Os novos refúgios da Serra

Secretário e Vale das Videiras são paraísos
para quem
busca beleza e sossego

Patrícia Malavez

 
Dilmar Cavalher/Strana
Ricardo Fasanello/Strana
O Vale das Videiras (à esq.) e Maria Carmem com o marido, D'Artagnam, no sítio em Secretário: recantos bucólicos

Há dez anos, Itaipava, o mais badalado distrito de Petrópolis, era sinônimo de sossego. Já existiam pousadas aconchegantes, restaurantes de qualidade e um mínimo de opções de compras, mas o que se impunha eram as montanhas maravilhosas, o verde exuberante, o clima ameno, em torno de 15 graus, com quedas geladas de até 8 graus. Vida noturna era praticamente inexistente, e quem se importava? Buscavam-se ali o prazer de tomar um vinho ao calor da lareira, o silêncio cheio de sons da natureza, o céu infinitamente estrelado. Hoje, pousadas e restaurantes se multiplicaram na região, chegaram os shopping centers, e a noite, ao menos nos fins de semana, é uma criança para quem quer. A natureza continua exuberante, há recantos encantados para passeios, mas os desbravadores, aqueles que querem mesmo esquecer a cidade, curtir um clima rural, já não se satisfazem em ficar por ali. Para esses, é ótimo que Itaipava esteja pertinho, a vinte minutos de carro. Pelo menos. Quem busca o sossego que outrora era a marca principal de Itaipava procura outros espaços entre as montanhas da Serra. Lugares como o Vale das Videiras, no alto de Araras, um paraíso para quem curte passear a cavalo, noites silenciosas e uma pitada de conforto urbano. Ou Secretário, no distrito de Pedro do Rio, refúgio de celebridades, do qual se fala quase em segredo, em voz baixa, ao pé do ouvido.

Não é exagero. Os vinte proprietários de casas no condomínio Mata Nova, o mais chique de Secretário, entre eles gente como Cláudio Paiva, cartunista e responsável pela supervisão de textos do programa A Grande Família, da Rede Globo, a atriz Letícia Spiller e o banqueiro Bruno Mariani, decidiram em assembléia não fazer melhoramentos na esburacada estradinha de terra do lugar. A razão: mantê-lo o menos acessível possível a curiosos em geral. Na região, o asfalto chega apenas até a pequena vila. Dali em direção aos condomínios e sítios, só estrada de terra. Não há praticamente nenhum comércio. O destaque é um simpático quiosque com cobertura de sapê que vende guloseimas e vinhos, o Mercado Serrano. Apelidado de Baixo Secretário, o mercado serve de ponto de encontro. O sossego é garantido por lei. "Toda a região é área de proteção ambiental, a primeira que foi criada no Brasil", explica Yara Valverde, diretora do Ibama em Petrópolis. Exatamente isso atraiu para lá o ator e diretor de cinema Hugo Carvana, os atores Pedro Cardoso e Cissa Guimarães, a autora de novelas Maria Carmem Barbosa, os jornalistas e apresentadores do Jornal Nacional William Bonner e Fátima Bernardes, a escritora Sônia Hirsch, José Roberto Marinho, filho de Roberto Marinho e vice-presidente das Organizações Globo, e a cantora Joanna. A beleza e o sossego fizeram também com que os preços dos terrenos disparassem. Uma área de 2.000 metros quadrados, em aclive e sem nenhuma melhoria, não é vendida por menos de 25.000 reais. Recentemente, um terreno de tamanho equivalente, tratado e com uma casinha de 250 metros quadrados, foi negociado por 260.000 reais. Preços surpreendentes para uma área que até cinco anos atrás era vista como um ermo.

Foi o preço, então baixo, a primeira coisa que despertou a atenção de Cissa Guimarães para Secretário. Ela comprou o terreno há cinco anos, preocupada com os três filhos "completamente urbanos" e cansada de depender de amigos para temporadas fora da cidade. "Comecei a procurar em Itaipava, mas era caríssimo", diz. Foi apresentada a Secretário e apaixonou-se. "É uma região totalmente mágica. Quando eu ainda estava construindo minha casa, os operários diziam: 'Nossa, dona Cissa, como tem passarinho aqui. Eles gostam do lugar'." A etapa seguinte foi passar da paixão à convivência harmoniosa. "Éramos um bando de urbanos. Aparecia um sapo, todo mundo pulava. No dia em que vi meu pequenininho (Rafael, o filho menor, hoje com 9 anos) imundo dos pés à cabeça, em cima de uma árvore, chorei. Era isso que eu queria. Até eu já me acostumei com os sapos e nem pulo mais", conta Cissa. A casa da atriz, rodeada de montanhas, fica no fim de uma estradinha de terra. No jardim, ela colocou uma cama de Bali e gosta de ficar nela, lendo ou, à noite, olhando o céu estrelado. "No início, eu me obrigava a fazer um monte de coisas, plantar, mexer com a terra. Uma das lições mais importantes que aprendi aqui foi contemplar, não fazer nada", diz.

"Secretário é roça, não tem aquela invasão de Itaipava", reforça Maria Carmem Barbosa, dona de uma casa no condomínio Capim Roxo. "A gente nem gosta de falar muito daqui por medo de que o lugar vire point, uma nova Itaipava." A autora do seriado Sandy e Junior acha que Secretário é "simples, inocente e auto-suficiente". Exceto em uma coisa. Lá, usar o telefone é um sofrimento. "Por causa disso, não posso dispor da internet e, sem ela, sou obrigada a descer até o Rio para trabalhar", lamenta. Esse problema, Terezinha Guarrilha Cunha, 69 anos, resolveu há muito tempo.

André Nazareth/Strana
Dilmar Cavalher/Strana
Arthur Cavaliere/Strana
Secretário abriga a beleza do Rio Capim Roxo (à esq.) e os petiscos do Mercado Serrano: atrativos para celebridades, como a atriz Cissa Guimarães

Ela não vive em Secretário. É uma das pioneiras do Vale das Videiras, outro pólo de atração para quem busca paz e sossego na região. Há 42 anos ela tem casa nesse vale, que já serviu ao plantio de café e a uma experiência malsucedida de cultivo de uva para a produção de vinhos. Faz 22 anos que se mudou de vez para lá. Tornou-se uma espécie de prefeita do lugar. Foi dona Terezinha quem incentivou vizinhos veranistas a cuidar não apenas de suas propriedades, mas a investir em melhorias também para a população da região. Convenceu os moradores da importância de replantar a mata nativa, criou escola e posto médico, tudo com dinheiro arrecadado entre vizinhos. Gente como o economista José Eduardo Carneiro de Carvalho, que comprou um terreno e construiu o Armazém, o centro comercial do vale. José Eduardo e Terezinha usaram o espaço para criar uma comunidade de fato. Atraíram comerciantes das redondezas, propondo que eles se instalassem no Armazém por um ano sem pagar nenhuma taxa. Hoje, funcionam lá duas lojas de artesanato, um restaurante, um salão, uma mercearia e uma cooperativa de costureiras. Dona Terezinha sonha agora em transformar os alunos da escolinha que criou em guias de turismo ecológico.

Ao contrário de Secretário, ainda se podem comprar terrenos de até 100.000 metros quadrados no Vale das Videiras. Os preços também são mais baixos. É possível adquirir um terreno de 2.000 metros quadrados, em aclive e sem melhorias, por 15.000 reais. Uma propriedade de 92.000 metros quadrados foi vendida recentemente por 85.000 reais. Mas os preços disparam se o pedaço de terra estiver no Country Club, o mais requintado condomínio da região. Ali, um terreno de 5.000 metros quadrados custa 100.000 reais. Se tiver casa, a cotação passa a ser em dólar. O que atrai as pessoas para o vale é a tranqüilidade. "Posso selar um cavalo, andar uma hora e não ver gente, só pássaro. Aqui você tem vida rural a uma hora e meia do Rio", diz José Felipe Vieira de Castro, diretor de uma corretora de seguros e dono de fazenda na região. Tereza Nolasco, mulher de José Felipe e responsável pela área de decoração do escritório do arquiteto Cláudio Bernardes, vai mais longe. "Todo mundo que tem casa por aqui sonha em se aposentar para morar no vale." O advogado Gaspar Vianna e a mulher, Erni, não precisaram aposentar-se para mudar para lá. Entraram em programas de demissão voluntária e investiram o dinheiro na Fazenda das Videiras, a única pousada do lugar. Queriam uma área grande, com uma nascente. Sonhavam construir uma pousada nos moldes das que viram no sul da França. Visitaram mais de cinqüenta propriedades até descobrir o vale. Terminaram a obra em julho de 1999. No mês seguinte, abriram o estabelecimento. Como os setenta endereços que publicamos a seguir, é uma ótima opção para quem quer descobrir os prazeres da Serra.

 
Fotos André Valentim/Strana
Stran
Ricardo Fasanello/Strana
Tereza Nolasco (ao lado) quer morar no Vale das Videiras: o sonho já foi realizado pelo casal Vianna (no alto, à esq.) e, há 22 anos, por Terezinha Cunha (no alto, à dir.)

 

 

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