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19 de setembro de 2007

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Medalhinhas a granel

De Chávez a Mara Maravilha, deputados e vereadores do Rio condecoram meio mundo

Sofia Cerqueira

 
Montagem sobre foto de Fernando Lemos

O objeto da discórdia tem 6,5 centímetros de diâmetro, pesa 52 gramas e ostenta em relevo a efígie do mártir da independência. Pela primeira vez, a concessão de uma medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), pode ser cassada. No dia 28 de agosto, por indicação da deputada Renata do Posto (PAN), foi aprovada a entrega da comenda ao ex-presidente e senador licenciado Fernando Collor de Mello. Dois dias depois, o deputado André do PV ingressou com um projeto pedindo a anulação da homenagem, ainda sem data para ir a plenário. "Os deputados comeram mosca na votação e não pediram verificação de quórum", observa ele. "Certamente não havia 36 deputados presentes, o mínimo exigido." Renata do Posto defende sua escolha. "Foi o presidente que mais fez pelo Rio", acredita. "E, se começarem a cassar medalhas, vão ter de pedir de volta a do José Dirceu, a do Hugo Chávez..." Seria uma boa idéia.

A polêmica se instalou na casa que, desde que a condecoração foi criada, em 1989, homenageou até quinta-feira passada 5.209 pessoas e instituições – em torno de 290 por ano. Já deram para meio mundo: o ditador cubano Fidel Castro, o apresentador Silvio Santos, o papa Bento XVI, o tenista Gustavo Kuerten, o Bangu Atlético Clube, o presidente Lula, a cantora Mara Maravilha e por aí vai. O fotógrafo peruano Mario Testino, agraciado neste ano, comemorou o afago ao lado de Gisele Bündchen num festão no Copacabana Palace. Já o presidente venezuelano Hugo Chávez aproveitou a ocasião para discursar inflamadamente contra veículos de comunicação.

 
Alexandre Brum/Agência O Dia
Sergio Gallo
Cada comenda, uma reação: Jaguar (à esq.) devolveu a dele; Testino comemorou com Gisele em festa no Copa

Por ano, cada um dos setenta deputados pode conceder duas medalhas Tiradentes, ou mais, com autorização da presidência da casa. Nada mais fácil. Basta colher sete assinaturas de membros da Alerj e apresentar o pedido à mesa diretora, que agenda a votação em plenário. As votações não costumam despertar o interesse dos parlamentares e quase sempre os pedidos são aprovados por inércia, sem a verificação de quórum e de votação nominal. Tudo passa. "Os deputados não costumam se opor às propostas", admite Paulo Ramos (PDT), responsável pela indicação de Chávez. "A comenda é um incentivo a quem presta relevantes serviços ao estado e projeta o Rio", diz o chefe-de-gabinete da Alerj, Aloysio Neves. "A foto do Testino com a medalha ao lado de Gisele Bündchen rodou o mundo." Ele reconhece que alguns agraciados cometeram deslizes, desprestigiando a honraria. Na dúvida, a deputada Cidinha Campos (PDT) limita-se a fazer homenagens post mortem. "Até a pessoa completar o ciclo, há sempre tempo para fazer uma m...", explica com elegância. Cidinha, que foi mimoseada com a medalha antes de se tornar deputada, diz que a condecoração costuma ser usada como barganha. "Há deputados que dão a comenda a empresários e depois são apoiados por eles em campanhas."

Para não ficar atrás, a Câmara dos Vereadores presta suas homenagens com a medalha Pedro Ernesto desde 1980. Por ano, são concedidas até 250 comendas, cinco por vereador. É outra festa. Na galeria dos condecorados – 3.354 pessoas – figuram Che Guevara, Yasser Arafat, Oscar Niemeyer, os pagodeiros do grupo Revelação, a globeleza Valéria Valenssa, Vera Loyola... A aposentada Maria Dora Arbex, que deu um tiro em um bandido durante uma tentativa de assalto, no Flamengo, também tem a sua. Renan Calheiros, presidente do Senado, foi duplamente agraciado: já recebeu as medalhas Tiradentes e Pedro Ernesto.

 
Roberto Castro/Agência Estado
Collor: homenagem sob risco de cassação

"Há a cultura de não questionar a biografia do indicado", diz o ator e vereador Stepan Nercessian (PPS). No ano passado, o ex-deputado federal Roberto Jefferson, que teve o mandato cassado no escândalo do mensalão, recebeu a comenda por indicação da filha, a vereadora Cristiane Brasil (PTB). Na mesma semana, o cartunista Jaguar devolveu a sua medalha em sinal de protesto. Há quinze dias, a incansável Cristiane Brasil aprovou, durante uma sessão em plenário, a concessão do título de Cidadão Benemérito do Rio ao ex-presidente Collor – que já recebera a medalha Pedro Ernesto em 1990. Só falta darem para a estátua do Manequinho.

         
     

 

 
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