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20 de setembro de 2006

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CRÔNICA

Zingarella

Manoel Carlos

Certa noite, na Itália, quando eu vinha

para o meu quarto, achei-a junto à porta.

Era tão bela, mas tão pobrezinha!

De sono e frio estava quase morta!

Fui um adolescente romântico, como quase toda a minha geração. Já gostávamos da poesia moderna, mas sem desprezar Castro Alves, Varella, Gonçalves Dias ou mesmo Casimiro de Abreu. Não. Não fomos ingratos e menos ainda cruéis com os românticos. Nem mesmo com os parnasianos, como Bilac. Líamos todos eles porque ler era o grande barato da minha geração. Já contei aqui que dizíamos versos nas festas. E que até conseguíamos encantar as meninas com esses recitais.

Ela, pálida e franzina,

eu, de sobretudo roto:

Buona sera, signorina!

– Buona sera, giovanoto!

Esse Zingarella era um dos meus poemas prediletos, meu cavalo de batalha, para despertar o interesse das garotas. Posso afirmar, hoje, sem com isso parecer pretensioso, que não dizia mal esses versos, que estão entre os mais românticos da poesia brasileira. Continuando com o poema:

Ofereci-lhe o quarto de estudante,

de minha estreita cama fiz a sua,

e enquanto ela dormia, palpitante,

eu vagava, sem teto, pela rua.

Percebam a generosidade do estudante pobre, oferecendo sua cama em troca de nada. Isso sem nenhum interesse visível em transformar aquela relação fraternal em algo mais.

De manhã, voltando à casa,

perguntei o nome dela:

– Come te chiami, ragazza?

– Io mi chiamo Zingarella.

Claro que o amor sempre vingava nessas histórias, e os dois, dormindo na mesma cama, logo despertariam para ele. Afinal eram jovens, pobres e sentiam frio. Mas vejam como o início da relação carnal aparece descrito:

Depois... eu tinha vinte e três janeiros,

ela contava quinze primaveras.

Eram tão juntos nossos travesseiros...

Veio a paixão. Amamo-nos deveras...

Pode existir maneira mais sutil de narrar a atração que surgiu entre eles do que essa de mencionar a proximidade dos travesseiros? E fica claro que não foi de imediato que aconteceu. Não. Devem ter passado várias noites, um dormindo ao lado do outro, como irmãos. Até que um dia... pela proximidade dos travesseiros, surgiu a paixão. E foi ela que acendeu o desejo. A relação amorosa só foi consumada depois que se apaixonaram. Tão maduros e, no entanto, tão jovens: 15 e 23 anos. E eu seguia, impávido, diante das meninas, recitando Zingarella:

Foi o quadro mais risonho

desta vida fugidia!

– Zingarella, sei mio sogno!

E tu sei la vita mia!

Temos a impressão, até aqui, de estarmos diante de um caso de amor eterno. Já ficamos torcendo pelo final feliz, que tem como fecho o "casaram-se e tiveram muitos filhos". Mas não. A relação não é eterna.

Mas, um dia, ao voltar do meu estudo,

cheio de mágoas, de ânsias e de frio,

não encontrei seus olhos de veludo.

O quarto estava gélido e vazio.

É de cortar o coração. Mas o romantismo era assim mesmo: um poço de tristeza. Um livro de mágoas, no qual a desilusão escrevia suas páginas mais inspiradas. O estudante ainda insiste, esperançoso:

Grito embalde o nome dela,

numa tristeza infinita:

– Dove sei, o Zingarella?

– Dove sei, o mia vita?

Minha mãe, que algumas vezes participava dos nossos saraus, sempre que chegava nesse ponto comentava que o poema era bonito, mas muito triste. E vem, finalmente, o conformismo, a aceitação:

E a minha vida prosseguiu inglória...

Fiz coisas de rapaz, não me envergonho

de recordar ainda aquela história

quase desvanecida, como um sonho.

Conheci o autor desses versos, o poeta paulista, de Santos, Afonso Schmidt. Era um homem simples, afável, que morreu em 1964, com mais de 70 anos. Uma vez falei com ele sobre o poema. E Schmidt:

– É uma história verdadeira. Aconteceu comigo nos anos 20.

Nada mais romântico, não acham? E o poema termina com a lembrança que o estudante tem daquele primeiro encontro:

Ela, pálida e franzina,

eu, de sobretudo roto...

– Buona sera, signorina!

– Buona sera, giovanoto!

Posso garantir a vocês que, com esse fecho, há quase sessenta anos, as meninas iam ao delírio. E eu agradecia, modestamente.

 

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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