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CRÔNICA
Meu anjo da guarda Tutty
Vasques Quando dava por mim ali sentadinho
na cadeira fria de ambulatório cabeça em design príncipe
Danilo enfiada entre as pernas de calça curta retrô , eu tinha
uma vaga noção dos procedimentos a seguir. Recobrava a consciência
me guiando por aquela voz: "Faz força pra cima, faz força pra cima...",
dizia-me alguém, não necessariamente a mesma pessoa que pressionava
minha nuca para baixo. A sensação de desmaio é uma velha
conhecida. Fomos apresentados no hospital em que minha avó convalescia
não sei muito bem de quê, naquela época não chamavam
certas doenças pelo nome na frente das crianças. Eu tinha uns 8
anos, e todo domingo por um bom período da vida me pareceu uma eternidade
saíamos de casa eu, minhas irmãs e meus pais para visitar
a queridíssima vovó Deolinda. Eu queria mesmo vê-la, me arrumava
todo para isso, mas acho que meu recorde entre a recepção junto
ao pronto-socorro e o quarto da velha foram vinte passos, até cair o pano.
Teto preto! Quando dava por mim, estava ali sentadinho na cadeira fria de ambulatório:
"Faz força pra trás, faz força pra trás..."
Não
sei se era o cheiro do éter, o contato com a fragilidade do corpo humano
no vaivém de macas apressadas ou o despreparo dos acompanhantes dos enfermos
para lidar com a doença, só sei que eu, moleque ainda, recorria
ao apagão, desfalecia. E pronto. Até certa idade toda esquisitice
é compreensível. "Esse menino não anda se alimentando direito!"
Fui crescendo com essa sensação de pânico de hospital e por
muitas vezes, já rapazinho, precisei sair às pressas, ou recorrer
a uma janela próxima para pegar um pouco de ar, qualquer coisa que me livrasse
do mico de cair duro, de testa no chão, no meio de um bate-papo de porta
de UTI. Pior ainda, temia desabar desfalecido no colo de um moribundo que passava
em cadeira de rodas rumo à ressonância magnética.
Antes que meu pai me perguntasse se não queria estudar medicina, eu me
decidi pela engenharia, que era uma forma de não lhe desagradar completamente.
Quando ele se deu conta, eu já estava fazendo jornalismo, e nada
nem mesmo o horror de cobrir a remoção de corpos putrefatos sob
escombros de desabamento me curava daquela sensação de estar
morrendo junto com toda a humanidade sempre que entrava num hospital. Rezava todos
os dias para que a redação não me mandasse reportar
o atendimento a vítimas de acidente de trem, por exemplo. Morreria de vergonha
se tirasse a vaga de alguém que precisasse mais que eu de socorro médico.
De uns 10 anos pra cá
prometo poupá-los das circunstâncias , fui mais a hospital
do que à Lapa. Explico: pessoas que eu amo muito têm tomado mais
soro e plasma do que chope ultimamente. Assíduo desse jeito, acabei percebendo
que, como em qualquer mesa de bar, rola muita conversa solidária entre
carentes nas ante-salas de centros cirúrgicos, UTIs, emergências,
semi-intensivas... "Foi sua mãe que enfartou?" O fantasma da morte de certa
forma até melhora o ser humano. A arrogância não costuma freqüentar
hospitais. Todos os homens são iguais quando metidos naquele avental que
deixa o traseiro de fora, condição degradante que contagia a turma
da sala de espera até do Samaritano, onde só os muito ricos se cuidam.
Aprendi a respeitar os que lidam com
o desespero o próprio e o dos outros , mas o que foi definitivo
na superação de meu trauma de hospitais foi a penca de médicos
incríveis que conheci tratando de meus familiares. Profissionais competentes,
abnegados, cultos, bem-humorados, a antimáfia de branco, para usar
ainda que em oposição um epíteto mal empregado aos
erros médicos, em geral provocados muito mais pela ignorância do
que pela ganância do doutor. Bons médicos são o principal
antídoto ao medo de hospital.
Foi o doutor José Balli, anotem aí o nome dele por favor, que me
mostrou com maior freqüência que hospital é ou pelo menos
deve ser o lugar onde se salvam vidas em perigo. Balli é cardiologista
de marca maior, mas faz o gênero médico-médico. Sua especialidade
não o impede de vasculhar todo o organismo de seus pacientes. Mais: já
o vi desconfiando da precisão de aparelhos de medir pressão, ensinando
enfermeira a puncionar veias, levando ao banheiro doentes que temiam se levantar
da cama... Balli pode se dar ao luxo
de não trabalhar com nenhum tipo de convênio em seu consultório
particular tem horror à mercantilização da medicina
, mas ostenta com orgulho os 36 anos de serviço público prestados
no Hospital de Ipanema, aonde vai todos os dias. Já salvou a vida de muito
caído na rua, mobilizando na base da camaradagem cirurgiões cinco-estrelas
e equipes especializadas em exames sofisticados, vedados aos desvalidos. Doutor
Balli não existe, é um anjo da guarda, desses que dão sentindo
verdadeiro de solidariedade ao Natal. É
pensando nele que desejo Feliz Natal a todos que passarão a data em hospitais.
Que Deus lhes reserve ambientes tão familiares quanto para mim é
a Casa de Saúde São José. Da última vez que estive
por lá, dez dias faz, fui saudado com dois beijinhos pela chefe da unidade
coronariana. "Oi, você de novo por aqui?" Que simpatia, a Teresa! Papai
ainda estava lá dentro aguardando alta quando uma outra moça, a
dos olhos indescritíveis de tão lindos, piscou pra mim antes de
desaparecer pelo corredor restrito que leva ao centro de diagnóstico de
imagens. Quase desmaiei outra vez! E-mails
para o cronista: tutty@nominimo.com.br
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