primeiro título? Faz três anos que
ele arrebata a platéia e domina as manchetes com suas alegorias vivas e
criatividade plural. Mas vá entender não consegue
conquistar os julgadores, muito menos o campeonato. Bateu na trave duas vezes,
com o vice em 2004 e 2005. Nada que o convença a abrir mão da ousadia
em prol de um desfile menos arriscado. "Mesmo se fosse preciso para ganhar o título,
ainda assim eu não faria nada convencional", decreta. "Vou apostar sempre
na criatividade e na ousadia, nunca no luxo." Paulo Barros arrombou a festa e
escancarou a Passarela do Samba para novidades. "O desfile até pouco tempo
atrás eram catorze escolas e uma dança da cadeira entre os mesmos
carnavalescos. Depois de 2004 ocorreu a virada, com abertura para novas apostas",
diz ele. Foi em 2004 que a Unidos da Tijuca decidiu experimentar e deu uma oportunidade
ao carnavalesco que brilhara no Grupo de Acesso no ano anterior. No enredo sobre
Portinari, o carro feito com latas de tinta chamou atenção para
Paulo, então na segunda divisão do samba.
Foram três temporadas
na Tijuca, até o desembarque na Viradouro, uma semana após a Quarta-Feira
de Cinzas no ano passado. Em vez de sair de circulação uns dias,
como de hábito, o pós-desfile foi de batente. "A pior fase do Carnaval
vai da definição do enredo à criação da última
imagem. Escolho o tema pensando no retorno plástico", diz. O enredo escolhido,
A Viradouro Vira o Jogo, é um maná visual. Abrange dos cubos
mágicos ao cassino, runas, pinball e jogos olímpicos. Paulo tenta
se blindar contra a pressão pelos resultados. "Meu maior inimigo sou eu
mesmo. Não me pressiono. Eu me dou a oportunidade de ter a grande sacada",
afirma esse ex-comissário de bordo que mora numa casa em Camboinhas, Niterói,
com dois cachorros. "Não imaginava que fosse acontecer em torno de mim
essa explosão toda", afirma. A Viradouro quer virar o jogo. Paulo Barros
também. Kelly
Key, cantora
A
índia loira da Vila Isabel André
Valentim/Strana
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Kelly Key: de biquíni para mostrar a mistura
dos povos |
A
cantora Kelly Key já foi Eva em um carro abre-alas no desfile da Caprichosos
de Pilares do Carnaval de 1997. Era uma modelo anônima na festa da Sapucaí.
Dez anos depois, é o destaque da quarta alegoria do desfile da Vila Isabel.
"Será uma emoção diferente, meu primeiro desfile depois de
ficar famosa", diz. O traje mais uma vez será econômico. "Usarei
um biquíni bordado e terei algumas pinturas pelo corpo. A fantasia ficou
bonita, chique", garante Kelly, que explica o complexo significado de sua roupa:
"Represento a nativa do Novo Mundo, a mistura dos povos, por isso serei uma índia
loira". Os convites para voltar ao Sambódromo foram tantos que ela ficou
na dúvida na hora de escolher. "Não tenho escola do coração.
Acompanho os desfiles pela TV, mas, ao conhecer a Vila de perto, me identifiquei."
A concentração para o desfile da escola, a última a entrar
no domingo no Sambódromo, não será total. Antes, Kelly dá
uma passadinha em Salvador para conferir a folia local. Beth
Carvalho, sambista
Barrada
na festa André
Valentim/Strana
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Beth: impedida de
desfilar em carro alegórico |
Beth
Carvalho faz a conta: são 36 anos de Mangueira. Seja no chão, seja
sobre um carro alegórico, com fantasia ou sem, ela é sempre destaque.
Mas neste Carnaval a cantora foi excluída do desfile de sua escola do coração.
Com dores nas costas, ela pediu para sair em um carro, mas o pedido foi negado.
"Liguei para o Max Lopes (carnavalesco da Mangueira), que prometeu falar
com o presidente. No dia seguinte, voltei a procurá-lo, mas ele não
atendeu porque estava em uma entrevista", conta Beth. Na verdade, Max disse ao
assistente que não queria falar com ela, frisou que Beth não desfilaria
em um carro da escola e demonstrou irritação com a "insistência"
da cantora. O comunicado oficial veio pelo presidente da escola, Percival Pires.
"Ele disse ao meu empresário que não havia lugar, para não
insistir mais." Beth ficou magoada. Mas não a ponto de desistir de sua
Mangueira. Convidada a desfilar por várias outras escolas, ela recusou.
"Agradeço os convites que tenho recebido. Mas, sem desfilar na Mangueira,
não faz sentido sair em outro lugar." Apesar do aborrecimento, Beth confirma
presença no Sambódromo. "Adoro Carnaval, adoro as escolas de samba.
Estarei em um camarote, torcendo pela Mangueira. As diretorias passam, a Mangueira
fica." Gracyanne
Barbosa, rainha de bateria
A
boa-nova do samba André
Nazareth/Strana
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Gracyanne: difícil
é sambar de
salto alto |
Tudo
ao mesmo tempo agora. Essa é a síntese do que será o mês
de fevereiro para Gracyanne Barbosa. Ela está na capa da Playboy
e vai debutar como rainha de bateria à frente dos ritmistas do Salgueiro,
no segundo dia de desfile. A maior dificuldade que a bailarina do grupo Tchakabum
enfrenta é sambar sobre uma plataforma de salto 15. "Não estou acostumada
a dançar de salto. Tenho feito aulas com um passista da escola", diz. Gracyanne
nasceu em Mato Grosso e veio fazer vestibular no Rio. Por morar perto, freqüentava
a quadra do Salgueiro. Custou a cair a ficha depois que ela foi escolhida para
substituir Carol Castro. "No primeiro ensaio técnico estava muito ansiosa
na avenida. Mas depois relaxei. Foi como se baixasse uma entidade em mim. A gente
vira outra pessoa." Carlinhos
Barzelai, estilista
Munição
para a guerra de vaidade das rainhas Dilmar
Cavalher/Strana
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Barzelai: o estilista é o queridinho das rainhas de bateria
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Entocado
em um dúplex no Bairro Peixoto, Carlinhos Barzelai tece os segredos de
cinco rainhas de bateria: Graziella Massafera, Juliana Paes, Luciana Gimenez,
Gracyanne Barbosa e Janaína Barbosa. "Uma chega e diz que quer arrasar
com a outra. É uma guerra de vaidades", conta ele, entre plumas e paetês,
num trabalho diuturno. A apoteose do estilista começou há sete anos,
quando confeccionou a fantasia de Susana Werner, ex-madrinha de bateria da Grande
Rio. Virou então o xodó das estrelas, a ponto de em 2004 a Grande
Rio ter alugado um apartamento próximo do Projac para que ele ficasse perto
das clientes. "Tinha encomenda de 25 atrizes da Globo. Fiquei recluso três
meses", diz ele, que cobra 10.000 reais por empreitada. "Minha marca é
o luxo. Uso penas de faisão branco e rajado e cristais Swarovski." Carlinhos
caiu na Sapucaí de pára-quedas. Filho mais velho de uma tradicional
família tijucana, nunca teve contato com o Carnaval. Nos anos 70, sua família
emigrou para Israel. Ele foi o único a permanecer no Rio. Com um diploma
de arquitetura na bolsa e pouco dinheiro no banco, conseguiu emprego como desenhista
numa loja de noivas. "Como entre novembro e fevereiro não há muito
casamento, resolvi brincar de fazer cabeças para o Carnaval", diz. "Fui
ficando conhecido e, em 2000, explodi." Masha
Miyazawa, ritmista Tem
japonês na bateria André
Nazareth/Strana
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Masha: muito estudo e boa dose de talento para sair na Vila
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Às
2h25 de segunda-feira, o japonês Masha Miyazawa encara a avenida trajando
a sua farda azul e branca. Depois de quatro anos de dedicação intensa,
ele conseguiu um lugar na bateria da Vila Isabel. "Nem acredito. Estou realizando
o meu maior sonho", diz, com sotaque carregado. Em 2003, Masha assistiu pela primeira
vez ao desfile das escolas na Sapucaí. "Peguei a doença", brinca.
Voltando ao Japão, conheceu um carioca chamado Damião, de 63 anos.
Juntos fundaram a Império do Samba, que passou a fazer apresentações
em Tóquio. "Ele me ensinou a batida da caixa", conta. Em 2004, Masha voltou
à cidade só para o Carnaval. E, no ano seguinte, o ex-jornalista,
de 36 anos, desembarcou no Rio com duas missões: estudar português
no curso para estrangeiros da UFRJ e mergulhar no samba. O português ainda
precisa de uma boa guaribada. Mas o samba ele tirou de letra. Estudou durante
um ano com o veterano mestre Trambique e, ao voltar para o Brasil, em outubro
do ano passado, passou a ensaiar com a Vila Isabel. "Tem muitos estrangeiros que
fazem curso com a gente. Mas nenhum desfila. O mestre Mug deu autorização
para o Masha sair porque ele é muito talentoso", atesta Kléber Fiúza,
diretor de bateria. Paula
Lima, ritmista
O
pioneiro toque feminino na verde-e-rosa André
Nazareth/Strana
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Paula: fazendo história na bateria mangueirense
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Ela
calça 35, mas vai desfilar com uma sandália dois números
maior. A fantasia também está mais larga, e não justinha,
como imaginava. São os percalços do pioneirismo. Paula Lima está
no naipe de doze mulheres que detonaram um bastião do machismo no samba.
A bateria da Mangueira, pela primeira vez, abriu suas portas para as ritmistas.
Ela soube da novidade pela mãe, que trabalha num projeto social da escola.
Como num musical, Paula submeteu-se a uma audição individual
e em grupo com os mestres de bateria para ser aprovada. Pelas suas contas,
havia pelo menos cinqüenta candidatas. Apenas uma dúzia vingou. "Acabou
que nós ficamos muito amigas e até formamos um grupo para shows",
diz. A união das moças foi uma autodefesa contra a má vontade
dos varões. "Tem muita gente que faz cara feia pra gente. Que faça.
No ano que vem vai ter ainda mais mulheres." Recepcionista de um consultório
médico na Barra, Paula encontrou resistência até na própria
casa. O pai, ritmista e compositor da Portela, reprovou a decisão da filha.
Mas ela foi em frente. "Caramba, estou na bateria da Mangueira. Sou uma pioneira."
Ricardo
Fernandes, diretor de Carnaval
Atento
às lições de Bernardinho Dilmar
Cavalher /Strana
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Ricardo: oito dias para cuidar do coração
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Ele
tem como modelo Bernardinho. Como o técnico de vôlei, Ricardo Fernandes
é obsessivo no treinamento. "Bernardinho vibra com o que faz", elogia Ricardo.
Outra semelhança é a intimidade com os títulos. Em nove anos
como diretor-geral de harmonia ou de Carnaval, ele faturou quatro títulos
e um vice, por três escolas. "Minha função é executar
as idéias do carnavalesco e cuidar para que nada dê errado na avenida",
diz o diretor de Carnaval do Salgueiro, em seu primeiro ano na escola. A fórmula
de Ricardo é simples: ensaiar, ensaiar, ensaiar e, se possível,
repetir tudo. Assim, ele sabe exatamente o andamento ideal do samba e faz as demarcações
da passagem de cada alegoria ao longo da avenida. A comissão de frente,
por exemplo, ele sabe que vai chegar ao fim do desfile com algo entre 36 e 38
minutos. A partir daí, planeja o restante. Ricardo tem 39 anos de idade
e 26 de Carnaval. Começou como componente da Imperatriz, e lá maturou
de coordenador de ala a diretor-geral de harmonia. Nos meses que antecedem o desfile,
o trabalho invade a madrugada, e ele dorme só cinco horas. A um mês
do Carnaval, ele passou mal na quadra e teve de se submeter a um cateterismo.
Oito dias depois, estava de volta ao barracão. "Carnaval é coisa
pra maluco", diz, com humor. Thatiana
Pagung, musa de bateria
Com
o samba no pé e na cabeça André
Nazareth/Strana
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Pagung: pesquisadora
do Carnaval
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Ela
é musa do Carnaval na prática e na teoria. Na prática, Thatiana
vai cruzar a Sapucaí com destaque à frente da bateria da Mocidade.
Na teoria, ela é uma estudiosa do Carnaval. Formada em cinema e a seis
meses de completar o curso do Instituto do Carnaval, ela há dois anos colhe
imagens que serão matéria-prima do documentário Do Barracão
à Apoteose 80 Minutos de Emoção, previsto para
estar concluído até o meio do ano. Thatiana negocia com uma editora
a publicação de suas duas monografias uma sobre como o cinema
e a TV vêem o desfile e a outra, o roteiro de seu filme. Como uma das diretoras
do departamento cultural da Mocidade, ela grava depoimentos sobre a velha-guarda.
Seu primeiro documentário, de 2004, é sobre um compositor local.
Dona de uma produtora, Thatiana é autora e atriz de peça infantil,
fez direção de atores e de arte para o cinema e já se arriscou
a fazer um curta de ficção, Cérbero. Num trabalho
bem menos intelectualizado, ela fez um ensaio sensual para uma revista que chega
às bancas depois do Carnaval. "Eu me sinto muito mais envaidecida quando
me elogiam pelo meu lado intelectual do que pela beleza. Se puder, passo o dia
estudando e esqueço de ir malhar."
O desfile passo a passo Curiosidades
As surpresas de cada escola |