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CRÔNICA
Zingarella
Manoel
Carlos Certa
noite, na Itália, quando eu vinha
para
o meu quarto, achei-a junto à porta.
Era
tão bela, mas tão pobrezinha!
De
sono e frio estava quase morta! Fui
um adolescente romântico, como quase toda a minha geração.
Já gostávamos da poesia moderna, mas sem desprezar Castro Alves,
Varella, Gonçalves Dias ou mesmo Casimiro de Abreu. Não. Não
fomos ingratos e menos ainda cruéis com os românticos. Nem mesmo
com os parnasianos, como Bilac. Líamos todos eles porque ler era o grande
barato da minha geração. Já contei aqui que dizíamos
versos nas festas. E que até conseguíamos encantar as meninas com
esses recitais. Ela,
pálida e franzina, eu,
de sobretudo roto:
Buona sera, signorina!
Buona sera, giovanoto! Esse
Zingarella era um dos meus poemas prediletos, meu cavalo de batalha, para
despertar o interesse das garotas. Posso afirmar, hoje, sem com isso parecer pretensioso,
que não dizia mal esses versos, que estão entre os mais românticos
da poesia brasileira. Continuando com o poema: Ofereci-lhe
o quarto de estudante,
de
minha estreita cama fiz a sua,
e
enquanto ela dormia, palpitante,
eu
vagava, sem teto, pela rua. Percebam
a generosidade do estudante pobre, oferecendo sua cama em troca de nada. Isso
sem nenhum interesse visível em transformar aquela relação
fraternal em algo mais. De
manhã, voltando à casa, perguntei
o nome dela:
Come te chiami, ragazza?
Io mi chiamo Zingarella. Claro
que o amor sempre vingava nessas histórias, e os dois, dormindo na mesma
cama, logo despertariam para ele. Afinal eram jovens, pobres e sentiam frio. Mas
vejam como o início da relação carnal aparece descrito:
Depois... eu
tinha vinte e três janeiros,
ela
contava quinze primaveras.
Eram
tão juntos nossos travesseiros...
Veio
a paixão. Amamo-nos deveras... Pode
existir maneira mais sutil de narrar a atração que surgiu entre
eles do que essa de mencionar a proximidade dos travesseiros? E fica claro que
não foi de imediato que aconteceu. Não. Devem ter passado várias
noites, um dormindo ao lado do outro, como irmãos. Até que um dia...
pela proximidade dos travesseiros, surgiu a paixão. E foi ela que acendeu
o desejo. A relação amorosa só foi consumada depois que se
apaixonaram. Tão maduros e, no entanto, tão jovens: 15 e 23 anos.
E eu seguia, impávido, diante das meninas, recitando Zingarella:
Foi o quadro
mais risonho
desta
vida fugidia!
Zingarella, sei mio sogno!
E tu sei la vita mia! Temos
a impressão, até aqui, de estarmos diante de um caso de amor eterno.
Já ficamos torcendo pelo final feliz, que tem como fecho o "casaram-se
e tiveram muitos filhos". Mas não. A relação não é
eterna. Mas,
um dia, ao voltar do meu estudo,
cheio
de mágoas, de ânsias e de frio,
não
encontrei seus olhos de veludo.
O
quarto estava gélido e vazio. É
de cortar o coração. Mas o romantismo era assim mesmo: um poço
de tristeza. Um livro de mágoas, no qual a desilusão escrevia suas
páginas mais inspiradas. O estudante ainda insiste, esperançoso:
Grito embalde
o nome dela,
numa
tristeza infinita:
Dove sei, o Zingarella?
Dove sei, o mia vita? Minha
mãe, que algumas vezes participava dos nossos saraus, sempre que chegava
nesse ponto comentava que o poema era bonito, mas muito triste. E vem, finalmente,
o conformismo, a aceitação: E
a minha vida prosseguiu inglória...
Fiz
coisas de rapaz, não me envergonho
de
recordar ainda aquela história
quase
desvanecida, como um sonho. Conheci
o autor desses versos, o poeta paulista, de Santos, Afonso Schmidt. Era um homem
simples, afável, que morreu em 1964, com mais de 70 anos. Uma vez falei
com ele sobre o poema. E Schmidt:
É uma história verdadeira. Aconteceu comigo nos anos 20.
Nada mais romântico,
não acham? E o poema termina com a lembrança que o estudante tem
daquele primeiro encontro: Ela,
pálida e franzina, eu,
de sobretudo roto...
Buona sera, signorina!
Buona sera, giovanoto! Posso
garantir a vocês que, com esse fecho, há quase sessenta anos, as
meninas iam ao delírio. E eu agradecia, modestamente. E-mails
para o cronista: almaviva@uninet.com.br |