| |
| |  | |
ESPORTE
Brincando de homem-aranha No le parkour,
o que vale é saltar, escalar, pular – sem se machucar Isabel
Butcher
André Valentim/Strana
 |
| Acrobacias autorizadas: licença municipal para mostrar
aos policiais que atletas não são fugitivos | Como
sabem os que viram o filme, a primeira seqüência de ação
de 007 – Casino Royale (2006) é de tirar o fôlego. Durante
seis minutos, James Bond persegue um sujeito capaz de escalar vigas de ferro e
andaimes, além de saltar de um guindaste para outro como se fosse a coisa
mais fácil do mundo. Ele é o francês Sébastien Foucan,
um dos criadores do le parkour, corruptela de le parcours, o percurso em
português. O esporte nasceu no fim dos anos 80, na França, e seu
objetivo é transpor obstáculos – como pontes, muros, carros, prédios
–, de maneira rápida, sem nenhum equipamento, usando apenas a agilidade
do corpo. No Rio, começou a ganhar adeptos há três anos, quando
o publicitário Julien Sarrazin montou o grupo Tobu – voar em japonês.
"Cerca de 100 pessoas praticam com freqüência o le parkour.
No estado são quase 250", conta Sarrazin. Incentivados pelo interesse dos
cariocas, ele e um grupo de amigos começaram a dar aulas da técnica
na Fundição Progresso. Já têm quarenta alunos. "Grande
parte é de adolescentes, na faixa dos 15 anos", diz o professor, que descobriu
a modalidade navegando na internet e aprendeu de tanto assistir aos vídeos
– o que lhe rendeu várias contusões pelo corpo.
No início, a vida dos atletas cariocas foi difícil. Quando treinavam
na Praça Quinze, sofriam para explicar à polícia que não
estavam fugindo, roubando ou depredando o patrimônio público e urbano.
Por isso caíram do céu as licenças autorizando os esportistas
a praticar em alguns espaços tombados da cidade, como o Aterro do Flamengo
e a Praça Quinze. A idéia de licenciar o Tobu veio da diretora de
projetos da Secretaria Municipal das Culturas, Roberta Alencastro. "O le parkour
interage com o patrimônio e leva vida a essas regiões, o que é
ótimo para a cidade", explica. Mesmo com o aval da prefeitura, os praticantes
já passaram por situações difíceis. Há três
semanas, o grupo gravava à noite na Avenida Chile, no centro, sua participação
em um programa de TV a cabo. De repente surgiram PMs com armas em punho. "Ouvi
uma gritaria e parei. Quando vi, tinha uma arma apontada para mim e outra para
um amigo. Foi um susto daqueles", relembra Tey Lemos.
O le parkour foi criado pelo francês David Belle e por alguns amigos
– entre eles Sébastien Foucan – quando tinham cerca de 14 anos. O pai de
David, Raymond Belle, um francês nascido na Indochina, serviu o Exército
na região e ali desenvolveu técnicas de salvamento e fuga na floresta.
Anos mais tarde, já morando na França, passou seus conhecimentos
para o filho. O esporte ficou popular depois que David apareceu em um comercial
da BBC em 2002. No filme, de pouco mais de um minuto, ele sai do escritório
na hora do rush, foge do engarrafamento escalando e saltando prédios até
chegar a seu apartamento a tempo de assistir ao programa favorito na TV. Um jeito
rápido, mas bastante arriscado, de voltar para casa. |