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20 de dezembro de 2006

REPORTAGEM DE CAPA

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CRÔNICA
  

CRÔNICA

Meu anjo da guarda

Tutty Vasques

Quando dava por mim ali sentadinho na cadeira fria de ambulatório – cabeça em design príncipe Danilo enfiada entre as pernas de calça curta retrô –, eu tinha uma vaga noção dos procedimentos a seguir. Recobrava a consciência me guiando por aquela voz: "Faz força pra cima, faz força pra cima...", dizia-me alguém, não necessariamente a mesma pessoa que pressionava minha nuca para baixo. A sensação de desmaio é uma velha conhecida. Fomos apresentados no hospital em que minha avó convalescia não sei muito bem de quê, naquela época não chamavam certas doenças pelo nome na frente das crianças. Eu tinha uns 8 anos, e todo domingo por um bom período da vida – me pareceu uma eternidade – saíamos de casa eu, minhas irmãs e meus pais para visitar a queridíssima vovó Deolinda. Eu queria mesmo vê-la, me arrumava todo para isso, mas acho que meu recorde entre a recepção junto ao pronto-socorro e o quarto da velha foram vinte passos, até cair o pano. Teto preto! Quando dava por mim, estava ali sentadinho na cadeira fria de ambulatório: "Faz força pra trás, faz força pra trás..."

Não sei se era o cheiro do éter, o contato com a fragilidade do corpo humano no vaivém de macas apressadas ou o despreparo dos acompanhantes dos enfermos para lidar com a doença, só sei que eu, moleque ainda, recorria ao apagão, desfalecia. E pronto. Até certa idade toda esquisitice é compreensível. "Esse menino não anda se alimentando direito!" Fui crescendo com essa sensação de pânico de hospital e por muitas vezes, já rapazinho, precisei sair às pressas, ou recorrer a uma janela próxima para pegar um pouco de ar, qualquer coisa que me livrasse do mico de cair duro, de testa no chão, no meio de um bate-papo de porta de UTI. Pior ainda, temia desabar desfalecido no colo de um moribundo que passava em cadeira de rodas rumo à ressonância magnética.

Antes que meu pai me perguntasse se não queria estudar medicina, eu me decidi pela engenharia, que era uma forma de não lhe desagradar completamente. Quando ele se deu conta, eu já estava fazendo jornalismo, e nada – nem mesmo o horror de cobrir a remoção de corpos putrefatos sob escombros de desabamento – me curava daquela sensação de estar morrendo junto com toda a humanidade sempre que entrava num hospital. Rezava todos os dias para que a redação não me mandasse reportar o atendimento a vítimas de acidente de trem, por exemplo. Morreria de vergonha se tirasse a vaga de alguém que precisasse mais que eu de socorro médico.

De uns 10 anos pra cá – prometo poupá-los das circunstâncias –, fui mais a hospital do que à Lapa. Explico: pessoas que eu amo muito têm tomado mais soro e plasma do que chope ultimamente. Assíduo desse jeito, acabei percebendo que, como em qualquer mesa de bar, rola muita conversa solidária entre carentes nas ante-salas de centros cirúrgicos, UTIs, emergências, semi-intensivas... "Foi sua mãe que enfartou?" O fantasma da morte de certa forma até melhora o ser humano. A arrogância não costuma freqüentar hospitais. Todos os homens são iguais quando metidos naquele avental que deixa o traseiro de fora, condição degradante que contagia a turma da sala de espera até do Samaritano, onde só os muito ricos se cuidam.

Aprendi a respeitar os que lidam com o desespero – o próprio e o dos outros –, mas o que foi definitivo na superação de meu trauma de hospitais foi a penca de médicos incríveis que conheci tratando de meus familiares. Profissionais competentes, abnegados, cultos, bem-humorados, a antimáfia de branco, para usar – ainda que em oposição – um epíteto mal empregado aos erros médicos, em geral provocados muito mais pela ignorância do que pela ganância do doutor. Bons médicos são o principal antídoto ao medo de hospital.

Foi o doutor José Balli, anotem aí o nome dele por favor, que me mostrou com maior freqüência que hospital é – ou pelo menos deve ser – o lugar onde se salvam vidas em perigo. Balli é cardiologista de marca maior, mas faz o gênero médico-médico. Sua especialidade não o impede de vasculhar todo o organismo de seus pacientes. Mais: já o vi desconfiando da precisão de aparelhos de medir pressão, ensinando enfermeira a puncionar veias, levando ao banheiro doentes que temiam se levantar da cama...

Balli pode se dar ao luxo de não trabalhar com nenhum tipo de convênio em seu consultório particular – tem horror à mercantilização da medicina –, mas ostenta com orgulho os 36 anos de serviço público prestados no Hospital de Ipanema, aonde vai todos os dias. Já salvou a vida de muito caído na rua, mobilizando na base da camaradagem cirurgiões cinco-estrelas e equipes especializadas em exames sofisticados, vedados aos desvalidos. Doutor Balli não existe, é um anjo da guarda, desses que dão sentindo verdadeiro de solidariedade ao Natal.

É pensando nele que desejo Feliz Natal a todos que passarão a data em hospitais. Que Deus lhes reserve ambientes tão familiares quanto para mim é a Casa de Saúde São José. Da última vez que estive por lá, dez dias faz, fui saudado com dois beijinhos pela chefe da unidade coronariana. "Oi, você de novo por aqui?" Que simpatia, a Teresa! Papai ainda estava lá dentro aguardando alta quando uma outra moça, a dos olhos indescritíveis de tão lindos, piscou pra mim antes de desaparecer pelo corredor restrito que leva ao centro de diagnóstico de imagens. Quase desmaiei outra vez!


E-mails para o cronista: tutty@nominimo.com.br

     
   

 

 
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