|
João
Emanuel Carneiro
Velhos
conhecidos
A velha
sentou-se ao lado dele no avião e foi logo dizendo,
calorosa:
Menino, que coincidência sentar assim do seu lado! Eu
vi você nascer!
Ele ficou
constrangido em admitir que não a reconhecera. Devia
ser uma daquelas mil amigas da mãe dele. Da caridade.
Da universidade. Do clube. Resolveu topar o jogo no escuro.
E a senhora, como é que vai?
A
velha contou que vivera nas Guianas muito tempo. Casara-se
com um cantor de rumba alcoólatra que ela rapidamente
trocou por um pescador dez anos mais novo que ela. Foi deportada
das Guianas sabe-se lá por quê
e deu com os costados numa ilha no Caribe, onde se aboletou
por sete anos. Ele começou a se perguntar como era
que sua mãe havia de ter conhecido a tal mulher. Afinal,
dona Sílvia nunca saíra do Brasil e não
era o tipo de mulher que tinha amigas que foram deportadas
das Guianas e ainda por cima casadas com rumbeiros alcoólatras.
Foi quando a velha fez a pergunta fatal:
E sua irmã, está bem?
Ele era
filho único. Agora estava claro que a mulher o tinha
confundido com outra pessoa. O problema era que depois de
trinta minutos de conversa seria terrível ambos defrontarem
com a verdade nua e crua de que afinal não se conheciam.
Além disso, ele tinha simpatizado com a velha. Só
faltavam dez minutos para aterrissar em São Paulo e
ele resolveu arriscar:
A maninha resolveu largar a faculdade de direito e entrou
pro circo. Atualmente é a mulher do atirador de facas.
Nada mais natural. Está no sangue! Afinal, seu pai
ganhou a vida como mágico na Argentina.
Papai e mamãe pouco me falam desse período em
que moraram na Argentina...
.
Sua mãe contrabandeava charutos cubanos para ajudar
seu pai. Afinal, mágica não dá muito
dinheiro.
Ele ousou
ainda mais:
Eu inclusive nasci na Argentina, não foi?
Deu certo:
Fui uma das primeiras pessoas a visitá-lo. Fui eu que
lhe dei aquele chocalho de ursinho.
Foi você? É o chocalho da minha vida! Eu tenho
até hoje.
Foi quando
a velha fez uma pergunta difícil:
Me diz só uma coisa: como seus pais conseguiram fugir
da Argentina?
A coisa
estava ficando cada vez melhor. A velha e "seus pais" eram
possivelmente espiões. Ou bandidos. Ou guerrilheiros.
Companheiros de luta, comparsas em golpes mirabolantes, fugitivos
por toda a América Latina. Em cada país uma
nova identidade. Uma vida trepidante de aventuras. Ele nunca
imaginou que aquela tediosa viagem na ponte aérea fosse
lhe proporcionar tanta diversão. Nosso amigo pensou
bem na resposta:
Fugiram a cavalo pela fronteira do Chile.
Exatamente o que eu imaginava!
O avião
já estava tocando o solo quando ele derrapou na frase:
Precisamos combinar de jantar. Eu, você, papai e mamãe.
Ela olhou
nos olhos dele e disse:
Querido, seu pai morreu há seis anos.
Eu sei. É que às vezes eu esqueço. Acho
que é porque eu ainda não me conformei com a
morte dele.
Pela
expressão da velha estava claro que ambos estavam cientes
daquela pequena farsa. Os passageiros já estavam desembarcando.
Ela deu um beijo na testa dele e disse, piscando o olho:
Não esqueça de dar um beijo na sua mãe
por mim.
|