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18 de outubro de 2006

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CRÔNICA

Tempo de lembrar

Manoel Carlos

Eu vi, eu estava lá, eu participei, até mesmo assinando alguns contratos, como os de Elis Regina e Roberto Carlos, por exemplo. Era a TV Record (SP) dos bons tempos da família Machado de Carvalho. Vi também de muito perto o trabalho de Solano Ribeiro no primeiro festival realizado pelo canal 7, que deu origem ao maior investimento feito até hoje na música popular brasileira, com mais de 200 artistas contratados, entre cantores e instrumentistas. São dessa época os programas O Fino da Bossa, Bossaudade e Esta Noite Se Improvisa, que a Equipe A produziu e dirigiu por muitos anos. Um dia, no meio de um ensaio do Fino, comentamos com o Paulinho Machado de Carvalho, um dos donos da emissora, que era uma pena não termos contratado Ângela Maria e Cauby Peixoto, pois com a participação deles faríamos um belíssimo número com a Elis. E o Paulinho:

– Que não seja por isso.

E, chamando o empresário Marcos Lázaro, determinou:

– Telefone para o Rio e peça aos dois que peguem o primeiro avião e venham. Enquanto isso preparamos os contratos.

Tínhamos dinheiro para isso, é certo, mas tínhamos idéias também. E ninguém ainda demonstrava cansaço. À exceção do Raul Duarte, que tinha 50 anos, eu, Tuta de Carvalho e Nilton Travesso andávamos por volta dos 30.

Convivíamos com os donos. Era diretamente a eles que nos queixávamos. Era a eles que nos dirigíamos quando queríamos reivindicar alguma coisa. Era com eles que almoçávamos muitas vezes, no restaurante da emissora ou numa pizzaria furreca ao lado do Teatro Record. Era na casa deles que ancorávamos em alguns sábados para um papo informal. Era um tempo sem limite para o que queríamos fazer. Éramos também, por força das circunstâncias, bombeiros honorários, já que a Record, para não desmerecer o nome, foi recordista de incêndios. Incêndio nos estúdios da Avenida Miruna; incêndio no Teatro Record, na Rua da Consolação; incêndio no Paramount, na Brigadeiro Luiz Antonio. Choramos junto com os Carvalho todos aqueles incêndios criminosos (sabíamos) e não solucionados.

Por que estou eu aqui, mordido de saudade, falando de uma época que não volta mais, perdida lá no começo da década de 60? Eu conto: há duas semanas me encontrei casualmente com o Nilton Travesso, meu companheiro de Equipe A e velho amigo de muito antes disso, pois nos conhecemos em 1953, quando da inauguração da TV Record. Uma amizade, portanto, que já dura mais de cinqüenta anos. Nos vemos pouco, ele vivendo em São Paulo, eu no Rio, mas quando nos encontramos é sempre uma festa. Numa mesa no Garcia & Rodrigues, eu com a Bety, ele com a Marilu, ficamos, por algum tempo, bebericando um bom vinho, conversando e rindo de tantas lembranças. Entristecemo-nos também porque nessas ocasiões a morte está sempre presente.

– E fulano, o que está fazendo?

– Morreu. Não sabia?

– Não. Quando?

Falamos sobre a música popular, desaparecida da televisão. De como não há mais espaço para ela. Dos teleteatros, que também sumiram. Eclipses que não se justificam num país com tanta gente boa nas duas áreas.

Encontrar velhos amigos é como remexer em guardados, rever fotos familiares, reler cartas antigas, encontrar uma flor esmagada entre as páginas de um álbum. É como abrir um livro e deparar com uma dedicatória já esquecida. Noutro dia peguei na estante uma edição, em espanhol, das obras completas de Gogol, e estava lá, numa letra que eu reconheci na hora: "Para Lú e Maneco, de pijama no meu coração. Flávio". O Flávio Rangel, meu querido amigo, morto em 1988. A dedicatória é de 1954. Lú era como chamávamos minha mulher, mãe dos meus dois primeiros filhos, que morreu em 1972.

Quanto tempo!

Saudade.

E-mails para o cronista: almaviva@uninet.com.br

     
   

 

 
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