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18 de maio de 2005

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REPORTAGEM DE CAPA

Pinceladas de uma vida

As polêmicas e as histórias
de Gilberto Chateaubriand

Sofia Cerqueira e Cristina Grillo

Arthur Cavaliere/Strana

Gilberto: obras-primas e inúmeras histórias em sua coleção


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Gilberto Francisco Renato Allard Chateaubriand Bandeira de Mello é um colecionador: de passagens históricas, cenas pitorescas, grandes amigos, alguns desafetos, mas sobretudo de obras de arte. A trajetória começou por acaso, em meados de 1952, quando o então diplomata, filho mais velho do magnata da comunicação Assis Chateaubriand, foi a Salvador representar o pai na inauguração de um hotel. A caminho da recepção, o diretor local dos Diários Associados resolveu apresentá-lo a um amigo talentoso. Era o pintor José Pancetti, que vivia de favor num hotel abandonado. Saiu de lá com um quadro debaixo do braço, Paisagem de Itapoã, presente do artista.

Nascia ali uma das mais importantes coleções de arte brasileira, há doze anos cedida ao Museu da Arte Moderna do Rio em regime de comodato. São mais de 6.000 obras de 266 artistas, um vasto acervo de valor imensurável. Entre as pérolas está o Urutu, pintado em 1928 por Tarsila do Amaral, comprado em 1961 pelo equivalente a 300 dólares e hoje avaliado em 2 milhões de dólares.

 

Temporada em Paris: com seu colega de diplomacia Vinicius de Moraes

O entusiasmo que o levou a adquirir, nos anos 50 e 60, várias telas do então pouco valorizado modernismo é o mesmo que o faz visitar ateliês de jovens artistas, onde compra obras que ainda nem secaram. "Continuo adquirindo furiosamente", diz o colecionador, reverenciado no mercado de arte por sua capacidade de descobrir – e comprar depois de pechinchar bastante – o melhor de até então desconhecidos talentos. "Oitenta anos não me assustam; o que vem depois, talvez", diz o colecionador, às vésperas do aniversário (21 de maio). Em plena atividade, viaja com freqüência, faz longas caminhadas, adora feijoada e não esmorece diante da batalha judicial contra empregados do pai nos Diários Associados, a qual já dura quarenta anos.

A relação irascível com o pai pontua sua história. "Ele era o antipai. Não tinha empatia nem afeto pelos filhos", diz. Até os 18 anos, em sua certidão de nascimento constava "pai desconhecido". Chatô só o reconheceu diante da ameaça de o filho ser convocado a lutar na II Guerra Mundial como soldado do Exército francês. Ele é fruto do namoro do empresário com a francesa Jeanne Marguerite, que vivia no Rio mas teve o filho na Europa para se afastar de fofocas. De outras relações do pai vieram os irmãos Fernando, já falecido, e Teresa. "Ele era um sádico, dava ordens que sabia que contrariavam nossas vontades." A decisão do filho de ser diplomata não lhe agradou. Quando o rapaz conseguiu um posto em Paris, onde passou quatro anos, Chatô fez de tudo para transferi-lo para o Equador. Ao lado do pai, Chateaubriand testemunhou eventos como a cerimônia de coroação da rainha Elizabeth II, em 1953, em Londres. Foi ele quem levou, no avião, o colar e o par de brincos que o governo daria à rainha, costurados no forro de seu sobretudo. Na volta, foi obrigado pelo pai a embarcar num navio para trazer 15 toneladas de equipamentos, sem fiscalização, para a TV Tupi.

 

Pai e filho: a caminho da coroação da rainha Elizabeth II, em Londres

Chateaubriand é membro do conselho internacional da Fundação Cartier, em Paris, que tem um dos mais relevantes acervos de arte contemporânea da Europa, e do conselho do Museu de Arte Moderna de Nova York. "É o colecionador com maior influência lá fora que o Brasil já teve", diz o presidente do MAM, João Maurício de Araújo Pinho. "Ele influencia essas instituições na compra de arte brasileira", diz o colecionador e amigo de longa data João Satamini. Chateaubriand faz questão de dizer que começou sua coleção do zero, sem apoio do pai e comprando as obras, no início, com o salário de jovem diplomata. Hoje utiliza os rendimentos de alguns imóveis e de uma fazenda de 360 alqueires que tem no interior de São Paulo. "Tenho um nome milionário, mas nunca o fui", afirma. A fazenda é um dos três bens herdados do pai. Além dela, ele recebeu um terreno no Rio, desapropriado anos mais tarde, e um em São Paulo, que acha "um mico". Herança minguada se considerado o império com mais de setenta veículos, entre jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV, que o grupo Diários chegou a ter. Brigado com os filhos, em 1959 Chatô doou 49% das empresas a 22 empregados. Até hoje o que restou do império é alvo de disputa na Justiça entre Chateaubriand e os condôminos.

 
Alexandre Sant'Anna/Strana

Jean Boghici: amizade de quarenta anos

A coleção vai do modernismo ao contemporâneo. Tudo está lá: Pancetti, Di Cavalcanti, Portinari, Guignard, Vicente do Rego Monteiro, Tarsila do Amaral, Rubens Gerschman, Antonio Dias, Tunga, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes. Basta pensar num artista significativo e, com certeza, há uma obra sua em poder de Chateaubriand. Além do olhar aguçado, ele tem duas outras características marcantes: a sorte e a insistência em barganhar preços. Urutu, a tela comprada por 300 dólares e que hoje vale 2 milhões de dólares, foi encontrada jogada num armário nos fundos de uma galeria, em São Paulo. E paga em três parcelas. Em outra ocasião, também em São Paulo, Chateaubriand refugiou-se numa banca para escapar de um temporal e começou a folhear um jornal. Descobriu que aquele era o último dia de uma exposição de Anita Malfatti. Foi lá e comprou, por uma pechincha, O Farol de Monheagan, hoje considerada uma das obras-primas da artista. Agora os tempos são outros, afirma Chateaubriand. Ao dizer o que considera necessário para alguém se tornar um colecionador como ele, responde rápido: "Primeiro, é preciso tornar-se milionário". Os preços estratosféricos da arte brasileira atualmente espantam o colecionador. "Atualmente é como no futebol. As galerias têm olheiros nas escolas de arte." Mesmo assim, ele não pára de comprar. "Até o que vai ser feito amanhã ele já quer", brinca o marchand Jean Boghici, amigo há quarenta anos.

 
Arthur Cavaliere/Strana

No MAM: Chateaubriand (à dir.) e a cúpula do museu onde estão suas obras

Chateaubriand não gosta de trocar ou vender suas obras, mas em alguns momentos não teve opção. Em 1963, brigado com o pai e sem reservas, desfez-se de um Di Cavalcanti. Três décadas depois, com a mãe doente, vendeu dois Portinari. "Se vendesse o que tenho, poderia ter um castelo na França ou uma fortaleza no Peloponeso, mas prefiro ter quadros", diz. Alguns anos atrás esteve prestes a entrar na posse de um apartamento na Avenida Delfim Moreira. Na hora H, desistiu do negócio. Preferiu comprar novas telas. Há poucos dias precisava adquirir uma caminhonete para escoar a produção de sua fazenda. Em vez disso, comprou mais quadros. Desde os anos 50, vive num espaçoso apartamento no Leblon. Apesar da área generosa – 480 metros quadrados –, as obras de arte se amontoavam por todos os lados até 1993, quando decidiu cedê-las ao MAM em regime de comodato. "O maior inimigo da arte é o egoísmo do colecionador", prega. Além dos quadros, seus prazeres são viajar, ouvir música erudita, beber vinho e fumar charutos cubanos. Bom gourmand, freqüenta desde o Antiquarius, no Leblon, até o Sentaí, atrás da Central do Brasil. Foi lá que nos dois últimos anos reuniu dezenas de artistas plásticos para um tradicional almoço de fim de ano. "Ele tem uma capacidade incrível de comer. Nos almoços do Sentaí, manda vir lagosta sem parar", revela João Satamini, com quem em várias ocasiões já disputou uma boa peça. "Cada um tem o seu museuzinho. Ele tem o MAM, eu tenho o MAC (Museu de Arte Contemporânea de Niterói, que abriga a Coleção Satamini). Então, algumas vezes nos interessamos pelo mesmo trabalho. Às vezes ele chega primeiro e leva. Às vezes quem chega sou eu", conta Satamini.

De aparência sisuda, Chateaubriand é irônico e divertido, porém há situações em que é explosivo. Tem ótima relação com artistas e colecionadores, mas não com todos. Não pode ouvir o nome do advogado Sergio Fadel, dono de uma ampla coleção de arte brasileira do período colonial ao modernismo, sem explodir. "Ele é um invejoso, já quis me expulsar do MAM para colocar a coleção dele lá", diz. "Desconhecemos totalmente a questão. Sempre respeitamos o Gilberto, e sua coleção merece estar no MAM", rebate Marta Fadel, filha do colecionador. Chateaubriand também explode ao pensar na possibilidade de, no futuro, sua coleção ser leiloada. "Reviraria dez mil vezes na cova", afirma. Solteiro e sem herdeiros, Chateaubriand perfilhou, há alguns anos, o atual vice-presidente do MAM, Carlos Alberto Gouvêa. "Temos uma relação de muita confiança", diz o filho adotivo.

O colecionador – que sofre de labirintite e tem um problema de visão – segue pondo sua valiosa chancela em novos talentos. Uma de suas mais recentes aquisições é a roupa-instalação Homem Espelho, do novato Daniel Toledo, 24 anos, aluno da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. A peça é um macacão de lona coberto com centenas de pedacinhos irregulares de espelho que cobre todo o corpo de quem o usa. Toledo, estagiário de produção no MAM, conheceu o colecionador nos corredores do museu. "Fiquei surpreso quando ele marcou uma reunião para conhecer meus trabalhos", conta o artista. Toledo não perdeu a chance. Tocou a campainha do apartamento do Leblon vestido de Homem Espelho. "Ele adorou, morreu de rir, fez um monte de perguntas e comprou a obra", relembra.

Para celebrar os 80 anos do colecionador estão programados coquetéis no MAM, no Parque Lage e um jantar em São Paulo oferecido pela empresária Milú Villela. Ele está feliz. Ou quase. "O que poderia querer da vida eu recebi. Menos uma figura paterna."

 

Uma longa viagem pela arte brasileira

A Coleção Gilberto Chateaubriand, considerada a mais completa de arte brasileira no país, rende constantes exposições no MAM. O acervo está ali, em regime de comodato, desde 1993. Com mais de 6.000 peças, reúne exemplares de todas as correntes artísticas, do modernismo dos anos 20 às produções mais recentes. Só no ano passado, o colecionador adquiriu 240 obras.

 
Fotos Divulgação

Urutu: o quadro pintado por Tarsila em 1928 é uma das estrelas da coleção Marinheiro e Prostituta: o óleo sobre tela leva a assinatura de Lasar Segall e foi pintado em 1929

Peixes, de 1930: uma das doze obras de Di Cavalcanti que Gilberto comprou ao longo de cinco décadas de garimpo Vaso de Flores, de 1930: obra-prima do pernambucano Vicente do Rego Monteiro, de quem Chateaubriand tem várias telas

Auto-retrato de Ismael Nery, de 1930: em óleo sobre papel, é uma das maiores preciosidades do artista Auto-retrato de Carlos Scliar, de 1948: o artista foi um dos maiores amigos do colecionador no mundo das artes

Óleo sobre tela, de Pancetti: datado de 1940, auto-retrato do primeiro artista da coleção de Chateaubriand Guignard, de 1961: este óleo sobre madeira é provavelmente o último auto-retrato feito pelo artista

Festa de Iemanjá, de 1959: uma das três telas de Cândido Portinari do acervo que está no MAM Beatriz Milhazes, de 1993: obra sem título, comprada antes de a artista virar um dos maiores expoentes de sua geração

Zebra, acrílico sobre tela de Cláudio Tozzi: cores intensas e vibrantes, marcas dos anos 70 O Terceiro Cálice, de 1990, de Adriana Varejão: Chateaubriand tem obras da artista desde o início da carreira

Vórtice II, de 1973, de Iberê Camargo: exemplo da pintura inquietante que acompanhou a trajetória do artista Porto Seguro na Vida Não Há, de 1996: tela de Luiz Zerbini, da Geração 80

     
  
   

 

 
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