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CRÔNICA
Tempo
de lembrar Manoel
Carlos Eu
vi, eu estava lá, eu participei, até mesmo assinando alguns contratos,
como os de Elis Regina e Roberto Carlos, por exemplo. Era a TV Record (SP) dos
bons tempos da família Machado de Carvalho. Vi também de muito perto
o trabalho de Solano Ribeiro no primeiro festival realizado pelo canal 7, que
deu origem ao maior investimento feito até hoje na música popular
brasileira, com mais de 200 artistas contratados, entre cantores e instrumentistas.
São dessa época os programas O Fino da Bossa, Bossaudade
e Esta Noite Se Improvisa, que a Equipe A produziu e dirigiu por muitos
anos. Um dia, no meio de um ensaio do Fino, comentamos com o Paulinho Machado
de Carvalho, um dos donos da emissora, que era uma pena não termos contratado
Ângela Maria e Cauby Peixoto, pois com a participação deles
faríamos um belíssimo número com a Elis. E o Paulinho:
Que não
seja por isso. E,
chamando o empresário Marcos Lázaro, determinou:
Telefone para o Rio e peça aos dois que peguem o primeiro avião
e venham. Enquanto isso preparamos os contratos. Tínhamos
dinheiro para isso, é certo, mas tínhamos idéias também.
E ninguém ainda demonstrava cansaço. À exceção
do Raul Duarte, que tinha 50 anos, eu, Tuta de Carvalho e Nilton Travesso andávamos
por volta dos 30. Convivíamos
com os donos. Era diretamente a eles que nos queixávamos. Era a eles que
nos dirigíamos quando queríamos reivindicar alguma coisa. Era com
eles que almoçávamos muitas vezes, no restaurante da emissora ou
numa pizzaria furreca ao lado do Teatro Record. Era na casa deles que ancorávamos
em alguns sábados para um papo informal. Era um tempo sem limite para o
que queríamos fazer. Éramos também, por força das
circunstâncias, bombeiros honorários, já que a Record, para
não desmerecer o nome, foi recordista de incêndios. Incêndio
nos estúdios da Avenida Miruna; incêndio no Teatro Record, na Rua
da Consolação; incêndio no Paramount, na Brigadeiro Luiz Antonio.
Choramos junto com os Carvalho todos aqueles incêndios criminosos (sabíamos)
e não solucionados. Por
que estou eu aqui, mordido de saudade, falando de uma época que não
volta mais, perdida lá no começo da década de 60? Eu conto:
há duas semanas me encontrei casualmente com o Nilton Travesso, meu companheiro
de Equipe A e velho amigo de muito antes disso, pois nos conhecemos em 1953, quando
da inauguração da TV Record. Uma amizade, portanto, que já
dura mais de cinqüenta anos. Nos vemos pouco, ele vivendo em São Paulo,
eu no Rio, mas quando nos encontramos é sempre uma festa. Numa mesa no
Garcia & Rodrigues, eu com a Bety, ele com a Marilu, ficamos, por algum tempo,
bebericando um bom vinho, conversando e rindo de tantas lembranças. Entristecemo-nos
também porque nessas ocasiões a morte está sempre presente.
E fulano,
o que está fazendo?
Morreu. Não sabia?
Não. Quando? Falamos
sobre a música popular, desaparecida da televisão. De como não
há mais espaço para ela. Dos teleteatros, que também sumiram.
Eclipses que não se justificam num país com tanta gente boa nas
duas áreas. Encontrar
velhos amigos é como remexer em guardados, rever fotos familiares, reler
cartas antigas, encontrar uma flor esmagada entre as páginas de um álbum.
É como abrir um livro e deparar com uma dedicatória já esquecida.
Noutro dia peguei na estante uma edição, em espanhol, das obras
completas de Gogol, e estava lá, numa letra que eu reconheci na hora: "Para
Lú e Maneco, de pijama no meu coração. Flávio". O
Flávio Rangel, meu querido amigo, morto em 1988. A dedicatória é
de 1954. Lú era como chamávamos minha mulher, mãe dos meus
dois primeiros filhos, que morreu em 1972. Quanto
tempo! Saudade.
E-mails para o cronista:
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