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20 de junho de 2007

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A festeira da Lagoa

Bem-sucedida e cheia de amigos, a estilista Lenny Niemeyer agita o circuito chique do Rio

Fátima Sá

André Valentim/Strana
Lenny, com seu golden retriever Maddox: "Luxo é saber viver. Quer coisa mais luxuosa do que ter tempo para os amigos e a família?"

A estilista, anfitriã e carioca honorária Lenny Niemeyer não cultiva baixo-astral. Se acorda menos animada, espia a Lagoa pelo janelão de seu apartamento – apartamento, não: um prédio inteiro, como se verá adiante – e convoca os amigos para um jantar horas depois. Complicar a vida não é com ela. Festejá-la, sim. Capaz de flanar entre empresários, jornalistas, modelos e famosos em geral, ela é a hostess mais celebrada do Rio. Afinal, quem mais abriria a própria casa para 700 pessoas numa noite de quarta-feira, com bebida de primeira e pista de dança funcionando até as 8 da manhã? A festa, no último dia 6, foi o jeito Lenny de comemorar o desfile de sua grife de moda praia no Fashion Rio. Todo ano é assim. Seu prestígio pode ser medido em duas frentes: na platéia da semana de moda carioca, que neste ano teve até a socialite Carmen Mayrink Veiga, e na freqüência da celebração pós-desfile, que já atraiu Ronaldo Fenômeno, Guga, Caetano Veloso e as modelos Naomi Campbell, Letícia Birkheuer e Ana Beatriz Barros. "Anfitriã igual a ela não existe em lugar nenhum do Brasil", diz a relações-públicas Lalá Guimarães. "Ela consegue receber com glamour e simplicidade ao mesmo tempo."

Festeira desde criança, Lenny adora abrir a casa. Todo domingo comanda um tradicional almoço só para os mais íntimos – que, no seu caso, podem chegar facilmente a vinte pessoas. Assume a cozinha, de onde saem massas com camarão, vitela assada, risotos. "Luxo para mim é saber viver", diz ela, entre tragadas de seus cigarros mentolados invariavelmente encaixados numa piteira da grife inglesa Dunhill. "Quer coisa mais luxuosa do que ter tempo para os amigos e a família?" A mais recente comemoração, regada a champanhe francês e vodca sueca, avançou sobre a calçada em frente ao prédio. Ali, uma tenda emendava com os salões, decorados com 120 dúzias de antúrios. Como sempre, dançou, bebericou, abraçou cada um, bateu papo. E às 5h30, também como sempre, retirou-se à francesa, subiu para seu quarto e foi dormir, ignorando o barulho que seguia. Os mais animados saíram de lá após o café-da-manhã, enquanto tudo era desmontado e limpo. "Não me preocupo com a casa", explica. "Os convidados são todos amigos e amigos de amigos. Mas, quando eu acordo, não pode ter sinal de festa, copo, cinzeiro. Gosto de encontrar tudo arrumado."

O lado festeiro ela herdou do pai – o fazendeiro Waldemar Ortiz, morto há vinte anos e dono de uma notável biblioteca, que reunia mais de 20 000 livros apenas sobre o Brasil, fora mapas e outros títulos. "Ele adorava ter gente em casa", lembra a jornalista Sônia Racy, que conheceu a estilista trinta anos atrás. Nascida em Santos, Lenny – aliás, Maria Helena Ortiz – mudou-se para São Paulo aos 15 anos. Estudou desenho industrial e foi colega de estágio de Sig Bergamin, uma das estrelas brasileiras da arquitetura de interiores. Andava para cima e para baixo a bordo de um MG verde, de capota arriada, já de piteira entre os dedos, cabelo louro ao vento. Num fim de semana, conheceu o neurocirurgião carioca Paulo Niemeyer, com quem se casou em 1979. Começava aí seu caso de amor com o Rio. Por causa do marido, mudou-se para o Leblon. As amigas paulistanas viviam encomendando biquínis cariocas, mas achavam tudo muito pequeno. Lenny comprou e descosturou uma peça e fez um modelo maiorzinho. Logo aprendeu alguma coisa de modelagem, descobriu uma costureira em Realengo e montou uma fábrica na garagem do prédio. "Até que veio uma chuva e inundou tudo", lembra.

Os tropeços foram muitos. Certo dia, invadiram a fábrica e roubaram suas trinta máquinas de costura. Nenhuma estava no seguro. Em outro, quase quebrou por causa de um plano econômico. Mas insistiu. Forneceu biquínis a grifes como Fiorucci, Krishna e Bee. Em 1993 abriu a primeira loja com seu nome, na Galeria Fórum de Ipanema. "Estava tão insegura que nem queria ir à inauguração", conta. O frio na barriga diminuiu, mas mesmo hoje, às vésperas de lançar uma coleção, abandona as aulas de pilates, dá adeus às sessões de esqui na Lagoa, mal consegue comer. "Ela perdeu pelo menos 4 quilos desta vez", garante sua irmã, a empresária Lulu Ortiz. "Lenny sempre acha que não vai dar certo. E, quando dá, ela acha que nunca mais vai conseguir fazer igual", diz Márcia Parreiras, diretora comercial da grife. Ansiosa e detalhista, envolve-se em cada etapa do desfile – da trilha sonora, há oito anos a cargo de Dudu Garcia, seu ex-namorado, à luz, passando pela seleção das modelos. "São apenas dez minutos para mostrar meses de trabalho", explica. "Tudo tem de estar perfeito. A mulher precisa saber andar, ter carisma, 1,77 metro de altura no mínimo e ser chique."

Arquivo pessoal
Fazendo esqui na Lagoa: festas e trabalho têm deixado pouco tempo para os exercícios

"É impressionante o que ela consegue fazer em apenas 20 centímetros de tecido", afirma a consultora de moda Gloria Kalil. "Faz uma moda praia clássica, arqui-sofisticada, sem ser careta ou senhoril." Depois de anos de biquínis miúdos, as cariocas aos poucos se renderam ao estilo praia chique de Lenny. Hoje, a marca tem dezesseis lojas no país, incluindo Búzios, Angra dos Reis, Trancoso e Arraial da Ajuda. Nos próximos meses, será inaugurada mais uma loja em São Paulo, nos Jardins. Lenny vende maiôs e biquínis para 22 países, entre os quais Dubai e Ilhas Maldivas. Suas peças podem ser encontradas na Bloomingdale's, em Nova York, e na Le Printemps, em Paris.

Duas vezes por ano, a estilista viaja para Paris e Londres. A trabalho, mas com seu jeito de curtir. Tempos atrás, em Paris, ficou acordada até tardíssimo com o casal Nazaré e Oskar Metsavaht, donos da grife Osklen. No dia seguinte, às 9 da manhã, bateu à porta dos dois. "Levei um susto e falei: 'Mas a gente acabou de dormir...'. E ela, toda animada: 'Dormir em euro, nem pensar, meu amor", relata Nazaré. Amiga das mais presentes, a atriz Carolina Ferraz garante: "Ela é incrível à noite, mas é muito melhor no café-da-manhã, quando vai para a cozinha e faz omeletes maravilhosas, conta histórias, fala dos filhos, do trabalho, do coração". O coração está ocupado no momento por Lulu Lima e Silva, empresário, avesso a flashes e badalações. "Há tanta gente em volta que é difícil ter um momento a dois", ela desabafa com bom-humor. Os filhos – Paulo, de 25 anos, e Isabel, de 22 –, do casamento com Paulo Niemeyer, vivem com ela. (Dá a idade deles, mas não revela a sua.) Desde 1982, Lenny mora num pequeno prédio de três andares na Lagoa Rodrigo de Freitas. Aos poucos, conseguiu comprar os doze apartamentos do edifício. Derrubou paredes e atualmente vive no espaço equivalente a três apartamentos. Há um à espera de reforma que, por enquanto, é usado para festas e outro para hóspedes. Os demais são alugados para pessoas próximas, como o dentista Luiz Tepedino e a jornalista Sônia Racy, que mora em São Paulo e mantém o endereço carioca.

"Ela só tem um defeito: não consegue dizer não", entrega o filho, Paulo. Numa das muitas festas, dois turistas bateram à porta achando que o lugar fosse uma boate. Lenny esclareceu o mal-entendido, mas não resistiu. "Convidou os dois a ficar", diz Paulo. Às vezes ela exagera. "Há muitos anos, eu estava morando no Rio e pedi a ela que trouxesse meu cachorro de São Paulo. Ela jurou que não tinha problema", conta Sônia. Mas tinha. Na época, Lenny não era muito afeita a cães (hoje ela tem o golden retriever Maddox). Ao recebê-la no aeroporto, a jornalista encontrou-a sorridente, com o poodle a tiracolo. Enquanto Lenny repetia, toda elegante, que a viagem fora ótima, o comandante do avião virou-se para Sônia e disparou: "Ah, então você é a dona do cachorro? Sua amiga reclamou sem parar. Disse que, se você não viesse buscar, ela ia jogar o bicho pela janela". Por histórias assim é que Lenny mantém uma legião de admiradores, como Carolina Ferraz: "Com ela, ganhei uma irmã, expatriada como eu, que ama esta cidade e acabou se tornando a maior tradução do famoso espírito carioca".

A criadora

Fotos Márcio Madeira
Verão 2008: desfile com as tops Giane Albertoni, Letícia Birkheuer, Caroline Ribeiro, Michelle Alves e Ana Beatriz Barros


A baladeira

Fotos Arquivo pessoal
Entre amigas: com Carolina Ferraz (à esq.), que Lenny conhece há dez anos, e Letícia Birkheuer, antiga inquilina de seu prédio na Lagoa


Ao lado de Caetano Veloso, na
festa
do ano passado: o agito
vai até de
manhã, mas ela sai à
francesa no fim
da noite e
entrega a
casa aos convidados
Com Gisele Bündchen, no desfile de 1999, surge com seu visual básico: sempre clássica, não gosta de muita cor

Fotos Arquivo pessoal
De férias no Rio, em 2005, Ronaldo Fenômeno se esbaldou no apartamento: papo firme com as modelos da grife


Em família

 

Fotos Arquivo pessoal
Mãe coruja, curtindo os filhos, Paulo e Isabel: frutos do casamento com o médico Paulo Niemeyer, eles moram com ela até hoje


Em 1979, no dia de seu casamento, acompanhada pelos pais, Waldemar e Odete Ortiz: noiva chique, de chapéu


O primeiro desfile da grife Lenny foi em 1995, no próprio prédio da estilista: desde então, ela nunca deixou de exibir suas coleções

         
     

 

 
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