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18 de junho de 2003
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MÚSICA

Sons para transcender

Música nas Igrejas celebra seus dez anos

Debora Ghivelder

Cláudia Martins/Strana
Antonio Meneses e Rosana Lanzelotte: concerto de gala


A temperatura amena indicava aprazíveis dias de julho e Antonio Meneses, virtuose do violoncelo reconhecido internacionalmente, empunhava o arco para uma platéia que lotava a bela nave do Mosteiro de São Bento. Ele dava partida ao projeto Música nas Igrejas, série de concertos promovida pela prefeitura que, como o nome anuncia, iria se abrigar em capelas da cidade e oferecer boa música de graça aos cariocas. A apresentação aconteceu há dez anos, e na terça-feira (17) Meneses volta com seu violoncelo ao Mosteiro de São Bento, ladeado, como uma década atrás, pela diretora musical da série, a cravista Rosana Lanzelotte. Estrela do concerto de aniversário, Meneses vai tocar As Sete Últimas Palavras de Cristo, do austríaco Joseph Haydn (veja informações na coluna Concertos).

A obra é composta de sete adágios que entremeiam a meditação da cerimônia das Sete Últimas Palavras de Cristo e foi originalmente composta para orquestra. Uma outra versão, para quarteto de cordas, do próprio Haydn, é a apresentada nesse concerto. A parte dos textos bíblicos será lida por Helder Parente. Para quem acha que a obra pode não ser a coisa mais alegre para um aniversário é bom lembrar que a peça, bela e de fôlego, abriu o projeto naquele julho de 1993. No decorrer dos anos, aliás, foi preocupação levar ao público que lotou igrejas como a Nossa Senhora do Outeiro da Glória e a Nossa Senhora de Bonsucesso um repertório de obras escrito especificamente para esse tipo de local. Ganharam vida, então, as partituras da famosa e ornamentada Miserere (Allegri), a importante Lições de Trevas (Couperin) e Confitebor, do pouco conhecido compositor italiano Baldassare Galuppi, entre muitas outras. Tudo executado por nomes de primeira grandeza do cenário nacional, como o competente grupo coral Calíope e o cravista Roberto de Regina e profissionais de bom calibre trazidos de fora como o oboísta Heinz Holliger ou os cravistas Christophe Rousset e Olivier Baumont. "É muito bom ver que a série, financiada com dinheiro público, sobrevive há uma década", comemora Rosana. Quem acredita em Deus pode mesmo pensar em milagre.

Mais que isso. O Música nas Igrejas não é um projeto vitorioso só por se manter com qualidade por dez anos. Ele é o precursor de algo que virou mania na cidade: a idéia de aproveitar espaços não convencionais, mas com boa acústica, para oferecer concertos gratuitos ou a preços muito camaradas à população. Na esteira da série capitaneada por Rosana surgiram projetos bem-sucedidos em outras igrejas (como a da Candelária) e em museus. Mais: desde 2001 os concertos feitos em belas igrejas do Centro da cidade são repetidos em templos menos concorridos das zonas Norte e Oeste e também para crianças da rede de ensino do município, em apresentações didáticas. A temporada de 2002 levou cerca de 16.000 pessoas às igrejas. Faz dois anos que as apresentações são religiosamente gravadas e exibidas pela TVE, o que aumentou ainda mais o alcance da série. "Sempre pensamos na contrapartida social", diz Mario Calmont, diretor do projeto.

Iniciativas como essa empolgam Antonio Meneses. 'É muito bom, dez anos depois, tocar nesta série, ver que ela continua", diz Meneses. Amém.

         
     
 
 
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