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REPORTAGEM DE CAPA
Pinceladas de uma vida As polêmicas e as histórias de
Gilberto Chateaubriand Sofia
Cerqueira e Cristina Grillo Arthur
Cavaliere/Strana
 | Gilberto:
obras-primas e
inúmeras histórias em
sua coleção |
Gilberto
Francisco Renato Allard Chateaubriand Bandeira de Mello é um colecionador:
de passagens históricas, cenas pitorescas, grandes amigos, alguns desafetos,
mas sobretudo de obras de arte. A trajetória começou por acaso,
em meados de 1952, quando o então diplomata, filho mais velho do magnata
da comunicação Assis Chateaubriand, foi a Salvador representar o
pai na inauguração de um hotel. A caminho da recepção,
o diretor local dos Diários Associados resolveu apresentá-lo a um
amigo talentoso. Era o pintor José Pancetti, que vivia de favor num hotel
abandonado. Saiu de lá com um quadro debaixo do braço, Paisagem
de Itapoã, presente do artista. Nascia
ali uma das mais importantes coleções de arte brasileira, há
doze anos cedida ao Museu da Arte Moderna do Rio em regime de comodato. São
mais de 6.000 obras de 266 artistas, um vasto acervo de valor imensurável.
Entre as pérolas está o Urutu, pintado em 1928 por Tarsila
do Amaral, comprado em 1961 pelo equivalente a 300 dólares e hoje avaliado
em 2 milhões de dólares.  | Temporada
em Paris: com seu colega de diplomacia Vinicius de Moraes |
O
entusiasmo que o levou a adquirir, nos anos 50 e 60, várias telas do então
pouco valorizado modernismo é o mesmo que o faz visitar ateliês de
jovens artistas, onde compra obras que ainda nem secaram. "Continuo adquirindo
furiosamente", diz o colecionador, reverenciado no mercado de arte por sua capacidade
de descobrir e comprar depois de pechinchar bastante o melhor de
até então desconhecidos talentos. "Oitenta anos não me assustam;
o que vem depois, talvez", diz o colecionador, às vésperas do aniversário
(21 de maio). Em plena atividade, viaja com freqüência, faz longas
caminhadas, adora feijoada e não esmorece diante da batalha judicial contra
empregados do pai nos Diários Associados, a qual já dura quarenta
anos. A
relação irascível com o pai pontua sua história. "Ele
era o antipai. Não tinha empatia nem afeto pelos filhos", diz. Até
os 18 anos, em sua certidão de nascimento constava "pai desconhecido".
Chatô só o reconheceu diante da ameaça de o filho ser convocado
a lutar na II Guerra Mundial como soldado do Exército francês. Ele
é fruto do namoro do empresário com a francesa Jeanne Marguerite,
que vivia no Rio mas teve o filho na Europa para se afastar de fofocas. De outras
relações do pai vieram os irmãos Fernando, já falecido,
e Teresa. "Ele era um sádico, dava ordens que sabia que contrariavam nossas
vontades." A decisão do filho de ser diplomata não lhe agradou.
Quando o rapaz conseguiu um posto em Paris, onde passou quatro anos, Chatô
fez de tudo para transferi-lo para o Equador. Ao lado do pai, Chateaubriand testemunhou
eventos como a cerimônia de coroação da rainha Elizabeth II,
em 1953, em Londres. Foi ele quem levou, no avião, o colar e o par de brincos
que o governo daria à rainha, costurados no forro de seu sobretudo. Na
volta, foi obrigado pelo pai a embarcar num navio para trazer 15 toneladas de
equipamentos, sem fiscalização, para a TV Tupi.  | Pai
e filho: a caminho da coroação da rainha Elizabeth II, em Londres
|
Chateaubriand
é membro do conselho internacional da Fundação Cartier, em
Paris, que tem um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea da Europa,
e do conselho do Museu de Arte Moderna de Nova York. "É o colecionador
com maior influência lá fora que o Brasil já teve", diz o
presidente do MAM, João Maurício de Araújo Pinho. "Ele influencia
essas instituições na compra de arte brasileira", diz o colecionador
e amigo de longa data João Satamini. Chateaubriand faz questão de
dizer que começou sua coleção do zero, sem apoio do pai e
comprando as obras, no início, com o salário de jovem diplomata.
Hoje utiliza os rendimentos de alguns imóveis e de uma fazenda de 360 alqueires
que tem no interior de São Paulo. "Tenho um nome milionário, mas
nunca o fui", afirma. A fazenda é um dos três bens herdados do pai.
Além dela, ele recebeu um terreno no Rio, desapropriado anos mais tarde,
e um em São Paulo, que acha "um mico". Herança minguada se considerado
o império com mais de setenta veículos, entre jornais, revistas,
emissoras de rádio e de TV, que o grupo Diários chegou a ter. Brigado
com os filhos, em 1959 Chatô doou 49% das empresas a 22 empregados. Até
hoje o que restou do império é alvo de disputa na Justiça
entre Chateaubriand e os condôminos. Alexandre
Sant'Anna/Strana
 | Jean
Boghici: amizade de quarenta anos |
A
coleção vai do modernismo ao contemporâneo. Tudo está
lá: Pancetti, Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, Vicente do Rego Monteiro,
Tarsila do Amaral, Rubens Gerschman, Antonio Dias, Tunga, Adriana Varejão,
Beatriz Milhazes. Basta pensar num artista significativo e, com certeza, há
uma obra sua em poder de Chateaubriand. Além do olhar aguçado, ele
tem duas outras características marcantes: a sorte e a insistência
em barganhar preços. Urutu, a tela comprada por 300 dólares
e que hoje vale 2 milhões de dólares, foi encontrada jogada num
armário nos fundos de uma galeria, em São Paulo. E paga em três
parcelas. Em outra ocasião, também em São Paulo, Chateaubriand
refugiou-se numa banca para escapar de um temporal e começou a folhear
um jornal. Descobriu que aquele era o último dia de uma exposição
de Anita Malfatti. Foi lá e comprou, por uma pechincha, O Farol de Monheagan,
hoje considerada uma das obras-primas da artista. Agora os tempos são outros,
afirma Chateaubriand. Ao dizer o que considera necessário para alguém
se tornar um colecionador como ele, responde rápido: "Primeiro, é
preciso tornar-se milionário". Os preços estratosféricos
da arte brasileira atualmente espantam o colecionador. "Atualmente é como
no futebol. As galerias têm olheiros nas escolas de arte." Mesmo assim,
ele não pára de comprar. "Até o que vai ser feito amanhã
ele já quer", brinca o marchand Jean Boghici, amigo há quarenta
anos. Arthur
Cavaliere/Strana
 | No
MAM: Chateaubriand (à dir.) e a cúpula do museu onde estão
suas obras |
Chateaubriand
não gosta de trocar ou vender suas obras, mas em alguns momentos não
teve opção. Em 1963, brigado com o pai e sem reservas, desfez-se
de um Di Cavalcanti. Três décadas depois, com a mãe doente,
vendeu dois Portinari. "Se vendesse o que tenho, poderia ter um castelo na França
ou uma fortaleza no Peloponeso, mas prefiro ter quadros", diz. Alguns anos atrás
esteve prestes a entrar na posse de um apartamento na Avenida Delfim Moreira.
Na hora H, desistiu do negócio. Preferiu comprar novas telas. Há
poucos dias precisava adquirir uma caminhonete para escoar a produção
de sua fazenda. Em vez disso, comprou mais quadros. Desde os anos 50, vive num
espaçoso apartamento no Leblon. Apesar da área generosa 480
metros quadrados , as obras de arte se amontoavam por todos os lados até
1993, quando decidiu cedê-las ao MAM em regime de comodato. "O maior inimigo
da arte é o egoísmo do colecionador", prega. Além dos quadros,
seus prazeres são viajar, ouvir música erudita, beber vinho e fumar
charutos cubanos. Bom gourmand, freqüenta desde o Antiquarius, no Leblon,
até o Sentaí, atrás da Central do Brasil. Foi lá que
nos dois últimos anos reuniu dezenas de artistas plásticos para
um tradicional almoço de fim de ano. "Ele tem uma capacidade incrível
de comer. Nos almoços do Sentaí, manda vir lagosta sem parar", revela
João Satamini, com quem em várias ocasiões já disputou
uma boa peça. "Cada um tem o seu museuzinho. Ele tem o MAM, eu tenho o
MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que abriga a Coleção
Satamini). Então, algumas vezes nos interessamos pelo mesmo trabalho.
Às vezes ele chega primeiro e leva. Às vezes quem chega sou eu",
conta Satamini. De
aparência sisuda, Chateaubriand é irônico e divertido, porém
há situações em que é explosivo. Tem ótima
relação com artistas e colecionadores, mas não com todos.
Não pode ouvir o nome do advogado Sergio Fadel, dono de uma ampla coleção
de arte brasileira do período colonial ao modernismo, sem explodir. "Ele
é um invejoso, já quis me expulsar do MAM para colocar a coleção
dele lá", diz. "Desconhecemos totalmente a questão. Sempre respeitamos
o Gilberto, e sua coleção merece estar no MAM", rebate Marta Fadel,
filha do colecionador. Chateaubriand também explode ao pensar na possibilidade
de, no futuro, sua coleção ser leiloada. "Reviraria dez mil vezes
na cova", afirma. Solteiro e sem herdeiros, Chateaubriand perfilhou, há
alguns anos, o atual vice-presidente do MAM, Carlos Alberto Gouvêa. "Temos
uma relação de muita confiança", diz o filho adotivo.
O
colecionador que sofre de labirintite e tem um problema de visão
segue pondo sua valiosa chancela em novos talentos. Uma de suas mais recentes
aquisições é a roupa-instalação Homem Espelho,
do novato Daniel Toledo, 24 anos, aluno da Escola de Artes Visuais do Parque
Lage. A peça é um macacão de lona coberto com centenas de
pedacinhos irregulares de espelho que cobre todo o corpo de quem o usa. Toledo,
estagiário de produção no MAM, conheceu o colecionador nos
corredores do museu. "Fiquei surpreso quando ele marcou uma reunião para
conhecer meus trabalhos", conta o artista. Toledo não perdeu a chance.
Tocou a campainha do apartamento do Leblon vestido de Homem Espelho. "Ele
adorou, morreu de rir, fez um monte de perguntas e comprou a obra", relembra.
Para
celebrar os 80 anos do colecionador estão programados coquetéis
no MAM, no Parque Lage e um jantar em São Paulo oferecido pela empresária
Milú Villela. Ele está feliz. Ou quase. "O que poderia querer da
vida eu recebi. Menos uma figura paterna."
Uma
longa viagem pela
arte brasileira A
Coleção Gilberto Chateaubriand, considerada a mais completa de arte
brasileira no país, rende constantes exposições no MAM. O
acervo está ali, em regime de comodato, desde 1993. Com mais de 6.000 peças,
reúne exemplares de todas as correntes artísticas, do modernismo
dos anos 20 às produções mais recentes. Só no ano
passado, o colecionador adquiriu 240 obras. Fotos
Divulgação
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 | | Urutu:
o quadro pintado por Tarsila em 1928 é uma das estrelas da coleção
| Marinheiro
e Prostituta: o óleo
sobre tela
leva a assinatura de Lasar
Segall e foi pintado em 1929 |
 |  | | Peixes,
de 1930: uma das doze obras de
Di Cavalcanti que Gilberto comprou ao
longo de cinco décadas de garimpo | Vaso
de Flores, de 1930: obra-prima do pernambucano Vicente do Rego Monteiro, de
quem Chateaubriand tem várias telas |
 |  | | Auto-retrato
de Ismael Nery, de 1930: em óleo sobre papel, é uma das maiores
preciosidades do artista | Auto-retrato
de Carlos Scliar, de 1948: o
artista foi um dos maiores amigos do colecionador
no mundo das artes |
 |  | | Óleo
sobre tela, de Pancetti: datado de
1940, auto-retrato do primeiro artista
da coleção de Chateaubriand | Guignard,
de 1961: este óleo sobre madeira é provavelmente o último
auto-retrato feito
pelo artista |
 |  | | Festa
de Iemanjá,
de 1959: uma
das três telas
de Cândido Portinari
do acervo que
está no MAM
| Beatriz
Milhazes, de 1993: obra sem título, comprada antes de a artista virar um
dos maiores expoentes de sua geração |
 |  | | Zebra,
acrílico sobre tela de Cláudio
Tozzi: cores intensas e
vibrantes, marcas dos anos 70 | O
Terceiro Cálice, de 1990, de Adriana Varejão:
Chateaubriand tem obras da
artista desde o início da carreira |
 |  | | Vórtice
II, de 1973, de Iberê Camargo: exemplo
da pintura inquietante que acompanhou
a trajetória do artista | Porto
Seguro na Vida Não Há, de 1996: tela de Luiz Zerbini, da Geração
80 |
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