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CIDADE
Bafafá na Urca
Projeto para o antigo cassino transforma
o pacato bairro em campo de batalha
Fátima Sá
Fernando Lemos
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| Ilha de tranqüilidade:
apenas dezessete ruas e pouco mais
de 6 700 moradores |
Não fossem o Pão de Açúcar
de um lado e o Cristo Redentor do outro, o visitante distraído
poderia facilmente imaginar-se em uma cidade do interior. Há
apenas dezessete ruas, com cinco praças e pouco mais de 6
700 moradores, muitos deles instalados em casas. O comércio
cerca de cinqüenta estabelecimentos freqüentemente
vende fiado porque os clientes são velhos conhecidos. Até
a violência, ali, parece dar uma trégua. Os crimes
mais comuns são furtos. Sem arma ou coação.
Nas últimas semanas, porém, essa ilha de tranqüilidade
chamada Urca virou um campo de batalha, com manifestações
acaloradas. No centro da discórdia está o prédio
de número 13 da Avenida João Luís Alves, às
margens da Baía de Guanabara. Antiga sede do glamouroso Cassino
da Urca, que funcionou de 1934 a 1946, quando os jogos bancados
de azar foram proibidos no país, a construção
virou um elefante branco, abandonado há mais de vinte anos,
decompondo-se a olhos vistos. Depois de vários projetos frustrados,
a prefeitura cedeu o prédio ao Istituto Europeo di Design
(IED) para criar uma faculdade e centro de pesquisa de moda, artes
visuais, comunicação e, claro, design. Tão
logo os primeiros detalhes da obra vieram a público, a confusão
começou a se armar. A Associação de Moradores
da Urca (Amour) declarou guerra à proposta. A Associação
Comercial do bairro saiu em defesa do IED. Nem mesmo o mais ilustre
morador da área, o cantor Roberto Carlos, normalmente avesso
a polêmicas, manteve-se imparcial. O rei rompeu o silêncio.
"Esse projeto, com certeza, vai tumultuar a preciosa tranqüilidade
da Urca", declarou por escrito a Veja Rio. "Nós, moradores,
estamos unidos no propósito de evitar que isso aconteça."
Reginaldo Teixeira
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| Roberto Carlos, na sacada de seu apartamento,
em abril: "Esse projeto, com certeza, vai tumultuar" |
A opinião de Roberto Carlos é partilhada por outros
vizinhos famosos, como os músicos Lenine e Zélia Duncan,
signatários de um abaixo-assinado que pede a saída
do IED. Para eles, o instituto trará uma enxurrada de gente,
o que poderá engarrafar o trânsito, sobrecarregar a
rede de esgoto e inviabilizar a vida na região. Para os defensores
do projeto, a obra pode devolver o viço a um bem público
carregado de história, emprestar um ar cosmopolita ao local
e enriquecer a vida cultural de toda a cidade. "O que prejudica
o bairro é manter aquele prédio caindo aos pedaços",
afirma João Ricardo Moderno, diretor da Associação
Comercial da Urca. A queda-de-braço chegou, no início
do mês, até o Ministério Público. Procurado
pela Amour, o MP instaurou inquérito. "Vamos apurar os impactos
viário e ambiental, os termos do contrato e a adequação
do projeto às exigências do patrimônio", explica
o promotor Carlos Frederico Saturnino, da área de Meio Ambiente.
Na semana passada, o Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan) emitiu parecer contrário à obra. O superintendente
do órgão no Rio, Carlos Fernando Andrade, afirma que
a decisão se baseou em um parecer de 1974, que protege a
encosta do morro da Urca. "Como o prédio é anterior,
ele pode ser reformado, mas não é permitido aumentar
sua área, como está previsto." O IED manteve-se firme.
"Ainda não fomos informados oficialmente, mas estamos dispostos
a fazer as alterações necessárias", disse na
quarta-feira passada o arquiteto Ado Azevedo, autor do projeto.
Prevê-se que as obras sejam inauguradas em duas fases: a primeira
já no ano que vem e a segunda em 2011. O movimento contra
o instituto que usa panfletos, mensagens eletrônicas,
cartas aos jornais e manifestações comemorou
a decisão. No dia 2 de outubro, uma audiência pública
convocada pela Amour discutirá o assunto. "A prefeitura conseguiu
passar adiante um abacaxi, mas nós é que teremos de
ficar com as cascas", protesta a socióloga Lilibeth Cardozo,
moradora do bairro.
Marco Antonio Rezende
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| Patrícia Gouvêa: pró-IED
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Criado há 41 anos, em Milão, o IED é hoje uma
referência na área, com doze unidades em sete cidades,
entre elas São Paulo. O Rio entrou nos planos do instituto
porque seu diretor-geral, Stefano Paschina, caiu de amores pela
capital fluminense. "Há uma proximidade física entre
as diferentes classes sociais, o que é muito interessante,
com bastante potencial criativo", analisa o italiano Mauro Ponzè,
responsável pelo IED do Rio. "Do ponto de vista de uma escola
que trabalha buscando soluções para o cenário
futuro, é um ótimo desafio." A Urca, há que
se reconhecer, não estava nos planos iniciais. Antes dela,
o IED pensou na Lapa. Partiu da prefeitura a oferta do cassino.
"Acho que o projeto é muito bom para a Urca", avalia Patrícia
Gouvêa, moradora da região e uma das sócias
do Ateliê da Imagem, misto de centro cultural e escola de
fotografia, cinema, arte e design. "Pode ser uma boa virada para
o prédio."
Tombado pelo município
em 1988, o edifício da discórdia foi erguido em 1922
para abrigar um balneário, com cabines próximas à
areia para uso dos banhistas. Depois, virou hotel, até ser
convertido no famoso cassino, com suas roletas, mesas de carteado
e shows memoráveis. Com a proibição do jogo
e o fechamento dos cassinos, o prédio cerrou as portas. Só
reabriria cinco anos depois, como sede carioca da TV Tupi. Houve
mudanças no imóvel. As janelas voltadas para a praia
foram cobertas por tijolos e o antigo palco virou estúdio-auditório.
Na época, a Urca agitou-se com artistas e fãs. Algum
tempo depois de se mudar para o Rio, Roberto Carlos descobriu seus
encantos. "Moro aqui desde 1981 e já achava a Urca um bairro
lindo desde as primeiras vezes em que vinha à TV Tupi, no
início da minha carreira", conta. "É um lugar especial,
tranqüilo, romântico e bonito." A Tupi de que se lembra
o cantor fechou as portas em 1980, quando, mergulhada em dívidas,
teve sua concessão cassada.
Fernando Lemos
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| Zélia Duncan:
"Nosso trânsito não
comporta mais movimento" |
Enquanto o prédio mudava
de função, a Urca era preservada. "Foi o primeiro
bairro protegido pelo Iphan na cidade", lembra o construtor Conde
Caldas, dono da Concal, há 37 anos no mercado. "Hoje, para
cada apartamento à venda, há três compradores."
Roberta Ciasca, chef do restaurante Miam Miam, é uma das
que não abrem mão de viver lá. "Uma vez criado
ali, não se consegue sair. E os imóveis vão
sendo ocupados por parentes ou amigos dos moradores", lembra ela,
que é da terceira geração da família
na Urca. Estímulos, afinal, não faltam. Há
cartões-postais em profusão, nenhuma favela e várias
construções ocupadas pelo Exército, entre elas
a Fortaleza de São João, o que dá a sensação
de segurança. "Quem investe aqui nunca perde", propagandeia
o corretor Fredie Brito, quarenta anos de Urca. "Os imóveis
só se valorizam." O metro quadrado hoje custa, em média,
5 000 reais, podendo chegar facilmente aos 7 000 reais. Segundo
o Secovi Rio o sindicato do mercado imobiliário ,
o valor médio de um apartamento de dois quartos, para locação,
está em 2 340 reais.
Marco Antonio Rezende
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| Albin: "As águas já foram
calmas" |
Desde que a prefeitura assumiu o edifício do velho cassino,
em 2003, várias idéias foram cogitadas. Uma delas
previa a abertura de um Museu do Rio, cujas obras começaram,
mas foram interrompidas. Outra propunha um memorial dedicado à
televisão. "Penso que o ideal seria fazer ali um espaço
que resgatasse a história da Tupi e da TV de modo geral",
sugere Philippe Bandeira de Mello, neto do empresário Assis
Chateaubriand, fundador da Tupi. A prefeitura descarta esse e os
projetos anteriores. "Eles não se viabilizariam economicamente",
acredita o secretário das Culturas, Ricardo Macieira. "Não
basta recuperar o patrimônio, é preciso dotá-lo
de sustentabilidade." Pelo contrato firmado entre a prefeitura e
o IED, o instituto italiano usará recursos próprios
nas obras (investimento de 17 milhões de reais, fora equipamentos)
em troca do direito de explorar o prédio por 25 anos, prorrogáveis.
O mal-estar entre o IED e os moradores tem dois pontos principais:
o número de alunos e os eventos que o instituto planeja realizar.
"Espalharam que teremos até 1 500 alunos, mas isso é
um número surrealista", afirma Ponzè. "Serão,
no máximo, 150 estudantes por ano, divididos em três
turnos." Quanto aos eventos, ele jura que estão fora de cogitação
shows e grandes aglomerações. "Queremos fazer palestras
e exposições. E o impacto viário será
mínimo."
Selmy Yassuda
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| Lenine: "É uma escola maravilhosa,
mas não para a Urca. Falta estrutura para isso" |
Ainda assim, a vice-presidente
da Amour, Mariana de Carvalho Gomes, garante que o bairro não
tem condições de receber a população
extra. "O Rio merece uma escola como essa, que é maravilhosa,
mas não na Urca", opina o músico Lenine, que desembarcou
por lá em 1980, começou a namorar a mulher nas ruas
do bairro e agora vive com ela e dois filhos em um apartamento diante
da baía. Zélia Duncan faz coro: "Não haverá
estacionamento para tanta gente". Vizinho do cassino, o pesquisador
musical Ricardo Cravo Albin acompanha, curioso, o bafafá.
De sua antiga casa, que abriga um instituto com seu nome, ele avista
a baía em que nadava quando menino e pondera: "Essas águas
já foram calmas". É, não são mais.
Fotos Divulgação, Fernando
Lemos e Marco Antonio Rezende
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| O velho Cassino da Urca, em foto de 1935,
e o projeto do IED carioca: Mauro Ponzè, diretor do instituto
italiano, afirma que o bairro não será prejudicado,
mas a polêmica já ganhou as ruas e foi parar até
na fachada dos prédios |
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