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18 de junho de 2003
REPORTAGEM DE CAPA
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CRÔNICA
   

CRÔNICA

A gente

Adriana Falcão

1. A gente namora.

Olho no olho. Mão na mão. Uma boca na outra boca. Pronto. Começou o namoro.

Um turbilhão toma conta da gente. Quero? Quanto? Como? O que até então era certeza agora é pisca-pisca. Ora acende medo, ora acende entrega, paixão, alegria, tristeza, tragédia, brincadeira. Pega-pega. Esconde-esconde. Corações eternamente na berlinda.

Os outros três elementos dão lugar ao fogo.

Falta ar. Falta chão. Água vira desejo ou lágrima.


Um vai conhecendo o outro, a curiosidade não se esgota e, enquanto as descobertas se encaixam, o amor invade tudo. E haja conversa. Festa. Grito. Beijos de não sei lá quantos minutos, pois imagina se a gente vai pensar em coisa besta como o tempo enquanto dá um beijo desse tipo? E haja mãos audaciosas. E palavras que escapolem da boca. Algumas até fazem corar. Principalmente as melhores.

O resto do mundo... Existe o resto do mundo?

Provavelmente, ônibus seguem suas rotas levando passageiros que seguem seus destinos, transeuntes passam, mães acalentam filhos, solitários penam, abandonos pesam, romeirais, em algum lugar, continuam a dar romãs, o comércio funciona normalmente, os escritórios permanecem sérios, os cartórios autenticam documentos, aviões decolam, e a Terra gira, o universo sobrevive, inteiro, cosmo, macrocosmo, tudo lá fora ainda existe.

Mas, se existir, não se repara. Nada importa senão um para o outro. (Exceto a Lua, é claro.)

2. A gente namora e então casa.

Hora da decisão. Sim ou não? Sim. Prometo. Ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te e respeitando-te por todos os dias da minha vida.

Só esqueceram de prometer os beijos. Será que acabou o namoro?

Agora é a vida. Agora é à vera. Fim da brincadeira.

Então vem o tempo, dia a dia, carregando, pedaço por pedaço, descoberta, conversa, festa, grito, mãos audaciosas, palavras fugitivas, e a gente vai deixando. Fazer o quê? É a vida que passa correndo, varrendo segredos, desejos e poeira. Casa para arrumar, trabalho para fazer, dinheiro para ganhar, filho para criar, preocupação para se preocupar, quem é que pode pensar em romance desse jeito?

Vez em quando, a menina implora, "me namora!".

"Qualquer hora, meu bem, agora estou muito ocupado."

Vez por outra, é o menino que revive, "quer dançar?".

"Dia desses, meu bem, hoje é dia de vida."

E a vida é essa, assim, sem graça? Homem, mulher, filhos, mobília, pressa?

A família vai muito bem, obrigada. Mas e aquela gargalhada? Nada ficou de herança, nenhuma esperança de abraço?

Depois.

Quando finalmente um olha para o outro, os dois já não se reconhecem. São ilustres desconhecidos. A solidão se estabelece. Que saudade da época do namoro. Deus quiser, saudade vira saída. Olho no olho. Mão na mão. Uma boca na outra boca. Pronto.

3. A gente namora e então casa e então namora.

Se a gente casa para não acabar o namoro, conclui-se que a gente casa para continuar namorando. Na teoria é lindo. E na prática? Como é que se conserva o coração batendo? Existe uma fórmula? Duvido. Mas tenho algumas suspeitas. Um "The end" sobre a imagem de um casal feliz, ao invés de final, deveria ser apenas começo. Encontro. Paixão. Namoro. Casamento. Namoro. Paixão. Encontro. A vida acontecendo em círculos sem nunca perder o movimento. Assim é que era bom. Talvez seja uma insistente predileção por taquicardia. Ou talvez só o prazer de ver o amor invadindo tudo. Acho que nasci para namorar. Sou namoradeira. Ninguém se iluda. Todo sentimento nobre que me invade, qualquer frase que eu diga, a cor da blusa que escolho, o lápis no olho, o trabalho, o perfume, quando eu solto o meu cabelo, esta crônica, esta tarde, tudo é só para namorar, cada passo, gesto ou pensamento faz parte do meu namoro.

Desconfio que os homens se importam mais com feitos, fatos, obra, trabalho, dinheiro, sobrevivência. Problema deles.

Nada melhor que um beijo estonteante. Nem efeito de champanhe me alegra tanto quanto frio na barriga. Não dispenso pisca-pisca, entrega, medo, tremedeira, paixão, brincadeira, esconde-esconde, pega-pega, conversa, festa, grito, descoberta. Romântica? Admito.

         
     
 
 
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