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21 de fevereiro de 2007

REPORTAGEM DE CAPA

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REPORTAGEM DE CAPA


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O doce retorno à elite do samba

ESTÁCIO DE SÁ

 
André Valentim/Strana

Depois de dez anos na segunda e até na terceira divisão do Carnaval, a Estácio abre a festa como a única concorrente a reeditar um enredo. Ela repete o tema de vinte anos atrás, O Tititi do Sapoti, desta feita pelas mãos do carnavalesco Paulo Menezes, um dos talentos emergentes da Sapucaí. O enredo trata da fruta tipicamente tropical que se espalhou pelo mundo, virou sabor de chiclete e caiu no gosto de estrelas da Broadway. No abre-alas, uma referência aos maias, a primeira civilização a usar o sapoti. Depois entram na avenida os astecas, numa alegoria com o calendário, as máscaras e os vasos de sacrifício dos índios mexicanos em meio ao cenário de ruínas. O terceiro carro é uma pândega que mistura a chegada da corte portuguesa ao país e um baile funk. A escola passeia pelo Oriente e traz os guerreiros de terracota chineses – na verdade homens pintados. No último carro, uma homenagem às carnavalescas Rosa Magalhães e Lícia Lacerda, autoras do enredo original.

Fique de olho: no sexto carro, da Broadway, feito com chicletes. Foi usado 1 milhão de pastilhas, coladas uma a uma, num trabalho de vinte dias.


O TITITI DO SAPOTI
 

Compositores: Darcy do Nascimento, Djalma Branco e Dominguinhos do Estácio

Intérprete: Anderson Paz

Que tititi é esse
Que vem da Sapucaí
Tá que tá danado
Tá cheirando a sapoti

Baila no céu a esperança
O cheiro doce do perfume
Vem no ar
Olê, olê, olê
Vem de terra mexicana
Mandei buscar pra você
Sacode pra colher
Do pé que eu quero ver
Até o dia amanhecer
Dom João achou bom
Depois que o sapoti saboreou
Deu pra dona Leopoldina
A Corte se empapuçou
E mandou rapidamente
Espalhar no continente
Até o Oriente conheceu
E hoje no quintal da vida sou criança
Me dá que o sapoti é meu

Isso virou tutti-fruti
Tutti-multinacional
Virou goma de mascar
Roda pra lá e pra cá
Na boca do pessoal

 

Nem melhor nem pior. Diferente

IMPÉRIO SERRANO

 
Felipe Varanda /Strana

Exaltar a diversidade é o lema da Império Serrano, que realça personalidades como Einstein, Aleijadinho, Noel Rosa e a pintora mexicana Frida Kahlo. O abre-alas refere-se ao pioneirismo da escola, que criou os destaques e a comissão de frente. No último carro, uma homenagem à "loucura do Carnaval", como define o carnavalesco Jack Vasconcelos, com ênfase no artista plástico Bispo do Rosário. Dona Olegária, primeiro destaque de luxo do Rio, nos anos 50, estará no segundo carro. Vão passar Marcelo D2, Maria Rita, Pérola Faria e Marcos Frota. O samba é um dos pontos altos.

Fique de olho: No terceiro carro, com trinta homens vestidos de mulher, para lembrar a luta pela liberdade incondicional de Frida Kahlo. A coroa no abre-alas é a maior já feita pela escola, com 10 metros de diâmetro.


SER DIFERENTE É NORMAL. O IMPÉRIO SERRANO FAZ A DIFERENÇA NO CARNAVAL

Compositores: Arlindo Cruz, Maurição, Aloísio Machado, Carlos Senna e João Bosco

Intérprete: Nego

Eu quero ver
O amor florescer
Ser diferente é normal
E o Império taí
Pra levantar seu astral
Se liga no meu carnaval

Serrinha vem pedir respeito
Temos que olhar de outro jeito
Quem nasceu diferente
E venceu preconceito
A gente tem que admirar
Harmonizar pra ser feliz
Diferença social, pra quê?
Tá na cara que a beleza
Está nos olhos de quem vê
Romantismo irradia energia pra viver
Nesse mundo onde tudo é relativo
Minha escola é meu motivo
Meu maior prazer

A história do samba mudou
Bateria diferente
Olha o toque do agogô
No primeiro destaque e na comissão
As novidades verde-e-branco, meu irmão

Difícil

Conviver na adversidade
Com arte ser eficiente
Fazer da pintura sua liberdade
Fazer esculturas usando a paixão
Feitiço de poeta invade o coração
Divino é o poder da criação
Eu pergunto a você
Será que existe?
Limite entre a loucura e a razão

 

Estação Primeira em prosa e verso

MANGUEIRA

 
Felipe Varanda /Strana

A língua portuguesa pede passagem à Mangueira. "Queremos alertar para a importância da leitura", diz o carnavalesco Max Lopes. O desfile é grandioso, com 4.500 componentes – entre eles Debora Bloch, Julia Lemmertz, Leandra Leal, Luana Piovani,Maria Rita, Wagner Moura e Alexandre Borges – e oito carros. O primeiro deles é o Coliseu romano, com 50 metros de comprimento. Em seguida, uma caravela de 40 metros, numa referência às grandes navegações. E tem mais gigantismo: uma carta de Pero Vaz de Caminha vem num pergaminho de 30 metros. O enredo aborda ainda a chegada dos escravos, a miscigenação, as inspirações literárias e a tropicália. No último carro, Estação Primeira da Luz, desfilam cinco imortais da Academia Brasileira de Letras ao lado de 22 baluartes da verde-e-rosa. Um senão: um samba que exalta a língua portuguesa não deveria ter em seus versos o clichezérrimo "do Oiapoque ao Chuí".

Fique de olho: na teatralização do carro do Coliseu, com mais de 100 gladiadores, senadores, imperadores, dançarinas e gente do povo.


MINHA PÁTRIA É MINHA LÍNGUA, MANGUEIRA, MEU GRANDE AMOR. MEU SAMBA VAI AO LÁCIO E COLHE A ÚLTIMA FLOR

Compositores: Lequinho, Júnior Fionda, Anibal e Amendoim do Samba

Intérpretes: Clovis Pê, Eraldo Caê, Lequinho, China Branco e Zé Paulo

 Quem sou eu?
Tenho a mais bela maneira de expressar
Sou Mangueira, uma poesia singular
Fui ao Lácio e nos meus versos canto
a última flor
Que espalhou por vários continentes
Um manancial de amor
Caravelas ao mar partiram
Por destino, encontraram o Brasil
Nos trazendo a maior riqueza
A nossa língua portuguesa
Se misturou com tupi
Tupinambrasileirou
Mais tarde o canto do negro ecoou
Assim a língua se modificou

Eu vou nos versos de Camões
Às folhas secas caídas de Mangueira
É chama eterna, dom da criação
Que fala ao pulsar do coração

  Cantando eu vou
Do Oiapoque ao Chuí ouvir
A minha pátria é minha língua
Idolatrada obra-prima te faço imortal
Salve, poetas e compositores
Salve também os escritores
Que enriquecem a tua história
Ó, meu Brasil
Dos filhos deste solo és mãe gentil
Hoje a herança portuguesa nos conduz
À Estação da Luz

Vem no vira da Mangueira,
vem sambar
Meu idioma tem o dom de transformar
Faz do Palácio do Samba uma
casa portuguesa
É uma casa portuguesa com certeza

 

Aposta alta na inventividade

VIRADOURO

 
Felipe Varanda /Strana

Em seu primeiro ano na Viradouro, Paulo Barros passa longe da timidez típica dos estreantes. A exemplo de seus desfiles na Unidos da Tijuca, ele faz da criatividade sua principal aliada. Daí a Viradouro ser neste ano a escola que mais desperta a curiosidade geral. O carnavalesco inspirou-se nos jogos de mesa, adivinhação, tabuleiro e nos esportivos para levar à avenida alegorias majestosas, curiosas e deslumbrantes. As inovações são muitas. A bateria vai desfilar no topo da quarta alegoria. Em seguida entra na pista o Castelo de Cartas, confeccionado com 170.000 baralhos, que passará de cabeça para baixo. Mesmo. O monumental Onde Está Wally, com suas 82 portas, será interativo com a platéia. Os jogos retratados nas fantasias fogem do óbvio. Exemplos? O chinês tangram e a mancala, de origem africana.

Fique de olho: no carro do xadrez, o quarto a entrar, que transportará os 300 ritmistas pela passarela do samba.

A VIRADOURO VIRA O JOGO

Compositores: Gusttavo Clarão, Gilberto Gomes, Nando, Pablo e PC Portugal

Intérprete: Dominguinhos do Estácio  

Vamos mergulhar nessa jogada
A sorte está lançada
Hoje é o grande dia
No tabuleiro da emoção
Vou apostar na alegria
Pra ganhar seu coração
Meu cassino é fantasia
Vi nas cartas do tarô
O que o destino reservou
Mas se o tempo mudar
Aos búzios eu vou

E nesse jogo vou amar
Você é a dama do prazer
Um xeque-mate vou te dar
Quero vencer

Faço qualquer coisa
Pra deixar você feliz
De cartas, um castelo
De peças, um país
Essa diversão
É adrenalina em minha vida
A euforia toma conta da avenida
Respiro fundo
No pinball quero brincar
É perceber e desvendar
Quebrar a cabeça pra encontrar
Achar você no meio
dessa multidão
Chama que acende um povo
E faz do jogo a paixão

  Sou Viradouro e vou cantar
Com muito orgulho, com muito amor
Esse jogo vai virar
Eu quero ser o vencedor

 

Na avenida, tudo se transforma

VILA ISABEL

 
Felipe Varanda /Strana

A Vila Isabel mudou alguma coisa para que tudo permaneça igual ao ano passado e ela alcance neste Carnaval o bicampeonato, que seria o terceiro título de sua história. A primeira mudança foi a chegada de Cid Carvalho, ex-integrante da comissão de Carnaval da Beija-Flor que faz agora seu primeiro vôo-solo. As modificações também estão presentes no enredo, Metamorfoses: do Reino Natural à Corte Popular do Carnaval As Transformações da Vida. Primeira das oito alegorias.– todas com algum tipo de metamorfose –, o abre-alas é um camaleão que a cada passo muda de cor. A escola azul e branca enfoca a teoria da evolução de Darwin, as grandes navegações, a Revolução Industrial e a busca da imortalidade pelo homem. A abrangência do tema pode se transformar numa armadilha. Kelly Key, Letícia Spiller e o empresário Eike Batista são destaques.

Fique de olho: no terceiro carro, em que um vitral gótico da Idade Média se transforma numa pintura renascentista. A iluminação das alegorias da Vila Isabel é um deslumbre.

METAMORFOSES: DO REINO NATURAL À CORTE POPULAR DO CARNAVAL ­ AS TRANSFORMAÇÕES DA VIDA

Compositores: Evandro Bocão, André Diniz, Serginho 20, Carlinhos Petisco e Prof. Wladimir

Intérprete: Tinga

Vai brilhar minha Vila
Ainda mais linda
Num tempo que faz sonhar
Inspira a luz da Ciência
Mantém sua essência
E segue a se transformar
A mudar sua natureza
Pouco a pouco evoluindo
Imponente feito um humano
Seus passos vão refletindo

Renasce a luz da sabedoria
O homem se lança ao mar
O sonho é fonte dessa energia
E fabricando ilusões, renovar

Quero sempre me superar
Cruzar o céu, poder voar
Remodelar o que Deus criou
Brincando então de criador
A Vila também se modificou
No universo do Carnaval
Lindamente desabrochou
E o sonho fez real  

Samba não tem preconceito
Brancos, negros, iguais
Um beijo da Vila Isabel princesa
Metamorfose assim se faz

O artesanato high-tech de Padre Miguel

MOCIDADE INDEPENDENTE

 
Felipe Varanda /Strana

Enredo sobre o artesanato brasileiro é tão batido quanto barro em cerâmica. Mas Alex de Souza, carnavalesco da novíssima geração, promete uma abordagem diferente para o tema. O Futuro no Pretérito Uma História Feita a Mão é um preito aos artesãos e também uma crítica feroz à industrialização. O abre-alas, Grande Metrópolis, leva oitenta operários que farão performances em engrenagens, numa referência ao filme do cineasta alemão Fritz Lang, de 1927. Com a ajuda de efeitos especiais, a alegoria reproduz uma caldeira que expele homens-robôs. O carnavalesco caprichou no neon, marca registrada da escola. Há citações ao artesanato indígena do Amazonas, à cerâmica do Nordeste, aos doces caseiros de Minas Gerais e à culinária gaúcha. Vão passar: Rodrigo Santoro, Regina Casé, Marcos Palmeira, Elza Soares e Ana Hickmann.

Fique de olho: no sétimo carro, que leva escultores, aderecistas, ferreiros e costureiras que trabalharam no barracão da escola.

O FUTURO NO PRETÉRITO. UMA HISTÓRIA FEITA A MÃO

Compositores: Toco, Rafael Só e Marquinho Marino

Intérprete: Bruno Ribas

Divina criação
Do pó da terra ao sopro da vida
O Grande Artesão do universo
Legou ao homem a inspiração criativa
Ao deixar o paraíso, se fez preciso
Viver pelas próprias mãos
Com o passar do tempo
O mundo em evolução
Escravizado pela sua ambição
Vê o futuro ao simples toque do botão

Amar, viver, sonhar, acreditar
Que a alma é a fonte, energia da vida
Na máquina jamais se encontrará
A inspiração que faz nascer a poesia

Mãos que se entrelaçam

Da natureza, toda forma de expressão
Transborda em cada peça, sua imaginação
Tão belas, tão lindas
Uma cultura em cada região
Aplausos às estrelas da folia
O sonho se transforma em alegria
Sou eu, tenho samba no pé, sou sambista
Nas mãos, o talento de artista
Eu me orgulho de ser artesão

Um Brasil feito a mão
Um só coração, liberdade!
Da emoção, eu faço a arte
Em verde e branco, com a Mocidade

Personagens do Carnaval
O desfile passo a passo
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