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POLÊMICA
Medalhinhas a granel
De Chávez a Mara Maravilha,
deputados e vereadores do Rio condecoram meio mundo
Sofia Cerqueira
Montagem sobre foto
de Fernando Lemos
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O objeto da discórdia tem
6,5 centímetros de diâmetro, pesa 52 gramas e ostenta
em relevo a efígie do mártir da independência.
Pela primeira vez, a concessão de uma medalha Tiradentes,
a mais alta honraria da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj),
pode ser cassada. No dia 28 de agosto, por indicação
da deputada Renata do Posto (PAN), foi aprovada a entrega da comenda
ao ex-presidente e senador licenciado Fernando Collor de Mello.
Dois dias depois, o deputado André do PV ingressou com um
projeto pedindo a anulação da homenagem, ainda sem
data para ir a plenário. "Os deputados comeram mosca na votação
e não pediram verificação de quórum",
observa ele. "Certamente não havia 36 deputados presentes,
o mínimo exigido." Renata do Posto defende sua escolha. "Foi
o presidente que mais fez pelo Rio", acredita. "E, se começarem
a cassar medalhas, vão ter de pedir de volta a do José
Dirceu, a do Hugo Chávez..." Seria uma boa idéia.
A polêmica se instalou
na casa que, desde que a condecoração foi criada,
em 1989, homenageou até quinta-feira passada 5.209 pessoas
e instituições em torno de 290 por ano. Já
deram para meio mundo: o ditador cubano Fidel Castro, o apresentador
Silvio Santos, o papa Bento XVI, o tenista Gustavo Kuerten, o Bangu
Atlético Clube, o presidente Lula, a cantora Mara Maravilha
e por aí vai. O fotógrafo peruano Mario Testino, agraciado
neste ano, comemorou o afago ao lado de Gisele Bündchen num
festão no Copacabana Palace. Já o presidente venezuelano
Hugo Chávez aproveitou a ocasião para discursar inflamadamente
contra veículos de comunicação.
Alexandre Brum/Agência O Dia
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Sergio Gallo
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| Cada comenda, uma reação:
Jaguar (à esq.) devolveu a dele;
Testino comemorou com Gisele em festa no Copa |
Por ano, cada um dos setenta deputados
pode conceder duas medalhas Tiradentes, ou mais, com autorização
da presidência da casa. Nada mais fácil. Basta colher
sete assinaturas de membros da Alerj e apresentar o pedido à
mesa diretora, que agenda a votação em plenário.
As votações não costumam despertar o interesse
dos parlamentares e quase sempre os pedidos são aprovados
por inércia, sem a verificação de quórum
e de votação nominal. Tudo passa. "Os deputados não
costumam se opor às propostas", admite Paulo Ramos (PDT),
responsável pela indicação de Chávez.
"A comenda é um incentivo a quem presta relevantes serviços
ao estado e projeta o Rio", diz o chefe-de-gabinete da Alerj, Aloysio
Neves. "A foto do Testino com a medalha ao lado de Gisele Bündchen
rodou o mundo." Ele reconhece que alguns agraciados cometeram deslizes,
desprestigiando a honraria. Na dúvida, a deputada Cidinha
Campos (PDT) limita-se a fazer homenagens post mortem. "Até
a pessoa completar o ciclo, há sempre tempo para fazer uma
m...", explica com elegância. Cidinha, que foi mimoseada com
a medalha antes de se tornar deputada, diz que a condecoração
costuma ser usada como barganha. "Há deputados que dão
a comenda a empresários e depois são apoiados por
eles em campanhas."
Para não ficar atrás,
a Câmara dos Vereadores presta suas homenagens com a medalha
Pedro Ernesto desde 1980. Por ano, são concedidas até
250 comendas, cinco por vereador. É outra festa. Na galeria
dos condecorados 3.354 pessoas figuram Che Guevara,
Yasser Arafat, Oscar Niemeyer, os pagodeiros do grupo Revelação,
a globeleza Valéria Valenssa, Vera Loyola... A aposentada
Maria Dora Arbex, que deu um tiro em um bandido durante uma tentativa
de assalto, no Flamengo, também tem a sua. Renan Calheiros,
presidente do Senado, foi duplamente agraciado: já recebeu
as medalhas Tiradentes e Pedro Ernesto.
Roberto Castro/Agência
Estado
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| Collor: homenagem
sob risco de cassação |
"Há a cultura de não
questionar a biografia do indicado", diz o ator e vereador Stepan
Nercessian (PPS). No ano passado, o ex-deputado federal Roberto
Jefferson, que teve o mandato cassado no escândalo do mensalão,
recebeu a comenda por indicação da filha, a vereadora
Cristiane Brasil (PTB). Na mesma semana, o cartunista Jaguar devolveu
a sua medalha em sinal de protesto. Há quinze dias, a incansável
Cristiane Brasil aprovou, durante uma sessão em plenário,
a concessão do título de Cidadão Benemérito
do Rio ao ex-presidente Collor que já recebera a medalha
Pedro Ernesto em 1990. Só falta darem para a estátua
do Manequinho.
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