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20 de junho de 2007

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CRÔNICA
   

CRÔNICA

Sorria, você está num museu!

Tutty Vasques


Vida de cronista é um inferno. Está difícil, caros leitores, muito difícil escapar do lugar-comum que andam sussurrando no breu das tocas. Vocês sabem do que estou falando: todo dia o noticiário nos incita à ladainha dos indignados. É preciso resistir à tentação de virar porta-voz do que estão falando alto pelos botecos: "basta!", "assim não dá!", "onde vamos parar?", "a situação está fora de controle", "é o fim do mundo", enfim, o famoso estado de coisas a que chegamos, o tal lugar-comum que anda nas cabeças, anda nas bocas.

O que será que será que resta dizer quando não se quer falar no que não tem conserto nem nunca terá? O pior é que o queixume faz um sucesso danado: o leitor – ô raça! – adora quem dá forma escrita ao senso comum do pessimismo. Soa verdadeiro, autêntico e corajoso declarar que não dá mais para viver no Rio de Janeiro, que o Brasil não tem governo nem nunca terá, a conversa mole de sempre.

Nessas horas o melhor é ir buscar inspiração lá fora, deixar-se surpreender pela cidade que, basta olhar a paisagem em volta, não é, positivamente, lugar comum. Lá fui eu, do CCBB vizinho da Candelária ao Sesc Copacabana, dia de luz, festa de sol, lagoa, mar, baía, uma tarde inteira no circuito mais popular e democrático do balneário, experimente só dar uma olhada no roteiro cultural de museus e galerias. Na semana passada, contei 21 opções grátis de programas do gênero, alguns instalados em raros templos cariocas do Primeiro Mundo das artes.

A tal "cidade partida" que Zuenir Ventura diagnosticou há mais de uma década parece sarada nas mostras e exposições em cartaz no Rio de Janeiro. Vêem-se muito mais negros e suburbanos hoje em eventos de artes plásticas do que em teatros, por exemplo. A paisagem humana é por vezes mais brasileira na Casa França-Brasil do que num multiplex desses qualquer.

O carioca como ele é – alô, alô, Realengo, aquele abraço! – está exposto na instalação Auto-retrato Falado, cujo resultado vai tomando as paredes do estande montado no foyer do CCBB. O projeto do multimídia Jair de Souza convida o público a construir a própria imagem a partir de 8 000 elementos faciais captados no rosto de 1 000 pessoas de todas as idades, sexos e origens fotografadas uma a uma, seletivamente, nos quatro cantos da cidade. Um trabalho cão para uma experiência que está se revelando fantástica na prática.

Funciona assim:

O participante é chamado a uma cabine onde é fotografado por uma webcam e, com auxílio de operadores de um software de retrato falado, vai montando na tela do computador como imagina seu contorno do queixo, o desenho da boca, o nariz, o cabelo, só de olhos são mais de 1 500 pares a escolher. O processo dura vinte minutos e, no final, o auto-retrato falado é impresso ao lado da foto real em um postal.

Ainda que você não queira participar, vale a pena conferir o mural da mestiçagem que vai tomando conta da instalação. Alguns ficam parecidíssimos, outros bem mais bonitos, há também quem mude de sexo, de identidade, de cor... Um andar acima, o museu oferece as mostras China Hoje e Instantâneos da Felicidade (Coleção Maison de la Photographie de Paris), tudo de graça. Do outro lado da rua, na Casa França-Brasil, passei uma boa meia hora tentando entender o processo criativo do francês Georges Rousse em suas fotos de intervenções artísticas em ambientes arquitetônicos, um negócio louquíssimo.

Programão que pode se estender sem custos por muitos outros espaços de arte espalhados pela cidade. Optei por aproveitar o tempo que restava até o pôr-do-sol para dar uma olhada na estranha sensualidade das fotos de Irina Ionesco (Espelhos de Luz e Sombra), cartaz da galeria Sesc Copacabana, e nem sei se fiz a melhor escolha. Tinha a Foto-Rio 2007, no Centro Cultural Justiça Federal, com onze individuais de craques como Rogério Reis e Cássio Vasconcelos, mais a pintora Vera Fischer em Botafogo, Portinari no Moreira Salles, Valéria Costa Pinto na Casa do Saber...

Faça você o seu roteiro e, ao voltar para casa, experimente a sensação de que o Rio de Janeiro do noticiário – esse que não tem vergonha, decência ou juízo – é mera ficção. Ou não seria habitado por esse povo educado que a gente encontra quando visita o mundo das artes plásticas. Pode até não ser bem assim, museu não é exatamente marca registrada do lugar onde vivemos, mas é um santo remédio para a auto-estima ferida do carioca. Xô, depressão! Ao primeiro sinal de indignação crônica, dê um pulinho no CCBB. É tiro e queda! A persistirem os sintomas, procure um médico.

e-mail: tutty@nominimo.com.br

         
     

 

 
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