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CRÔNICA
A
gente
Adriana
Falcão
1.
A gente namora.
Olho
no olho. Mão na mão. Uma boca na outra boca. Pronto.
Começou o namoro.
Um
turbilhão toma conta da gente. Quero? Quanto? Como? O que
até então era certeza agora é pisca-pisca.
Ora acende medo, ora acende entrega, paixão, alegria, tristeza,
tragédia, brincadeira. Pega-pega. Esconde-esconde. Corações
eternamente na berlinda.
Os
outros três elementos dão lugar ao fogo.
Falta
ar. Falta chão. Água vira desejo ou lágrima.
Um
vai conhecendo o outro, a curiosidade não se esgota e, enquanto
as descobertas se encaixam, o amor invade tudo. E haja conversa.
Festa. Grito. Beijos de não sei lá quantos minutos,
pois imagina se a gente vai pensar em coisa besta como o tempo enquanto
dá um beijo desse tipo? E haja mãos audaciosas. E
palavras que escapolem da boca. Algumas até fazem corar.
Principalmente as melhores.
O
resto do mundo... Existe o resto do mundo?
Provavelmente,
ônibus seguem suas rotas levando passageiros que seguem seus
destinos, transeuntes passam, mães acalentam filhos, solitários
penam, abandonos pesam, romeirais, em algum lugar, continuam a dar
romãs, o comércio funciona normalmente, os escritórios
permanecem sérios, os cartórios autenticam documentos,
aviões decolam, e a Terra gira, o universo sobrevive, inteiro,
cosmo, macrocosmo, tudo lá fora ainda existe.
Mas,
se existir, não se repara. Nada importa senão um para
o outro. (Exceto a Lua, é claro.)
2.
A gente namora e então casa.
Hora
da decisão. Sim ou não? Sim. Prometo. Ser fiel na
alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-te
e respeitando-te por todos os dias da minha vida.
Só
esqueceram de prometer os beijos. Será que acabou o namoro?
Agora
é a vida. Agora é à vera. Fim da brincadeira.
Então
vem o tempo, dia a dia, carregando, pedaço por pedaço,
descoberta, conversa, festa, grito, mãos audaciosas, palavras
fugitivas, e a gente vai deixando. Fazer o quê? É a
vida que passa correndo, varrendo segredos, desejos e poeira. Casa
para arrumar, trabalho para fazer, dinheiro para ganhar, filho para
criar, preocupação para se preocupar, quem é
que pode pensar em romance desse jeito?
Vez
em quando, a menina implora, "me namora!".
"Qualquer
hora, meu bem, agora estou muito ocupado."
Vez
por outra, é o menino que revive, "quer dançar?".
"Dia
desses, meu bem, hoje é dia de vida."
E
a vida é essa, assim, sem graça? Homem, mulher, filhos,
mobília, pressa?
A
família vai muito bem, obrigada. Mas e aquela gargalhada?
Nada ficou de herança, nenhuma esperança de abraço?
Depois.
Quando
finalmente um olha para o outro, os dois já não se
reconhecem. São ilustres desconhecidos. A solidão
se estabelece. Que saudade da época do namoro. Deus quiser,
saudade vira saída. Olho no olho. Mão na mão.
Uma boca na outra boca. Pronto.
3.
A gente namora e então casa e então namora.
Se
a gente casa para não acabar o namoro, conclui-se que a gente
casa para continuar namorando. Na teoria é lindo. E na prática?
Como é que se conserva o coração batendo? Existe
uma fórmula? Duvido. Mas tenho algumas suspeitas. Um "The
end" sobre a imagem de um casal feliz, ao invés de final,
deveria ser apenas começo. Encontro. Paixão. Namoro.
Casamento. Namoro. Paixão. Encontro. A vida acontecendo em
círculos sem nunca perder o movimento. Assim é que
era bom. Talvez seja uma insistente predileção por
taquicardia. Ou talvez só o prazer de ver o amor invadindo
tudo. Acho que nasci para namorar. Sou namoradeira. Ninguém
se iluda. Todo sentimento nobre que me invade, qualquer frase que
eu diga, a cor da blusa que escolho, o lápis no olho, o trabalho,
o perfume, quando eu solto o meu cabelo, esta crônica, esta
tarde, tudo é só para namorar, cada passo, gesto ou
pensamento faz parte do meu namoro.
Desconfio
que os homens se importam mais com feitos, fatos, obra, trabalho,
dinheiro, sobrevivência. Problema deles.
Nada
melhor que um beijo estonteante. Nem efeito de champanhe me alegra
tanto quanto frio na barriga. Não dispenso pisca-pisca, entrega,
medo, tremedeira, paixão, brincadeira, esconde-esconde, pega-pega,
conversa, festa, grito, descoberta. Romântica? Admito.
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