Publicidade
 
 


 
 



19 de setembro de 2007

CIDADE

DEZ PERGUNTAS...
CINEMA
POLÊMICA
AS BOAS COMPRAS
BEIRA-MAR
A OPINIÃO DO LEITOR
CRÔNICA
   

CIDADE

Bafafá na Urca

Projeto para o antigo cassino transforma
o pacato bairro em campo de batalha

Fátima Sá

 
Fernando Lemos
Ilha de tranqüilidade: apenas dezessete ruas e pouco mais de 6 700 moradores


Veja também
Nesta edição
Presente de aniversário

Não fossem o Pão de Açúcar de um lado e o Cristo Redentor do outro, o visitante distraído poderia facilmente imaginar-se em uma cidade do interior. Há apenas dezessete ruas, com cinco praças e pouco mais de 6 700 moradores, muitos deles instalados em casas. O comércio – cerca de cinqüenta estabelecimentos – freqüentemente vende fiado porque os clientes são velhos conhecidos. Até a violência, ali, parece dar uma trégua. Os crimes mais comuns são furtos. Sem arma ou coação. Nas últimas semanas, porém, essa ilha de tranqüilidade chamada Urca virou um campo de batalha, com manifestações acaloradas. No centro da discórdia está o prédio de número 13 da Avenida João Luís Alves, às margens da Baía de Guanabara. Antiga sede do glamouroso Cassino da Urca, que funcionou de 1934 a 1946, quando os jogos bancados de azar foram proibidos no país, a construção virou um elefante branco, abandonado há mais de vinte anos, decompondo-se a olhos vistos. Depois de vários projetos frustrados, a prefeitura cedeu o prédio ao Istituto Europeo di Design (IED) para criar uma faculdade e centro de pesquisa de moda, artes visuais, comunicação e, claro, design. Tão logo os primeiros detalhes da obra vieram a público, a confusão começou a se armar. A Associação de Moradores da Urca (Amour) declarou guerra à proposta. A Associação Comercial do bairro saiu em defesa do IED. Nem mesmo o mais ilustre morador da área, o cantor Roberto Carlos, normalmente avesso a polêmicas, manteve-se imparcial. O rei rompeu o silêncio. "Esse projeto, com certeza, vai tumultuar a preciosa tranqüilidade da Urca", declarou por escrito a Veja Rio. "Nós, moradores, estamos unidos no propósito de evitar que isso aconteça."

Reginaldo Teixeira
Roberto Carlos, na sacada de seu apartamento, em abril: "Esse projeto, com certeza, vai tumultuar"


A opinião de Roberto Carlos é partilhada por outros vizinhos famosos, como os músicos Lenine e Zélia Duncan, signatários de um abaixo-assinado que pede a saída do IED. Para eles, o instituto trará uma enxurrada de gente, o que poderá engarrafar o trânsito, sobrecarregar a rede de esgoto e inviabilizar a vida na região. Para os defensores do projeto, a obra pode devolver o viço a um bem público carregado de história, emprestar um ar cosmopolita ao local e enriquecer a vida cultural de toda a cidade. "O que prejudica o bairro é manter aquele prédio caindo aos pedaços", afirma João Ricardo Moderno, diretor da Associação Comercial da Urca. A queda-de-braço chegou, no início do mês, até o Ministério Público. Procurado pela Amour, o MP instaurou inquérito. "Vamos apurar os impactos viário e ambiental, os termos do contrato e a adequação do projeto às exigências do patrimônio", explica o promotor Carlos Frederico Saturnino, da área de Meio Ambiente.

Na semana passada, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) emitiu parecer contrário à obra. O superintendente do órgão no Rio, Carlos Fernando Andrade, afirma que a decisão se baseou em um parecer de 1974, que protege a encosta do morro da Urca. "Como o prédio é anterior, ele pode ser reformado, mas não é permitido aumentar sua área, como está previsto." O IED manteve-se firme. "Ainda não fomos informados oficialmente, mas estamos dispostos a fazer as alterações necessárias", disse na quarta-feira passada o arquiteto Ado Azevedo, autor do projeto. Prevê-se que as obras sejam inauguradas em duas fases: a primeira já no ano que vem e a segunda em 2011. O movimento contra o instituto – que usa panfletos, mensagens eletrônicas, cartas aos jornais e manifestações – comemorou a decisão. No dia 2 de outubro, uma audiência pública convocada pela Amour discutirá o assunto. "A prefeitura conseguiu passar adiante um abacaxi, mas nós é que teremos de ficar com as cascas", protesta a socióloga Lilibeth Cardozo, moradora do bairro.

Marco Antonio Rezende
Patrícia Gouvêa: pró-IED


Criado há 41 anos, em Milão, o IED é hoje uma referência na área, com doze unidades em sete cidades, entre elas São Paulo. O Rio entrou nos planos do instituto porque seu diretor-geral, Stefano Paschina, caiu de amores pela capital fluminense. "Há uma proximidade física entre as diferentes classes sociais, o que é muito interessante, com bastante potencial criativo", analisa o italiano Mauro Ponzè, responsável pelo IED do Rio. "Do ponto de vista de uma escola que trabalha buscando soluções para o cenário futuro, é um ótimo desafio." A Urca, há que se reconhecer, não estava nos planos iniciais. Antes dela, o IED pensou na Lapa. Partiu da prefeitura a oferta do cassino. "Acho que o projeto é muito bom para a Urca", avalia Patrícia Gouvêa, moradora da região e uma das sócias do Ateliê da Imagem, misto de centro cultural e escola de fotografia, cinema, arte e design. "Pode ser uma boa virada para o prédio."

Tombado pelo município em 1988, o edifício da discórdia foi erguido em 1922 para abrigar um balneário, com cabines próximas à areia para uso dos banhistas. Depois, virou hotel, até ser convertido no famoso cassino, com suas roletas, mesas de carteado e shows memoráveis. Com a proibição do jogo e o fechamento dos cassinos, o prédio cerrou as portas. Só reabriria cinco anos depois, como sede carioca da TV Tupi. Houve mudanças no imóvel. As janelas voltadas para a praia foram cobertas por tijolos e o antigo palco virou estúdio-auditório. Na época, a Urca agitou-se com artistas e fãs. Algum tempo depois de se mudar para o Rio, Roberto Carlos descobriu seus encantos. "Moro aqui desde 1981 e já achava a Urca um bairro lindo desde as primeiras vezes em que vinha à TV Tupi, no início da minha carreira", conta. "É um lugar especial, tranqüilo, romântico e bonito." A Tupi de que se lembra o cantor fechou as portas em 1980, quando, mergulhada em dívidas, teve sua concessão cassada.

 
Fernando Lemos
Zélia Duncan: "Nosso trânsito não comporta mais movimento"

Enquanto o prédio mudava de função, a Urca era preservada. "Foi o primeiro bairro protegido pelo Iphan na cidade", lembra o construtor Conde Caldas, dono da Concal, há 37 anos no mercado. "Hoje, para cada apartamento à venda, há três compradores." Roberta Ciasca, chef do restaurante Miam Miam, é uma das que não abrem mão de viver lá. "Uma vez criado ali, não se consegue sair. E os imóveis vão sendo ocupados por parentes ou amigos dos moradores", lembra ela, que é da terceira geração da família na Urca. Estímulos, afinal, não faltam. Há cartões-postais em profusão, nenhuma favela e várias construções ocupadas pelo Exército, entre elas a Fortaleza de São João, o que dá a sensação de segurança. "Quem investe aqui nunca perde", propagandeia o corretor Fredie Brito, quarenta anos de Urca. "Os imóveis só se valorizam." O metro quadrado hoje custa, em média, 5 000 reais, podendo chegar facilmente aos 7 000 reais. Segundo o Secovi Rio – o sindicato do mercado imobiliário –, o valor médio de um apartamento de dois quartos, para locação, está em 2 340 reais.

Marco Antonio Rezende
Albin: "As águas já foram calmas"


Desde que a prefeitura assumiu o edifício do velho cassino, em 2003, várias idéias foram cogitadas. Uma delas previa a abertura de um Museu do Rio, cujas obras começaram, mas foram interrompidas. Outra propunha um memorial dedicado à televisão. "Penso que o ideal seria fazer ali um espaço que resgatasse a história da Tupi e da TV de modo geral", sugere Philippe Bandeira de Mello, neto do empresário Assis Chateaubriand, fundador da Tupi. A prefeitura descarta esse e os projetos anteriores. "Eles não se viabilizariam economicamente", acredita o secretário das Culturas, Ricardo Macieira. "Não basta recuperar o patrimônio, é preciso dotá-lo de sustentabilidade." Pelo contrato firmado entre a prefeitura e o IED, o instituto italiano usará recursos próprios nas obras (investimento de 17 milhões de reais, fora equipamentos) em troca do direito de explorar o prédio por 25 anos, prorrogáveis. O mal-estar entre o IED e os moradores tem dois pontos principais: o número de alunos e os eventos que o instituto planeja realizar. "Espalharam que teremos até 1 500 alunos, mas isso é um número surrealista", afirma Ponzè. "Serão, no máximo, 150 estudantes por ano, divididos em três turnos." Quanto aos eventos, ele jura que estão fora de cogitação shows e grandes aglomerações. "Queremos fazer palestras e exposições. E o impacto viário será mínimo."

 
Selmy Yassuda
Lenine: "É uma escola maravilhosa, mas não para a Urca. Falta estrutura para isso"

Ainda assim, a vice-presidente da Amour, Mariana de Carvalho Gomes, garante que o bairro não tem condições de receber a população extra. "O Rio merece uma escola como essa, que é maravilhosa, mas não na Urca", opina o músico Lenine, que desembarcou por lá em 1980, começou a namorar a mulher nas ruas do bairro e agora vive com ela e dois filhos em um apartamento diante da baía. Zélia Duncan faz coro: "Não haverá estacionamento para tanta gente". Vizinho do cassino, o pesquisador musical Ricardo Cravo Albin acompanha, curioso, o bafafá. De sua antiga casa, que abriga um instituto com seu nome, ele avista a baía em que nadava quando menino e pondera: "Essas águas já foram calmas". É, não são mais.

 
Fotos Divulgação, Fernando Lemos e Marco Antonio Rezende
O velho Cassino da Urca, em foto de 1935, e o projeto do IED carioca: Mauro Ponzè, diretor do instituto italiano, afirma que o bairro não será prejudicado, mas a polêmica já ganhou as ruas e foi parar até na fachada dos prédios

         
 



1 - Morro da Urca 2 - Pão de Açúcar 3 - Pista Claudio Coutinho 4 - Praia Vermelha 5 - Círculo Militar 6 - Estação do bondinho 7 - Quadrado da Urca 8 - Iate Clube do Rio de Janeiro 9 - Cassino da Urca 10 - Fortaleza de São João 11 - Morro Cara de Cão

     

 

 
VEJA on-line | Veja Rio
copyright © Editora Abril S.A. . todos os direitos reservados